Lira XXXV

By Tomás Antônio Gonzaga

Se lá te chegarem

Aos ternos ouvidos

Uns tristes gemidos,

Repara, Marília,

Verás, que são meus.

Ah! dá-lhes abrigo,

Marília, nos peitos;

Aqui os conserva

Em laços estreitos,

Unidos aos teus.

O vento ligeiro,

De ouvi-los movido,

Os pede a Cupido,

Que a todos apanha,

E lá tos vai pôr.

Ah! não os desprezes,

Porque se conspira

O Céu em meu dano,

E a glória me tira

De honrado Pastor.

Têm suspiros

Motivo dobrado;

Perdi o meu gado;

Perdi, que mais vale,

O bem de te ver.

Se os não receberes,

Amante por ora,

Por serem de um triste,

Os deves, Pastora,

Por honra acolher.

Virá, minha Bela,

Virá uma idade,

Que, vista a verdade,

Gostosa me entregues

O teu coração.

Os crimes desonram,

Se são existentes;

Os ferros, que oprimem

As mãos inocentes,

Infames não são.

Chegando este dia,

Os braços daremos:

Então mandaremos

De gosto, e ternura

Suspiros aos Céus.

Por-me-ão no sepulcro

A honrosa inscrição:

Se teve delito,

Só foi a paixão,

Que a todos faz réus.