LIVRO II

By Francisco de Sá de Meneses

Está na entrada da tartárea porta;

Precipício de medo, e horror cheio,

Onde os fios vitais Átropos corta,

Onde é confusão tudo, tudo enleio:

Dali, donde a esperança fica morta,

E habita o sobressalto co receio,

Corre um vale, por donde desce a gente

Perdida para o Reino descontente.

Por aquele vazio o Averno alento

Pestífero respira, misturado

Cos gemidos das almas, que em tormento

Blasfemam do rigor do Céu irado:

Confunde grosso fumo o negro assento,

Que nunca raio viu do Sol dourado,

Donde se ouvem rugir feras impias,

E nos ares gritar torpes harpias.

Ouvem-se ali do Cérbero latrante

Os triplicados hórridos latidos,

Com os brados do velho navegante,

Que à barca chama as almas dos perdidos.

Fama é que por ali desceu o amante,

A quem pluto, e Proférpina, vencidos

Do doce canto, a amada concederam,

Que seus olhos segunda vez perderam.

E o que susteve os cercos cristalinos,

Quando Atlas fiou dele o peso puro,

E aquele, que a gentil filha de Minos

Ingratíssimo foi sobre perjuro:

E outros, que, vãos seguindo desatinos,

Quiseram penetrar o centro escuro,

Também o infernal Rei com a doce amada,

Tantos tempos da mãe em vão chorada.

Daquele sítio horrível, e espantoso,

A quem teito é disforme imenso monte,

Com brado horrendo o Anjo tenebroso

Os Ministros chamou de Flegetonte:

Não quis passar o negro estreito undoso,

Podendo-lhe servir asas de ponte;

Que aos protervos desejos, em que ardia,

Um ponto eternidades parecia.

Logo do abismo os negros moradores,

Que na ambição primeira conspiraram,

Enchendo o ar de horroríssimos clamores,

Ante o mesmo furor se apresentaram:

Que monstros de ira, e de discórdia autores

Que de medonhas formas se ajuntaram

De Quimeras, Pitões, e Minotauros,

Hidras, Esfinges, Dragos, e Centauros!

Viam-se ali na multidão difusa

Briareus de cem braços descompostos:

Serpentinas cabeças de Medusa

E de feios Ciclopes feros rostos.

Enfim via-se ali cópia confusa

De diversos aspeitos, e supostos,

Cujos feios extremos de bruteza

Desconhecia a mesma natureza.

A multidão suberba já esperava

Que o Capitão do Erebo revelasse

O caso, que dor tanta lhe causava,

E em seu fatal serviço os ocupasse:

Quando ele, que até então calado estava,

Para que o caso em mais se reputasse,

Bramou, gemeu o cárcere fumante,

Tremeu a terra, descompôs-se Atlante.

Horrível gravidade ao fero aspeito

Gemendo triste ajunta, e exalando

Infausto fogo do abrasado peito,

A língua assi vibrou vociferando:

Tartáreos Anjos, dignos de respeito,

Que, depois do grão caso miserando,

Sofreis injusta pena, despenhados

Do Olimpo, para quem fostes criados.

Em lugar nosso aquele que governa

Lá de cima do claro Firmamento

Estrelas, Sol, e Lua, e cá na interna

Escuridão do Reino do tormento:

Formando o homem vil, já da superna

Região lhe deu o cristalino assento,

Que num tempo ocupou o Senhor vosso,

Nunca tão grande dor esquecer posso.

Presente agora tenho na lembrança

Quando de nada o homem foi criado,

Que com ingrata, e douda confiança

Comeu do fruito, que lhe foi vedado.

Em lugar de querer dele vingança,

Ordenou como fosse resgatado,

Quando por justa pena merecia

Não ver, nem gozar mais da cor do dia.

Enfim por ele o filho à morte entrega,

E o filho com morrer triunfou da morte,

E, descendo triunfante à região cega,

As portas quebrantou do muro forte:

Abriu nossas prisões; que a tanto chega

A grão miséria nossa, ó triste forte!

Levando as almas, que em poder tivemos,

A ocupar as cadeiras, que perdemos.

Os seus logo por ele tanto obraram,

Oferecendo a vida com fé tanta,

Que pelo mundo todo derramaram

Aquela lei, que nossas leis quebranta:

Depois aqueles Reis, que os imitaram,

As armas tomam com piedade tanta,

E, perseguindo os nossos, vão fazendo

Que tudo fique a Cristo obedecendo.

Entre estes (que isto só lembrar vos quero)

Animoso do Reino Lusitano

(Que já cobrar em nenhum tempo espero)

Deitou Afonso o povo Maometano:

Não contente com isto o bando fero

De Luso, assalta o Calpe Tingitano,

E, fazendo por vezes dura guerra,

Grão parte ocupa da Africana terra.

Correu ousado inquietando a costa,

Que intratável faz quase o Sol ardente;

Que dos perigos, e trabalhos gosta

Esta sempre invencível fera gente:

Traspassou Gama a zona contraposta,

Dobrando o promontório, em que o Tridente

Se rompe: e, minhas forças resistindo,

Tomou porto entre a foz do Gange, e do Indo.

Logo o invicto Cabral com nova Armada

Descobriu nova terra, e em nosso agravo

Lhe pôs nome; e tornando à destinada

Viagem, fim lhe deu suberbo, e bravo:

Gente em Calicut deixa batizada.

Ai de mim, de que serve dar-me gavo

De ordenar a Correia a dura morte,

Se ele, morrendo, melhorou de sorte?

Este famoso foi o que primeiro

Por Cristo derramou nessa Indiana

Terra seu sangue, ó forte Cavaleiro!

A meu pesar te louva a língua insana:

Vingaram em Cochim o alto guerreiro,

Alcançando vitória soberana

Os fortes Albuquerques, fortaleza

Fabricando por fim da ilustre empresa.

Ali o forte Pacheco fé eterniza,

Sustentando incansável o adquirido;

Depois Almeida, que as Estrelas pisa,

Se fez do Rume, e Malavar temido,

Morto o filho, que fama soleniza

De sábio, de invencível, de atrevido,

Já vistes que a vingança, involta em pranto,

Foi de Ásia, e Europa horrendo espanto.

No bravo Cunha um raio ardente vistes,

Que deixou as Cidades abrasadas,

Que a vossas leis sujeitas possuístes,

De que apenas há cinzas derramadas:

De Ormuz, e Goa já os sucessos tristes

Se contam nas Regiões mais apartadas;

E tanto de Albuquerque o nome cresce,

Que por grande no mundo se conhece.

Este, que o livre mar veio infestando

De lá, onde morre o Sol, até onde nasce,

Os nossos simulacros derrubando,

Com afronta fatal da infernal face:

Agora outro não visto mar cortando,

Para que novo mal nos ameace,

Vai, sem haver quem tanto orgulho dome,

Em Malaca prantar de Cristo o nome.

Quem duvida, passando lá esta gente,

Ver acabado o nosso antigo Império,

Que há tantos anos dura em todo o Oriente,

E rico de almas faz nosso hemisfério?

E que o povo Malaio opresso intente

Seguir com pesar nosso, e vitupério

A Romana piedade, e Lei de Cristo;

Já tudo sofrereis, se sofreis isto.

Que, se adiante passa, singulares

Vitórias temo, do infernal respeito

Eterna afronta; e já temo que Altares

Levantem a seu Deus a meu despeito,

Domadores das terras, e dos mares,

Não só em Malaca, Indo, e Pérseo estreito,

Mas na China, Catai, Japão estranho,

Lei nova introduzindo em sacro banho.

Mas, pois não pode ser nunca acabado

Nos peitos vossos o valor antigo,

Que já mostrastes quando, acompanhado

De vós, cobrei o Céu por inimigo;

Seja este atrevimento castigado.

Saí fúrias fatais, vindo comigo;

Contra eles mar, e ventos se embraveçam,

E, desfeitas suas naus, todos pereçam.

Tu Belzebu, que os ventos com tremenda

Violência moves contra mar, e terra,

E Leviatão no mar serpente horrenda,

Em quem tanto horror o abismo encerra,

Vosso valor no mundo hoje se estenda;

As ondas às Estrelas movam guerra,

Tudo sua natureza mude, e logo

Chovam mares os Céus, e as nuvens fogo.

Vinguemos nestes parte dos primeiros

Agravos, que sentis há tantos anos,

Nestes, que hoje orgulhosos, e guerreiros

Fazer-se intentam quase soberanos.

Disse Asmodeu; e nunca tão ligeiros,

Causando em terra, e mar mortes, e danos,

Romperam feros ventos desatados,

Como então os espíritos danados.

Não aguardam suberbos impacientes

As últimas palavras; mas, rompendo

Os ares, as moradas descontentes

Deixaram, mar, e terra revolvendo:

Por donde quer que passam insolentes,

Tudo vão arruinando, e desfazendo;

Condensam nuvens, e desatam ventos,

Abalando da terra os fundamentos.

Com mar bonança Afonso navegando,

Eis que o Céu de improviso se escurece,

A luz do Sol se turba; e, retumbando

Horríssono rumor, o vento cresce.

Logo o mar montes de água levantando

Dos ventos combatido se embravece;

E tanto, que as mais altas excediam

As marítimas ferras, que se erguiam.

Os trovões quase os polos abalavam,

Ameaçando ruína ao Firmamento;

Os rais uns aos outros se alcançavam,

Incendiários do fluido elemento.

Os mares com as nuvens se ajuntaram

Impelidos de um ímpeto violento;

E entre coriscos treva, estrondo os gritos

Dos tristes nautas eram infinitos.

Via-se lá a região Celeste cheia

Das ondas, que as Estrelas borrifavam,

E aparecer no fundo a loura areia

Nos vales, que entre as ondas se formavam;

Da morte qualquer peixe se receia

Por donde pouca havia aves voavam,

Sobia a nau às vezes ao Céu puro,

Outras tantas descendo ao centro escuro.

Turbados de tão súbita tormenta

Os pilotos, amaina, amaina gritam.

Dar a efeito a turbada chusma intenta

O que os mestres gritando solicitam:

Mas dos ventos a fúria turbulenta

Faz com que em vão as forças se exercitam

Dos soldados, e destros marinheiros,

E dos grumetes em sobir ligeiros.

Vio-se a flor de la mar em grande aperto,

Porque todas levava as velas dadas,

E a todos (tão grande era o desconcerto)

Tinha o temor, e medo as mãos atadas.

Mas com trabalho (enfim) no caso incerto

Foram logo as de gávia derribadas;

A grande depois destas amainaram,

As outras à fortuna encomendaram.

Ficou a galé Fênix sem bastardo,

E perto esteve de ser mor o dano,

Que em dar ao apito o Cômitre andou tardo;

E deu a salvação abrir-se o pano.

Lima, entre os nautas tímidos galhardo

Seu valor mostra, e brio soberano;

E já ameaçando, já com brando rogo

Fez dar de correr vela à antena logo.

Foi a vela de gávia da Almiranta

Ao mar, o mastaréu roto, abrasado

Do fogo horrendo, que aos mortais espanta,

Das nuvens por violência disparado:

Jaime a este tempo, que só em pena tanta

A de amor sente, o goroupés quebrado,

Aberta a nau, que investem montes de água,

Brasa era o coração, o peito frágua.

E acodindo o primeiro ao mor perigo,

Dizia enternecido o varão forte:

Que promessas, amor, são as que sigo,

Se, donde busco a vida, encontro a morte?

Eu de mim mesmo sou o mor imigo,

Que aos males corro, que dar pode a forte;

E qual o cego, guiado de outro cego,

Invisto o precipício, à morte chego.

A Serpente voadora, arrebatada

De um monte de água, às nuvens foi sobida,

E caindo de lá precipitada

No profundo ficou quase escondida.

Logo outra vez às nuvens levantada

Torna a descer com mísera caída,

E, dando entre duas ondas impetuosas,

Tábuas rendeu, e as curvas mais forçosas.

Começa logo a entrar pelas junturas

Abertas da galé impetuoso rio,

Infinitos descendo das escuras

Nuvens, que vão chegando ao extremo fio.

Os lassos nautas vendo as aberturas,

Os peitos lhes traspassa o medo frio,

Brada o Cômitre, vendo a morte perto,

Que acudam ao perigo descoberto.

A dar à bomba alguns logo correram,

Tornando o mar ao mar, que livre entrava:

Outros com chumbo em pranchas pertenderam

Tapar o que do lenho aberto estava.

Os mais, que estes ofícios não fizeram,

Alijaram ao mar quanto se achava

Na afligida galé, sem reservar-se

Riquezas, nem às armas respeitar-se.

Porém quanto o Piloto a gritos manda,

E quanto se trabalha, nada basta;

Que o temporal cruel tudo desmanda,

E sem proveito o tempo já se gasta.

Eis de horrendo naufrágio a hora infanda,

Hórrida a morte já a esperança afasta;

Ao mar rendida, e vento furibundo

A aberta galé vai a pique, ao fundo.

Pedindo auxílio a miserável gente

Aparece no irado mar nadando,

Com desesperação no mal presente,

A morte já esperada dilatando.

Eis logo Fernão Peres diligente

Àquela parte acode, ao mar deitando

Lenhos, tábuas, barris, provando modos,

Com que possa livrar da morte a todos.

No mesmo tempo igual era o perigo

Em toda a Armada, e todos trabalhados

Davam gritos, e vozes, que o inimigo

Vento levava em ecos mal formados:

Qual, vendo a morte, abraça o caro amigo,

Qual procura o pesar de erros passados,

Porque, quando esta vida ali perdesse,

Ir gozar da durável merecesse.

Nesta ânsia, neste horror ao dia horrendo

Sucedeu noite horrenda, e temerosa,

As nuvens de contino em fogo ardendo,

Cegando a vista a claridade odiosa:

Sair de seus limites pertendendo

O mar bramindo irado, a luminosa

Região subir queria das Estrelas,

Como por apagar o lume delas.

Isto vendo Albuquerque, e vendo os ventos

Recrescer da infernal fúria incitados,

E os trovões espantosos com violentos

Raios das negras nuvens disparados,

Tudo ameaçando morte, ouve os lamentos

Tristes dos companheiros trabalhados,

Humilde assi a Deus fala, e pede ajuda,

Que os castigos revoga, e os casos muda.

Imenso Criador, Pai soberano,

Restaurador do nosso bem perdido,

Lá no Céu do angélico, e do humano

Com sujeição eterna obedecido:

Verdadeiro Netuno, que do Oceano

Enfreias a suberba, e sobmetido

À lei inviolável, que lhe deste,

Dos limites não passa, que puseste.

Tu, que da injúria de Faraó livraste

O povo teu, abrindo o mar profundo,

E do comum castigo a Noé guardaste,

Quando a ruína universal do mundo:

Como nos desamparas? Não se afaste

De nós tanta piedade, em que me fundo:

Livraste o povo teu do mar insano,

Teu é também o povo Lusitano.

E se é vontade tua que morramos,

Seja assi; mas, Senhor, não desta sorte;

O lugar muda, seja onde possamos

Exaltar a tua Fé, sofrendo a morte:

Na apartada Malaca, aonde vamos,

Por te servir, buscar a gente forte,

Alegre cada qual perderá a vida

Pela ver venturosa a ti rendida.

Ó três, e quatro vezes venturosos

Os que tanto favor do Céu tivestes,

Que entre as bárbaras lanças animosos,

Perdendo a vida, eternos vos fizestes:

Vivem na fama os feitos valorosos,

Com que a pátria ditosa engrandecestes,

Nós ficamos aqui dela apartados,

No mar do esquecimento sepultados.

Assi gemendo disse; e entre tanto

O proceloso mar mais fé embravece,

Crescendo a confusão, crescendo o pranto

Da miserável gente, que perece:

Era tanto o rumor, o estrondo tanto

Da fera tempestade, que parece

Segunda vez o mundo destruir-se,

O Céu desencaixar-se, o Inferno abrir-se.

Rafael, protetor da Lusa Armada,

Mais ligeiro que o leve pensamento,

Co a rogativa, de alta fé animada,

O cristal penetrou do Firmamento:

Lá a Divina Sião está fundada,

Obra eterna do eterno Entendimento;

Quadra é a forma do edifício puro,

E de ouro, e jaspe o torreado muro.

Tem doze portas; em cada uma assiste

Guarda imortal armado de diamante;

Abertas sempre, ou caia a noite triste,

Ou rindo a bela Aurora se levante:

Lá nem se teme imigo, nem resiste;

Tudo é quietação, e pas triunfante,

Tudo cheio de glória, e de alegria,

Derivada do Autor do eterno dia.

Chegou diante da imensa Majestade,

Que é nas pessoas Trina, Uma na essência,

Onde unidos estão numa vontade

Iguais em tudo Amor, Poder, Ciência:

Trono ocupa de rica variedade,

Donde estão em gloriosa competência

A obra com a matéria, sem vitória;

Que iguais são no valor, iguais na glória.

Arco de preciosíssima esmeralda

É condigno ornamento ao Trono Augusto,

E serve na Eternidade de grinalda

Ao que dá leis a tudo, Imenso, e Justo:

Quatro animais na sempre verde fralda

Lhe assistem, que são contra o ódio injusto

Do ingrato povo a tantas mercês vistas,

Do que é leão cordeiro Coronistas.

Doze, e doze anciãos com níveos mantos

Em roda o cercam de ouro coroados,

Os quais, aos pés do Santo ali dos Santos,

Veneração lhe rendem ajoelhados:

Na santa humiliação, em ledos cantos

Com modo, e tom suavíssimo alternados,

Lhe chamam Deus da guerra, Rei benigno

Digno de adoração, de glória digno.

Prostrado humilde entre eles o glorioso

Custódio, a rogativa representa,

Com tácito falar, conceituoso,

Com que ao Altíssimo tudo se apresenta.

A Armada amiga, disse, Pai piedoso,

E o Varão pio, que estender intenta

Vossa Lei santa desde o Ocaso ao Oriente,

Todo o rigor do mar, e ventos sente.

Convocou Asmodeu do escuro Averno

As catervas ao fogo condenadas,

E com todo o furor, que encerra o Inferno,

O ar moveram, e as águas sossegadas.

Tudo, alterado pelo ódio eterno,

São móveis serras as regiões salgadas;

Velas, xárcias, e mastros rompe o vento,

E tudo é confusão, temor, lamento.

Teme, e lamenta a gente valorosa;

Que não é de temor o esforço isento:

Mas sente mais, que a morte rigorosa,

Que tenha escuro fim o santo intento:

Cada qual destes com ação gloriosa

O peito pôs por vós já a riscos cento,

Que, por ver vossa Fé santa estendida,

Seu amor oferece à morte a vida.

Vosso servo Albuquerque, reprimindo

No peito a dor intensa, em vós fiado,

Ao que um bom Capitão deve acudindo,

Ao nauta esforço dá, brio ao soldado.

Contritos todos vos estão pedindo

Remédio, e do furor do Inferno irado

Apelam para as Chagas do Cordeiro,

Donde o remédio seu manou primeiro.

E esse arco de esmeralda, que brilhante

É rico adorno do sagrado Trono,

Penhor é da clemência, que triunfante

É daquele arco do concerto abono.

Do homem sois desdo princípio amante:

Estes vos amam amoroso dono:

E, porque vossos são, são perseguidos,

Sejam também por vossos defendidos.

Sinta hoje esse dragão do reino escuro

Sobre o comum castigo outro castigo;

Deixe a traquilidade, deixe o ar puro,

E a paz aos homens, que não tem consigo:

A masmorrra, que fecha ardente muro,

Habite ingrato, de si mesmo imigo;

E, em pena de seu erro, tanta fúria

Converta contra si com sua injúria.

Assi disse ao Senhor, que o mar enfreia,

E tudo rege com eterno mando:

E em tanto calam os que à Imensa Ideia

Louvores cem cessar estão cantando:

Logo as almas ditosas, que recreia

A visão beatífica, rogando

Por Albuquerque cantam santos hinos,

Que alternam pelos tronos cristalinos.

O sempiterno amante, que esperava

Do aflito Capitão ser invocado,

E na Divina Mente preparava

O socorro ao Varão assinalado,

Fez sinal a Miguel (que vendo estava

Na amorosa piedade o decretado

Favor) e disse, um glorioso alento

Derramando por todo o Firmamento:

Eu tenho ao forte povo Lusitano

Por decreto ab eterno concedido

O vencimento, em tudo soberano,

Do Reino, a meu favor desconhecido:

O inimigo mortal do trato humano,

Que sente ser-lhe o homem preferido,

A estes, que amo tanto, dar procura

No mar agora morte, e sepultura.

Empunha a vencedora espada ardente,

Com que o primeiro insulto castigaste,

Quando a suberba da infernal serpente,

Perdida a luz, e graça, arruinaste:

E em favor desta minha amada gente,

Que já em passados transes ajudaste,

Dos teus acompanhado, desce logo;

Torne a rebelde esquadra ao eterno fogo.

Ao porto de Pedir a frota guia,

Aonde será de todo reparada;

E do medo, e trabalho deste dia

Terá descanso a Esquadra assinalada.

Parte do Empíreo a pura companhia,

Miguel vibrando a fulminante espada,

Firme escudo embraçado rutilante

De matéria mais dura, que diamante.

E penetrando o ástreo Firmamento

Viu do voraz Saturno a tarda esfera

A do maior fortuna, e a do cruente

Marte, que nos humanos ira gera:

Vê do radiante Sol o claro assento,

Que, como o coração, no meio impera;

E os dous astros, de quem acompanhado

Vai, e o motor à terra mais chegado.

Chega o Celeste exército voando;

A quem os inimigos do Céu vendo

Fogem da luz, que os turba; blasfemando,

O Divino socorro mal dizendo:

Os Celestes guerreiro castigando

A passada insolência, os vão correndo

Até as tristes moradas de dor cheias,

Aonde as almas estão de glória alheias.

Resplandecente Rafael seguia

O feroz Asmodeu, que acobardado

Daquele açoute vingador fugia,

Que em casa de Raquel tinha provado:

Qual foi ave noturna em claro dia

Do pássaro fugir, que estimulado

De um ódio natural a ira executa,

Ferindo-a até a encerrar na escura gruta.

Por outra parte os ventos vão fugindo,

Temerosos deixando a infausta guerra,

A natural braveza reprimindo,

Que altera o mar, abala, e rempe a terra.

Assi humilde as asas sacudindo

Por debaixo daquela firme serra,

Que oprime sua fereza, se tornaram

Às Eólias prisões, que quebrantaram.

Logo a negra cortina os raios correm

Do Sol claro, alegrando os mareantes,

Os Paraninfos a humilhar concorrem

Os mares, contra os Céus novos gigantes:

Com fervente piedade outros socorrem

Os tristes, e afligidos naufragantes

Da perdida galé, que inda lutavam

Co as ondas, e o favor do Céu clamavam.

Livre da morte, e horrível tempestade

A gente, destilando água aparece

Por cima do convés da nau de Andrade,

Que graças dando ao Céu, votos ofrece:

E bem notando o modo, e brevidade,

Com que a tantos livrara, já conhece

Não ser bastante a diligência humana,

Se não tivera ajuda soberana.

Mas os seis valorosos companheiros,

Que levados da intrépida braveza,

Desestimando o mar, aventureiros

Partiram, por se achar na heroica empresa;

No tempo, quando os infernais guerreiros

Os ventos movem à maior fereza,

A costa de Bengala atrás deixavam,

Bóreas em popa, e pelo golfo entravam.

Deu neles a diabólica procela,

Sem conceder lugar a que amainassem,

Quebrando os remos, e rompendo a vela,

Para que à salvação meios faltassem:

Que do tartáreo bando foi cautela,

Como por conjecturas alcançassem

Que o Céu o vencimento glorioso

Prometia ao valor do Sá famoso.

Dar-lhe mísero fim ali ordenaram:

Para o que Flegeton co mar reparte

O seu furor, e aos ventos ajuntaram

Da interior violência grande parte:

Os marinheiros tímidos ficaram

Cortados de temor, e faltos de arte;

O piloto também no transe forte,

Já posto se julgou nas mãos da morte.

Sem governo a través posto o navio,

Quase no ponto extremo de perder-se,

Pelo bordo lhe entrou um grosso rio

De um mar, que nele veio a desfazer-se:

Mas os fortes guerreiros, cujo brio

Não pode à força, nem temor render-se,

Com tal pressa, e valor logo acudiram,

Que à morte, e a todo Inferno resistiram.

Garcia pegou logo do governo;

Dão à bomba os dous Melos, e Coutinho;

E, o mar tornando ao mar, do mais interno

Desalagam o já alagado pinho:

Com Lemos, apesar do mesmo Inferno,

Vilalobos amaina o roto linho;

E, dando parte à antena conveniente,

Navega o lenho ao leme já obediente.

Já que em popa navega, os marinheiros,

A quem um frio medo congelado

Tinha o sangue nas veias, os primeiros

Correm logo ao trabalho costumados:

Porque o exemplo dos fortes Cavaleiros

Os tinha grandemente envergonhado;

E lhes dá seu valor tal segurança,

Que ressuscita neles a esperança.

Como ao tartáreo bando vão saísse,

Este primeiro assalto, muda intento,

Traçando com que ao menos nunca visse

De Malaca Garcia o áureo assento:

E, porque o atroz desenho se cumprisse,

Arrebatam do lenho; e do violento

Furor levado assi rompia os mares,

Qual de arco Persa a frecha rompe os ares.

Ignorando o fatal curso passaram

Por entre a grão Samatra, e o Quersonesso;

E, costeando a China, navegaram,

Sem do caminho conhecer o excesso:

Que, como tanto em pouco tempo andaram,

A Palinuro o desigual progresso

Enganara; de modo, que julgavam

Que de Bengala o golfo atravessavam.

Vestia luto o ar já pelo dia

Na marítima tumba sepultado:

Ex nuvem, que parece em fogo ardia,

Novo horror causa ao peito mais ousado.

Fero Abrego mor guerra ao mar movia

Furibundo, medonho, desgrenhado;

E do violento impulso o mar ferido

Forma gigantes mares ofendido.

As nuvens, que por mil partes se abriam,

Mil ofensivos raios disparavam,

Que com violento curso o ar fendiam;

Os trovões da terra o âmbito abalavam.

Os Céus (se crer se pode) temeriam,

Quando as gigantes ondas lá chegavam,

Que intentassem, quais já filhos da terra,

Também filhos do mar fazer-lhe guerra.

Assi furioso o vento, o mar furioso,

Por muitas partes o navio aberto,

Do sofrido trabalho tempestuoso

Se acharam de outro mor perigo perto:

Que num grande penedo, em que impetuoso

Quebrava o mar, então de ondas coberto,

Rompeu o frágil lenho persuegido

Do Inferno, mar, e ventos combatido.

Despedaçado o mísero navio,

Qual colhe um remo, qual um banco abraça,

E a Deus pedem favor com peito pio

No transe, que fim mísero ameaça.

Estando assi no derradeiro fio,

Em noite horrenda de esperança escassa,

Cada momento o medo mais se aumenta,

E mais da morte o rostro representa.

Todos da vida já desesperados

Nadavam tristes, dilatando a morte;

Mas vezes mil das ondas sepultados,

Já quase sentem dela o transe forte.

Outras vezes às nuvens levantados

Jogar com eles parecia a sorte,

E para lhes causar maior tormento,

Alargar-lhes da morte o sentimento.

Nesta falta de humana confiança

Chegaram de Miguel os companheiros,

E do crime tomando alta vingança,

Ferindo vão nos infernais guerreiros:

Humilham logo o mar, nova esperança

Tornando aos naufragantes Cavaleiros;

Que, o Celeste favor sempre invocando,

Com novo alento as ondas vão cortando.

Passada a triste noite em pena tanta,

De rosas coroada a bela Aurora,

Deixando o frio amante, se adianta,

Dando luz a Anfitrite, e à bella Flora.

O Sol logo atrás ela se alevanta,

E alegre sai do claro alvergue fora:

Desligadas as nuvens se esconderam,

E aos raios matutinos lugar deram.

A luz do novo dia aos naufragantes

Mostrou a terra, desejada tanto,

Em transes, e fortunas semelhantes,

Dando-lhes forças no mortal quebranto.

Cortam de novo as ondas espumantes,

Com tanto alento, e alvoroço, quanto

Costuma ter quem, quando a vê perdida,

Nas mãos da morte torna a achar a vida.

Perto da terra, que podiam ver-se

Quebrar na praia as ondas com braveza,

Depois em branca espuma resolver-se

Rebatidas da sólida firmeza,

Descobriram um rio, que a meter-se

Vinha no mar com rápida presteza,

Coroado de verdes arvoredos,

E na barra de aspérrimos rochedos.

Impedia-lhe a força da corrente

Poder chegar à desejada areia:

O que vendo Garcia, com fé ardente

Assi falou com a suprema Idéia:

Piedoso Pai, Senhor onipotente,

Cujo poder do mar a fúria enfreia,

E tremer faz no centro o duro Inferno,

Das causas Causa, e Movedor eterno:

De quem por vós trabalha, e vos adora,

Esquecei culpas como Pai piedoso,

E o furor reprimi undoso, agora

Das vidas, que são vossas, cuidadoso.

E vós, do Sol divino digna Aurora,

Do mar Estrela, e porto venturoso,

Dos afligidos nunca em vão chamada,

Valei-nos, Mãe do Esposo, e Filha amada.

Assi disse. E foi lá no Olimpo ouvido.

Tornou-se o mar tranquilo, o vento brando,

Suspenso esteve o rio, e reprimido,

As águas, que desciam, represando.

Coutinho em tanto náufrago afligido,

Mal já o furor das ondas contrastando,

Chega à praia deserta, onde só havia

Tudo oposto aos efeitos de alegria.

Lemos, e Vilalobos, que pegados

Vinham no roto mastro, à seca areia

Chegaram, porém fracos, e cansados,

E quase ainda nas mãos da morte feia:

Os ventres do bebido mar inchados,

A falta do sentido a vista enleia,

E o liquor falso, tornam com penosas

Ânsias brotando fontes amargosas.

Chegou o menor Melo a tomar terra,

De quem rios caudais se despenhavam

Das ondas, que lhe tinham feito guerra,

Que a seu pesar bebeu, e ao mar tornavam.

Sobre uns juncos deitado os olhos cerra;

Que mal ao sono, e apenas se entregavam;

Quando penas a penas acrescenta

Sonho, ou visão, que horrível o atormenta.

Pálido, e suspirando lagrimoso

O caro, e amado irmão se lhe oferece;

E todo inchado, hórrido, e espantoso

Dele manar por tudo água parece:

Com triste voz em ato lastimoso

Lhe diz: Se o fraternal amor merece,

E como em vida, assi liga na morte,

A lástima te mova minha sorte.

Acompanhar-te mais nesta jornada

Me nega o Céu: cortou a Parca dura

A vida a mil trabalhos condenada,

Que sem descanso momentânea dura:

Nesta região da nossa não tratada

Não me queiras deixar sem sepultura;

E que terá por ti, minha alma fia,

Os divinos favores algum dia.

Inda o vital alento hoje gozara

Pisando, como os mais, a seca areia,

Se, ao romper do navio, não quebrara

Esta perna, que vês inchada, e feia:

Vali-me então daquela Estrela clara,

Que ao porto guia, aonde a alma se recreia;

E com fé, e esperança o transe forte,

E tremendo, passei da vida à morte.

Por abraçar a sombra o Cavaleiro

Três vezes magoado estende os braços,

E três vezes em vão o ar ligeiro

Divide ao apertar dos vãos abraços.

Entretanto o defundo aventureiro

Deixou daquela forma aérea os laços,

E ao irmão deixa na alma lastimado,

Suspiros dando, em lágrimas banhado.

Levanta-se bradando, e diz: Espera,

Toma de mim o braço derradeiro:

Mas ai que já mo nega a Parca fera,

E és dos que o Céu habitam companheiro.

Fez termo a dor primeira; e considera

Ser tudo, o que sonhara, verdadeiro;

E com pena, e tristeza suspirando,

Pela praia o cadáver vai buscando.

Gracia entanto de seus braços tenta

A força extrema por chegar à terra

A tempo, que com grita turbulenta

Cópia de gente desce da alta serra:

A Diana entre a turba representa,

Quando vai a fazer aos montes guerra,

Uma grande, e formosa caçadora,

Daquelas serras natural senhora.

Veloz com arco, e frecha outra Atalanta

Os montes segue, e persegue fera

As feras, a que em vão ligeira planta

(Que ao vento iguala) a natureza dera:

O javali cerdoso a não espanta,

O tigre, a onça, o leão bravo espera

Feroz com todos, animosa, e forte,

E sempre vencedora os rende à morte.

Cercavam-na belíssimas donzelas,

Que também arco, e frecha exercitavam;

Porém, posto que todas eram belas,

Em beleza inferiores lhe ficavam.

Qual matutina Vênus, que às Estrelas

Abate a clara luz, de que se ornavam,

Tal de Titônia as vence a gentileza,

Que (ao parecer) do Sol a luz despreza.

Em áurea rede preso o áureo cabelo,

De tabi azul a roupa recamada,

Com rico fio de ouro em modo belo

De argênteas borboletas semeada:

Qal pintão ninfa caçadora em Delo,

Ou na Arcádia de feras povoada,

Pelo monte mover o pé de neve,

Que o vento calça no coturno breve.

Nunca Argos, Delo, ou Chipre em si gozaram

Forma de formosura mais perfeita:

As Graças todas nela epitomaram

Tudo, o que à humana vista mais deleita:

Descem do monte à praia, onde chegaram

Ao tempo, que Garcia nela deita

Um rio de amargoso mar bebido,

De alento falto, náufrago afligido.

De Titônia os monteiros arrogantes

Correndo todos vão contra Garcia,

Julgando que ouro, pérolas, diamantes

Consigo do naufrágio livraria:

Mas ele, que lutara um pouco antes

Co a morte mesma, o vil temor desvia,

E determina de vender mui cara

A vida, que das ondas escapara.

Um grosso, e duro remo, que o sustinha,

E lhe fora nas ondas companheiro,

Aperta; e contra o que primeiro vinha

Intrépido se lança aventureiro.

Já tímido o contrário se detinha,

Quando chegou o peso do madeiro;

E, parte da cabeça desbastando,

O cérebro se mostra palpitando.

Contra os mais impetuoso logo cerra,

Dos quais com fúria brava foi cercado:

De um só revés estende dous em terra,

Outro deixa dos dentes desarmado:

Tal como aos Filisteus, fez dura guerra,

Só da queixada o moço Hebreu armado;

Ou, como quando Alcides impaciente

Os Centauros matou co lenho ardente.

Brotando ira o guerreiro, o duro efeito

Do remo faz sentir a quem o braço,

A quem cabeça rompe, a quem o peito

Quebranta, e desfizera um monte de aço.

Titônia de ira cheia, e de despeito

Vendo tanto destroço em breve espaço,

E dos seus o temor, e vil fraqueza,

Acode à reprensão, como à defesa.

Entra a tempo que o fero moço do alto

Começava a descer um golpe horrendo:

Mas, chegando da doce vista o assalto,

Para o lenho, que vinha o ar fendendo:

E movido a respeito de ira falto,

O remo pouco a pouco foi descendo

Tal como a nau, a quem o vento acalma,

Velas afrouxa, e fica posta em calma.

Ela também ao cortês ato para,

Da ofensa, do rigor, da ira esquecida;

E no valor, e gentil ser repara,

De admiração, e lástima movida:

Compassiva amor na alma lhe prepara

Uma paixão, mal dela inda entendida;

E no compasso, que ele desce o remo,

O arco afrouxa, apartando um de outro extremo,

Absortos, como em êxtase ficaram,

A vista suspendendo os mais sentidos,

Por quem em tanto as almas se trataram,

Mandando pensamentos acendidos:

Logo ardentes suspiros se arrancaram,

De uma nova amorosa dor nascidos;

Já procura o desejo declarar-se,

Já torna por respeito a retirar-se.

Falar-se por três vezes cometeram;

Mas turbação, que amor traz nos repentes,

Os conceitos na língua escureceram,

Se bem na turbação ficam patentes:

O que atalhadas línguas não puderam,

Supriram mil afectos, e acidentes;

E os olhos, línguas da alma, declaravam

As ânsias, que nos peitos encerravam.

Neste tempo chegou à amada areia

Mileno marinheiro, a quem a sorte

Entre tantos salvou da morte feia,

Posto que receoso inda da morte.

A gente estranha vendo, se receia;

Porém, considerando o passo forte,

Que atrás lhe fica, se conforta, e anima,

E qualquer grande mal menor estima.

Na incerteza do caso tão estreito,

Oferecido a quanto está temendo,

Pôs em Titônia os olhos, cujo aspeito

Real piedade estava prometendo:

O temor convertendo já em respeito,

Humilde ante ela chega, assi dizendo:

Amparai, grão Senhora, um afligido,

Do mar, e da fortuna perseguido;

Que essa rara beleza, e majestade

Bem mostra ser dos Deuses procedida:

E, se divina sois, tende piedade

Lá nos divinos peitos produzida.

Assi rogava aquele, que a vaidade

Gentílica seguira toda a vida,

Chegando a Titônia, que não muda

Os olhos de Garcia atenta, e muda.

Era de ação Chim, e, naufragando

No Índico mar, de nauta ia servindo.

Ela, como de um sonho despertando,

O vizinho idioma Chim ouvindo,

Àquela parte inclina o rostro brando,

Novas alterações na alma sentindo;

E com palavras cheias de brandura

O favorece, anima, e o segura.

Alegre com ter já tão certo meio

Para entender o que a alma pertendia,

O naufrágio pergunta, e por redio

Fortuna, e qualidade de Garcia.

Ele (perdido então todo o receio)

Dando-lhe inteira conta, lhe acendia

Mais o fogo, louvando a fortaleza

Gentis costumes, partes, e nobreza.

Rendida amante o ouvia: eis maniatados

Lhe trouxeram os outros Cavaleiros;

Sofrer não pôde vê-los maltratados,

Porque eram de Garcia companheiros:

Soltar os manda, e foram castigados

Com ásperas palavras os monteiros;

Que julga amor, e culpa considera

A ação, que em outro tempo merecera.

Vendo-se os naufragantes, se alegraram

No que dava lugar a pena grave:

Lágrimas juntamente derramaram;

Que o chorar em tais casos é suave.

Os olhos de Titônia os ajudaram;

Que ordena amor que já com pranto lave,

E abrande o peito, que lhe tem quebradas

As frechas, com mais arte temperadas.

De ali para um magnífico edifício,

Que no cume do monte aparecia,

Cuidado a leva de piedoso hospício,

E reparo dos danos de Garcia.

Dele os olhos não tira, dando indício

Do fogo, que encobrir já não podia:

Mas quem o fogo esconderá no peito,

Que o não descubra logo o ardente efeito?

Guiando entanto a Armada o Céu amigo,

Chega de grão Samatra a ver a terra:

Logo entra de Pedir no porto antigo

Ao som do estrondo, e música de guerra.

E porque pelo rio sem perigo,

Pela estreiteza, e baixos que em si encerra,

Nunca lenhos tão grossos navegaram,

Junto da barra ao mar ferro deitaram.

Foi na Cidade o Rei logo avisado

Da Portuguesa Armada, que o Estandarte

Se mostra solto ao vento, matizado

Das Armas, que JESU com Luso parte:

E apenas tinha o ferro ao mar lançado,

Quando chegam do Rei ao Cristão Marte

Mensageiros em lancha bem remada,

De ricos paramentos adornada.

Um deles, que os mais tratam com respeito,

E autorizavam cãs, e qualidade,

Lhe diz: Salva-te o Céu, Varão perfeito,

Que honra, e glória te fez de nossa idade.

Ardel, a que este Reino está sujeito,

Te dedica uma amiga, e sã vontade,

Que já a teu Rei oferecer mandara,

Quando outro Geral seu aqui hospedara.

Portanto, se faltarem mantimentos,

Invicto Capitão, na tua Armada,

Ou, se pelo furor do mar, e ventos

Vem de velas, ou xárcia destroçada,

Pede; que os seus não são vãos cumprimentos,

Verdades si de uma alma afeiçoada

À fama das virtudes, que florescem

Em teu Rei, e às que tanto te engrandecem.

Com rostro alegre, posto que severo,

Responde Afonso ao mensageiro amigo:

Merecer a teu Rei, servindo-o, espero

Mercê tanta, e o favor que usa comigo.

E por meu Rei (que grato considero

A tanto amor) hoje também me obrigo:

Distância não fará que estreitamente

Não ame o Rei do Ocaso ao Rei do Oriente.

Com estes um do Luso bando veio,

Que a mensagem Real acompanhava;

A quem o Rei mandou para ser meio

De confirmar a paz, que desejava:

Que já naquelas partes, com receio

Que fosse a forte Armada, se esperava

A tomar em Malaca conta estreita

Da traição grande a Portugueses feita.

Este abraçando os pés ao valoroso

Afonso, que o levanta, lhe dizia,

Com lágrimas, que o gosto generoso

Por seus olhos gozosos dispendia:

Bem parece que o Céu, Varão famoso,

Onde mais necessário sois, vos guia;

E que tem para vós também guardadas

As empresas mais árduas, e arriscadas.

Reconhece Albuquerque a João Viegas,

Que com ele em Arzila militara,

E a seu lado nas bélicas refregas

O valor de seu braço eternizara.

Ó bom Deus, que no bem nosso te empregas;

Disse. E tendo-o nos braços, lhe declara

Quanto vê-lo com vida, e livre estima

Do caso, que a memória lhe lastima.

E como se ajuntasse aos mais cuidados

Os que em Viegas vê, considerando

Vários efeitos da alma derivados,

Que o sentimento estão representando;

Enquanto os Pagões andam elevados,

Tanto aparato bélico notando,

Lhe pede conte o trágico sucesso,

E da fortuna cruel o duro excesso.