LIVRO III

By Francisco de Sá de Meneses

Para ouvir a Viegas, logo corre

Com alvoroço a Lusitana gente,

Enquanto co a lembrança ele discorre

Pelos sucessos, que inda na alma sente:

E depois que o passo ali lhe ocorre,

E a memória lhe fez tudo presente,

Movendo a compaixão, e a sentimento,

Suspirando assi a voz soltou ao vento:

Mandais-me referir, Afonso invito,

Aquela triste, e lastimosa história,

Em que fui tanta parte? Teme o esprito

Entrar na antiga dor, teme a memória.

Mas, depois que nos males me exercito,

Só deste conseguir espero glória;

Que, bem que a pena amara ressuscita,

Obedecer-vos tudo facilita.

Desejoso da glória companheiro

Já fui de Diogo Lopes de Sequeira;

Deixei a pátria amada aventureiro;

O mar passei, seguindo sua bandeira.

Hoje, que sou infausto mensageiro

De fortuna cruel, a verdadeira

Relação dos sucessos lastimosos

Em meus acentos ouvireis queixosos.

Com viagem prolixa, e trabalhosa,

E inclemência do tempo, e mar chegamos

À opulenta Malaca, que famosa

Pode ser por traições, que exprimentamos:

Nela gente inumana, e cubiçosa,

Rei, que não guarda fé, nem lei, achamos;

Este nos recebeu brando no aspeito,

Se bem Diomedes no fingido peito:

Ou que no coração ódio escondido

Tivesse ao Cristão nome o Rei tirano;

Ou, de maus conselheiros persuadido

De novo se inclinasse a nosso dano;

Vimos que, o que mostrava, era fingido,

E de nossa ignorância o desengano

No dia, para nós fero, e tremendo,

Que inda agora a memória está temendo.

O principal sujeito no governo

De Maomé, e privança, era o Bendara,

Magistrado supremo; mas o Inferno

Cifrado no seu peito o Momo achara

A fraude, a ingratidão no mais interno,

Inveja, ódio, ambição, que nunca para,

E a suberba na fronte declarada,

Porque não pode estar dissimulada.

Este dos Guzarates subornado,

E mais nações, com trato cauteloso,

Não faltando também o ódio herdado

No seu pérfido peito cubiçoso,

Pôs (cego do interesse) seu cuidado

Em fazer o comércio nosso odioso;

E, como siga ao mau seu similhante,

Foi co tirano Rei pouco bastante.

Com traças paliadas dilatavam

Nossa partida; de uma, e de outra sorte

Disfarçando malícias, procuravam

Achar ocasião de nossa morte:

Porém traidores fracos não ousavam

O brio exprimentar da gente forte,

Que pelas nossas naus se descobria,

E o espantoso rigor da artelharia.

Foi do Malaio o simulado intento

Que incauto o Capitão saisse a terra,

E, dando-lhe a seu salvo fim violento,

Abrasar nossas naus com fácil guerra:

Por conseguir o iníquo pensamento,

Que dentro na alma traidora encerra,

O convida com máscara de engano,

Qual Tiestes a Jove soberano.

Para o mortal banquete fabricaram

Capas de grande número de gente,

Cenáculo espaçoso, que adornaram

Quantas se acham delícias no Oriente.

Já se chegava o tempo, em que cuidaram

O trágico fim nosso ver presente;

Para o que estavam todos avisados,

E nós do oculto dano descuidados.

O fim de todos fora aquele dia,

Que o convite infiel se celebrara,

Se o Céu, que o bem, e mal do mundo via,

Velando sobre nós, não lho estorvara:

Amor o meio deu, que na alma cria

Um ardente desejo, que não para

De procurar o bem da cousa amada,

Os grandes riscos estimando em nada.

Foi mensageiro visto na Cidade

Teixeira Cavaleiro bem disposto,

Em quem floresce com a flor da idade

Gentileza robusta em belo rosto:

As graças juvenis, a liberdade

Uma pagã donzela rende, o gosto

De tudo o mais perdendo, e se sustenta

Em lembranças, que amor lhe representa.

Qual a amante de Minos, passa o dia

Nas janelas de uma alta torre, donde

No mar a nossa Armada descobria,

E a nau, que o suspirado bem lhe esconde.

De ali brandos amores lhe dizia,

E por ele (enganando-se) responde,

Como se lhe tivera descoberto

O fogo, que em seu peito arde encoberto.

Que o tempo breve, e feminino pejo

Só deu lugar ao mal, a que obedece:

Ficou secreta amante onde o desejo

Possíveis, e impossíveis lhe oferece.

Do trato infernal soube neste ensejo

Roto o segredo, e novo mal padece:

Amante temerosa não sossega,

Que, começando a amar, a temer chega.

O querido mancebo imaginando

No duro transe de perder a vida,

O amor, que arde em seu peito, consultando,

No receio maior fica atrevida.

Um meio entre outros muitos aprovando,

Já de todo a veler-lhe oferecida,

Pela noite esperando, não descansa

Para chegar a efeito esta esparança.

Qual de Pasife a filha, vendo perto

Do perigo a Teseu, geme, e suspira

Até lhe poder dar remédio certo,

Que da biforme fera oprima a ira;

Tal do certo perigo, inda encoberto,

A livrar tenra amante o amado aspira;

E como amor do fraco faça forte,

A vida arrisca, desprezando a morte.

Quase era a noite então noturno dia,

Porque a luz dava o Sol a toda a Lua;

Da Cristã frota lanchas sair via,

Que sempre a faz velar pena tão crua,

Crendo que alguma à praia chegaria:

E, da vontade guiada já não sua,

Porta abre oculta pouco frequentada;

Chega à praia, de amor acompanhada.

Ali parou suspensa, e duvidosa

Das nossas naus à vista, o mar no meio:

E, chamando à fortuna rigorosa,

Já padece a que ousou, novo receio.

Mas do Céu providência milagrosa

Me lovu a tirá-la deste enleio,

Num batel dos que o mar correr mandava

Sequeira, que dos Mouros não fiava.

Como de Cíntia a luz, então mais pura,

Lhe desse a conhecer batel, e gente,

Que da noite rompendo a sombra escura

Descia para as portas do Ocidente;

Com delicada voz pouco segura,

Como quem de atraver-se temor sente,

Com as mãos acenando nos chamava;

A aflição, que sentia, a entender dava.

Eu as ações, e branda voz notando,

E de entender o caso desejoso,

Pô do batel na praia a proa mando,

E a recolho apressado, e receoso:

Na popa ela se assenta; e suspirando

Manifestou seu rosto lagrimoso

O amor, que por mil riscos a trouxera

A dar a vida a quem lhe a morte dera.

E prosseguindo desde o pensamento

Primeiro, que o Rei teve em nosso dano,

Aconselhado pelo fraudulento

Bendara, que a privança fez tirano;

Parou naquele fim sanguinolento,

Que em banquete Real, mas inumano,

Nos esperava, aqueles, a que em sorte

Tocasse ir com Sequeira à certa morte.

Depois que a grão traição, como lhe ordena

Amor, que a governava, nos avisa,

Manifestando da alma a viva pena,

Que com lágrimas tenras soleniza;

A mão me aperta, e diz pela serena

Luz, que a primeira esfera rege, e pisa;

Que este serviço, que vos tenho feito,

Ao dono relateis, que está em meu peito.

Os sinais vos darei parte por parte,

Do Céu milagres juntos num suposto:

Nos seus robustos membros vereis Marte,

E brando, e tenro amor no belo rosto.

Que ardentes mil dali tiros reparte!

Que suave pena dão, doce desgosto,

E a mim me tem tão cega, e tão perdida,

Que arrisco a honra, desestimo a vida.

Esse enfim, por quem penas entesouro,

Alvo, e corado, ao Sol formos afronta;

E agora pelas faces da cor do ouro,

Altivo o velo varonil lhe aponta:

É de rubis, e pérolas tesouro

A bela boca: mas ociosa conta

Vos dou. Ele a embaixada do Rei vosso.

Trouxe, para meu mal, ao Sultão nosso.

E porque já amorosa maravilha

Em mim desfez o feminil recato,

Alaida de Sultão Soleimão filha

Sou, irmão deste Rei convosco ingrato:

Do nosso antigo sangue a rica ilha

Da Jaua se honra; mas de amor o trato,

Fama, nobreza, e nome hoje atropela,

E meus excessos este excesso cela.

E como aqui cheguei, também chegara

Onde adorando assiste o pensamento;

E serva, como amante, ser prezara,

Adoçando sua vista meu tormento:

Se o temor, que fé tanta desprezara,

A tanto ousar não fora impedimento,

Na pátria (pode ser) preza a vontade,

Não terá para amar-me liberdade.

Mas, pois me foi tão próspera a ventura,

Que avisar-vos me deixa o oculto dano,

Tornar-me quero enquanto me assegura,

E cobre a capa do noturno engano,

Que já meia escondida a bela, e pura

Irmã do Sol, se banha no Oceano,

E o Deus do sono a todos tem rendidos

Agora os lassos, membros, e sentidos.

Assi disse; e no fim do peito ardente

Apressados suspiros deu aos ventos.

Eu mostrando-me grato, brandamente,

Avaro lhe não fui de ofrecimentos:

Dos quais ela mostrando-se contente,

Mil de novo me fez prometimentos.

E mais não dilatando sua partida,

Foi também lagrimosa a despedida.

Desestimando então todo o perigo,

A fraqueza deixá-la ir só julgando,

Levei dos companheiros três comigo,

Com que seguindo-a fui, e acompanhando.

As sombras tomei sempre por abrigo,

Por onde ela guiava, atravessando:

E, deixando-a segura, nos tornamos,

Aonde esperando os mais por nós deixamos.

Mando logo ferir cos freixos duros,

O líquido cristal aos remadores,

Das ondas penetrando aos seios puros,

Sobressaltando os mudos nadadores:

Já chegados à nau, quão mal seguros

Eram do Rei os tratos, e favores,

Ao cuidadoso Capitão dissemos,

De Alaida referindo o amor, e extremos.

Ele, como acontece ao caminhante

Por errado caminho em noite escura,

Vendo alto precipício, e onde errante

A morrer o guiava a sorte dura;

Tal suspenso ficou, e vacilante

Enquanto o breve sobressalto dura,

Posto que seu valor grande encobria

O temor do perigo, que se urdia.

Já das nocivas honras avisado

Naquela mortal cena apercebidas,

Antes do infausto dia assinalado

Para trágico fim de nossas vidas,

Mensageiro mandou industriado

Em palavras corteses, e fingidas,

Com que escusar-se pôde co tirano,

E atalhar por então o mortal dano.

Assi da morte livre foi Sequeira,

Mercê de amor, e de seu brando afeito.

Porém com mais cautela, que a primeira,

Nova traição maquina o impio peito:

Gente mandou com mostra lisonjeira,

Que tivesse conosco trato estreito,

Com refrescos da terra convidando,

Umas cousas vendendo, outras comprando.

Até que, já chegado o triste dia,

Que presente hoje choro na lembrança,

Em que o Rei enganoso pertendia

O duro fim da pérfida esperança,

O grão cuidado não valeu, que havia,

Nem de tanta vigia a segurança;

Ou nos cegou então Deus os sentidos,

Pode ser por pecados cometidos.

Decreto era fatal, que não faltaram

Avisos nas traições, que precederam,

Bem como quando a Troia não bastaram

As vozes, que Laôcon, e Cápis deram:

Os defensivos muros derribaram

E a máquina enganosa recolheram

Os seus Cidadãos mesmos enganados,

Porque estava ordenado pelos fados.

De novo o Capitão recado teve

Do ímpio Rei, que receber mandasse

De cravo mil quintais, que em tempo breve

Mandava que em três partes se entregasse,

Antes que às nações várias, que deteve,

Vindas primeiro ali, que nos chegasse

Este grande favor, que nos fazia;

Que ouvir queixumes escusar queria.

Que por lei não violada, e por costume

Despachava conforme a antiguidade,

Pertendendo imitar o diurno lume,

Que dá igualmente a todos claridade.

O Mensageiro o engano pôs no cume,

Mostrando mestre ser de falsidade;

Que tanto nele a fraude se encerrava,

Que ao pérfido Sinon atrás deixava.

Foi o difícil caso em votos posto,

De todos aprovado por seguro,

Mostrando muitos de ir a terra gosto;

Que não olha a cubiça o mal futuro;

E o mesmo Capitão com ledo rosto,

Não bem considerando o caso duro,

A Araújo mandou que se aprestasse;

E gente sinalou, que o acompanhasse.

Solícitos alguns já trabalhavam

Por estar bem de tudo apercebidos

Para a seguinte Aurora, em que esperavam

Ver fruito de trabalhos tão compridos:

Outros juntos em roda praticavam

Nos pérfidos recados, entendidos

Tão mal de nós: enfim por vários modos

Alvoroço geral se via em todos.

Alberto só, ciente em casos vários,

Que este julgava com juízo esperto,

Gritou zeloso: Como temerários

Correis com pressa tanta a mal tão certo?

Atalhai a malícia dos contrários:

Fugi da perdição, que tendes perto;

Que não pertendem mais que dividir-nos,

E co a fraqueza própria destruir-nos.

Necessidade um Rei tem de artifício,

Sendo seu gosto lei? eu o não creio.

Temei o Mauro engano, de que indício

Temos tão claro, e com razão receio.

Indo assi prosseguindo em benefício

De nossas vidas, em mau ponto veio

Quem vãmente atalhou as proveitosas

Razões com vis palavras afrontosas.

Era este um criminoso desbocado,

Que em vis façanhas dispendia a idade,

A roubos, e homicídios inclinado,

Vaso de ira, furor, temeridade:

E, como da cubiça era levado,

Cuidava, pondo os pés na áurea Cidade,

A grão sede fartar, a que sujeito

Dês dos primeiros anos tinha o peito.

Abrindo estava as portas do Oriente

Do louro Apolo a bela precursora,

Quando a Armada com ânimo inocente

Deixamos: ó cruel, ó infeliz hora!

Chegando à injusta terra, juntamente

Salta cada um de nós dos batéis fora,

Indo com alvoroço (ó triste sorte!)

Uns à dura prisão, outros à morte.

Neste tempo da terra para a Armada

Balões, e Calaluzes cruzar vimos,

Com gente para o caso concertada,

Segundo o efeito, que depois sentimos.

Mas, como o peito leal não teme nada,

Ser da gente ordinário presumimos,

Que mais contínua a Armada visitava,

Logo que o Sol nascendo se mostrava.

A gente, que entenderam ser bastante,

Foi pelas naus da Armada repartida,

Porque a certo sinal num mesmo instante

Perde-se o Capitão, e os mais a vida.

No próprio tempo em terra vigilante

O Bendara com Tropa apercebida

Aguardava o sinal, também preciso

Para dar em nós outros d’improviso.

Três léguas de Malaca um promontório

Se lança pelo mar ao Céu erguido,

Sinal à gente nauta peremptório,

Que lá, donde o Sol nasce, tem saído:

Ali antiga fama faz notório

Estar com duros montes oprimido

Um dos que contra o Céu moveram guerra,

Suberbo filho da abatida terra.

De trás de cuja altura aperceberam

Aqueles dias numerosa Armada

De navios de remo, que proveram

De gente belicosa, e arriscada:

A quem por inviolável ordem deram

Que, ao sinal de uma peça disparada,

Em damanda das nossas naus partissem,

Porque n’um tempo em terra, e mar ferissem.

Nós, não temendo engano, divididos

Aos três lugares fomos, que fingiram

Ter as prezadas drogas; porque unidos

Nunca seu duro intento conseguiram:

E em vão o temi já quando metidos

Nos vi pela Cidade, e quando abriram

Um comprido armazém, que alvoroçar-se

Vi muitos, e em catervas ajuntar-se.

No fim da grande casa nos mostraram,

Cuido trazido ali para este intento,

A flor ardente, e pesos prepararam,

Por disfarçar melhor seu pensamento:

Com pouca ocasião, que procuraram,

Descobriram seu fim sanguinolento,

E nos deram do mal já tarde aviso,

Mil crises, mil catanas d’improviso.

Este ímpeto primeiro resistimos

Mostrando vender caras nossas vidas,

E até à porta caminho largo abrimos

Pelas opostas armas homicidas:

Brevemente coberta a terra vimos

Do sangue, que corria das feridas;

E os primeiros, que o crime cometeram,

Lugar de arrepender-se não tiveram.

O trânsito da porta, a que chegamos,

Escolhemos então por sítio forte,

E alguns sobre os de dentro nos voltamos,

E tomou por nós deles posse a morte:

Já seguras as costas sustentamos,

À custa de infinito sangue, a forte

Grão tempo igual no desigual partido

O valor à fortuna não rendido.

Ali foi a contenda brava, e fera,

Com pertinácia, e mor furor travada:

Por entrar o inimigo persevera;

Firmes nós outros defendendo a entrada.

Porém em vão a resistência era

Já contra multidão tanta indignada,

Que no mesmo lugar, onde um caía,

Esquadra numerosa sucedia:

Bem como contra o forte Alcides, quando

Cortava uma cabeça da Lerneia,

Duas lhe renasciam ululando,

De horrível vista, e catadura feia:

Ou, como as tempestuosas ondas, dando

Em áspero penedo, ou firme areia,

Que se estão rebatidas desfazendo,

Quando outras, e outras vem já cometendo.

Gastada era do dia a maior parte,

E estava inda em seu ponto o duro assalto,

Porém se sustentava o furor Marte

De forças cada qual estava falto:

Com as forças também faltava a arte,

Quando rumor ouvimos no mais alto

Da casa, cujo teito aberto vimos,

E chover sobre nós tiros sentimos.

Araújo vibrando a espada forte,

Dizendo assi a morrer nos animava:

Fama imortal, aqui oferece a sorte,

A quem honrosa fama só buscava:

Aqui também nos abre passo a morte

À eterna vida, se a mortal agrava;

Morrendo pois por Deus, a Deus tornemos

Estas vidas, que dele recebemos.

Assim dizia; e sobre nós desciam

Frechas, dardos, e os gritos se aumentavam;

Os feros inimigos recresciam,

As feridas em nós se acrescentavam:

Os braços, a quem forças faleciam,

As espadas com mais vagar mandavam;

E alguns, o nome eterno repetindo,

Se estavam já da vida despedindo.

Mortos alguns, e os mais todos feridos,

De sangue faltos, de cansaço cheios,

Os inimigos bravos, e atrevidos,

Conosco entraram de temor alheios.

Ficaram com a vitória, nós rendidos,

Cercados de armas, e mortais receios;

E a sentir começamos os rigores

De cruéis inimigos vencedores.

No tempo que o furor, com que em nós deram,

Advertidos nos fez de nosso engano,

Os outros companheiros receberam

Nas mais partes o mesmo desengano:

E até alguns, que em fugida se puseram,

Alcançou, por ser mais ligeiro, o dano:

Outros ao mar chegaram, mas cobertos

De pó, sangue, e suor, da vida incertos.

De Alberto, que na praia cativaram,

Com dez feridas, na prisão soubemos

Como à sua vista os pérfidos usaram

De crueldades, bárbaros extremos.

Chegou Serrão a tempo que o salvaram

N’um batel nosso, que, batendo os remos,

Da terra se alargava perseguido

Dos inimigos, de que foi seguido.

Neste ponto, que em terra se ouvia

Rumor, e fero estrépito de Marte,

E a morte envolta em sangue aparecia

Da inimiga Cidade em toda a parte;

Não menos confusão na Armada havia,

Que os falsos inimigos, que com arte

Aquela manhã tinham nela entrado,

Se haviam já por tais bem declarado.

Naquele trabalhoso ponto esteve

Sequeira perto de perder a vida;

Porque do Utimoraxa o filho teve

Para o ferir adaga apercebida:

Mas algum puro espírito deteve

A dura mão, e ferro do homicida;

Ou ânimo faltou, que na empresa alta

Em baixos peitos muitas vezes falta.

Era da Jaua o fero Utimoraxa

Homem, que pelo trato, e marcancia,

Levantando-se foi de estirpe baxa

Em mísera pobreza, em que vivia:

Hoje rico à suberba não põem taxa;

Do Rei o favorece a tirania

E acreditado por prudente, e velho,

Um dos que votam é no seu concelho.

Um dos nautas, que na alta gávea estava,

Como ferir na praia os nossos visse,

E que nas outras naus já a morte andava;

Traição, traição, Senhor, gritando disse.

Sequeira o engano fero não cuidava;

Mas como as vozes, e o rumor sentisse,

Com desdém generoso se levanta,

E o cauto imigo sobressalta, e espanta.

Conheceram seu trato descoberto

Os Pagãos, e de um frio temor cheios

Buscavam, imaginando a morte perto,

Da vil fugida os afrontosos meios:

Também escolhem no perigo certo,

No mesmo ponto do valor alheios,

Os mais nas outras naus, para salvar-se,

Voar sem asas, e aos batéis lançar-se.

Como acontece à plebe junta, quando

Por festa os não domados Touros correm,

Sai o fero animal, e vão gritando,

E, por fugir, aqui, e ali concorrem;

Livre todos a praça enfim deixando,

Das seguras guaridas se socorrem:

Tais eles das naus saltam sem mais guerra,

E os remos batem por chegar a terra.

Livre Sequeira (bem que assaz turbado)

Do enganoso, e atrevido pensamento,

Eis vê da Armada imiga o mar coalhado,

Que a demandar o vinha, em popa o vento:

Vio que Serrão também vinha acossado

De imigos Calaluzes, e o violento

Estrondo na alterada terra ouvia,

Que mais cada momento, e mais crescia.

Manda nos batéis logo embarcar gente,

Que socorra a Serrão, e em terra invista;

E co valor, que pede o mal presente,

À fúria, e rigor bárbaro resista,

Até salvar alguns, que da insolente

Turba fugindo, pelejando à vista

Da Armada andavam, dilatando a morte,

Ou da prisão a miserável sorte.

E, como no perigo repentino

O costumado acordo não falece,

Invocando com fé o favor Divino,

Rosto à fortuna faz, que se oferece:

Manda âncoras levar, intento dino

Do herico peito, que em valor floresce;

E contra a numerosa Armada move,

Porque de ira tão justa o rigor prove.

Em breve a tiro de canhão chegando,

O estrondo começou fero, e tremendo,

Mortes a artilharia vomitando,

Que invisíveis os ares vão rompendo:

Sobem nuvens de fumo, o ar turbando,

E a clara luz do Sol escurecendo;

A confusão medonha se acrescenta,

Que ali a do eterno escuro representa.

Ouvem-se mil gemidos lastimosos

Dos que miseramente pereciam,

Dos lenhos os encontros rigorosos,

Que investindo uns com outros se rompiam:

Mil Vulcães fulminantes, e espantosos

Por entre o negro fumo apareciam,

Bem como quando Júpiter irado

Com feros raios fende o ar turbado.

No rigor duro da batalha o vento

Levanta o fumo, descobrindo o estrago

Do inimigo, e o Sal sanguinolento

Vê, e de mortos coberto o imenso lago:

Sucede logo ao Mouro atrevimento

Cobardia, e temor; com justo pago,

Do conflito fugindo se apartaram

Os que suberbos no conflito entraram.

Dão fogo logo, mas com vão efeito,

Na terra à artilharia muita, e gresso;

Que pouco lhe valera, se respeito

Sequeira não tivera à prisão nossa:

Refreia-lhe o furor, e ira no peito

Entender que alcançar aos presos possa

Por pacíficos meios liberdade;

E a deitar ferro torna ante a Cidade.

Então já no Ocidente a luz Febeia

Fim com o dia a tantos males dava,

E em seu lugar da noite a sombra feia

Por ocultar as cousas se apressava;

E nossa Armada, de mil mágoas cheia,

A perda dos amigos só chorava,

E em terra soam prantos, e gemidos,

Das ausências eternas procedidos.

Passou a noite: deu aviso a Aurora

Que vinha o novo dia, quando logo

O Capitão, que os companheiros chora,

Manda os vivos pedir com brando rogo.

Mas o Rei, em quem arde sempre, e mora

De um ódio contumaz o infernal fogo,

Aos rogos, e propostas magoadas

Satisfez com escusas concertadas.

Dês que alguns dias dispendeu Sequeira

Em recados contínuos, mas sem fruito,

Conforme a resposta última à primeira

Ordem, e traças do Bendara astuto:

Da infausta, e iniquíssima ribeira

(Bem que em suspiros dando ao Céu tributo)

Partiu, vendo que o tempo em vão gastava,

E que a monção de navegar passava.

Um Malaio no tempo da partida,

Funesto núncio da futura guerra,

Traspassada a cabeça de homicida

Frecha, deixou num barco junto a terra:

Este preso ficou, quando sem vida

Ficaram tantos, e na mão lhe encerra

Letra, que ao Rei injusto declarava

Que em nossas vidas seu remédio estava.

Deu logo ao vento as velas: nós ficamos

Com Araújo trinta e seis cativos,

Onde esquiva fortuna exprimentamos

No discurso de males excessivos:

Que fomes, que tormentos não passamos?

Que injúrias de inimigos vingativos,

Carregados de graves prisões duras

Em masmorras aspérrimas, e escuras?

Considerai os males, que sujeito

Em Egito sentiu de Deus o povo,

E quanto de Aureliano o duro peito

Obrou de Cristão sangue estrago novo:

E sabei que não foi menos estreito

O transe, porque a lágrimas me movo,

E da alma lastimada inda a memória

Estila, renovando a triste história.

Inventaram mil traças enganosas

Para nos apartar do culto santo,

Já com brandas promessas pouco honrosas,

Já da morte ameaçando o grave espanto:

Enfim forças ufando rigorosas,

A ferina maldade chega a tanto,

Que em alguns, a quem pés, e mão ataram,

Sanguínio rito à força executaram.

Mais avante passara o que sofremos,

Se neste tempo nos cruéis autores

Do rigoroso mal, que padecemos,

Não causara a ambição graves errores:

O Bendara, e o Begueia a tais extremos

De maldade chegaram, que traidores

Dar a seu Rei a morte pertenderam,

E do Reino Tiranos ser quiseram.

Mas como o Céu não sofre maus intentos,

Foi a traição infame descoberta:

O Bendara seus tratos fraudulentos

Pagou co a morte, pena justa, e certa.

Deu fugindo o Begueia vela aos ventos,

Encomendando-se à fortuna incerta,

E co Rei de Pacém vive seguro,

Que lhe foi na fugida asilo, e muro.

Quem neste começar vira a vingança,

E junta a vossas glórias esta glória,

Que como autor do mal, certa esperança

Dera princípio tal de alta vitória:

E já mal o culpado Rei descança,

Que tendo a culpa viva na memória,

Teme a pena, e convoca valedores

Para se assegurar de seus temores.

Neste infelice, neste triste estado,

Arrastrando as prisões cheguei um dia

Ao pé de uma alta torre, onde, assentado

Por descansar, chorei o em que me via.

Dei suspiros, dei ais, e desmandado

Algum dos que a dor da alma despedia,

Aos ouvidos chegou de quem chorava

Males, que amor na ausência acrescentava.

Ouvi como em resposta ais numerosos,

Que, ao que julguei, parece que detidos

A seu pesar no peito, pressurosos

Rompem, deixando os ares acendidos:

E suspiro não dei, que mil queixosos

Me não ferissem logo nos ouvidos:

Tal como quando as aves namoradas,

Se respondem das plantas apartadas.

Ardendo fiquei tudo no desejo

De saber donde os tristes ais saíram;

Mas, posto em pé suspenso, nada vejo

Daquilo, que os ouvidos descobriram:

Fazer enfim dali ausência elejo,

Trás comprido esperar; quando feriram

O ar novos suspiros, e fizeram

Com que de novo os meus lhe responderam.

Então já mais confuso, e desejoso

De saber o que neste caso havia,

À torre dando volta vagaroso,

Com leves passos, como cauta espia,

Dos suspiros o dono vi formoso

Honrando uma janela, que caía

Para a parte do mar, por donde os ventos

Lhe levaram co a alma os pensamentos.

Era a formosa Alaida, que chorava

(Desesperada amante) ali a memória

De seu amado ausente, e em vão contava

Ao mar, e aos ventos a amorosa história:

De seus males a amor a culpa dava,

Que longas penas dá por breve glória,

Glória, que escassa apenas se oferece,

E logo no melhor desaparece.

Sustinha o braço, e mão de neve pura

Como firme coluna a face bela,

De cujo Céu em graça, e formosura,

Vertia aljôfar uma, e outra Estrela:

Não cuido que ficara alma segura

De amor, chegando em tal extremo a vê-la;

E conheci então como a tristeza

Realça muitas vezes a beleza.

Causou-lhe minha vista sobressalto

Logo quando me viu; mas, conhecido

Dela, com alvoroço deixa o alto,

Fazendo-me um sinal mal entendido.

Cobrei o brio, de que estava falto,

E do peito qualquer temor despido,

Chegando-me a um postigo, que ali estava,

Que pouco ao parecer se frequentava.

Em seus princípios esta casa esteve

De munições, e enxárcias ocupada;

Mas, dês que mor grandeza o Reino teve,

Foi, donde bate o mar, outra fundada.

Alaida aos altos dela vir se atreve,

Só por poder chorar, sem ser notada,

De impossível amor as penas graves;

Para o que tinha por indústria chaves.

Em breve espaço veio a entrada aberta,

E para entrar lá dentro convidar-me;

Eu, já arriscado na ventura incerta,

Entrei, não duvidando a venturar-me.

Tornando ela a cerrar, a mão me aperta,

Servindo-me de guia até levar-me

Da grande casa a parte tão secreta,

Que de todo o temor ficou quieta.

E como um triste bem com outro se una,

Estivemos um pouco ali chorando:

Ela males de amor, eu da fortuna;

Alívio em tanta pena assi tomando.

Fez termo a dor: e ela na oportuna

Ocasião varonil valor mostrando,

À memória me trouxe as recebidas

Afrontas, e misérias padecidas.

Despois que esta tristíssima lembrança

No coração renova a grande mágoa,

E a grande dor, tão falta de esperança,

Tornou de novo a encher meus olhos de água:

Movida de segura confiança,

E de amor, que lhe acende a viva frágua,

Me persuade, me anima, e me convida

À doce liberdade co a fugida.

Dizendo-me que a tinha amor disposta

A acompanhar-nos em qualquer ventura,

Resistir à fortuna em contraposta,

Passar o mar, e ver a morte dura;

Na presença esperando ver-se posta

Daquele, a quem guardava fé tão pura:

E, sendo ingrato, em prêmio só queria

Ante os olhos morrer por quem vivia.

Que, para se lograr seu pensamento,

Escondidas naquela torre tinha

As armas, que ali via, e bastimento,

Com tudo o mais, que a navegar convinha.

Porque o Céu o maior impedimento

Facilitava já com a vista minha;

Que tanto no valor nosso fiava,

Que só avisar-nos, para ser, bastava.

Eu, tão firme propósito louvando,

Por todos me ofereço agradecido;

E, o lugar, dia, e hora assinalando,

Com alvoroço dela me despido:

Aos companheiros um, e um buscando

Persuadi, relatando o referido;

E foram largos rogos escusados,

Que fugir tanto mal os fez ousados.

Conformes sobre o modo de partir-nos,

Como em caso comum todos votamos,

E a embarcação, que havia de servir-nos,

Na praia cada um por si notamos.

Também, por que não possa descobrir-nos

Da falta lua as noites aguardamos;

E soubemos das horas, a que andava

A ronda, e que lugares frequentava.

De tudo à bela Alaida dei aviso

Com devido resguardo ó mesmo dia;

Pouco faltou que não perdesse o siso,

Não podendo co a súbita alegria.

Com lágrimas mistura o belo riso,

O rosto afeito da alma descobria;

Que, certa na partida, já esperava

Ver aquele, a quem mais, que a vida, amava.

A noite do concerto já chegada,

As prisões rotas, prontos à partida,

Onze fomos à porta sinalada,

Onde Alaida esperava apercebida.

Com Araújo os outros preparada

A lancha haviam de ter para a fugida,

Que eu cuidadoso já notado tinha

Ficar só no lugar, que mais convinha.

Enfim da bela amante acompanhados,

Encobertos da amiga noite escura,

Das cousas necessárias carregados,

Ao mar chegamos: mas (ah forte dura!)

Não eram inda os mais ali chegados,

E a temer começamos a ventura,

Em que ter não se deve confiança,

Porque é de vidro a mais firme esperança.

Suspensos neste estado rigoroso,

Bernardo, êmulo então do leve vento,

Anelando chegou triste, e medroso,

E quase sem poder tomar alento:

Atrás olhando como receoso

Daqueles, que imagina em seguimento,

Nos disse: Que fazeis? fugi coitados

Dos bárbaros cruéis de morte armados.

Já cos mais ocmpanheiros desditosos,

Presas as mãos atrás, fica Araújo;

Eu só, por mil rodeios perigosos,

Coberto da noturna capa, fujo.

E, se fugir quereis os rigorosos

Tormentos, que penetram n’alma, cujo

Fim a morte será, se nos detemos,

Fazei àquela lancha asas dos remos.

Que obrou o medo então, negar não posso:

A lancha nos parece milagrosa,

Saudável meio do remédio nosso

Em hora tão estreita, e trabalhosa.

Eu, sem me deter mais, dela me aposso,

Por ser qualquer tardança perigosa:

Tínhamos vela, e remos, e provida

Em breve espaço foi para a partida.

Dando pressa o temor, nos embarcamos;

E os remos dando ao mar, o pano ao vento,

A cidade inimiga atrás deixamos,

A prestesa invejando ao pensamento.

Sete diurnos giros navegamos,

Sem cousa achar contrária a nosso intento,

Pacém na oitava Aurora descobrimos,

E a fortuna também contrária vimos.

Do porto despediram três manchuas,

Que travaram conosco estreita briga;

Mas, recebendo mil feridas cruas,

Mostramos quanto a liberdade obriga:

Viram eles, também com mortes suas,

Não terem a fortuna por amiga;

E com morte de um nosso, que Céu goza,

Alcançamos vitória milagrosa.

Porém cada um de nós sangue perdia,

E estavam em ventura nossas vidas:

Vinda a noite, o sereno, que corria,

Exasperava as dores das feridas:

Mas, anunciando a Aurora novo dia,

Tendo a esperança, e forças já perdidas,

Dispostos a morrer, a vida achamos

No amigo porto, em que agora estamos.

O alento nos tornou perdido o gosto,

Quando sobre a quela alta rocha vimos

Aquele padrão santo por nós posto

No tempo, que outra vez daqui partimos:

O pranto a cada qual banhava o rosto,

E com devota salva o ar ferimos,

Adorando com viva confiança

O Divino sinal de alta esperança.

Bem o velo arvorado nos mostrava

Que ainda a paz, que assentara com Sequeira

Este piedoso Rei, se conservava,

E a recíproca fé guardava inteira:

E não nos enganamos; porque estava

Em seu peito tão firme, e verdadeira,

Que em sua observação exemplo é raro,

E em nosso mal achamos nele amparo.

Agora o valor vosso me assegura

A do Malaio Rei justa ruína,

Que no mal obstinado há tanto dura,

E os homens contra si, e a Deus indina:

A vós Senhor, a vós, a cerviz dura

Domar deste rebelde o Céu destina.

Assi deu fim, e juntamente inspira

Na comiseração afeitos de ira.