Lira XXXII

By Tomás Antônio Gonzaga

Numa noite sossegado

Velhos papéis revolvia,

E por ver de que tratavam

Um por um a todos lia.

Eram cópias emendadas,

De quantos versos melhores

Eu compus na tenra idade

A meus diversos amores.

Aqui leio justas queixas

Contra a ventura formadas,

Leio excessos mal aceitos,

Doces promessas quebradas.

Vendo sem-razões tamanhas

Eu exclamo transportado:

“Que finezas tão malfeitas!

“Que tempo tão mal passado!”

Junto pois num grande monte

Os soltos papéis, e logo,

Porque relíquias não fiquem,

Os intento pôr no fogo.

Então vejo que o Deus cego

Com semblante carregado

Assim me fala, e crimina

O meu intento acertado:

“Queres queimar esses versos?

“Dize, Pastor atrevido,

“Essas Liras não te foram

“Inspiradas por Cupido?

“Achas que de tais amores

“Não deve existir memória?

“Sepultando esses triunfos,

“Não roubas a minha glória?”

Disse Amor; e mal se cala,

Nos seus ombros a mão pondo,

Com um semblante sereno

Assim à queixa respondo:

“Depois, Amor, de me dares

“A minha Marília bela,

“Devo guardar umas liras,

“Que não são em honra dela?

“E que importa, Amor, que importa,

“Que a estes papéis destrua;

“Se é tua esta mão, que os rasga,

“Se a chama, que os queima, é tua?”

Apenas Amor me escuta

Manda que os lance nas brasas;

E ergue a chama c’o vento,

Que formou batendo as asas.