LIVRO II
Está na entrada da tartárea porta;
Precipício de medo, e horror cheio,
Onde os fios vitais Átropos corta,
Onde é confusão tudo, tudo enleio:
Dali, donde a esperança fica morta,
E habita o sobressalto co receio,
Corre um vale, por donde desce a gente
Perdida para o Reino descontente.
Por aquele vazio o Averno alento
Pestífero respira, misturado
Cos gemidos das almas, que em tormento
Blasfemam do rigor do Céu irado:
Confunde grosso fumo o negro assento,
Que nunca raio viu do Sol dourado,
Donde se ouvem rugir feras impias,
E nos ares gritar torpes harpias.
Ouvem-se ali do Cérbero latrante
Os triplicados hórridos latidos,
Com os brados do velho navegante,
Que à barca chama as almas dos perdidos.
Fama é que por ali desceu o amante,
A quem pluto, e Proférpina, vencidos
Do doce canto, a amada concederam,
Que seus olhos segunda vez perderam.
E o que susteve os cercos cristalinos,
Quando Atlas fiou dele o peso puro,
E aquele, que a gentil filha de Minos
Ingratíssimo foi sobre perjuro:
E outros, que, vãos seguindo desatinos,
Quiseram penetrar o centro escuro,
Também o infernal Rei com a doce amada,
Tantos tempos da mãe em vão chorada.
Daquele sítio horrível, e espantoso,
A quem teito é disforme imenso monte,
Com brado horrendo o Anjo tenebroso
Os Ministros chamou de Flegetonte:
Não quis passar o negro estreito undoso,
Podendo-lhe servir asas de ponte;
Que aos protervos desejos, em que ardia,
Um ponto eternidades parecia.
Logo do abismo os negros moradores,
Que na ambição primeira conspiraram,
Enchendo o ar de horroríssimos clamores,
Ante o mesmo furor se apresentaram:
Que monstros de ira, e de discórdia autores
Que de medonhas formas se ajuntaram
De Quimeras, Pitões, e Minotauros,
Hidras, Esfinges, Dragos, e Centauros!
Viam-se ali na multidão difusa
Briareus de cem braços descompostos:
Serpentinas cabeças de Medusa
E de feios Ciclopes feros rostos.
Enfim via-se ali cópia confusa
De diversos aspeitos, e supostos,
Cujos feios extremos de bruteza
Desconhecia a mesma natureza.
A multidão suberba já esperava
Que o Capitão do Erebo revelasse
O caso, que dor tanta lhe causava,
E em seu fatal serviço os ocupasse:
Quando ele, que até então calado estava,
Para que o caso em mais se reputasse,
Bramou, gemeu o cárcere fumante,
Tremeu a terra, descompôs-se Atlante.
Horrível gravidade ao fero aspeito
Gemendo triste ajunta, e exalando
Infausto fogo do abrasado peito,
A língua assi vibrou vociferando:
Tartáreos Anjos, dignos de respeito,
Que, depois do grão caso miserando,
Sofreis injusta pena, despenhados
Do Olimpo, para quem fostes criados.
Em lugar nosso aquele que governa
Lá de cima do claro Firmamento
Estrelas, Sol, e Lua, e cá na interna
Escuridão do Reino do tormento:
Formando o homem vil, já da superna
Região lhe deu o cristalino assento,
Que num tempo ocupou o Senhor vosso,
Nunca tão grande dor esquecer posso.
Presente agora tenho na lembrança
Quando de nada o homem foi criado,
Que com ingrata, e douda confiança
Comeu do fruito, que lhe foi vedado.
Em lugar de querer dele vingança,
Ordenou como fosse resgatado,
Quando por justa pena merecia
Não ver, nem gozar mais da cor do dia.
Enfim por ele o filho à morte entrega,
E o filho com morrer triunfou da morte,
E, descendo triunfante à região cega,
As portas quebrantou do muro forte:
Abriu nossas prisões; que a tanto chega
A grão miséria nossa, ó triste forte!
Levando as almas, que em poder tivemos,
A ocupar as cadeiras, que perdemos.
Os seus logo por ele tanto obraram,
Oferecendo a vida com fé tanta,
Que pelo mundo todo derramaram
Aquela lei, que nossas leis quebranta:
Depois aqueles Reis, que os imitaram,
As armas tomam com piedade tanta,
E, perseguindo os nossos, vão fazendo
Que tudo fique a Cristo obedecendo.
Entre estes (que isto só lembrar vos quero)
Animoso do Reino Lusitano
(Que já cobrar em nenhum tempo espero)
Deitou Afonso o povo Maometano:
Não contente com isto o bando fero
De Luso, assalta o Calpe Tingitano,
E, fazendo por vezes dura guerra,
Grão parte ocupa da Africana terra.
Correu ousado inquietando a costa,
Que intratável faz quase o Sol ardente;
Que dos perigos, e trabalhos gosta
Esta sempre invencível fera gente:
Traspassou Gama a zona contraposta,
Dobrando o promontório, em que o Tridente
Se rompe: e, minhas forças resistindo,
Tomou porto entre a foz do Gange, e do Indo.
Logo o invicto Cabral com nova Armada
Descobriu nova terra, e em nosso agravo
Lhe pôs nome; e tornando à destinada
Viagem, fim lhe deu suberbo, e bravo:
Gente em Calicut deixa batizada.
Ai de mim, de que serve dar-me gavo
De ordenar a Correia a dura morte,
Se ele, morrendo, melhorou de sorte?
Este famoso foi o que primeiro
Por Cristo derramou nessa Indiana
Terra seu sangue, ó forte Cavaleiro!
A meu pesar te louva a língua insana:
Vingaram em Cochim o alto guerreiro,
Alcançando vitória soberana
Os fortes Albuquerques, fortaleza
Fabricando por fim da ilustre empresa.
Ali o forte Pacheco fé eterniza,
Sustentando incansável o adquirido;
Depois Almeida, que as Estrelas pisa,
Se fez do Rume, e Malavar temido,
Morto o filho, que fama soleniza
De sábio, de invencível, de atrevido,
Já vistes que a vingança, involta em pranto,
Foi de Ásia, e Europa horrendo espanto.
No bravo Cunha um raio ardente vistes,
Que deixou as Cidades abrasadas,
Que a vossas leis sujeitas possuístes,
De que apenas há cinzas derramadas:
De Ormuz, e Goa já os sucessos tristes
Se contam nas Regiões mais apartadas;
E tanto de Albuquerque o nome cresce,
Que por grande no mundo se conhece.
Este, que o livre mar veio infestando
De lá, onde morre o Sol, até onde nasce,
Os nossos simulacros derrubando,
Com afronta fatal da infernal face:
Agora outro não visto mar cortando,
Para que novo mal nos ameace,
Vai, sem haver quem tanto orgulho dome,
Em Malaca prantar de Cristo o nome.
Quem duvida, passando lá esta gente,
Ver acabado o nosso antigo Império,
Que há tantos anos dura em todo o Oriente,
E rico de almas faz nosso hemisfério?
E que o povo Malaio opresso intente
Seguir com pesar nosso, e vitupério
A Romana piedade, e Lei de Cristo;
Já tudo sofrereis, se sofreis isto.
Que, se adiante passa, singulares
Vitórias temo, do infernal respeito
Eterna afronta; e já temo que Altares
Levantem a seu Deus a meu despeito,
Domadores das terras, e dos mares,
Não só em Malaca, Indo, e Pérseo estreito,
Mas na China, Catai, Japão estranho,
Lei nova introduzindo em sacro banho.
Mas, pois não pode ser nunca acabado
Nos peitos vossos o valor antigo,
Que já mostrastes quando, acompanhado
De vós, cobrei o Céu por inimigo;
Seja este atrevimento castigado.
Saí fúrias fatais, vindo comigo;
Contra eles mar, e ventos se embraveçam,
E, desfeitas suas naus, todos pereçam.
Tu Belzebu, que os ventos com tremenda
Violência moves contra mar, e terra,
E Leviatão no mar serpente horrenda,
Em quem tanto horror o abismo encerra,
Vosso valor no mundo hoje se estenda;
As ondas às Estrelas movam guerra,
Tudo sua natureza mude, e logo
Chovam mares os Céus, e as nuvens fogo.
Vinguemos nestes parte dos primeiros
Agravos, que sentis há tantos anos,
Nestes, que hoje orgulhosos, e guerreiros
Fazer-se intentam quase soberanos.
Disse Asmodeu; e nunca tão ligeiros,
Causando em terra, e mar mortes, e danos,
Romperam feros ventos desatados,
Como então os espíritos danados.
Não aguardam suberbos impacientes
As últimas palavras; mas, rompendo
Os ares, as moradas descontentes
Deixaram, mar, e terra revolvendo:
Por donde quer que passam insolentes,
Tudo vão arruinando, e desfazendo;
Condensam nuvens, e desatam ventos,
Abalando da terra os fundamentos.
Com mar bonança Afonso navegando,
Eis que o Céu de improviso se escurece,
A luz do Sol se turba; e, retumbando
Horríssono rumor, o vento cresce.
Logo o mar montes de água levantando
Dos ventos combatido se embravece;
E tanto, que as mais altas excediam
As marítimas ferras, que se erguiam.
Os trovões quase os polos abalavam,
Ameaçando ruína ao Firmamento;
Os rais uns aos outros se alcançavam,
Incendiários do fluido elemento.
Os mares com as nuvens se ajuntaram
Impelidos de um ímpeto violento;
E entre coriscos treva, estrondo os gritos
Dos tristes nautas eram infinitos.
Via-se lá a região Celeste cheia
Das ondas, que as Estrelas borrifavam,
E aparecer no fundo a loura areia
Nos vales, que entre as ondas se formavam;
Da morte qualquer peixe se receia
Por donde pouca havia aves voavam,
Sobia a nau às vezes ao Céu puro,
Outras tantas descendo ao centro escuro.
Turbados de tão súbita tormenta
Os pilotos, amaina, amaina gritam.
Dar a efeito a turbada chusma intenta
O que os mestres gritando solicitam:
Mas dos ventos a fúria turbulenta
Faz com que em vão as forças se exercitam
Dos soldados, e destros marinheiros,
E dos grumetes em sobir ligeiros.
Vio-se a flor de la mar em grande aperto,
Porque todas levava as velas dadas,
E a todos (tão grande era o desconcerto)
Tinha o temor, e medo as mãos atadas.
Mas com trabalho (enfim) no caso incerto
Foram logo as de gávia derribadas;
A grande depois destas amainaram,
As outras à fortuna encomendaram.
Ficou a galé Fênix sem bastardo,
E perto esteve de ser mor o dano,
Que em dar ao apito o Cômitre andou tardo;
E deu a salvação abrir-se o pano.
Lima, entre os nautas tímidos galhardo
Seu valor mostra, e brio soberano;
E já ameaçando, já com brando rogo
Fez dar de correr vela à antena logo.
Foi a vela de gávia da Almiranta
Ao mar, o mastaréu roto, abrasado
Do fogo horrendo, que aos mortais espanta,
Das nuvens por violência disparado:
Jaime a este tempo, que só em pena tanta
A de amor sente, o goroupés quebrado,
Aberta a nau, que investem montes de água,
Brasa era o coração, o peito frágua.
E acodindo o primeiro ao mor perigo,
Dizia enternecido o varão forte:
Que promessas, amor, são as que sigo,
Se, donde busco a vida, encontro a morte?
Eu de mim mesmo sou o mor imigo,
Que aos males corro, que dar pode a forte;
E qual o cego, guiado de outro cego,
Invisto o precipício, à morte chego.
A Serpente voadora, arrebatada
De um monte de água, às nuvens foi sobida,
E caindo de lá precipitada
No profundo ficou quase escondida.
Logo outra vez às nuvens levantada
Torna a descer com mísera caída,
E, dando entre duas ondas impetuosas,
Tábuas rendeu, e as curvas mais forçosas.
Começa logo a entrar pelas junturas
Abertas da galé impetuoso rio,
Infinitos descendo das escuras
Nuvens, que vão chegando ao extremo fio.
Os lassos nautas vendo as aberturas,
Os peitos lhes traspassa o medo frio,
Brada o Cômitre, vendo a morte perto,
Que acudam ao perigo descoberto.
A dar à bomba alguns logo correram,
Tornando o mar ao mar, que livre entrava:
Outros com chumbo em pranchas pertenderam
Tapar o que do lenho aberto estava.
Os mais, que estes ofícios não fizeram,
Alijaram ao mar quanto se achava
Na afligida galé, sem reservar-se
Riquezas, nem às armas respeitar-se.
Porém quanto o Piloto a gritos manda,
E quanto se trabalha, nada basta;
Que o temporal cruel tudo desmanda,
E sem proveito o tempo já se gasta.
Eis de horrendo naufrágio a hora infanda,
Hórrida a morte já a esperança afasta;
Ao mar rendida, e vento furibundo
A aberta galé vai a pique, ao fundo.
Pedindo auxílio a miserável gente
Aparece no irado mar nadando,
Com desesperação no mal presente,
A morte já esperada dilatando.
Eis logo Fernão Peres diligente
Àquela parte acode, ao mar deitando
Lenhos, tábuas, barris, provando modos,
Com que possa livrar da morte a todos.
No mesmo tempo igual era o perigo
Em toda a Armada, e todos trabalhados
Davam gritos, e vozes, que o inimigo
Vento levava em ecos mal formados:
Qual, vendo a morte, abraça o caro amigo,
Qual procura o pesar de erros passados,
Porque, quando esta vida ali perdesse,
Ir gozar da durável merecesse.
Nesta ânsia, neste horror ao dia horrendo
Sucedeu noite horrenda, e temerosa,
As nuvens de contino em fogo ardendo,
Cegando a vista a claridade odiosa:
Sair de seus limites pertendendo
O mar bramindo irado, a luminosa
Região subir queria das Estrelas,
Como por apagar o lume delas.
Isto vendo Albuquerque, e vendo os ventos
Recrescer da infernal fúria incitados,
E os trovões espantosos com violentos
Raios das negras nuvens disparados,
Tudo ameaçando morte, ouve os lamentos
Tristes dos companheiros trabalhados,
Humilde assi a Deus fala, e pede ajuda,
Que os castigos revoga, e os casos muda.
Imenso Criador, Pai soberano,
Restaurador do nosso bem perdido,
Lá no Céu do angélico, e do humano
Com sujeição eterna obedecido:
Verdadeiro Netuno, que do Oceano
Enfreias a suberba, e sobmetido
À lei inviolável, que lhe deste,
Dos limites não passa, que puseste.
Tu, que da injúria de Faraó livraste
O povo teu, abrindo o mar profundo,
E do comum castigo a Noé guardaste,
Quando a ruína universal do mundo:
Como nos desamparas? Não se afaste
De nós tanta piedade, em que me fundo:
Livraste o povo teu do mar insano,
Teu é também o povo Lusitano.
E se é vontade tua que morramos,
Seja assi; mas, Senhor, não desta sorte;
O lugar muda, seja onde possamos
Exaltar a tua Fé, sofrendo a morte:
Na apartada Malaca, aonde vamos,
Por te servir, buscar a gente forte,
Alegre cada qual perderá a vida
Pela ver venturosa a ti rendida.
Ó três, e quatro vezes venturosos
Os que tanto favor do Céu tivestes,
Que entre as bárbaras lanças animosos,
Perdendo a vida, eternos vos fizestes:
Vivem na fama os feitos valorosos,
Com que a pátria ditosa engrandecestes,
Nós ficamos aqui dela apartados,
No mar do esquecimento sepultados.
Assi gemendo disse; e entre tanto
O proceloso mar mais fé embravece,
Crescendo a confusão, crescendo o pranto
Da miserável gente, que perece:
Era tanto o rumor, o estrondo tanto
Da fera tempestade, que parece
Segunda vez o mundo destruir-se,
O Céu desencaixar-se, o Inferno abrir-se.
Rafael, protetor da Lusa Armada,
Mais ligeiro que o leve pensamento,
Co a rogativa, de alta fé animada,
O cristal penetrou do Firmamento:
Lá a Divina Sião está fundada,
Obra eterna do eterno Entendimento;
Quadra é a forma do edifício puro,
E de ouro, e jaspe o torreado muro.
Tem doze portas; em cada uma assiste
Guarda imortal armado de diamante;
Abertas sempre, ou caia a noite triste,
Ou rindo a bela Aurora se levante:
Lá nem se teme imigo, nem resiste;
Tudo é quietação, e pas triunfante,
Tudo cheio de glória, e de alegria,
Derivada do Autor do eterno dia.
Chegou diante da imensa Majestade,
Que é nas pessoas Trina, Uma na essência,
Onde unidos estão numa vontade
Iguais em tudo Amor, Poder, Ciência:
Trono ocupa de rica variedade,
Donde estão em gloriosa competência
A obra com a matéria, sem vitória;
Que iguais são no valor, iguais na glória.
Arco de preciosíssima esmeralda
É condigno ornamento ao Trono Augusto,
E serve na Eternidade de grinalda
Ao que dá leis a tudo, Imenso, e Justo:
Quatro animais na sempre verde fralda
Lhe assistem, que são contra o ódio injusto
Do ingrato povo a tantas mercês vistas,
Do que é leão cordeiro Coronistas.
Doze, e doze anciãos com níveos mantos
Em roda o cercam de ouro coroados,
Os quais, aos pés do Santo ali dos Santos,
Veneração lhe rendem ajoelhados:
Na santa humiliação, em ledos cantos
Com modo, e tom suavíssimo alternados,
Lhe chamam Deus da guerra, Rei benigno
Digno de adoração, de glória digno.
Prostrado humilde entre eles o glorioso
Custódio, a rogativa representa,
Com tácito falar, conceituoso,
Com que ao Altíssimo tudo se apresenta.
A Armada amiga, disse, Pai piedoso,
E o Varão pio, que estender intenta
Vossa Lei santa desde o Ocaso ao Oriente,
Todo o rigor do mar, e ventos sente.
Convocou Asmodeu do escuro Averno
As catervas ao fogo condenadas,
E com todo o furor, que encerra o Inferno,
O ar moveram, e as águas sossegadas.
Tudo, alterado pelo ódio eterno,
São móveis serras as regiões salgadas;
Velas, xárcias, e mastros rompe o vento,
E tudo é confusão, temor, lamento.
Teme, e lamenta a gente valorosa;
Que não é de temor o esforço isento:
Mas sente mais, que a morte rigorosa,
Que tenha escuro fim o santo intento:
Cada qual destes com ação gloriosa
O peito pôs por vós já a riscos cento,
Que, por ver vossa Fé santa estendida,
Seu amor oferece à morte a vida.
Vosso servo Albuquerque, reprimindo
No peito a dor intensa, em vós fiado,
Ao que um bom Capitão deve acudindo,
Ao nauta esforço dá, brio ao soldado.
Contritos todos vos estão pedindo
Remédio, e do furor do Inferno irado
Apelam para as Chagas do Cordeiro,
Donde o remédio seu manou primeiro.
E esse arco de esmeralda, que brilhante
É rico adorno do sagrado Trono,
Penhor é da clemência, que triunfante
É daquele arco do concerto abono.
Do homem sois desdo princípio amante:
Estes vos amam amoroso dono:
E, porque vossos são, são perseguidos,
Sejam também por vossos defendidos.
Sinta hoje esse dragão do reino escuro
Sobre o comum castigo outro castigo;
Deixe a traquilidade, deixe o ar puro,
E a paz aos homens, que não tem consigo:
A masmorrra, que fecha ardente muro,
Habite ingrato, de si mesmo imigo;
E, em pena de seu erro, tanta fúria
Converta contra si com sua injúria.
Assi disse ao Senhor, que o mar enfreia,
E tudo rege com eterno mando:
E em tanto calam os que à Imensa Ideia
Louvores cem cessar estão cantando:
Logo as almas ditosas, que recreia
A visão beatífica, rogando
Por Albuquerque cantam santos hinos,
Que alternam pelos tronos cristalinos.
O sempiterno amante, que esperava
Do aflito Capitão ser invocado,
E na Divina Mente preparava
O socorro ao Varão assinalado,
Fez sinal a Miguel (que vendo estava
Na amorosa piedade o decretado
Favor) e disse, um glorioso alento
Derramando por todo o Firmamento:
Eu tenho ao forte povo Lusitano
Por decreto ab eterno concedido
O vencimento, em tudo soberano,
Do Reino, a meu favor desconhecido:
O inimigo mortal do trato humano,
Que sente ser-lhe o homem preferido,
A estes, que amo tanto, dar procura
No mar agora morte, e sepultura.
Empunha a vencedora espada ardente,
Com que o primeiro insulto castigaste,
Quando a suberba da infernal serpente,
Perdida a luz, e graça, arruinaste:
E em favor desta minha amada gente,
Que já em passados transes ajudaste,
Dos teus acompanhado, desce logo;
Torne a rebelde esquadra ao eterno fogo.
Ao porto de Pedir a frota guia,
Aonde será de todo reparada;
E do medo, e trabalho deste dia
Terá descanso a Esquadra assinalada.
Parte do Empíreo a pura companhia,
Miguel vibrando a fulminante espada,
Firme escudo embraçado rutilante
De matéria mais dura, que diamante.
E penetrando o ástreo Firmamento
Viu do voraz Saturno a tarda esfera
A do maior fortuna, e a do cruente
Marte, que nos humanos ira gera:
Vê do radiante Sol o claro assento,
Que, como o coração, no meio impera;
E os dous astros, de quem acompanhado
Vai, e o motor à terra mais chegado.
Chega o Celeste exército voando;
A quem os inimigos do Céu vendo
Fogem da luz, que os turba; blasfemando,
O Divino socorro mal dizendo:
Os Celestes guerreiro castigando
A passada insolência, os vão correndo
Até as tristes moradas de dor cheias,
Aonde as almas estão de glória alheias.
Resplandecente Rafael seguia
O feroz Asmodeu, que acobardado
Daquele açoute vingador fugia,
Que em casa de Raquel tinha provado:
Qual foi ave noturna em claro dia
Do pássaro fugir, que estimulado
De um ódio natural a ira executa,
Ferindo-a até a encerrar na escura gruta.
Por outra parte os ventos vão fugindo,
Temerosos deixando a infausta guerra,
A natural braveza reprimindo,
Que altera o mar, abala, e rempe a terra.
Assi humilde as asas sacudindo
Por debaixo daquela firme serra,
Que oprime sua fereza, se tornaram
Às Eólias prisões, que quebrantaram.
Logo a negra cortina os raios correm
Do Sol claro, alegrando os mareantes,
Os Paraninfos a humilhar concorrem
Os mares, contra os Céus novos gigantes:
Com fervente piedade outros socorrem
Os tristes, e afligidos naufragantes
Da perdida galé, que inda lutavam
Co as ondas, e o favor do Céu clamavam.
Livre da morte, e horrível tempestade
A gente, destilando água aparece
Por cima do convés da nau de Andrade,
Que graças dando ao Céu, votos ofrece:
E bem notando o modo, e brevidade,
Com que a tantos livrara, já conhece
Não ser bastante a diligência humana,
Se não tivera ajuda soberana.
Mas os seis valorosos companheiros,
Que levados da intrépida braveza,
Desestimando o mar, aventureiros
Partiram, por se achar na heroica empresa;
No tempo, quando os infernais guerreiros
Os ventos movem à maior fereza,
A costa de Bengala atrás deixavam,
Bóreas em popa, e pelo golfo entravam.
Deu neles a diabólica procela,
Sem conceder lugar a que amainassem,
Quebrando os remos, e rompendo a vela,
Para que à salvação meios faltassem:
Que do tartáreo bando foi cautela,
Como por conjecturas alcançassem
Que o Céu o vencimento glorioso
Prometia ao valor do Sá famoso.
Dar-lhe mísero fim ali ordenaram:
Para o que Flegeton co mar reparte
O seu furor, e aos ventos ajuntaram
Da interior violência grande parte:
Os marinheiros tímidos ficaram
Cortados de temor, e faltos de arte;
O piloto também no transe forte,
Já posto se julgou nas mãos da morte.
Sem governo a través posto o navio,
Quase no ponto extremo de perder-se,
Pelo bordo lhe entrou um grosso rio
De um mar, que nele veio a desfazer-se:
Mas os fortes guerreiros, cujo brio
Não pode à força, nem temor render-se,
Com tal pressa, e valor logo acudiram,
Que à morte, e a todo Inferno resistiram.
Garcia pegou logo do governo;
Dão à bomba os dous Melos, e Coutinho;
E, o mar tornando ao mar, do mais interno
Desalagam o já alagado pinho:
Com Lemos, apesar do mesmo Inferno,
Vilalobos amaina o roto linho;
E, dando parte à antena conveniente,
Navega o lenho ao leme já obediente.
Já que em popa navega, os marinheiros,
A quem um frio medo congelado
Tinha o sangue nas veias, os primeiros
Correm logo ao trabalho costumados:
Porque o exemplo dos fortes Cavaleiros
Os tinha grandemente envergonhado;
E lhes dá seu valor tal segurança,
Que ressuscita neles a esperança.
Como ao tartáreo bando vão saísse,
Este primeiro assalto, muda intento,
Traçando com que ao menos nunca visse
De Malaca Garcia o áureo assento:
E, porque o atroz desenho se cumprisse,
Arrebatam do lenho; e do violento
Furor levado assi rompia os mares,
Qual de arco Persa a frecha rompe os ares.
Ignorando o fatal curso passaram
Por entre a grão Samatra, e o Quersonesso;
E, costeando a China, navegaram,
Sem do caminho conhecer o excesso:
Que, como tanto em pouco tempo andaram,
A Palinuro o desigual progresso
Enganara; de modo, que julgavam
Que de Bengala o golfo atravessavam.
Vestia luto o ar já pelo dia
Na marítima tumba sepultado:
Ex nuvem, que parece em fogo ardia,
Novo horror causa ao peito mais ousado.
Fero Abrego mor guerra ao mar movia
Furibundo, medonho, desgrenhado;
E do violento impulso o mar ferido
Forma gigantes mares ofendido.
As nuvens, que por mil partes se abriam,
Mil ofensivos raios disparavam,
Que com violento curso o ar fendiam;
Os trovões da terra o âmbito abalavam.
Os Céus (se crer se pode) temeriam,
Quando as gigantes ondas lá chegavam,
Que intentassem, quais já filhos da terra,
Também filhos do mar fazer-lhe guerra.
Assi furioso o vento, o mar furioso,
Por muitas partes o navio aberto,
Do sofrido trabalho tempestuoso
Se acharam de outro mor perigo perto:
Que num grande penedo, em que impetuoso
Quebrava o mar, então de ondas coberto,
Rompeu o frágil lenho persuegido
Do Inferno, mar, e ventos combatido.
Despedaçado o mísero navio,
Qual colhe um remo, qual um banco abraça,
E a Deus pedem favor com peito pio
No transe, que fim mísero ameaça.
Estando assi no derradeiro fio,
Em noite horrenda de esperança escassa,
Cada momento o medo mais se aumenta,
E mais da morte o rostro representa.
Todos da vida já desesperados
Nadavam tristes, dilatando a morte;
Mas vezes mil das ondas sepultados,
Já quase sentem dela o transe forte.
Outras vezes às nuvens levantados
Jogar com eles parecia a sorte,
E para lhes causar maior tormento,
Alargar-lhes da morte o sentimento.
Nesta falta de humana confiança
Chegaram de Miguel os companheiros,
E do crime tomando alta vingança,
Ferindo vão nos infernais guerreiros:
Humilham logo o mar, nova esperança
Tornando aos naufragantes Cavaleiros;
Que, o Celeste favor sempre invocando,
Com novo alento as ondas vão cortando.
Passada a triste noite em pena tanta,
De rosas coroada a bela Aurora,
Deixando o frio amante, se adianta,
Dando luz a Anfitrite, e à bella Flora.
O Sol logo atrás ela se alevanta,
E alegre sai do claro alvergue fora:
Desligadas as nuvens se esconderam,
E aos raios matutinos lugar deram.
A luz do novo dia aos naufragantes
Mostrou a terra, desejada tanto,
Em transes, e fortunas semelhantes,
Dando-lhes forças no mortal quebranto.
Cortam de novo as ondas espumantes,
Com tanto alento, e alvoroço, quanto
Costuma ter quem, quando a vê perdida,
Nas mãos da morte torna a achar a vida.
Perto da terra, que podiam ver-se
Quebrar na praia as ondas com braveza,
Depois em branca espuma resolver-se
Rebatidas da sólida firmeza,
Descobriram um rio, que a meter-se
Vinha no mar com rápida presteza,
Coroado de verdes arvoredos,
E na barra de aspérrimos rochedos.
Impedia-lhe a força da corrente
Poder chegar à desejada areia:
O que vendo Garcia, com fé ardente
Assi falou com a suprema Idéia:
Piedoso Pai, Senhor onipotente,
Cujo poder do mar a fúria enfreia,
E tremer faz no centro o duro Inferno,
Das causas Causa, e Movedor eterno:
De quem por vós trabalha, e vos adora,
Esquecei culpas como Pai piedoso,
E o furor reprimi undoso, agora
Das vidas, que são vossas, cuidadoso.
E vós, do Sol divino digna Aurora,
Do mar Estrela, e porto venturoso,
Dos afligidos nunca em vão chamada,
Valei-nos, Mãe do Esposo, e Filha amada.
Assi disse. E foi lá no Olimpo ouvido.
Tornou-se o mar tranquilo, o vento brando,
Suspenso esteve o rio, e reprimido,
As águas, que desciam, represando.
Coutinho em tanto náufrago afligido,
Mal já o furor das ondas contrastando,
Chega à praia deserta, onde só havia
Tudo oposto aos efeitos de alegria.
Lemos, e Vilalobos, que pegados
Vinham no roto mastro, à seca areia
Chegaram, porém fracos, e cansados,
E quase ainda nas mãos da morte feia:
Os ventres do bebido mar inchados,
A falta do sentido a vista enleia,
E o liquor falso, tornam com penosas
Ânsias brotando fontes amargosas.
Chegou o menor Melo a tomar terra,
De quem rios caudais se despenhavam
Das ondas, que lhe tinham feito guerra,
Que a seu pesar bebeu, e ao mar tornavam.
Sobre uns juncos deitado os olhos cerra;
Que mal ao sono, e apenas se entregavam;
Quando penas a penas acrescenta
Sonho, ou visão, que horrível o atormenta.
Pálido, e suspirando lagrimoso
O caro, e amado irmão se lhe oferece;
E todo inchado, hórrido, e espantoso
Dele manar por tudo água parece:
Com triste voz em ato lastimoso
Lhe diz: Se o fraternal amor merece,
E como em vida, assi liga na morte,
A lástima te mova minha sorte.
Acompanhar-te mais nesta jornada
Me nega o Céu: cortou a Parca dura
A vida a mil trabalhos condenada,
Que sem descanso momentânea dura:
Nesta região da nossa não tratada
Não me queiras deixar sem sepultura;
E que terá por ti, minha alma fia,
Os divinos favores algum dia.
Inda o vital alento hoje gozara
Pisando, como os mais, a seca areia,
Se, ao romper do navio, não quebrara
Esta perna, que vês inchada, e feia:
Vali-me então daquela Estrela clara,
Que ao porto guia, aonde a alma se recreia;
E com fé, e esperança o transe forte,
E tremendo, passei da vida à morte.
Por abraçar a sombra o Cavaleiro
Três vezes magoado estende os braços,
E três vezes em vão o ar ligeiro
Divide ao apertar dos vãos abraços.
Entretanto o defundo aventureiro
Deixou daquela forma aérea os laços,
E ao irmão deixa na alma lastimado,
Suspiros dando, em lágrimas banhado.
Levanta-se bradando, e diz: Espera,
Toma de mim o braço derradeiro:
Mas ai que já mo nega a Parca fera,
E és dos que o Céu habitam companheiro.
Fez termo a dor primeira; e considera
Ser tudo, o que sonhara, verdadeiro;
E com pena, e tristeza suspirando,
Pela praia o cadáver vai buscando.
Gracia entanto de seus braços tenta
A força extrema por chegar à terra
A tempo, que com grita turbulenta
Cópia de gente desce da alta serra:
A Diana entre a turba representa,
Quando vai a fazer aos montes guerra,
Uma grande, e formosa caçadora,
Daquelas serras natural senhora.
Veloz com arco, e frecha outra Atalanta
Os montes segue, e persegue fera
As feras, a que em vão ligeira planta
(Que ao vento iguala) a natureza dera:
O javali cerdoso a não espanta,
O tigre, a onça, o leão bravo espera
Feroz com todos, animosa, e forte,
E sempre vencedora os rende à morte.
Cercavam-na belíssimas donzelas,
Que também arco, e frecha exercitavam;
Porém, posto que todas eram belas,
Em beleza inferiores lhe ficavam.
Qual matutina Vênus, que às Estrelas
Abate a clara luz, de que se ornavam,
Tal de Titônia as vence a gentileza,
Que (ao parecer) do Sol a luz despreza.
Em áurea rede preso o áureo cabelo,
De tabi azul a roupa recamada,
Com rico fio de ouro em modo belo
De argênteas borboletas semeada:
Qal pintão ninfa caçadora em Delo,
Ou na Arcádia de feras povoada,
Pelo monte mover o pé de neve,
Que o vento calça no coturno breve.
Nunca Argos, Delo, ou Chipre em si gozaram
Forma de formosura mais perfeita:
As Graças todas nela epitomaram
Tudo, o que à humana vista mais deleita:
Descem do monte à praia, onde chegaram
Ao tempo, que Garcia nela deita
Um rio de amargoso mar bebido,
De alento falto, náufrago afligido.
De Titônia os monteiros arrogantes
Correndo todos vão contra Garcia,
Julgando que ouro, pérolas, diamantes
Consigo do naufrágio livraria:
Mas ele, que lutara um pouco antes
Co a morte mesma, o vil temor desvia,
E determina de vender mui cara
A vida, que das ondas escapara.
Um grosso, e duro remo, que o sustinha,
E lhe fora nas ondas companheiro,
Aperta; e contra o que primeiro vinha
Intrépido se lança aventureiro.
Já tímido o contrário se detinha,
Quando chegou o peso do madeiro;
E, parte da cabeça desbastando,
O cérebro se mostra palpitando.
Contra os mais impetuoso logo cerra,
Dos quais com fúria brava foi cercado:
De um só revés estende dous em terra,
Outro deixa dos dentes desarmado:
Tal como aos Filisteus, fez dura guerra,
Só da queixada o moço Hebreu armado;
Ou, como quando Alcides impaciente
Os Centauros matou co lenho ardente.
Brotando ira o guerreiro, o duro efeito
Do remo faz sentir a quem o braço,
A quem cabeça rompe, a quem o peito
Quebranta, e desfizera um monte de aço.
Titônia de ira cheia, e de despeito
Vendo tanto destroço em breve espaço,
E dos seus o temor, e vil fraqueza,
Acode à reprensão, como à defesa.
Entra a tempo que o fero moço do alto
Começava a descer um golpe horrendo:
Mas, chegando da doce vista o assalto,
Para o lenho, que vinha o ar fendendo:
E movido a respeito de ira falto,
O remo pouco a pouco foi descendo
Tal como a nau, a quem o vento acalma,
Velas afrouxa, e fica posta em calma.
Ela também ao cortês ato para,
Da ofensa, do rigor, da ira esquecida;
E no valor, e gentil ser repara,
De admiração, e lástima movida:
Compassiva amor na alma lhe prepara
Uma paixão, mal dela inda entendida;
E no compasso, que ele desce o remo,
O arco afrouxa, apartando um de outro extremo,
Absortos, como em êxtase ficaram,
A vista suspendendo os mais sentidos,
Por quem em tanto as almas se trataram,
Mandando pensamentos acendidos:
Logo ardentes suspiros se arrancaram,
De uma nova amorosa dor nascidos;
Já procura o desejo declarar-se,
Já torna por respeito a retirar-se.
Falar-se por três vezes cometeram;
Mas turbação, que amor traz nos repentes,
Os conceitos na língua escureceram,
Se bem na turbação ficam patentes:
O que atalhadas línguas não puderam,
Supriram mil afectos, e acidentes;
E os olhos, línguas da alma, declaravam
As ânsias, que nos peitos encerravam.
Neste tempo chegou à amada areia
Mileno marinheiro, a quem a sorte
Entre tantos salvou da morte feia,
Posto que receoso inda da morte.
A gente estranha vendo, se receia;
Porém, considerando o passo forte,
Que atrás lhe fica, se conforta, e anima,
E qualquer grande mal menor estima.
Na incerteza do caso tão estreito,
Oferecido a quanto está temendo,
Pôs em Titônia os olhos, cujo aspeito
Real piedade estava prometendo:
O temor convertendo já em respeito,
Humilde ante ela chega, assi dizendo:
Amparai, grão Senhora, um afligido,
Do mar, e da fortuna perseguido;
Que essa rara beleza, e majestade
Bem mostra ser dos Deuses procedida:
E, se divina sois, tende piedade
Lá nos divinos peitos produzida.
Assi rogava aquele, que a vaidade
Gentílica seguira toda a vida,
Chegando a Titônia, que não muda
Os olhos de Garcia atenta, e muda.
Era de ação Chim, e, naufragando
No Índico mar, de nauta ia servindo.
Ela, como de um sonho despertando,
O vizinho idioma Chim ouvindo,
Àquela parte inclina o rostro brando,
Novas alterações na alma sentindo;
E com palavras cheias de brandura
O favorece, anima, e o segura.
Alegre com ter já tão certo meio
Para entender o que a alma pertendia,
O naufrágio pergunta, e por redio
Fortuna, e qualidade de Garcia.
Ele (perdido então todo o receio)
Dando-lhe inteira conta, lhe acendia
Mais o fogo, louvando a fortaleza
Gentis costumes, partes, e nobreza.
Rendida amante o ouvia: eis maniatados
Lhe trouxeram os outros Cavaleiros;
Sofrer não pôde vê-los maltratados,
Porque eram de Garcia companheiros:
Soltar os manda, e foram castigados
Com ásperas palavras os monteiros;
Que julga amor, e culpa considera
A ação, que em outro tempo merecera.
Vendo-se os naufragantes, se alegraram
No que dava lugar a pena grave:
Lágrimas juntamente derramaram;
Que o chorar em tais casos é suave.
Os olhos de Titônia os ajudaram;
Que ordena amor que já com pranto lave,
E abrande o peito, que lhe tem quebradas
As frechas, com mais arte temperadas.
De ali para um magnífico edifício,
Que no cume do monte aparecia,
Cuidado a leva de piedoso hospício,
E reparo dos danos de Garcia.
Dele os olhos não tira, dando indício
Do fogo, que encobrir já não podia:
Mas quem o fogo esconderá no peito,
Que o não descubra logo o ardente efeito?
Guiando entanto a Armada o Céu amigo,
Chega de grão Samatra a ver a terra:
Logo entra de Pedir no porto antigo
Ao som do estrondo, e música de guerra.
E porque pelo rio sem perigo,
Pela estreiteza, e baixos que em si encerra,
Nunca lenhos tão grossos navegaram,
Junto da barra ao mar ferro deitaram.
Foi na Cidade o Rei logo avisado
Da Portuguesa Armada, que o Estandarte
Se mostra solto ao vento, matizado
Das Armas, que JESU com Luso parte:
E apenas tinha o ferro ao mar lançado,
Quando chegam do Rei ao Cristão Marte
Mensageiros em lancha bem remada,
De ricos paramentos adornada.
Um deles, que os mais tratam com respeito,
E autorizavam cãs, e qualidade,
Lhe diz: Salva-te o Céu, Varão perfeito,
Que honra, e glória te fez de nossa idade.
Ardel, a que este Reino está sujeito,
Te dedica uma amiga, e sã vontade,
Que já a teu Rei oferecer mandara,
Quando outro Geral seu aqui hospedara.
Portanto, se faltarem mantimentos,
Invicto Capitão, na tua Armada,
Ou, se pelo furor do mar, e ventos
Vem de velas, ou xárcia destroçada,
Pede; que os seus não são vãos cumprimentos,
Verdades si de uma alma afeiçoada
À fama das virtudes, que florescem
Em teu Rei, e às que tanto te engrandecem.
Com rostro alegre, posto que severo,
Responde Afonso ao mensageiro amigo:
Merecer a teu Rei, servindo-o, espero
Mercê tanta, e o favor que usa comigo.
E por meu Rei (que grato considero
A tanto amor) hoje também me obrigo:
Distância não fará que estreitamente
Não ame o Rei do Ocaso ao Rei do Oriente.
Com estes um do Luso bando veio,
Que a mensagem Real acompanhava;
A quem o Rei mandou para ser meio
De confirmar a paz, que desejava:
Que já naquelas partes, com receio
Que fosse a forte Armada, se esperava
A tomar em Malaca conta estreita
Da traição grande a Portugueses feita.
Este abraçando os pés ao valoroso
Afonso, que o levanta, lhe dizia,
Com lágrimas, que o gosto generoso
Por seus olhos gozosos dispendia:
Bem parece que o Céu, Varão famoso,
Onde mais necessário sois, vos guia;
E que tem para vós também guardadas
As empresas mais árduas, e arriscadas.
Reconhece Albuquerque a João Viegas,
Que com ele em Arzila militara,
E a seu lado nas bélicas refregas
O valor de seu braço eternizara.
Ó bom Deus, que no bem nosso te empregas;
Disse. E tendo-o nos braços, lhe declara
Quanto vê-lo com vida, e livre estima
Do caso, que a memória lhe lastima.
E como se ajuntasse aos mais cuidados
Os que em Viegas vê, considerando
Vários efeitos da alma derivados,
Que o sentimento estão representando;
Enquanto os Pagões andam elevados,
Tanto aparato bélico notando,
Lhe pede conte o trágico sucesso,
E da fortuna cruel o duro excesso.