Lira XXIV

By Tomás Antônio Gonzaga

Encheu, minha Marília, o grande Jove

De imensos animais de toda a espécie

As terras, mais os ares,

O grande espaço dos salobros, rios,

Dos negros, fundos mares,

Para sua defesa,

A todos deu as armas, que convinha

A sábia natureza.

Deu as asas aos pássaros ligeiros,

Deu ao peixe escamoso as barbatanas;

Deu veneno à serpente,

Ao membrudo elefante a enorme tromba,

E ao javali o dente.

Coube ao leão a garra;

Com leve pé saltando o cervo foge;

E o bravo touro marra.

Ao homem deu as armas do discurso,

Que valem muito mais que as outras armas;

Deu-lhe dedos ligeiros,

Que podem converter em seu serviço

Os ferros, e os madeiros;

Que tecem fortes laços,

E forjam raios, com que aos brutos cortam

Os voos, mais os passos.

Às tímidas donzelas pertenceram

Outras armas, que têm dobrada força,

Deu-lhes a Natureza

Além do entendimento, além dos braços

As armas da beleza.

Só ela ao Céu se atreve;

Só ela mudar pode o gelo em fogo,

Mudar o fogo em neve.

Eu vejo, eu vejo ser a formosura,

Quem arrancou da mão de Coriolano

A cortadora espada.

Vejo que foi de Helena o lindo rosto,

Quem pôs em campo armada

Toda a força da Grécia.

E quem tirou o cetro aos reis de Roma?

Só foi, só foi Lucrécia.

Se podem lindos rostos, mal suspiram,

O braço desarmar do mesmo Aquiles;

Se estes rostos irados

Podem soprar o fogo da discórdia

Em povos aliados;

És árbitra da terra:

Tu podes dar, Marília, a todo o mundo

A paz, e a dura guerra.