LIVRO IV
Dos montes de Samatra o Sol dourava
Os cumes altos, começando o dia,
A seu trabalho o lavrador tornava,
O gado pelos campos se estendia:
Quando, por ver Afonso, se embarcava
Ardel, co a bela Alaida em companhia,
Em lenho, que toldou rico brocado,
Dos melhores do Reino acompanhado.
Trás este, em que o galhardo Rei navega,
Doutros arranca multidão confusa,
E tudo festival à Armada chega,
Cos tangeres, que a gente Oriental usa:
Ledo em festejar também se emprega
O ilustro Capitão co a gente Lusa,
As naus de Tíria cor empavezadas,
Com bela variedade embandeiradas.
E dada a salva alegre, se espantosa,
Ao bargantim, que chega a bordo, desce
A receber Ardel, que co a formosa
Alaida pela mão se lhe oferece:
Ele com largo exórdio a amorosa
História, e varonil feito engradece;
Logo lha entrega, e os onze aventureiros,
Em seus riscos, e casos companheiros.
Com palavras, que mostram d’alma o afeito,
Obrigado se mostra, e agradecido
O capitão a mercê tanta, o peito
Da presente alegria enternecido.
Sobem à grande nau, donde o respeito
Real foi venerado, e aplaudido;
Cadeira Afonso ocupa, e ao modo Mouro,
Rica almofada Ardel broslada de ouro.
Albuquerque no garve, e augusto aspeito
O seu alto valor claro mostrava;
A nívea barba lhe cobria o peito,
Que a prudência, e conselho acreditava.
De grã era o vestido, ao modo feito,
Que Portugal naquele tempo usava;
Toga rica do mesmo, soberano
Trajo, que usava o ditador Romano.
Tinha Ardel, que gosava a flor da idade,
Nus os robustos membros bem formados,
Cobria de broslada variedade
Rico pano os lugares reservados:
No rosto uma agradável majestade,
Os braços de manilhas rodeados,
Nos dedos anéis ricos rutilantes,
Nas orelhas pingentes de diamantes.
Trazia-lhe o arco, e frechas um vistoso
E galhardo mancebo à sua usança,
Cargo naquelas partes tão honroso,
Que anda em quem bebe o bafo da privança:
Admirava a Albuquerque o generoso
Modo de Ardel, e amiga segurança;
E Ardel, em Albuquerque idolatrando,
O estava por divino respeitando.
E disse: Mais, que ser senhor do mundo,
Fazer este serviço a teu Rei preso;
E tanto em sua amizado hoje me fundo,
Que ter as dos vizinhos Reis desprezo:
Ódio em meu peito concebi profundo
Contra o tirano da áurea Quersoneso,
Depois que exercitou sua tirania
(Indigno Rei) na Lusa companhia.
Ver-te, varão insigne, desejava,
E me acendia a fama este desejo,
Que teus feitos heroicos publicava,
E altas virtudes, que em teu peito invejo:
Nada para ditoso me faltava,
Se vira o grão Manoel como te vejo:
Porém cá mo retrata o pensamento,
E de ouvir suas façanhas me contento.
Ao Rei amigo o capitão prudente
Assi disse com alma agradecida:
Ó tu piedoso só co a Lusa gente,
De tantas tiranias perseguida,
Terás paga do Céu eternamente,
E, para te servir, em mi esta vida:
Terás em Manoel perpétuo amigo,
De todos teus contrários inimigo.
E, das partes passando, que me invejas,
(Que exagerar mentindo deve a fama)
As de meu Rei, que são as que desejas,
Que é recolher a luz que o Sol derrama,
Para que em breve círculo hoje vejas
A grandeza melhor, que o mundo aclama,
(Posto que temerário já a ser venho)
Direi o que alcançar meu curto engenho.
Com santo exemplo de Minerva aprende
Leis, que obedece, se as promulga Augusto;
Que nunca sejeitar-se às leis ofende
A grandeza Real do que é Rei justo:
Em manter em justiça, e paz, entende
Seus vassalos, e foge do ócio injusto
Pai amoroso; e mais, que nas cidades,
Nas almas reina, impera nas vontades.
Habitam no Real benigno peito
Constância, sofrimento, e fortaleza,
E tais se vem no venerando aspeito
A mansidão, brandura, e gentileza.
Se erros castiga, é com piedoso afeito,
Liberal premia, a temperança preza,
Não sentem nunca seus ditosos povos
Injustas opressões, tributos novos.
Por ele a santa Astreia desce à terra,
Que alegre, e bela no seu Trono a vemos;
Donde a fraude, e violência se desterra,
E a razão, e igualdade conhecemos:
E, se na paz é tal, também na guerra
É magnânimo, é forte: e bem devemos
Por um Rei, que tão brando, e justo impera,
As vidas arriscar à morte fera.
Por extremos, e meios não cuidados,
O pôs o justo Céu no Régio assento,
Que tinha a seu bom zelo já guardados
Troféus opimos de vitórias cento.
Prosseguiu com sucessos sinalados
Do santo Infante Henrique o pio intento,
Dobrando aquele inculto, e grande cabo,
Oculto a Ptolomeu, Pompônio, e Estrabo.
Estendendo a Fé santa, mil perigos
Os seus venceram, e mil casos duros,
Escurecendo a fama dos Antigos,
Consagrando-se aos séculos futuros:
De lá vencendo enfim está os imigos,
Co grande nome; e abate os altos muros
Ajudado dos Céus; e em mar, e terra
Tem fechadas na mão a paz, e guerra.
E, para te dizer em breve suma
O que impossível é parte por parte,
Do Douro, e Tejo venerado é Numa,
E do Indo, e Ganges aclamado é marte:
Que em sua virtude é bem que se presuma,
O ser vencedor sempre este estandarte
De mil riscos, e transes perigosos,
Rotos tantos imigos poderosos.
Deu fim. E o Rei pagão mais engrandece,
E inveja as partes do grão Rei do Ocaso.
Afonso à bela Alaida se oferece,
E as graças rende do amoroso caso.
Os hóspedes abraça, e com eles cresce
O gozo, e festa no andante vaso.
Admirava-se Ardel de quanto via,
Elevado na Lusa bizarria.
A Albuquerque não menos o admirava
Do bárbaro galhardo a alta bondade;
E mostrar-se-lhe grato desejava
No que desse lugar a brevidade.
Taça rica lhe deu, que retratava
Ao natural de Ulisses a cidade,
Desde o sublime alcáçar, e altos muros,
Até onde os pés lhe lavam cristais puros.
Mostrava o lavor douto dous potentes
Exércitos, que a estavam debelando;
Um de estrangeiras valorosas gentes,
Outro de um invicto Luso memorando:
Logo assaltos, façanhas excelentes,
Em que se estão uns aos outros emulando:
No fim de tudo a gloriosa entrada,
E, desfeito o Agareno, libertada.
Do ouro fino, que o Sol no caudaloso
E claro Tejo cria entre as areias,
Ou que a seu leito trás, quando furioso
Da madre terra rompe as áureas veias,
Um vaso, em que entalhou fabro famoso
Das Tágides formosas as coreias:
O prato com seu preço enriquecia;
E Ardel matéria, e obra engrandecia.
Deu-lhe um prezado alfanje Damasquino,
Dele mais estimado, que um tesouro,
Dizendo: Este ganhei ao alcaide Ancino,
Em duelo rendendo ao forte Mouro.
De mim será estimado dom Divino,
Querido mais que quanta há prata, e ouro
(Disse Ardel) e prometo-te empregá-lo,
E em nome de teu Rei exercitá-lo.
Trás isto com solene juramento
De novo a paz a confirmar tornaram;
E logo com geral contentamento
Os aplausos, e vivas começaram.
Fez sinal de Misseno o instrumento
Às demais naus, que este ato celebraram
Com músicas, e bailes de alegria,
E estrondo festival de artilharia.
Este ato soleníssimo acabado,
Solene foi também a despedida,
Um e outro julgando-se obrigado
Ao amor, que durou por toda a vida.
Foi Ardel de Albuquerque acompanhado
Do rio grande espaço; e na partida
Segunda vez de novo as mãos se deram,
E recíproco amor se prometeram.
E como liberal desejo encerra
O Rei, enquanto se repara a armada,
Com quanto cria o mar, produz a terra,
Era todos os dias visitada.
Não ficou fera na intricada serra,
No campo animal de Ele, e na salgada
Região nadador, em planta fruto,
Que aos de Luso não fosse dar tributo.
Assi descansa o povo trabalhado,
E afeitos liberais o Rei ostenta:
Mas não descansa Afonso; que o cuidado
O desvela do peso, que sustenta.
E já que viu de todo restaurado
O dano recebido na tormenta,
Despedido do Rei, dar manda as velas;
Rompem as naus o mar, e as ondas nelas.
Do não visto canal novo roteiro
Os sábios nautas sinalavam, quando
Uma vela, gritou um marinheiro,
Lá terra terra se nos vai furtando.
Logo daquela empresa o alto guerreiro
Aires Pereira a glória desejando,
No batel a segiu com dez ousados,
De arneses fortes, e valor armados.
Bem como o alão castiço o lobo vendo
Pelo monte se lança, e generoso
Chega onde o bruto fero revolvendo
Os dentes bate horrendo, e corajoso:
Tal o invicto Pereira, o mar rompendo
No lenho bem remado, impetuoso
Chega ao imigo, que feroz o espera,
E o recebe feroz co a espada fera.
O ferro, por ferir um, e outro, aperta,
E da vitória a palma ter pertende:
Brama o Pagão: e nesta sorte incerta
Os seus anima, e forte se defende.
Voam tiros, qual erra, qual acerta:
Tal vez um se repara, tal ofende,
E com ira, e furor, que infunde Marte,
Hora da força usavam, hora da arte.
Tinha-se largo tempo combatido,
Sem que se conhecesse melhoria;
Pereira em muitas partes já ferido,
E dos mais no batel sangue corria.
Tinham da parte adversa alguns caído,
Rendendo inteira palma à morte fria;
E o bárbaro caudilho tão terrível,
Que o puderam julgar por invencível.
Pereira, envergonhado da tardança,
A força apura: e todo envolto em ira
Um freixo grosso, que brandiu por lança,
Ao peito do valente imigo tira:
Passou por alto, e o Mouro se abalança;
Que então já só a vingar sua morte aspira:
No batel salta; que a quem movem a fúria
Não teme a morte, nem estima injúria.
Todos nele as espadas empregavam,
E a todos admirava um monstro horrendo;
Porque enxutas, e limpas as tiravam,
Das feridas o sangue não correndo.
Os seus entanto não se descuidavam,
Pedras, frechas, e dardos despendendo:
Repara-se Pereira, e de estocada
No peito irado lhe escondeu a espada.
Qual acossado o javali furioso
Por lanças rompe, e co monteiro cerra;
Tal o feroz imigo monstruoso
Os mais despreza, e dá a Pereira guerra:
O acicalado ferro luminoso
Toma a duas mãos; e co furor, que encerra,
Um fendente lhe tira; mas ligeiro
Se aparta, e cerra o Português guerreiro.
Pereira, nas suas forças confiado,
Co Agareno se abraça; e de tal sorte
Nos braços o apertuo no ar leventado,
Que o espírito render-lhe fez a morte.
O corpulento Anteu assi apertado,
Nos braços acabou de Hércules forte,
Por que forças da mãe não recebesse,
E as recebidas últimas perdesse.
Do corpo despedida a alma indignada
Pela porta desceu da pena, e pranto
Àquela escura, e mísera morada,
Que até no pensamento causa espanto.
Dos valentes soldados foi entrada
A defendida embarcação entanto,
E cativos alguns dos defensores,
Despois de obras em armas superiores.
Alcançada a vitória, extinta a ira,
Saber o cavaleiro desejava
Quem fora o forte bárbaro, em quem vira
Tanto valor, que morto inda invejava:
Feridas mil lhe vê; e mais se admira
De que nenhuma sangue derramava:
Enfim pergunta o que lhe causa espanto,
A um velho, que lhas lava com seu pranto.
Força (disse ele) de cruel destino,
Em vão com vários meios resistida,
Foi guiando a essa morte de contino
Esse, que a vossas mãos perdeu a vida.
Querer fugir ao fado é desatino;
E são mui poucos os que tem unida
À razão a vontade; e entre cento
Domina os astros um co entendimento.
Seu bom progenitor no rigoroso
Ponto antes de expirar a mim o entrega:
Estimei o penhor pouco ditoso,
Porque a minha desdita o bem lhe nega.
Servo, se bem no amor pai cuidadoso,
Fiz quanto a diligência humana chega,
Por ele a várias partes navegando,
Oráculos, e Magos consultando.
De um monte de Ceilão na excelsa alteza,
Desde antigas idades venerada,
Onde um penedo na hórrida aspereza
Conserva de um varão santo a pegada,
De ciência rico, amante da pobreza,
A adivinho Larnão teve morada:
Buscá-lo fui; que amor é todo excessos
Por saber deste o fim, vida, e sucessos.
Já que a meu rogo levantou figura,
Deixou incerta assi minha esperança;
Com valor grande seu secreto dura:
Dará reinando a seu maior vingança.
Mas corta astro infeliz esta ventura;
Sua vida estará posta em balança:
Mas, se lhe for contrária em tudo a sorte,
Eterna fama o livrará da morte.
Dali passei lá donde o grande rio
Mecom em gruta escura respondia:
Propus-lhe meu desejo, ou desvario;
E tal reposta assi me desconfia:
Cortará ao forte moço o vital fio
Um, que virá lá donde acaba o dia.
Eu doudo então, co a dor de amor levado,
Quis estorvar o que ordenava o fado.
No mais inculto da fragosa serra,
Da Jaua animal fero, e raro habita,
Que virtude num osso tanto encerra,
Que, remora do sangue, o da água imita:
Fiz-lhe até o alcançar, e aos montes guerra;
Que amor todo o trabalho facilita,
Cuidando assegurar co ele a vida,
De mim guardada em vão, dele oferecida.
A esquerda costa do animal precioso,
Abrindo-o vivo, lhe arranquei do peito;
Dela a manilha fiz, que o valoroso
Braço rodeia, e tem o sangue estreito:
Felice caçador, mas desditoso
Em conseguir de meu intento o efeito;
Que à minha diligência que lhe importa
Fechar o sangue, aberta à morte a porta?
Deitou ferro em Malaca o Luso bando
E o vates de Mecom trouxe à lembrança:
Temi, fero homicida imaginando;
E anticipar-me quis, cego à vingança:
Tanto pedindo fiz, e a conselhando,
Que em parte consegui minha esperança,
Com mortes, e prisões de alguns dos vossos,
Que custaram também muitos dos nossos.
E, para que melhor do caso, informe,
Sabei que foi o grão Naodá Begueia
Esse, que a morte fez tanto disforme,
E em forma vendo estais hórrida, e feia:
Se fora o fado a seu valor conforme,
Malaca, que inda dele se receia,
Sua fora; atalhando imenso dano,
Livrara a amada pátria de um tirano.
Que esse infelice, a quem estrela dura
Ordenou males de remédio fora,
Descendia do Rei de Sincapura,
Morto pelo traidor Paramisora.
Por reinar justamente se aventura
O peito ilustre, em quem o valor mora,
E devia vingar seu ascendente
No do traidor tirano descendente.
Mas como para o efeito do grão caso
Era forçoso dar a muitos parte,
(Qual se derrama às vezes, se de um vaso
Algum licor por outros se reparte)
Se derrama o segredo antes do prazo
Já concertado com indústria, e arte:
Enfim, minha esperança destruída,
Uns perdemos a pátria, outros a vida.
Deixou ontem Pacém neste navio
De mim o varão forte aconselhado,
Dando com má fortuna ao vento frio
Velas, fugindo de Albuquerque irado:
Torcia a parca o derradeiro fio;
E, quanto fiz por contrastar o fado,
Foi apressá-lo mais; que, se porfia,
A uns cruel arrasta, a outros guia.
Criei desde o infelice nascimento
O que frio cadáver estais vendo.
Porém aqui, senhor, o sentimento
Está da história o fio interrompendo.
Nega o apressado soluçar o alento,
E dos olhos dous rios saem correndo:
Não o estranheis; que do esperado fruito
Já não me fica mais, que sentir muito.
Assi dizendo, caudalosa veia
De soluços, e lágrimas derrama:
E como a vida o mísero receia,
A morte pede, e pela morte chama.
Mas pereira façanha julga feia
Dar a morte a quem já só morrer ama:
E do braço tirar manda a manilha,
Do sangue remora, e alta maravilha.
Tal como nos jardins sucede, quando
O secreto registo o cultor move,
A rperesada ninfa sai pulando,
E livre da prisão no tanque chove:
Tal o sangue detido rebentando
Causa espanto; e já a lástima comove
No instante, que do braço fora esteve
A atrativa força, que o deteve.
Deixa o sangue o cadáver num momento:
E Pereira admirado, e satisfeito,
Ferir cos remos manda o salso argento
Por contar a Albuquerque o estranho feito.
Presentou-lhe a manilha (alto portento
Por seu maravilhoso, e raro efeito)
A aqueles poucos bárbaros cativos,
Que dentre as mortes escaparam vivos.
Estima o capitão o dom precioso,
E a morte sente do traidor Begueia,
Que a fama desdourou de valoroso
Levado da ambição, que mal se enfreia:
Mal julga por agouro venturoso
Começar o castigo à traição feia,
Em um dos principais autores della;
E que naveguem manda a toda a vela.
Da Polvoreira a vista, já que entrava
A dourar horizontes encobertos,
O Planeta maior, que matizava
De rosicler no Céu longes, e pertos:
Do nauta, que da gávea vigiava,
Foram dous grandes juncos descobertos,
Sobre os quais arribar coube por sorte
Ao valente Alpoém, e ao Lima forte.
Amaina logo um deles, não querendo
A fúria exprimentar da artilharia:
Mas, defender-se o outro pertendendo,
Mostra da gente deu, que em si trazia.
Inumeráveis tiros despendendo,
Grossa nuvem de fumo o ar cobria,
Com que tudo começa a escurecer-se,
A derramar-se o sangue, a morte a ver-se.
Por conseguir o belicoso intento
Força, e manha os de Luso exercitaram,
Procurando ganhar o balravento,
Que os do guerreiro junto sustentaram:
De todo em tanto no úmido aposento
De Febo os claros raios se encerraram,
E pôs por então trégua a noute escura
Ao rigor da contenda áspera, e dura.
Seguido o junco foi de toda a armada
O discurso da noute; e começando
De Dafne o amador nova jornada,
A matutina luz tudo alegrando,
O magnânimo Afonso, aparelhada
A gente para o caso, disparando
No lenho imigo os raios de Vulcano,
Executa igualmente assombro, e dano.
Da artilharia dada a carga horrenda,
Abalroa travando a Cristã gente
Com a Pagã aspérrima contenda,
Obrando o ferro, e fogo juntamente:
A defender exorta, e a que ofenda
Do junco o capitão destro, e valente,
A cada qual dos seus sempre diante,
No mor perigo intrépido, e constante.
Porém, vendo-se entrar, a confiança
Perdida, usou do bárbaro costume
Dos Jaus, pondo-se fogo; fera usança
Daqueles, a quem falta o santo lume.
De modo a voraz flama se abalança,
Que tudo em cinza transformar presume,
Forçando a que Albuquerque se apartasse,
Por que na flor do mar não se ateasse.
Eles no mesmo ponto, que se acharam
Do Português valor desapressados,
Em apagar o fogo se empregaram,
Já do temor da morte acontselhados:
No meio do trabalho repararam
Na Cruz, Quinas, Castelos matizados,
Da Lusa Real bandeira; e conheceram
Com quem batalha por seu mal tiveram.
Da resistência o bárbaro valente,
Bem que tarde, se mostra pesaroso;
E manda o muito, que o sucesso sente,
Manifestar ao contendor famoso:
Porém que de varão tão excelente
Se prometia já perdão piedoso;
Pois do passado a culpa consistia
Em não saber de quem se defendia.
Segiu o mensageiro, e a bordo veio:
Sobe ao convés, ante Albuquerque chega
E disse: O Céu te guarde, espanto, e freio
De toda a Ásia, que em tuas mãos se entrega:
Já, vendo-te, parece alcanço o meio
Para o descanso, que a fortuna nega:
E, se fores comigo hoje piedoso,
Serás mais, que a fortuna, poderoso.
Que tanto contra mim, senhor, tem feito,
Que a poder mais chegar não imagino,
Sendo, qual rocha oposta ao mar, objeito,
De males, que em mim ferem de contino.
Levanta-se Albuquerque; e o grave aspeito,
E valor visto, julga de honra dino;
E com palavras cheias de esperança
Lhe dá consigo assento, e segurança.
O valente Pagão mais animado
Do piedoso, e brando tratamento,
O discurso prossegue começado,
Com afeitos de novo sentimento.
Por herança, senhor, fiquei sentado
(Dizia) de Pacém no Régio assento;
Mas seguro ninguém vive de enganos,
E a confiança vã prova mais danos.
É meu nome Geinal, do Rei temido
De Pacém filho respeitado enquanto
Das estrelas me vi favorecido,
Ou de quem fez esse estrelado manto.
Hoje, por desventuras conhecido,
Aos Reis exemplo sou, ao mundo espanto;
E me lastima sempre que à memória
É forçoso trazer a triste história.
E cetro sustentar já não podendo
O meu progenitor por larga idade,
E eu, filho da velhice, anos não tendo
Quais de tal peso pede a autoridade;
Fez um Governador, não antevendo
Ser a ambição a Sirte de Lealdade:
Tido era este por justo, e por prudente,
Porque fingir sabia facilmente.
Morto Agricão pai meu, em tituria,
Lhe fiquei com o Reino encomendado:
Fui crescendo; e ao passo que eu crescia,
Punha em me sujeitar maior cuidado:
Porém com tanta astúcia procedia,
Que nunca intento seu foi alcançado,
Até que amor, princípio de meus danos,
Lugar, e favor deu a seus enganos.
A formosura engrandecia a fama
De Argiana alta Infanta de Malaca,
E juntamente amor a viva chama
Em mim acendia; que tão mal se aplaca.
Senti tudo, o que sente quem bem ama;
Que contra amor toda a defensa é fraca,
E, sem entender como, num instante
Fui por fé, do não visto objeito, amante.
E como o peito amando não sossega,
Por momentos crescendo em mi o desejo
Da bela vista, que a distância nega,
Partir-me à vela disfarçado elejo.
Levado enfim daquela paixão cega,
Do pensamento a ligeireza invejo,
Deixando no governo esse tirano,
Que como Rei impera por meu dano.
Passei o mar, aventurei a vida,
Tomei porto em Malaca em ponto forte,
Que lá me tinha o fado apercebida
Desdo berço infeliz já viva morte:
Chegando nos princípios à medida
De meu desejo, se mostrou a sorte,
Que talvez ao que em seu favor confia,
Por aparentes bens aos males guia.
Favorecido fui da Infanta bela:
Mas ai de mim, que foi para mais mágoa,
Pois lhe dava outro dono minha estrela,
E a mim sempre brotar dos olhos água:
Dada a Acém Rei de Pão foi, que por ela
Também de amor sentia a ardente frágua,
E por mais venturoso, e por parente,
Alcançou bem tão grande facilmente.
Eu quando meu mal soube, amor culpando,
Disse, e fiz com a dor mil desvarios;
Logo a perda do bem considerando,
Foram os olhos meus correntes rios.
Qual o vencido touro, que bramando,
Os montes inquieta, e vales frios,
E por entre as devesas escondido
Aparecer não ousa de corrido;
Tal eu, mil vãos queixumes dando ao vento,
Dos que me acompanhavam me escondia,
E em solidão, suspiros, e lamentos
A vida por instante consumia:
Ao passo destes graves sentimentos
Um conhecido frenesi crescia,
Com que as vozes, e gritos se aumentavam,
E nos olhos as lágrimas saltavam.
Chegou-me o sentimento enfim a estado,
Que alheio de mim mesmo, me embarcaram
Aqueles, de quem fui acompanhado,
Cruéis, porque morrer me não deixaram:
Mas os males no mal-afortunado
Nunca para acabar se começaram:
Pelo que entendo não cortou a morte
O vital fio em um transe tão forte.
À vista de Pacém já o mar cortava,
Eis chega em lenho leve à nossa proa
Livante meu fiel, que me buscava,
Com aviso da perda da coroa:
Diz que tirano Rei se apelidava
O traidor Aridano; e como voa
A triste nova, chega a meus ouvidos,
E a confusa alheação de meus sentidos.
E como grandes males de repente
O sangue alteram, e o ânimo arrebatam,
Sucede ser antídoto ao doente,
Tal como os gostos repentinos matam:
De meu enfermo siso o acidente
Aquelas tristes novas desbaratam,
Assi que a nova dor me torna o siso,
Que outra dor me tirara de improviso.
Pois como em mim tornasse o sentimento,
Vós, senhor, o julgai, quanto obraria
Com tantas causas, que ali o pensamento
À memória então juntas me trazia:
Dos meus aconselhado num momento
Da cidade fugi, que aparecia,
E tomei porto ao pé de uma alta serra,
Acomodado sítio para a guerra.
Ajuntar-se comigo ali vieram
Muitos, que se obrigaram da lealdade;
E de armas, ouro, e prata me proveram,
As obras igualando co a vontade.
As vidas dar por mim ofereceram;
Heroica prova, que na adversidade
De vassalos, que tinham obrigados,
Se viram muitos Reis desemparados.
De todo o Reino tendo já comigo
Dez mil, que em tempo breve se ajuntaram,
Desci, donde as esquadras do inimigo,
E as minhas duramente se encontraram:
Com ira, qual se fora de ódio antigo,
Ferindo, e dando mortes, se travaram
Amigos, e parentes; civil guerra,
Abreviado inferno cá na terra.
Igual um grande espaço esteve Marte,
Como indeterminado na vitória;
Mas, passada do dia a maior parte,
Do inimigo a ventage foi notória.
Venceu a multidão, o esforço, e arte,
Perdi a batalha, e do vencer a glória,
Tornando-me da serra ao mais superno,
Dous mil dos meus deixando em sono eterno.
Sãos os feridos, a tentar a sorte
Segunda vez desci, e fui vencido;
Mas já para contar dos meus a morte
Vos cansará discurso tão comprido.
Só vos afirmo, que do transe forte
Não fugi, que entre os meus fiquei ferido,
E a noite me livrou da morte dura,
Que mais do usado sobreveio escura.
Como pude de alguns acompanhado,
Que de mim junto achei bons companheiros
Nas fortunas, que tem por mim passado,
E nos riscos por mim sempre os primeiros,
Pela serra me entrei, e fui curado
Por vales escondido, e por outeiros,
Até que lugar tive de embarcar-me,
E de meu próprio Reino desterrar-me.
Até qui de ir a Jaua intento tinha,
Em dous Reis poderosos meus parentes
Posta a vã esperança, vã por minha,
De estorvos sempre cheia diferentes:
Mas já vejo que a vós Deus me encaminha,
Em quem tenha esperanças mais urgentes;
Que obra digna será de vosso peito
O agravo desfazer, que me tem feito.
Largo campo aqui tem o valor vosso;
E fareis de virtude heroica prova:
Se me restituís, dizer bem posso
Que o Céu empresa, que é tão justa, aprova.
E vos prometo, se por vós me aposso
Do Estado, que perdi, que sempre nova
Obrigação confesse, tendo a vida
A vosso Rei, e a vós oferecida.
Pagarei em sinal de vassalagem
Parcas a vosso Rei, e suas armadas,
Quando pela largueza da viagem
A meu porto chegarem destroçadas:
Amigável terão certa hospedagem
Até ser de seus danos reparadas,
E serei companheiro em dar castigo
Ao Rei malaio de meu dano amigo.
E se por diferença da lei nossa
De vós meu rogo honesto se despreza,
A lei me valha da piedade vossa;
Que não é bem, senhor, que fique lesa:
Com vencer, e triunfar (quando ser possa)
O nome de piedoso igual se preza,
Inimigos dos reinos depusestes,
Diga-se que aos amigos reinos destes.
Disse. E calando por reposta espera
De forte, que em silência inda rogava.
Também Afonso cala, e considera
Caso, que tanto a lástima obrigava.
Porém considerando o muito que era
Forçosa aquela empresa, que o levava,
O efeito lhe negou, não a esperança;
E assi lhe deu escusa, e confiança:
Se o caso, que nos traz tão longe, fora
De sorte, que tardança consentira,
Esta armada, que o Céu faz vencedora,
Em favor vosso logo o mundo vira:
Porém já sabereis, pois corre agora
A fama, a compaixão movendo, e ira,
As mortes, e prisões, que com engano
Usou da cruel Malaca o Rei tirano.
Aos nossos companheiros lá cativos
É forçoso acudir (que estão passando
Inventados tormentos excessivos)
O socorro, que vedes, aguardando:
Mas, se permite o Céu que os veja vivos,
E dê castigo ao caso miserando,
Vivei na fé, que empenho confiado,
Que vos poremos no perdido Estado.
Nesta promessa fez seu fundamento
O Príncipe pagão, agradecido
Do benigno, e amigável tratamento,
Que esperança lhe dá do prometido:
E figurando já no pensamento
Ver-se recuperado no perdido,
Para melhor de todo assegurar-se,
Do capitão não quis mais apartar-se.
As fortes naus entanto o mar rompendo,
Os baixos de Capácia atrás deixaram,
Do canal os perigos cometendo,
De quem tantas histórias fabularam:
Eis que nuvens a Aurora enriquecendo
Vinha, quando a ver terra começaram
Os nautas, e co a luz, que derramava,
A opulenta Malaca se mostrava.
Jaz Malaca, cidade das famosas,
Num campo plano junto ao mar, batida
Brandamente das águas caudalosas
De um rio pelo meio dividida:
De casas de Pomona deleitosas
Da parte do Sertão enobrecida;
Muros não fabricou, porque os despreza
Dos naturais a indômita braveza.
Tem para donde sai o Sol ardente
Na contracosta o mar de ilhas coalhado:
Divide-a pela parte do Ocidente
Do grão Samatra o Bósforo dourado,
De Quedá o Reino, e o de Sião potente,
Que senhor fora do Malaio estado,
Para onde resplandece Cinosura,
Para o austro Sabão, e Singapura.
Naquele tempo a luz Febeia entrara
Na casa, que o celeste Cancro habita,
Quando aquele, que a terra cultivara,
De seu trabalho o prêmio solicita:
Sobe o povo, que tanto mar cortara,
Rompendo os ares com alegre grita
Por ver, ainda que longe, a magestade,
Grandeza, e compostura da cidade.
O Sol, que alegre começava o dia,
As cúpulas das torres lhe dourava;
O mar, que brandamente a combatia,
Dos edifícios bases prateava.
Admirado Albuquerque do que via,
Quem de tudo o informasse desejava,
Quando Alaida chorando vê lembranças
De incertos bens, de incertas esperanças.
No pensamento está representando
Lembranças, e saudades amorosas,
As partes, que habitara contemplando,
Quando ela as frequentava venturosas:
O capitão a atalha perguntando
Pelas cousas do Reino mais famosas,
A sucessão dos Reis, a antiguidade,
Fundação, e costumes da cidade.
Isto entendendo logo a Lusa gente,
Que Netuno professa, e segue Marte,
Para se achar ao que dirá presente,
Se foi chegando de uma, e de outra parte:
Tal, como as plantas, quando docemente
Soltava ao vento a branda voz com arte,
Tocando a lira de ouro o Trácio amante,
Que abriu cantando as portas de diamante:
Ela nos belos olhos reprimindo
As lágrimas, que em pérolas caíam
Bem que ainda seu pesar, no gesto lindo,
Entre as rosas orvalho parecia,
Lhe respondeu: Senhor, quando seguindo
Pensamentos, que na alma não cabiam,
Perdi a pátria minha, o Céu quisera
Que a lembrança também dela perdera.
Porém do injusto Rei a tirania,
Do meu progenitor a injusta morte
Se estão representando cada dia
Na memória, em meu mal tenaz, e forte:
E quando o agravo dela me desvia,
Me torna a vê-la minha triste sorte;
Posto que, em vosso amparo venturosa,
Já não devo da sorte estar queixosa.
Mas ao que desejais satisfazendo,
Tradições há, que, vindo perseguido
O Jau Paramissora, o mar rompendo,
De Sanguecinga foi bem recebido:
E que, a santa hospedaje este ofendendo,
Da amizade o travado nó rompido,
Dera ao hóspede amigo a morte dura,
Fazendo-se senhor de Singapura.
Dali correndo o mar pirata feito,
As líquidas campinas infestava,
De sorte, que por ele aquele estreito
Já peregrino lenho não cortava.
Chegou deste aleivoso horrendo feito
A fama, que assombrando o divulgava,
Voando ao Rei de Sião co a nova fera,
Que sogro do defunto, e senhor era.
Pedindo-lhe vingança o sentimento,
Muitas vezes mandou sobre o homicida;
Porém (contrário a sorte ao pensamento)
Deixaram sempre os seus na empresa a vida:
Não fizeram mudar o iroso intento
As perdas, e esperança mal cumprida;
Com seu poder desceu por mar, e terra,
A ferro, e fogo começando a guerra.
Não ousando esperar ao Rei irado
Largou Paramissora a Singapura,
E de três mil dos seus acompanhado
O querer foi seguindo da ventura.
Donde o Muar sombrio no salgado
Nereu confundo sua corrente pura
Chegando, pareceu-lhe a terra boa,
E de estacadas fortes a coroa.
Com ele vinha a infestante gente,
Que roubando até então no mar vivia;
Celátea se chamava; era valente
Em tudo, que interesse prometia:
Necessidade, que no mal contente,
Fez, que deles quisesse a companhia:
Porém, vendo-se menos poderoso,
Andava de suas manhas temeroso.
Pelo que, em brando modo despedidos,
Lhes ordenou que povoação fizessem
Mais abaixo; porém que sempre unidos
Nos casos necessários estivessem.
Vão da necessidade constrangidos
Buscar sítio seguro, em que vivessem;
E no lugar, que vedes, estiveram,
E à sua povoção princípio deram.
Tendo cos naturais guerra, há quem diga,
Que, imitando aos Romanos arriscados,
De outro roubo amoroso a paz se siga,
Das filhas, das esposas obrigados:
Viveram anos em conforme liga
Os Celates ao mar acostumados,
O seu antigo ofício exercitavam,
Os naturais da terra a cultivavam.
Veio esta gente a tanto crescimento;
Que a povoação estreita reprovaram;
E, deixando-a deserta, em outro assento
(Cujo nome é Bintão) edificaram:
Dele tomando o Céu este instrumento,
Que assi o presumo, a convidar mandaram
Paramissora, com que os governasse,
Para que a grão Malaca se fundasse.
Deixou Paramissora o sítio estreito,
Que habitara forçado; e a Bintão veio,
Donde passou a vida, sem do peito
Perder do Siame Rei nunca o receio:
Mas, co tempo esquecido o estranho feito,
Um filho seu, que foi de medo alheio,
Xaquendarxa o guerreiro se chamava,
Que, decrépito o pai, já governava,
Por se ajudar do mar, em que a esperança,
Punha de vir a ter um grande Estado,
Princípio deu com nova confiança
Ao povo, que hoje o Céu tem prosperado:
E como sempre tinha na lembrança
Seu velho pai da Jaua desterrado,
Por nome a este lugar aplica,
Que desterro na Jaua significa.
Logo os Celates Jaus, e os que a cultura
À terra dão, Malaios se chamaram;
E em seguir todos uma só ventura
Por alta ordem dos Céus se conformaram,
Com geral alegria, e com fé pura,
Por Rei o Xaquendarxa apelidaram:
Estes são de Malaca os povoadores,
Este o primeiro Rei, dos Reis melhores.
E como neste tempo à terra desse
Tributo o Siame Rei, que inda temia,
Ordenou grossa armada, que correse
O mar, como num tempo o pai fazia;
Toda a nau obrigando a que viesse
Comutação fazer de mercancia
À cidade, que foi assi crescendo,
E se foi Singapura desfazendo.
Moveu-lhe o novo Rei dos Siames guerra,
Que teve fim, pagando-lhe tributo,
Dando-lhe léguas cento mais de terra;
Não culta então, hoje de grande fruito.
Mortal, pouco depois, os olhos cerra,
E Malaca deixou em pranto, e luto,
Bem que já engrandecida, e populosa,
Por opulenta, forte, e poderosa.
O primeiro foi este, que, deixado
O Gentílico rito, a Lei aceita
Daquele, que lá em Meca venerado
No ar sustenta, e guarda tumba estreita.
Por morte deste Rei dos seus chorado,
Sucede Modafaida em Reino, e feita;
E não foi menos, que seu pai, famoso
Nas armas, e conselho valoroso.
Desembainhando logo a fera espada,
Pão, Campar conquistou e Dandargire;
E neste mar trazendo grossa armada,
Reputação, riqueza e fama adquire.
E vendo a sua cidade sublimada,
Como um ânimo grande a mais aspire,
De Malaca Sultão se intitulava,
Que o Régio nome quase desprezava.
Morto o grão Modafaida, o Reino mando
A seu filho passou Sultão Matusa,
Duro aos contrários, aos amigos brando,
Bem digno de o cantar eterna musa.
Morreu de largos anos: e ficando
A gente sua em justa dor confusa,
Sucedeu-lhe Aladim filho mais velho;
Foi de rara virtude, alto conselho.
Paz continua gozando em seu governo,
Ajuntou copiosíssimo tesouro,
E Malaca chegou ao mais superno
Estado de grandeza em gente, e ouro.
Quis este (por ganhar renome eterno)
A casa visitar, que adora o Mouro;
Para o que naus armou devoto tanto,
Que nela pressupunha acabar santo.
Porém, como os humanos fundamentos
São vãos, quando o contrário ordena a sorte,
Os do prudente Rei pios intentos
Atalhou, e desfez num ponto a morte.
Sultão Aladim morto, pensamentos
De ambição (que entre os homens é tão forte)
Causaram divisões o mesmo dia,
E venceu co poder a tirania.
Dous filhos de Aladim, senhor, ficaram:
D’El-Rei de Campar neto era o mais velho,
Chamado Soleimão, a quem faltaram
Os homens, não valor, nem bom conselho.
Ao menor os Malaios se ajuntaram
(Ó de humanos respeitos claro espelho)
Só porque era sobrinho do Bendara;
Que sempre o mundo o poderoso ampara.
Era o Bendara rico, e poderoso,
Co melhor de Malaca em sangue atado;
E tanto pôde, e fez, que vitorioso,
O sobrinho por Rei foi levantado.
Reinando pois Maamé, mas receoso
Como tirano, em nada assegurado,
Não descansou até que fratricida
A mim sem pai, ao irmão deixou sem vida.
Fiquei em seu poder de tenra idade;
Fui em prisão, posso dizer, criada;
Cresci, crescendo o ódio, e a vontade;
Para seu dano sempre aparelhada;
Que quando me dispus à liberdade
Da Lusa gente intrépida, e arriscada,
Foi tanto em ódio seu, e por vingança,
Quanto por dar princípio a uma esperança.
E atrás não tornarei, a morte vendo,
Como em dano resulte a este homicida,
Aliviando, e não satisfazendo
A dor, até lhe ver perder a vida.
Vosso valor me está já prometendo
Ver cedo esta esperança bem cumprida;
E o Céu, que as injustiças aborrece,
As causas, que são justas, favorece.
Assi deu fim à história, e não ao pranto,
Que os suspiros de novo acompanharam:
Destros ministros de Vulcano entanto
Os imitados raios dispararam:
Engrossa o fumo, e com seu rouco canto
As sonoras trombetas incitaram
Os belicosos ânimos à guerra,
Dando salva de paz à excelsa terra.
Durou por largo espaço o estrondo horrendo,
Bem que de paz, medonho, e espantoso,
Bramando os ecos longe respondendo,
Som faziam confuso, e temeroso.
Parou a ígnea procela, e desfazendo
Se foi logo o vapor caliginoso,
Descobrindo-se toda a forte armada,
De trêmulas bandeiras adornada.
Pavesadas de Tíria cor cobriam
Das grandes naus grão parte dos costados,
Que com arte sutil ofereciam,
Escudos com divisas matizados:
Por toldas, e convés apareciam
Os Portugueses fortes, e arriscados,
Vestidos de mil cores diferentes,
Mostrando-se lustrosos, e valentes.
Entanto por Malaca o Rei tirano
Discorre cuidadoso; e em toda a parte
Contra o poder, que teme, Lusitano
A defensa provê, gente reparte:
Mil, e mil instrumentos de Vulcano
Para a parte do mar planta com arte
Sobre grossas, e bastas estacadas
Com largo terrapleno fabricadas.
Abdalá o acompanha, que seguira
A forte armada, que Malaca altera,
E chagara antes dela; porque a ira
Infernal ligeireza ao lenho dera:
Ouvindo El-Rei o aviso, fogo espira;
Mas logo que o perigo considera,
Aos Reis vizinhos com tenção sisuda
Mensageiros despacha, e pede ajuda.
O Príncipe Aladim, único herdeiro
Daquele grande império, entre a nobreza
Malaia se oferece, e aventureiro
El-Rei de Pã, que ser amante preza:
Anima ao Rei o Príncipe guerreiro,
Que indômito, e feroz tudo despreza:
E soando em toda a parte a guerra irada,
O Rei subiu a ver a Lusa armada.
Sobe à torre, que Alaida frequentava,
Que dos seus passos sobre o mar caía;
E quanto alegre a frote se mostrava,
Tanto seu coração se entristecia:
Que já frio temor representava
O castigo da culpa à fantasia;
E para que da armada o informasse,
Mandou que algum dos presos se chamasse.
Trouxeram-lhe Araújo; o qual usando
Ante el-Rei o devido acatamento,
Seguro, e confiado entrou mostrando
Do valoroso peito o altivo intento.
Com rosto alegre o Rei dissimulando
O temor, que lhe ocupa o pensamento,
O chamou junto a si, por que pudesse
Ver a armada, e razão dela lhe desse,
Dizendo: Tu, que deves já por uso
Conhecer dessas naus toda a divisa,
Dessas, que, porque as preza o povo Luso,
As estimo, dos capitães me avisa:
De quem é aquela, que de um mar confuso
Rodeado um penhasco se autoriza,
Brotando das entranhas escondidas
De vivo fogo flamas acendidas?
Senhor, lhe respondeu, se não me engano,
Aquele é o moço Jaime, a quem a forte
Sujeito fez ao amaroso engano,
Que entrada acha também no peito forte:
Mas posto que de amor padeça o dano,
É de inimigos duro assombro, e morte;
E assi mostra esforçado, quanto ardente
Nessa divisa o que seu peito sente.
Lá naquela galé grande, e ligeira,
Que deitou neste ponto âncora ao fundo,
Veio bastões sanguíneos na bandeira,
Ali o valor, e assombro vem do mundo.
Dom João de Lima é aquele, na primeira
Idade, não se lhe acha outro segundo,
Salvo um Coutinho, igual com ele em anos,
Em sangue ilustre, e feitos soberanos.
A belicosa tuba cá do Oriente
Ouvindo, desprezou logo o sossego;
E o mar passou com um desejo ardente
De fazer só na fama heroico emprego.
Fama cobiça o coração valente,
Não ouro, prêmio vil de ânimo cego,
Por quem sem razão tantos degenaram,
Que do mais pelo menos se esqueceram.
Aquela grande nau, lá donde o vento
Estendo tremulando um estendarte,
Encerra em si o sem par merecimento
Do nosso Lusitano Cristão Marte.
Posto que a fama com suas línguas cento
Só em feitos seus se ocupe, dirá parte,
Que é (por mais que ela tudo facilita)
Matéria para a fama inda infinita.
O Rei, que nele só tinha o sentido
Perguntou a Araújo desta sorte:
Quem é esse Albuquerque, que atrevido
Rompe o mar, desprezando a vida, e a morte?
Esse, que estás pintando tão temido,
De tão alto valor, peito tão forte,
Favorecido da fortuna tanto,
Que as remotas nações enche de espanto?
Que empresas altas, feitos arriscados,
Que alcançadas vitórias o engrandecem,
De ti saber desejo; que guardados
Feitos tais na memória ser merecem.
Posto (disse Araújo) que os passados
Trabalhos a memória me escurecem,
E que estou já culpando em mim meu erro,
Inda quando tivera a voz de ferro;
Temerário serei, dizer ousando
Deste herói o trabalho ilustre, e duro,
Como os que de si muito confiando,
Moveram guerra contra o Olimpo puro;
Descer como Teseu, onde penando
As sombras viu, me fora mais seguro,
Porém vós me mandais, que eu não me atrevo;
E por vós arriscar-me a tudo devo.
Agora ó Musa, tu, que favoreces
Intentos altos, teu favor invoco:
Tu, que rudos engenhos enobreces,
Val-me na heroica história, que hoje toco:
Porque, se co a luz tua me faleces,
A temer o sucesso me provoco
Do que com temerária ousadia
Quis o carro reger, que forma o dia.
Dá-me sacro favor; que todo o peito
Favorecido a muito mais se atreve.
Não perca, Musa, não por meu defeito,
Valor, que a fama sempre exaltar deve.
Calavam todos: e, por mais respeito,
Araújo um pouco cuidando esteve,
Como quem do passado faz memória;
E deu princípio assi à heroica história.