Lira XXXVII

By Tomás Antônio Gonzaga

Meu sonoro Passarinho,

Se sabes do meu tormento,

E buscas dar-me, cantando,

Um doce contentamento,

Ah! não cantes, mais não cantes,

Se me queres ser propício;

Eu te dou em que me faças

Muito maior benefício.

Ergue o corpo, os ares rompe,

Procura o Porto da Estrela,

Sobe à serra, e se cansares,

Descansa num tronco dela,

Toma de Minas a estrada,

Na Igreja nova, que fica

Ao direito lado, e segue

Sempre firme a Vila Rica.

Entra nesta grande terra,

Passa uma formosa ponte,

Passa a segunda, a terceira

Tem um palácio defronte.

Ele tem ao pé da porta

Uma rasgada janela,

É da sala, aonde assiste

A minha Marília bela.

Para bem a conheceres,

Eu te dou os sinais todos

Do seu gesto, do seu talhe,

Das suas feições, e modos.

O seu semblante é redondo,

Sobrancelhas arqueadas,

Negros e finos cabelos,

Carnes de neve formadas.

A boca risonha, e breve,

Suas faces cor-de-rosa,

Numa palavra, a que vires

Entre todas mais formosa.

Chega então ao seu ouvido,

Dize, que sou quem te mando,

Que vivo nesta masmorra,

Mas sem alívio penando.