Lira XXV

By Tomás Antônio Gonzaga

O cego Cupido um dia

Com os seus Gênios falava

Do modo, que lhe restava

De cativar a Dirceu.

Depois de larga disputa,

Um dos Gênios mais sagazes

Este conselho lhe deu:

As setas mais aguçadas,

Como se em rocha batessem,

Dão no peito seu, e descem

Todas quebradas ao chão.

Só as graças de Marília

Podem vencer um tão duro,

Tão isento coração.

A fortuna desta empresa

Consiste em armar-se o laço,

Sem que sinta ser o braço,

Que lho prepara, de Amor:

Que ele vive como as aves,

Que já deixaram as penas

No visco do caçador.

Na força deste conselho

O raivoso Deus sossega,

E à tropa a honra entrega

De o fazer executar.

Todos pretendem ganhá-la;

Batem as asas ligeiros,

E vão as armas buscar.

Os primeiros se ocultaram

Da Deusa nos olhos belos:

Qual se enlaçou nos cabelos,

Qual às faces se prendeu.

Um amorinho cansado

Caiu dos lábios ao seio,

E nos peitos se escondeu.

Outro Gênio mais astuto

Este novo ardil alcança,

Muda-se numa criança

De divino parecer.

Esconde as asas, e a venda;

Esconde as setas, e quanto

Pode dá-lo a conhecer.

Ela que vê um menino

Todo de graças coberto,

Tão risonho, e tão esperto

Ali sozinho brincar,

A ele endireita os passos;

Finge Amor ter medo, e a Deusa

Mais que empenha em lhe pegar.

Ela corria chamando;

Ele fugia, e chorava:

Assim foram onde estava

O descuidado Pastor.

Este, mal viu a beleza,

E o gentil menino, entende

A malícia do traidor.

Põe as mãos sobre os ouvidos,

Cerra os olhos, e constante

Não quer ver o seu semblante,

Não o quer ouvir falar.

Qual Ulisses noutra idade

Para iludir as Sereias

Mandou tambores tocar.

Cupido, que a empresa via,

Julga o intento frustrado,

E de raiva transportado

O corpo no chão lançou.

Traçou a língua nos dentes;

Meteu as unhas no rosto,

E os cabelos arrancou.

O Gênio, que se escondia

Entre os peitos da Pastora,

Ergueu a cabeça fora,

E o sucesso conheceu.

Deixa o sossego em que estava,

E vai ligeiro meter-se

No peito do bom Dirceu.

Apenas do brando peito

Lhe tocou a neve fria,

Com o calor, que trazia,

Lhe abrasou o coração.

Dá o Pastor um suspiro,

Abre os seus olhos, e solta

Do apertado ouvido a mão.

Logo que viram os Gênios

Ao triste Pastor disposto

Para ver o lindo rosto,

Para as palavras ouvir,

Cada um as armas toma,

Cada um com elas busca

Seu terno peito ferir.

Com os cabelos da Deusa

Lhe forma um Cupido laços,

Que lhe seguram os braços,

Como se fossem grilhões.

O Pastor já não resiste;

Antes beija satisfeito

As suas doces prisões.