Lira XXIX

By Tomás Antônio Gonzaga

O tirano Amor risonho

Me aparece e me convida

Para que seu jugo aceite;

E quer que eu passe em deleite

O resto da triste vida.

“O sonoro Anacreonte

(Astuto o moço dizia)

“Já perto da morte estava,

“Inda de amores cantava;

“Por isso alegre vivia.

“Aos negros, duros pesares

“Não resiste um peito fraco

“Se o amor o não fortalece:

“O mesmo Jove carece

“De Cupido, e mais de Baco.”

Eu lhe respondo: “Perjuro,

“Nada creio do que dizes;

“Porque já te fui sujeito,

“Inda conservo no peito

“Estas frescas cicatrizes.

“Se o mundo conhece males,

“Tu os maiores fizeste,

“Sim, tu a Troia queimaste,

“Tu a Cartago abrasaste,

“E tu a Antônio perdeste.”

Amor, vendo que da oferta

Algum apreço não faço,

Me diz afoito que trate

De ir com ele a combate

Peito a peito, braço a braço.

Vou buscar as minhas armas;

Cinjo primeiro que tudo

O brilhante arnês, e à pressa

Ponho um elmo na cabeça,

Tomo a lança, e o grosso escudo.

Mal no campo me apresento,

Marília (oh Céus!) me aparece:

Logo que os olhos me fita,

O meu coração palpita,

A minha mão desfalece.

Então me diz o tirano:

“Confessa, louco, o teu erro;

“Contra as armas da beleza

“Não vale a externa defesa

“Dessa armadura de ferro.”