Lira XVIII

By Tomás Antônio Gonzaga

Não vês aquele velho respeitável

Que à muleta encostado

Apenas mal se move, e mal se arrasta?

Oh! quanto estrago não lhe fez o tempo!

O tempo arrebatado,

Que o mesmo bronze gasta.

Enrugaram-se as faces, e perderam

Seus olhos a viveza;

Voltou-se o seu cabelo em branca neve:

Já lhe treme a cabeça, a mão, o queixo,

Não tem uma beleza

Das belezas, que teve.

Assim também serei, minha Marília,

Daqui a poucos anos;

Que o ímpio tempo para todos corre.

Os dentes cairão, e os meus cabelos,

Ah! sentirei os danos,

Que evita só quem morre.

Mas sempre passarei uma velhice

Muito menos penosa.

Não trarei a muleta carregada:

Descansarei o já vergado corpo

Na tua mão piedosa,

Na tua mão nevada.

Nas frias tardes, em que negra nuvem

Os chuveiros não lance,

Irei contigo ao prado florescente:

Aqui me buscarás um sítio ameno;

Onde os membros descanse,

E o brando sol me aquente.

Apenas me sentar, então movendo

Os olhos por aquela

Vistosa parte, que ficar fronteira;

Apontando direi: “Ali falamos,

“Ali, ó minha bela,

“Te vi a vez primeira.”

Verterão os meus olhos duas fontes,

Nascidas de alegria:

Farão teus olhos ternos outro tanto:

Então darei, Marília, frios beijos

Na mão formosa, e pia,

Que me limpar o pranto.

Assim irá, Marília, docemente

Meu corpo suportando

Do tempo desumano a dura guerra.

Contente morrerei, por ser Marília

Quem sentida chorando

Meus braços olhos cerra.