LIVRO I

By Francisco de Sá de Meneses

Eu, que em males, e grave sentimento

Seguia uma esperança, que voava,

E, por tomar em minha pena alento,

Os agravos, que ordena amor, cantava;

Agora levantando o pensamento

Aos ecos da alta tuba, que incitava

Os Portugueses peitos generosos

Aos empregos do mundo mais famosos;

As Armas canto, e o grande Cavaleiro,

Que ao vento velas deu na ocídua parte,

E lá, onde infante o Sol dá luz primeiro,

Fixou das Quinas santas o Estendarte.

E com afronta do infernal guerreiro,

(Mercê do Céu) ganhou por força, e arte

O áureo Reino, e trocou com pio exemplo

A profana mesquita em sacro templo.

Tu, conselheira desde a eternidade,

Musa no Céu, e terra venerada,

Dize-me o que escurece a antiga idade,

E se obrou na região mais apartada:

Tu foste sem princípio imensidade,

Antes do tempo, e séculos gerada,

Com Deus obreira no princípio rudo,

E partícipe em tudo sabes tudo.

E vós, da nossa idade alta esperança,

Tão esperado Alcides Lusitano,

Para quem guarda o Céu a alta vingança

Com maiores ações, que as do Tebano,

Vibrando a espada, ou já brandindo a lança,

Vestindo o arnês que vos forjou Vulcano,

Do Português valor ouvi o preço

No canto, que em primícias vos ofereço;

Que as façanhas, que a fama em bronzes cava,

Geram nos fortes peitos mais valia.

Lendo Alexandre a Homero descansava

Dos trabalhos, em que passara o dia:

E, se a dita de Aquiles invejava,

No valor imitá-lo pertendia.

Porém, se os feitos Portugueses lera,

Mais que imitar, mais que invejar tivera.

O tempo chega, Afonso, em que a santa

Sião terá por vós a liberdade,

A Monarquia, que hoje o Céu levanta,

Devoto consagrando à eternidade.

Ó bem nascida generosa planta,

Que em flor fruto há de dar à Cristandade,

E materia a mil cisnes, que, cantando

De vós, se irão convosco eternizando.

De Cristo a injusta morte vingou Tito

Na de Jerusalém total ruína:

E a vós, a quem Deus deu um peito invito,

Ser vingador de sua Fé destina.

Extinguir do Agareno o falso rito.

É de vosso valor a empresa dina:

Tomai pois o bastão da empresa grande,

Para o tempo que o Céu marchar vos mande.

E vós, ó ramos das heroicas plantas,

Que floresceram, derramando glórias

Por todo Orbe, e contra invejas tantas

Triunfam do tempo, e morte suas memórias;

Atentos contemplai as ações santas,

Assuntos imortais de altas histórias;

E de tantas virtudes invejosos

Imitadores vos fazei famosos.

Onze vezes o Sol, pela alta espira

Correndo, à Boreal meta chegara,

E outras tantas de lá veloz partira,

E a dar luz às Austrais regiões tornara,

Depois que a Lusa gente o Ganges vira,

E as prais Indianas conquistara,

Senhoreando os mares donde a Aurora,

Por lágrimas fatais, pérolas chora.

Naquele feliz tempo exercitava

Afonso de Albuquerque o Real governo

Daquele novo Império, que exaltava

O movedor das causas sempiterno:

O digno Herói, que obrando se isentava

Do escuro Letes, e do negro Averno,

Sustentava igualmente vigilante

O grão peso, novo Argos, novo Atlante.

Já tinha à rica Ormuz o jugo posto

Depois de larga, e perigosa guerra,

E, contra adversidades firme o rosto,

Ganhado Goa na Indiana terra:

Nela Reino fundou, em contraposto

Às Nações feras, que o Oriente encerra,

Donde as infernais Seitas desterrando,

Se foi a Lei da Graça dilatando.

E como a novas glórias aspirava,

Levado de um ilustre pensamento,

Romper querendo o Erítreo, achava

Contra si irado o mar, contrário o vento:

Com a dor grande, que a alma lhe ocupava,

De não poder lograr o heroico intento,

Tornara a ver a terra, e pôr a proa

Por onde entra Nereu a abraçar Goa.

Logo a náutica turba diligente

Amaina, larga escotas, toma o pano;

Fere, e altera o mar o férreo dente,

E, mordendo na areia, atalha o dano:

Dos côncavos metais o estrondo ardente

Atroa, e enluta o fumo o mar Indiano;

Passada a nuvem, surta a forte Armada,

Os ares borda toda embandeirada.

Gasta Albuquerque o dia, flutuando

Com vários pensamentos os sentidos,

Admitindo confuso, e reprovando

Uns pareceres de outros produzidos.

Os ventos, e monção considerando,

Prática gente, lenhos bem providos,

Famosa empresa conseguir deseja;

Mas em muitas duvida qual eleja.

Qual combatido de contrários ventos

Alto pinho, já aqui, já ali se inclina,

Segundo o vence a força dos violentos

Impulsos, que procuram sua ruína:

Assi o vário ocorrer dos pensamentos,

Dos futuros sucessos, que imagina,

Causa que a mais de um parecer se incline,

E de todo em nenhum se determine.

De Clície o amante dando fim ao dia,

Já pelas portas do Ocidente entrava,

E o cargo de alumiar a noite fria,

Entretanto à triforme irmã deixava:

Enquanto ela seus raios estendia,

E no cerúleo mar os prateava,

Porque era então a superfície pura

Espelho de celeste formosura.

As horas do descanso dispendendo

Nos confusos discursos, não sossega;

Até que junto da Alva o foi rendendo

A mesma causa, que ó repouso nega:

Resistir branda força não podendo,

De um leve sono, que suave chega;

Os desvelados olhos se entregaram

À sabrosa prisão, que desejaram.

Enquanto sofrem tréguas seus cuidados,

Quais soem vencedores vir da guerra,

Marchar em ordem vê fortes soldados,

Seguindo a insígnia, que a infernal desterra:

De branco, e roxo ricamente armados,

Co a púrpura vital regando a terra,

Causa no peito de Albuquerque espanto

O esquadrão belo, que julgou por santo.

Quem eram, e a que vinham desejava

Perguntar, elevado no que via;

Mas o sono, que então senhoreava

Os sentidos, a língua lhe prendia:

Como por desatá-la em vão cansava,

Na falta dela os braços estendia;

Ansioso trabalha, e juntamente

Compaixão dentro n’alma, e glória sente.

Em confusão tão alta, Ó Varão forte

(Lhe disse um dos etéreos cavaleiros)

Os que presentes vês, da lei da morte

Livres já, os bens gozamos verdadeiros:

Fomos dos escolhidos, a quem a sorte

Tocou ser de Sequeira companheiros:

As vidas nos tirou Malaca fera,

Por ti vingança nosso sangue espera.

Tu à do bárbaro Rei dura impiedade

Darás fim, e princípio venturoso

A santo Império, e Cristã piedade

Nesse extremo do mundo tão famoso

E a ruína fatal da áurea Cidade,

Um exemplo depois será glorioso,

De todos respeitado; e o fero imigo,

A que razão faltar, tema o castigo.

Eis de teu valor grande a digna empresa,

Em que te está aguardando eterna glória,

E Céu o quer, que teu bom zelo presa,

E por nós te promete alta vitória:

Dos ventos a mudança, e sua braveza

Obra é divina: acorda, e na memória

Estampa o que no Céu está ordenado,

E por obra há de pôr teu peito ousado.

Disse, e desapareceu o bando eleito,

Restituindo ao ar a forma leve.

Acordando Albuquerque cheio o peito

Dos sentimentos, que no sono teve,

Deixa o náutico logo encosto estreito,

E no mais firme da lembrança escreve

A divina visão; e o efeito espera,

Que ser ordem divina considera.

Representando-lhe está o pensamento

O modo, em que estilando sangue os vira,

Acrescentando mais o sentimento,

Que contra os homicidas move a ira:

Por dar efeito ao soberano intento,

Que o Céu lhe destinava, já suspira,

E ao Celeste esquadrão, que lho predisse,

Com afectos piedosos assi disse:

Prometo seguir, almas venturosas,

Essa, que me mostrais, alta esperança;

Entrarei nas empresas duvidosas,

Com vossa bem fundada segurança:

E das mortes cruéis, bem que ditosas,

Darei ao justo Céu justa vingança,

Inda que, pois em Deus para o desejo,

Morrer como morrestes, vos invejo.

Gozai do Sol Divino o eterno dia

Na Divina Sião eternamente;

E alcançai que nos dê tão certa guia,

Como a seu povo na Coluna ardente.

Assi dizendo, a Aurora bela abria

As rubicundas portas do Oriente,

O fresco orvalho as conchas recebiam,

E as pérolas presadas concebiam.

Logo Febo, espalhando resplandores,

Presta raios as ondas do Oceano,

Dourando os montes, alegrando as flores,

Que acha ofendidas no noturno dano.

Chama Albuquerque invicto aos vencedores

Capitães a conselho, e com humano

Aspeito os recebeu, como quem sabe

Quanto a brandura no mandar acabe.

Os Varões invencíveis ocupando

Os assentos pela ordem costumada,

O insigne Capitão assi falando

Começou com voz grave, e sossegada:

Ousados companheiros, que ganhando

Ides eterna fama pela espada,

Novas terras buscando, o mar abrindo,

A vosso Deus, e a vosso Rei servindo:

Quando o mar Eritreu abrir quisemos,

Que deu passo a Israel, daqui partimos;

Favorável o vento então tivemos,

Que depois contra nós irado vimos:

E como resisti-lo não pudemos,

Tornamos ao lugar, donde saímos,

Sem dúvida para outra empresa dina,

Que causa superior nos determina.

Desta Armada temida a fortaleza

Será vã, se no porto a recolhemos:

Estorvou-nos o tempo aquela empresa,

Mas conseguir co mesmo outra podemos.

Não será bem que, postos na estreiteza

Deste rio, sem fruto mal logremos

Os dias em delícias ociosos,

Podendo conseguir feitos famosos.

O que, fortes Varões, me parecia,

(E no caso será mais acertado)

É que vamos romper (pois Deus nos guia)

Da grão Malaca o Bósforo dourado:

Tudo, o que vê melhor nascendo o dia,

Com fama eterna lá vos tem guardado:

Eu o proponho, e peço ao valor vosso

Que esta glória se ajunte ao nome nosso.

Obrigue-vos também a liberdade

Dos parentes, e amigos lá cativos,

Se do Malaio a bárbara impiedade

Inda os sustenta em tantos males vivos:

E aos que a fera traição roubou a idade,

Sereis do Céu Ministros vingativos,

Deixando a infiel Cidade castigada,

Só por sua ruína eternizada.

Junta da Alva (ah suavíssima lembrança!)

Os vi do modo, que inda agora os pinto,

(Ou sonho, ou visão fosse) na bonança

Eterna, livres deste labirinto:

Zelosos se mostraram da vingança,

Cada qual da vital púrpura tinto;

E da parte do Céu, que mereceram,

Isto, que vos proponho, propuseram.

Entre o forte, e prudente ajuntamento,

Logo rouco murmuro se levanta,

Como quando entre o bosque brando vento

Maneia as folhas de uma, e de outra planta.

Discorre cada qual no entendimento

A grande empresa de importância tanta:

Trás o discurso foram respondendo,

Por ordem razões dando, e recebendo.

Ouve contradições, que alguns temeram

Navegação não vista, e perigosa;

De que maiores medos se disseram,

Que de Cila, ou Caríbdis espantosa:

Mas trás largo altercar, se revolveram

Em cometer a empresa duvidosa:

E oferecendo aos Céus o heroico intento,

Dar manda o Capitão velas ao vento.

Em bem composta esquadra a naval tropa

Segue pela marítima campanha,

Da grande Capitânia a excelsa popa,

Que assombrado Nereu humilde banha:

Quais de África passando à ilustre Europa

Os grous deixando a pátria pela estranha,

Em ordem seguem pela aérea estrada,

Seu Capitão em ala concertada.

Posta a proa no Austro, dividia

Alegre as crespas ondas; respirava

O sopro Boreal, que a neve fria

Nos montes de Tartária congelava;

E de Maldiva o mar, que entre ilhas cria

Salutífero antídoto, deixava

Para o ponente, e as ilhas, que florescem

Cos despojos, que as palmas oferecem.

Eis já ao Setentrião Onor lhe fica,

E Bracelor armígera, e possante,

Com Mangalor de cardamomo rica,

De pródigos palmares abundante:

A fértil Mangalor, que mais se aplica

À cultura, que à guerra, ao Levante,

Com outros grandes povos, e outras gentes

Ao Rei de Bisnaga obedientes.

Do Canará já atrás deixando a costa,

Correm a do Malavar Reino de Marte,

Do Gate vendo a altura descomposta,

Com quem amigo o Céu tanto reparto.

Nela a abundância reina no alto posta,

Que ao cultor o trabalho escusa, e arte,

Por ser erário rico dos haveres

Da formosa Pomona, e flava Ceres.

Entre o Decão e Canará cortando,

Vai dispendendo rios caudalosos,

Que com seu cristal puro vão regando,

E enriquecendo os campos espaçosos:

Com as mais altas nuvens vizinhando,

E às vezes cos planetas luminosos,

Acaba donde, em mais estreita forma,

Do Comorim o promontório forma.

Assombra a Armada ao Malavar robusto,

Do nome Lusitano fero imigo;

Mas sua contumácia, e ódio injusto,

Muitas vezes tem visto em si o castigo:

Toca arma em Calicute o povo adusto,

(Que atalha a prevenção qualquer perigo)

As Quinas santas no Estandarte vendo,

De Albuquerque os desenhos não sabendo.

À vista de Cochim velas tomaram

Os nautas destramente cuidadosos,

E ao mar as firmes âncoras deitaram

Ao som dos instrumentos belicosos:

A terra juntamente saudaram

Com estrondo, e bramidos espantosos

Dos côncavos metais, arruinadores,

Dos raios do Tonante imitadores.

A gente corre, e só deixa a Cidade,

Que desejando ver cobre as ribeiras,

Os olhos alegrando a variedade

De flâmulas, pendões, e das bandeiras.

Nambeoderá seu Rei, que de amizade

Procurava dar mostras verdadeiras,

Logo refrescos manda à Lusa gente,

E ao Capitão magnífico presente.

A este tempo o que foi pastor de Admeto,

Ao trabalho diurno já fim dava,

E o povo, pelas praças inquieto,

Ao noturno repouso se tornava:

Na Armada a Lusa gente ao quieto,

E desejado sono se entregava

De modo, que na terra, e no mar tudo,

Obediente ao silêncio, estava mudo.

Tem repartido a suma Providência

O cuidado da guarda dos humanos

Pelas legiões Celestes, que à inclemência

Se oponham dos espíritos profanos:

Arma-se o Inferno em dura competência,

E ministros reparte, antes tiranos,

Que ocupam inquietando o mar, e a terra,

E contra intentos santos movem guerra.

Asmodeu, que do amigo de Tobias,

Da casa de Raquel fora deitado,

Era o tirano então das vãs latrias,

De quantos vem primeiro o Sol dourado:

Em brutas formas, e com leis impias,

Do Indo até o Japão idolatrado,

Templo insigne os Pegus lhe edificaram,

Deus de toda a grandeza o intitularam.

Já noutras partes ao Senhor imenso

Cuidou fazer-se igual, e templos teve,

Em falsa adoração, ardido incenso,

Roubando a glória, que só a Deus se deve.

De brutos, ainda de homens quause censo,

Que unido ao ódio seu grão tempo esteve,

Vítimas lhe oferecem vários povos,

E com ídolos mil títulos novos.

Chamaram-lhe Belial os Ninivitas;

Babilônial Baal, e Aqueronto;

Os Filisteus Dagon; e os Moabitas

Belfegor, nume infame de Helesponto:

Por Baco, por Beemôt, por infinitas,

Sortes de nomes vãos, que não tem conto,

Foi na terra adorado em toda a parte,

E de Israel por Baal, Camos, e Astarte.

E como na alta popa, e nas bandeiras

Por guia, e padroeiro já levaram

O divino Custódio as naus primeiras,

Que abrir com Gama o mar não visto ousaram,

E via que nas Índicas ribeiras

Os mais potentes povos se humilharam

Às forças de Albuquerque, que potente

A triunfar ia do último Oriente:

Perder a Monarquia receava,

Em que o fero Lusbel instituíra,

Se Albuquerque o Malaio mar sulcava;

E do peito veneno, e raiva espira.

Seguindo a Armada Ocidental bramava,

Os ares corrompendo a infernal ira,

Entra em Cochim no tálamo secreto,

Aonde Nambeoderá dorme quieto.

E como, quando Noto se desata,

Quebrantando de Eolo a prisão dura,

Que turba o mar traquilo, e arrebata

Montes de água, que leva à região pura;

Tal ao bárbaro Rei a fúria trata

Do infausto habitador da treva escura,

Turbando-lhe os sentidos sossegados

Com ondas inquietas de cuidados.

Tomando a forma do defundo Oristes,

Que dos vãos Deuses Sacerdote fora,

Se lhe apresenta, e com afeitos tristes

Infausto geme, e todo horrível chora.

Dormes, lhe disse, quando mal resistes

Males, que esperar podes de hora em hora,

Que ameaçando-te estão ruína certa,

Pois fica ao Camorim a porta aberta.

Albuquerque em teu dano, e seu se ausenta;

Nova conquista em região remota

(Deixando tudo aventurado) intenta,

De inquieto, e de vário dando nota.

Não disse mais; se bem lhe representa

Mil trágicos sucessos, que o Rei nota;

E já desperto teme, e lhe parece

Ver o que teme: tanto o temor cresce!

Não lhe sossega o coração no peito,

Do veneno infernal, e temor cheio;

Tanto ao suberbo ingrato está sujeito,

Que até dos pensamentos tem receio;

Deixa enfim desvelado o brando leito,

Considerando um meio, e outro meio,

Com que possa estorvar sonhados danos,

Divertindo os intentos Lusitanos.

Respeita o Capitão: para impedi-lo

Considera que usar convém de manha,

E a que não aventure, persuadi-lo,

A própria terra, por ganhar à estranha.

Nota Asmodeu que é em vão o dissuadi-lo:

Ira do ardente peito desentranha,

Vendo que, quando mais ao Rei altera,

Nada contra Albuquerque dele espera.

Desesperado o deixa, e busca logo

A Audelá rico mouro Guzarate,

E Malaca lhe mostra, a sangue, e fogo

Entrada por aspérrimo combate:

Mostra-lhe o Luso vencedor, que rogo

Não admite, e que tudo fero abate.

Gritando acorda, e tanto era o tormento,

Que acordado o não deixa o sentimento.

Servia de Malaca ao Rei, que grato

A dignidade honrosa o levantara

Com ilustre, e magnífico aparato,

Ao do Cochim Embaixador chegara.

Obrando ia o veneno, com que o ingrato

Rebelde o coração lhe penetrara:

Crédito ao sonho dá; e temeroso

Deixa o repouso, e se levanta iroso.

Vários discursos faz; e sem sossego

Cada momento mais se persuade

Que a Armada Cristã vá fazer emprego

Na que em sonho arder viu áurea cidade.

Esta imaginação o instiga cego,

E lhe move os afeitos da vontade

A tratar, como por engano, e força,

Do grande intento ao grande Afonso torça.

Enquanto espera pela luz Febeia,

Remédio cuida, traças imagina;

Já tudo facilita, já receia;

E em nada seu furor se determina.

Mas a fúria infernal, que o senhoreia,

A que se ponha fogo à Armada o inclina;

E companheiros, para quanto intenta,

Nos Mouros de Cochim lhe representa.

Entre muitos lhe traz dous à lembrança,

Em riqueza, e família poderosos,

Quirinos e Malale, que a privança

Do Rei fez atrevidos, e orgulhosos:

Busca-os no escuro horror; que não descansa,

Nem lhe dão paz cuidados temerosos,

E neles não achou menos cuidados,

Também já da infernal fúria incitados.

Tinham trato em Malaca, e receavam

Sobre ela fosse a Portuguesa Armada;

Que já as línguas da fama exageravam

Em Cochim a traição abominada:

E como imensa a perda imaginavam

Por Albuquerque à grão cidade entrada,

Às primeiras razões se persuadiram,

Uniformes contra ele se conspiram.

Tempo não perdem; porque avisam logo

Amigos, e parentes: e fizeram

Que uns por próprio interesse, outros por rogo,

Aos transes do perigo se atreveram.

Ordenaram sutis modos de fogo,

Que aos autores Germanos excederam;

Porque, imitando de Vulcano a frágua,

Começa brando, e se embravece na água.

Este artifício um morador do Averno

A Abraém, grande mágico, o mostrara,

Que com raiva mortal, com ódio interno,

Em dano dos humanos inventara.

Audelá co furor, que incita o Inferno,

Para o caso sutis lenho prepara,

Que hão de ter do importante apercebidos

Os Mouros mais valentes, e atrevidos.

Em tanto o Rei confuso, e desvelado

Pela Aurora esperava clara, e pura;

Mas já que novas deu do Sol dourado,

Mais se inquieta, menos se assegura:

Dos melhores do Reino acompanhado

O Capitão sublime ver procura,

Que alegre a bordo chega a recebê-lo,

E sobe a Portuguesa gente a velo.

Afonso ao modo militar vestido,

Que inda, apesar da idade, o faz galante,

De fina grã com ouro guarnecido

O pelote de rocas roçagante:

Calças do mesmo a espaços com franzido,

Gorra negra, em ue brilha alvo diamante;

Fora em Milão por destra mão gravada

A rica guarnição da fina espada.

Nambeoderá mostrava já na idade,

Em que a prudência co valor se iguala,

No adusto rosto branda majestade,

Que amor no peito do Vassalo exala:

Cobria o que convém à honestidade

Rico pano, daquela nação gala;

Trazia o mais por uso, e gentileza

Do modo, que o formou a natureza.

Entra na Capitânia, o pensamento

Encobrindo, que tanto o atormentava;

Dão-lhe almofadas de brocado assento;

Cadeira o Capitão rica ocupava:

Acabado o cortez recebimento,

O Rei, que cauteloso praticava,

A que parte pergunta empregaria

O grande aparato, e poder, que via.

Da traição a fama em Malaca usada

Corre, lhe disse Afonso, em todo o Oriente:

Morreu muita da gente batizada,

E muita da prisão o rigor sente.

O ser esta maldade castigada

Carrega sobre mim; e é bem que intente

A liberdade dos que estão cativos,

Se permitir o Céu que os ache vivos.

E como por amigo verdadeiro

Nas partes Orientais só a ti conheço,

Tratar contigo o modo quis primeiro,

Que seguirei a empresa, que começo.

O Rei lhe respondeu: Forte guerreiro,

Bem tanta confiança te mereço;

O Céu o sabe, e ao Céu desenganar-te

Prometo, e como amigo aconselhar-te.

Considera melhor primeiro quanto

Aventuras, e o fim desta jornada;

Na qual o conhecido risco é tanto,

E o que ganhar se pode é pouco, ou nada.

Como intentas deixar a Índia em tanto

De forças, e poder desamparada,

À ventura de achar depois perdido

Quanto a preço de sangue se há adquirido?

Tendo aqui vizinho o imigo armado,

Buscar intentas apertada guerra,

Por mar dos teus tão pouco navegado,

E que tantos perigos em si encerra?

Não me parecerá nunca acertado

Pela alheia arriscar a própria terra:

Conservar o adquirido é tão honroso,

Quanto é o conquistar dificultoso.

Muitos Impérios grandes se acabaram,

Porque os Príncipes vários, que os regeram,

Tanto à cega ambição se sujeitaram,

Que às remotas Nações guerra moveram.

Os Chins, que já estas partes conquistaram,

Depois de mil vitórias, que tiveram

As largaram; que unido prevalece

O poder, dividido se enfraquece.

Bem três lustros Cartago a Roma enfreia,

E depois foi por Roma destruída:

Roma, senhora do que o Sol rodeia,

Se viu do poder bárbaro oprimida;

Consomido o poder na terra alheia,

Não teve por quem fosse defendida.

Roda a fortuna com rigor terrível;

E não concede o Céu mais, que o possível.

Isto com tal afeito o Rei dizia,

Que, o que na alma escondia, declarava;

E o Capitão, que o intento concebia,

Assi responde, assi dissimulava:

Quando meu Rei de si me despedia,

E humanando-se os braços me deitava,

Disse: As empresas devem começar-se

E o bom sucesso a Deus encomendar-se.

Razão me leva: e como é justo o intento,

De vitória me dá certa esperança.

Castigarei o iníquo Rei violento;

O sangue, que verteu, terá vingança:

Porque já no sublime eterno assento,

Lá, onde consiste a Bem-aventurança,

Aqueles, a quem deram morte injusta,

A Deus lembrando estão causa tão justa.

Também da Índia a Deus toca a defensa,

Que tem sua santa fÉ plantada nela:

Ele é quem dá valor, repara a ofensa,

E sobre seus Fiéis contínuo vela.

Assi disse. E o Rei, com pena imensa

De ver tão mal lograda sua cautela,

Dele se despediu exagerando

Males, que ver cuidava já ameaçando.

No escuro horror os de Audalá assentaram

Em lenhos leves destros remadores,

E matérias sulfúreas embarcaram,

Os que haviam de ser do incêndio autores,

Alta noite secretos arrancaram,

Quase imitando os mudos nadadores,

Quando mais o siléncio senhoreia,

E o brando sono os animais recreia.

Era o rumor do mar, a noite escura

Em favor do Agareno infando engano;

E tão quietos chegam, que a ventura

Ministrar parecia o Cristão dano.

Pusera-se em efeito a tenção dura;

Mas o cuidado ao grande Lusitano

De manda levar âncora o acordara

Para dar vela em vindo a manhã clara.

E, porque estejam todos prevenidos,

De leva disparar a peça manda;

Atroa horrendo estrépito os ouvidos,

E a gente brada de uma, e outra banda:

Os bárbaros cuidando ser sentidos,

Qual foi do ardente estrondo a negra banda

De estorninhos, fugindo a volta deram,

O silência guardando, que trouxeram.

Ali livra Albuquerque do perigo,

Que nunca dele fora imaginado;

E blasfemando brama o Inferno imigo,

De podê-lo ofender desesperado.

Favor pedindo o Herói ao Céu amigo,

Dar manda vela ao vento desejado,

Logo que enriqueceu à terra a Aurora

Co fresco aljôfar, que por Mêmnon chora.

Já neste tempo com seus raios de ouro

Os dous filhos de Leda o Sol queimava;

E da formosa Europa o branco touro

De flores coroado atrás deixava;

Flora solto o cabelo crespo, e louro,

A cópia de Amalteia derramava,

E Filomena triste em doce acento

Queixumes dava docemente ao vento.

O porto deixa o Capitão valente,

Prosseguindo a derrota começada,

A quem suberba segue, se obediente,

E bem composta esquadra a mais Armada.

Ocupa os baixeis grossos forte gente,

No bélico trabalho exercitada,

Admitindo também nesta alta empresa

À Nação Malavar a Portuguesa.

Eram seis vezes cento os Malavares,

Feridores de espada, frecha, e lança.

Em cometer imigo singulares,

Por natureza amigos de vingança.

Já tinham infestado aqueles mares,

Posta na força, e roubos a esperança:

Guiava-os Adari de cor adusta,

Com gentileza, e proporção robusta.

Agora, ó tu fiel guarda do passado,

Contra o tempo imortal santa memória,

Tu, que reduzes ao presente estado

As cousas dignas de perpétua glória,

Me ensina como em verso levantado

Cante os Varões mais dignos de alta história,

Que viu jamais o Sol enquanto encerra

O globo universal de mar, e terra.

A flor do mar diante o pego undoso

Ligeira, e majestosa dividia,

Animada do peito generoso

Do Capitão insigne, que a regia:

Acompanhavam o Varão famoso

Raios trezentos, com que bem podia,

Não só humilhar Nações, mas nos escuros

Reinos romper de Dite os férreos muros.

Dom João, resplandor, corisco vivo,

Que faz famosa a pátria Lusitana,

Ramo ilustre daquele tronco altivo

De Lima, estirpe antiga, e soberana,

Estimulado do valor nativo,

E da que a morte ilustremente engana,

O mar rompeu com proa vencedora,

Donde sai derramando luz a Aurora.

Mandava a galé Fênix, que deixara

Atrás Centaura, e a Pristes na carreira;

E por entre as Estrelas navegara,

Se este lugar se dera à mais ligeira:

E cem Varões regia, a quem avara

Se mostra a fama, pois que verdadeira

Deles pudera sempre dizer tanto,

Que enchera o mundo de perpétuo espanto.

Nuno Vaz, de quem Vênus se enamora,

Quando o vê Marte nas batalhas fero,

Que após do imigo a espada cortadora

Vibrando, luz tonante considero:

Aquele valor digno da sonora

Tuba invejada, que tocava Homero,

Com cem valentes, pronto ao santo intento,

Da galé Garça as asas dava ao vento.

Após eles rompia o mar Caldeira,

Egrégio Capitão, nauta excelente,

Na Serpente voadora, a mais ligeira

Proa, que abria o líquido tridente:

Eram os que seguiam sua bandeira

Dez vezes dez, assombro do Oriente,

Criados sempre no rigor da guerra,

Já no mar militando, já na terra.

Com não menos valor, e galhardia,

De cem Leões de Luso acompanhado,

Na galé Santa Bárbara, fendia

O mar Duarte da Silva, moço ousado:

Dos ilustres Avós nelle se via

O defunto valor ressuscitado,

Honrando aquela idade venturosa,

Por heroicos Varões sempre famosa.

Mais ao mar das galés era o primeiro

Jaime Teixeira, a quem de amor os danos

Tinham levado à guerra aventureiro

Na primavera dos floridos anos:

Um bem sonhado amava o Cavaleiro!

A vida sustentando com enganos:

Ó de amor cego rigoroso efeito,

Que até com sombras vãs abrasa o peito!

No Mongibelo o fero mar cortava

De cento e vinte Alcides guarnecida,

Cópia, que nas afrontas bem mostrava

Quanto deve antepor-se a honra à vida:

E posto que em prisão a alma levava,

E à lei de amor ingrato submetida,

Tinham valor, e amor tão igual parte,

Que iguais estavam sempre Amor, e Marte.

Miranda no Unicórnio o imenso pego

Rasgava, de si dando heroico indício:

As delícias da pátria, e o sossego

Deixara pelo bélico exercício:

Entre as donzelas, qual o valor Grego

Da tenra mãe criado, ao duro ofício

Correu, ouvindo a tuba do Oriente,

A ser caudilho de robusta gente.

Leão no áureo leão bravo rompendo

As ondas, de si ilustres mostras dava

Jorge Nunes, que, imigos desfazendo,

Décimo companheiro aos nove dava:

A cuja nau rompente obedecendo

O mar, como medroso se apartava,

Murmurando co vento lisonjeiro

De arrogante ao valente Cavaleiro.

De oitenta se acompanha, em cujos peitos

Entrada em nenhum tempo o temor teve,

Às ordens militares tão sujeitos,

Que o duro obedecer tinham por leve.

Com estes nos perigos mais estreitos

Entra animoso, e a sujeitar se atreve

Do mundo o mais difícil, e distante,

Romper montes, e muros de diamante.

Na Branca Rosa as ondas dividia

Pela popa de Abreu Jorge Botelho;

Não deu a natureza à luz do dia

Varão de mais valor, de mais conselho:

Nos já maduros anos valentia

Robusta acompanhava o ilustre velho;

Seis vezes vinte o seguem arriscados,

Por ele na milícia doutrinados.

Da nau São Pedro dava ao vento as velas

O valente mancebo Aires Pereira,

Do sangue claro, como as luzes belas,

Dos Condos ilustríssimos da Feira.

Benignas neste influem as Estrelas

Com prudência o valor; cuja bandeira

Noventa do tempo êmulos seguiam,

Que atrás tornar um passo não sabiam.

A popa segue do ínclito guerreiro

No Minotauro Abreu forte, e prudente,

Do número escolhido, que primeiro

Rasgou do sacro Indo a grão corrente:

Dez vezes doze leva o Cavaleiro,

Cuja memória o mundo tem presente;

Que a fama, que deixaram cá estendida,

Lhes dá apesar do tempo eterna vida.

Aqueles dous irmãos, fortes Andrades,

Que tanto lá incansáveis trabalharam,

Em duas grandes naus, navais cidades,

São Jorge, e S. Mattheus, o mar sulcaram:

Bem nos peitos leais, prontas vontades,

Com que a seu Rei serviram, imitaram

De Andrada os nobres Condes, que em Galiza

Respeita a idade, a fama soleniza.

Os dous baixéis levavam bem providos

De aparatos a Marte necessários,

Com duzentos guerreiros escolhidos,

Portentoso terror de seus contrários:

Estes a toda a sorte oferecidos,

Executando a espada em transes vários,

Se mostraram sofridos, vigilantes,

Nos maiores perigos mais constantes.

Alpoém, nas ribeiras do Mondego

Desda primeira idade a Palas dado,

Também nas armas fez ilustre emprego,

Já de ilustres Avós, valor herdado:

Segue Albuquerque pelo salso pego,

Hora jurisconsulto, hora soldado;

Que das armas prudente se adornava,

Como das justas leis forte se armava.

Suas ordens noventa obedeciam

Mortais assombros de Agarenos peitos,

Que em toda a parte alegres o seguiam,

De seu prudente esforço satisfeitos:

Das cem línguas da fama mereciam

Ser decantados seus heroicos feitos,

Pois o tempo, que em nada permanece,

A memória das cousas escurece.

Passou Gaspar de Paiva à heroica empresa

Com cento e dez guerreiros excelentes,

Que aquela estimação, que mais se presa,

Ganharam sujeitando feras gentes:

A estes, que do trabalho, e da aspereza

Da guerra já por uso eram contentes,

São Miguel, alta nau, deu aposento,

Torre do mar, que excelsa move o vento.

Diniz Fernandes, com quem dons reparte

Infinitos o Céu, abre animoso,

Assombro de Netuno, horror de Marte,

No galeão São Paulo o estanho undoso:

Cento de alto valor, militar arte,

Leva consigo o Capitão famoso;

E, quando ao duro assalto os animava,

Animoso o primeiro nele entrava.

Serrão forte, e prudente Cavaleiro

Ocupava da nau Cisne o vazio

Com cento, que, seguindo o alto guerreiro,

Rompiam pelo fogo, e ferro frio:

Dava na alta Almiranta o derradeiro

Mostras ilustres com galhardo brio,

O mar rompendo com possante proa

O da Ásia terror, forte pessoa.

Eram três vezes cento os que o seguiam

Costumados à náutica estreiteza,

Dos que ousados com fogo, e ferro abriam

Caminho pela bárbara fereza.

Mas onde meus sentidos se desviam

Tanto de vós, ó glória desta empresa,

Garcia ilustre, cujo braço forte,

Infinitas rendeu vidas à morte?

Junto, donde a Nereu paga tributo

De seus cristais o Douro caudaloso,

O deu a Ilustre Joana, Ilustre fruto

De Sá, ao tronco em armas venturoso.

Este, cujo louvável atributo

Foi procurar renome de famoso,

Nos seus mais doces anos corre à guerra,

Passa o mar, chega a ver da Aurora a terra.

Soube, em chegando a Goa, da alta empresa,

A que o forte Albuquerque se partira;

Culpa qualquer tardança, e com tristeza,

Pelo poder seguir, geme, e suspira:

E qual o vau comete com braveza,

Por fartar no animal cerdoso a ira,

Que passar viu de fero dente armado,

Da trela o alão castiço desatado?

Tal ele num parau ligeiro aos ventos

As velas dando pelo mar se lança,

Levado dos ilustres pensamentos,

Que prometem gloriosa segurança:

Tal já César, rompendo impedimentos,

Perigos desprezou, e confiança

A Amiclas dando, a quem valor faltava,

Ao mar tempestuoso se lançava.

De seu heroico esforço estimulados

Lemos, e Vilalobos o emularam,

Um Coutinho, dous Melos esforçados,

Irmãos, que como a irmão vivendo o amaram:

Da costa Malabar os arriscados

E novos argonautas se afastaram;

O campo azul o lenho dividia,

Por ver os mares donde nasce o dia.

No Índico mar a Armada se engolfava,

E já somente Céu, e mar se via,

O favorável vento, que soprava,

Os grandes lenços brandamente abria.

O promontório Camori deixava

Atrás, e o grão Ceilão se descobria,

Taprobana chamada antigamente,

Ruquíssima delícia do Oriente.

De canela odorífera abundantes

Os altos montes são, bosques sombrios,

Habitados de grandes elefantes,

Primeiros em prudência, e fortes brios.

De rubis, e safiras rutilantes

Ricas são as areias dos seus rios,

E tudo rico do metal, que cria

Com seus raios o Sol na terra fria.

De Ceilão no Oriente a proa posta

O golfo de Bengala atravessaram,

E de Narsinga a rica, e fértil costa

Para a Setentrional parte daixaram.

Nela a grão Meliapor está composta

De ilustres edifícios, que lavraram

Modernos moradores, e ruínas,

Que inda se mostram de memória dinas.

Ali cousas obrou maravilhosas,

Que a terra hoje celebra, Olimpo canta,

Tomé, a cujas relíquias preciosas

Custódia dá com reverência santa.

Ó ditosa Cidade tu, que gozas

Há tantos lustros, com ventura tanta,

Aquele, que alcançou desconfiado

O que foi à grão Fé, e Amor negado.

A frota a Bóreas dando alegre as velas,

Do golfo a mior parte atrás deixava,

Quando, o que esteve já sobre as Estrelas,

Todo em furor horrível se abrasava:

Atormentava-o ver que suas cautelas

Foram vãs, e que a Afonso se mostrava

Amigo o vento, humilde o bravo Oceano;

E, blasfemando, ao Céu chamou tirano.