Lira XXXIV

By Tomás Antônio Gonzaga

Vou-me, ó Bela, deitar na dura cama,

De que nem sequer sou o pobre dono:

Estende sobre mim Morfeu as asas,

E vem ligeiro o sono.

Os sonhos, que rodeiam a tarimba,

Mil coisas vão pintar na minha ideia;

Não pintam cadafalsos, não, não pintam

Nenhuma imagem feia.

Pintam que estou bordando um teu vestido;

Que um menino com asas, cego, e louro,

Me enfia nas agulhas o delgado,

O brando fio de ouro.

Pintam que entrando vou na grande Igreja;

Pintam que as mãos nos damos, e aqui vejo

Subir-te à branca face a cor mimosa,

A viva cor do pejo.

Pintam que nos conduz dourada sege

À nossa habitação; que mil Amores

Desfolham sobre o leito as moles folhas

Das mais cheirosas flores.

Pintam que desta terra nos partimos;

Que os amigos saudosos, e suspensos

Apertam nos inchados, roxos olhos

Os já molhados lenços.

Pintam que os mares sulco da Bahia;

Onde passei a flor da minha idade;

Que descubro as palmeiras, e em dois bairros

Partidas a grã Cidade.

Pintam leve escaler, e que na prancha

O braço já te of’reço reverente;

Que te aponta c’o dedo, mal te avista,

Amontoada gente.

Aqui, alerta, grita o mau soldado;

E o outro, alerta estou, lhe diz gritando:

Acordo com a bulha, então conheço,

Que estava aqui sonhando.

Se o meu crime não fosse só de amores,

A ver-me delinquente, réu de morte,

Não sonhara, Marília, só contigo,

Sonhara de outra sorte.