Lira XVII

By Tomás Antônio Gonzaga

Minha Marília,

Tu enfadada?

Que mão ousada

Perturbar pode

A paz sagrada

Do peito teu?

Porém que muito

Que irado esteja

O teu semblante!

Também troveja

O claro Céu.

Eu sei, Marília,

Que outra Pastora

A toda hora,

Em toda a parte

Cega namora

Ao teu Pastor.

Há sempre fumo

Aonde há fogo:

Assim, Marília,

Há zelos, logo

Que existe amor.

Olha, Marília,

Na fonte pura

A tua alvura,

A tua boca,

E a compostura

Das mais feições.

Quem tem teu rosto

Ah! não receia

Que terno amante

Solte a cadeia,

Quebre os grilhões.

Não anda Laura

Nestas campinas

Sem as boninas

No seu cabelo,

Sem peles finas

No seu jubão.

Porém que importa?

O rico asseio

Não dá, Marília,

Ao rosto feio

A perfeição.

Quando apareces

Na madrugada,

Mal embrulhada

Na larga roupa,

E desgrenhada

Sem fita, ou flor;

Ah! que então brilha

A natureza!

Então se mostra

Tua beleza

Inda maior.

O Céu formoso,

Quando alumia

O Sol de dia,

Ou estrelado

No noite fria,

Parece bem.

Também tem graça

Quando amanhece;

Até, Marília,

Quando anoitece

Também a tem.

Que tens, Marília,

Que ela suspire!

Que ela delire!

Que corra os vales!

Que os montes gire

Louca de amor!

Ela é que sente

Esta desdita,

E na repulsa

Mais se acredita

O teu Pastor.

Quando há, Marília,

Alguma festa

Lá na floresta,

(Fala a verdade)

dança com esta

o bom Dirceu?

E se ela o busca,

Vendo buscar-se

Não se levanta,

Não vai sentar-se

Ao lado teu?

Quando um por outro

Na rua passa,

Se ela diz graça,

Ou muda o gesto,

Esta negaça

Faz-lhe impressão?

Se está fronteira,

E brandamente

Lhe fita os olhos,

Não põe prudente

Os seus no chão?

Deixa o ciúme,

Que te desvela:

Marília bela,

Nunca receies

Dano daquela

Que igual não for.

Que mais desejas?

Tens lindo aspecto;

Dirceu se alenta

De puro afeto,

E pundonor.