LIVRO V

By Francisco de Sá de Meneses

Despois do Ílion suberbo derribado

Pelo fatal cavalo, e Grega manha,

Seguindo Ulisses o rigor do fado,

Rompeu o estreito mar, que o Calpe banha:

E andando peregrino desterrado,

Edificou no fim da ilustre Espanha,

Que é cabeça de Europa, a grão Lisboa,

Da nossa Lusitânia alta Coroa:

Nela teve ditoso nascimento

Da ascendência Real o Horói famoso,

Que na primeira idade o pensamento

Mostrou logo de glória cobiçoso.

Antes do quarto lustro o pátrio assento

Deixou, correndo à guerra desejoso,

De mostrar o valor, a que era estreito

(Bem que espaçoso) o campo de seu peito.

Logo então os guerreiros Africanos

Sentiram quanto Marte lhe é propício;

E conservam os campos Tingitanos

De seu alto valor o heroico indício.

Passados em Arzila os verdes anos,

No bélico louvável exercício,

Foi estimado de João Segundo,

Que ilustre assombro então era do mundo.

Porém em breves dias o Rei forte,

Cujas memórias o Universo aclama,

Pagou o costumado censo à morte,

Se bem eterna vida lhe dá a fama.

No Reino sucedeu por alta sorte

O grande Emanoel, que hoje derrama

(Emulando as ações de seus maiores)

De valor, e prudência resplandores.

Estava a Índia então em duvidoso

Estado, pela guerra que movia

O Samorim com ânimo invejoso

À Cristã gente, que em Cochim vivia.

O bom Rei, que dos seus é cuidadoso,

Para o socorro armada apercebia:

As dignas partes de Albuquerque nota,

E o fez caudilho da guerreira frota.

Ficava outra no porto forte armada,

Que posta vergadalto brevemente

De munições, e de armas carregada,

Aposentou galharda, e forte gente.

Dela, com esperança bem fundada,

Francisco d’Albuquerque o grão tridente

Levou, as asas dando aos grossos pinhos,

Que abrem voando os líquidos caminhos.

E sendo o invicto Afonso o que primeiro

Às ondas se entregara, e fresco vento,

Por temporais adversos derradeiro

Chegou a ver de Febo o nascimento:

Já o primo forte achou, que do guerreiro

Samorim abatera o ousado intento

Rompendo os bravos Naires, que na terra,

E mar nos tinham feito injusta guerra.

O bom Mabeodará já então reinava

(Exemplo verdadeiro de amizade)

A quem o Samorim fero odiava,

Mais forças a ambição dando à maldade:

E como o ódio a ira lhe incitava,

E a ambição de contínuo o persuade,

Mais o irritava a perda, mais o dano,

Sem dar nunca lugar ao desengano.

Tinham-se em Repelim fortificado

Os que daquela rota se salvaram;

E com socorro o campo reforçado,

À segunda contenda se animaram.

Mas como, se Redil de manso gado

Hircanos Tigres bravos assaltaram,

Os fortes Albuquerques considero,

E tal o estrago sanginoso, e fero.

Bem como quando súbita crescente,

Que o inverno causa, campos alagando,

Vales inunda, e a força da corrente

A terra rompe, plantas arrancando:

Tal resistida a Lusitana gente

Rompe com fúria, Naires derribando,

A quem tomando daquela ilha os portos,

Ficaram seus Caimais presos, e mortos.

Deu nova confiança esta vitória

Ao Rei, que do sucesso já temia,

E a ganhada por nós bélica glória,

Com lágrimas de gosto engrandecia:

Deste feito será eterna a memória

Invencíveis guerreiros (lhes dizia)

E o que em meu Reino houver, vos ofereço,

Porque ser hoje Rei por vós, conheço.

Deste modo se mostra agradecido

Àqueles, que por ele tanto obraram,

E que ver o seu nome engrandecido,

Só prêmio de suas obras estimaram:

E ao grato Rei por eles foi pedido

Um sítio dos que junto ao mar ganharam,

Onde uma casa forte edificassem,

Em que seguramente descansassem.

Que o grande Emanoel, já confiado

Na irmandade, e na fé, com que o amava,

De lá do fim da terra separado,

Pedir por eles isto lhe mandava.

Considerando o Rei que o seu Estado

Melhor daquele modo assegurava,

Ajuda, e sítio dá para que possa

Levantar fortaleza a gente nossa.

Abrem da Indiana terra o Céu interno,

Que fruito rende grata a sua esperança,

Quando auspício, que faz tremer o inferno,

Lhe dá nova, e segura confiança:

A sacra Ara, em que o Cordeiro eterno

Sacrificado foi, quando em balança

A justiça, e piedado os homens viram,

Os que o alicece abriram, descobriram.

A Cruz santa presumo que enterrada

Foi quando o cego Malabar perdia

A lei da Graça por Tomé plantada,

E colhia seu fruito a idolatria.

Junto cem ela estava rica espada,

Guarnecida com fina pedraria:

Adora o Cristão bando o sinal santo,

E os peitos fere com devoto pranto.

Rodrigo, varão justo, que milita

Seguindo a insígnia do Gusmão divino,

Elevado no Céu, disse: Ó infinita

Bondade, e de trabalhos prêmio dino!

Festejai, Lusitanos, vossa dita:

A Cruz santa declara alto destino;

Por vós será a Divina Fé estendida,

E com valor imenso defendida.

Afonso entanto o Marcial auspício

Dês que o Divino adora, considera,

E disse: O Céu prepare um pio hospício

À lei da Graça entre esta gente fera:

Que, se o Céu merecermos ter propício,

A guerra desestimo, que me espera;

Que guerra pronostica aquela espada,

Se a Cruz a lei da graça propagada.

Assi disse. E os valentes Portugueses

Tornaram ao trabalho cuidadosos,

Os muros levantando em poucos meses,

Que por Pacheco são hoje famosos.

Tu, que amas o valor, é bem que prezes

Este, que fez a tantos invejosos,

E se isentou do tempo de tal sorte,

Que poder não terá sobre ele a morte.

Esta força, senhor, foi a primeira,

Que edificou nas praias do Oriente,

Em paga da constância verdadeira

Trás tanto encontro a Lusitana gente.

No mais alto arvorada a Real bandeira,

Junto o povo fiel devotamente,

Celebrou-se aquele alto Sacrifício,

Em que Deus se nos mostra mais propício.

Feitas as cerimônia religiosas,

Do Rei, e companheiro despedido,

Rompendo Afonso as águas flutuosas

Chega a Coulão, e foi bem recebido;

Que, posto que com cartas cautelosas

Do Camorim o Rei foi persuadido

Que lhe fizesse guerra, nada obraram;

E a pesar seu as pazes se juraram.

E qual de Eson o filho valoroso,

Que fez do Frígio aríete a conquista,

Oferecido ao caso perigoso,

Que enfim com o favor de amor conquista,

Do mar vencida a fúria, co precioso

Velocino tornou à cara vista

Do pai: tal Albuquerque à pátria torna,

E já de louro a ilustre fronte adorna.

De aromáticas drogas carregadas

As grandes naus tornou à foz do Tejo,

Donde lhe foram de Manuel premiadas

Obras, que se igualaram co desejo:

E tornando a mandar novas armadas

O pio Rei, em venturoso ensejo,

Por companheiro de outro herói valente

Tornar o manda aos berços do Oriente.

Passa o cerúleo pego acompanhando

(Obediente a seu Rei) ao varão forte,

Ilustre, e por idade venerando

Aquele Cunha assombro de Mavorte:

No úmido caminho trabalhando

Contra eles a fortuna, o tempo, a morte

Por muitas vezes ante os olhos viram,

E os males, que oferece o mar, sentiram.

Passado o proceloso lago, a terra

Os hospedou com feros inimigos,

Com as armas nas mãos prontos à guerra,

Que prometia mil mortais perigos.

Porém eles, mostrando quanto erra

O que despreza tê-los por amigos,

Cidades abrasando, desfizeram

Reinos, e tributários Reis fizeram.

Foi o rigor primeiro executado

Na deliciosa Angoxa ao fogo dada,

Porque Oxeque, de vã soberba armado,

A paz não quis de tantos desejada:

Roto o Agareno povo acobardado,

Dava-lhe alcance a gente bautizada;

Dous ali, esposo, e esposa, aos mais seguiam,

Mostrando que de amar-se só viviam.

Do curto passo da querida esposa

Não se adianta o Sarraceno amante:

Mas donde reina amor, que rigorosa

Morte há, que dê temor, nem mal que espante?

A gente fugitiva, e temerosa

Seguia, ao mesmo Marte semelhante,

O invito Jorge da silveira, vidas

Tirando, dando a Pluto almas perdidas.

Dele encontrada por ditosa sorte

A nomarada cópia, qual no monte

Se oferece à defensa da consorte,

Salvage touro de arrugada fronte:

Tal firme o amante, oferecido à morte,

Salve-te, disse, amiga; só se conte

Que executa o inimigo em mim sua fúria;

E o Céu estorve que te faça injúria.

Ela responde: Mal partir-me posso

Sem ti, que és alma, que este peito animas:

Do bem, faltando tu, me desaposso,

Que em ti consiste, se teu bem me estimas.

Não dividirá a morte este amor nosso,

Se a vida por salvar-me desestimas:

Morramos juntos, seja igual a sorte;

Que vida me será contigo a morte.

Dizendo assi, nos delicados braços

Aperta o do amor seu querido objeito,

Qual ter costuma entre amorosos laços

A vide amante o frondoso olmo estreito:

Ou, qual com tenacíssimos abraços

Do firme arrimo penetrando o peito,

Labirintos tecendo a hera prende

O tronco, por quem sobe, e de quem pende.

Os extremos de amor, e alta firmeza

Viu Silveira; e com alma compassiva,

Felice amante, disse, a vida preza,

Para que tanto amor eterno viva:

Busca piedoso abrigo na aspereza

Da serra, enquanto for a forte esquiva:

Nunca permita o Céu (perdoe Marte)

Que tão estreito amor por mim se aperte.

Vou (responde o pagão,) porém rendido,

Varão forte, em quem vejo alta bondade;

E a piedade, que usaste agradecido,

O Céu use contigo de piedade:

E se algum tempo menos afligido

Permitir que eu te veja, esta vontade,

Que em meu peito por ti cativa fica,

De agradecido afeito verás rica.

O meu nome é Golife, Alexandria

A pátria, em toda a parte nomeada;

Ali arder vejo os bens, que possuía;

Aqui por ti salvo a prenda mais amada:

Com ela verei ledo a luz do dia,

A rquizea me fica mais prezada;

E, pois te mostras com amor piedoso,

Do mundo o amor te faça o mais ditoso.

Assi se despediram: e entre tanto

Deixado o alcance, a gente já se emprega

Nos despojos; e o fogo, com espanto

Dos pagãos tristes, quase às nuvens chega:

Deixando Angoxa envolta em fogo, e pranto,

De novo ao campo de Safir se entrega

A vencedora armada; e brando o vento

Respirava nas velas fresco alento.

Semelhante rigor exprimentaram

De Lamo os imprudentes moradores,

E os de Brava, que enganos vãos usaram,

Até provar os ferros cortadores:

Guerra aclamando, a santa paz negaram

Provocados a bélicos furores,

Adquirindo soberbos com seu dano,

Posto que tarde e em vão, o desengano.

Rica era Lamo, Angoxa deliciosa,

Que seu campo se mostra ao cultor grato;

Habitadas de gente belicosa,

Na ostentação soberba, e no aparato.

Era Brava cidade populosa,

De grandes edifícios nobre ornato,

Grossa pelo comércio de Sofala,

De Anfião, de Cambaia, e de Bengala.

Abrasadas Angoxa, Lamo, e Brava,

Marte em Socotorá feroz tiveram

Com os Fartaquins fortes, gente brava,

Que nem à mesma morte se renderam:

Pela fama, que só se respeitava,

Invencíveis a vida dar quiseram,

Arrogantes chamando, e belicosos

Os patridos honestos, pouco honrosos.

Era Socotorá ilha habitada

De Cristão povo, desd’o tempo quando

Tomé, em Divino fogo a alma abrasada,

Ali chegou, um Deus, e Homem pregando:

Dos Fartaquins pouco antes conquistada,

A miserável gente mal tratando,

Usavam dos rigores inumanos,

Que usar costumam bárbaros Tiranos.

Posta em nosso poder a fortaleza

Com morte dos valentes defensores,

E por nós levantada a mais grandeza

Com grossos muros, torres superiores;

Recolheram-se à náutica estreiteza,

Triunfando os dous insignes vencedores,

Deixando nela capitão valente,

Com muitas munições, e destra gente.

Acabada esta empresa, do guerreiro

Se despede, o profundo pego abrindo

O ilustre, e valoroso companheiro,

Buscando as praias de entre o Ganges, e Indo.

E Afonso, a quem tocava outro roteiro,

De novo novos mares inquirindo,

Chegou rendendo tudo onde a memória

Conserva de Albuquerque a herica história.

Pelo Pérsico seio entra imitando

O furibundo raio disparado

Da alta nuvem, rompendo, e abrasando,

Contra a mor resistência mais irado:

Grandes ruínas, que atrás vai deixando,

Vestígios do rigor executando,

Publicando estarão milhares de anos

O preço de seus feitos soberanos.

Não viu dos celebrados nas histórias

Nenhum de mais valor a luz do dia,

Na execução, discurso, e nas vitórias,

Nele o Grego Melquíades se via;

E com César, em tantas Marciais glórias,

também dizer podia:

Compete com Davi no sofrimento,

E vence as sem-razões co entendimento.

Rendeu-se ao nome Lusitano logo

Antes de vir às armas Calajate:

E foi com rigor posta a sangue, e fogo,

Pena de sua soberba Curiate.

De paz tratava com humilde rogo,

Não querendo rigor provar, Mascate;

Mas dous mil Benjabares, que lhe entraram,

Por seu mal, de socorro, os alteraram.

Pelos Mascates declarada guerra,

Ordenou Albuquerque dar-lhe assalto;

E posta a Lusitana gente em terra,

Ganhou à escala vista o muro alto.

Ousado a ganha, e com tal fúria cerra

O esquadrão forte, que de valor falto

Deixa a cidade o Benjabar fugindo;

E sem ordem os seus o vão seguindo.

Seguindo foi o alcance dando morte,

Sem sexo reservar, perdoar idade:

E depois, recolhida a gente forte,

No recheio se entrega da cidade:

Entram correndo, como os guia a sorte,

Os soldados as casas, a vontade

Cobiçosa fartando nas riquezas,

Que muros altos rompe, e fortalezas.

Despojada Masquate, em fogo ardendo,

Remate de castigos, e rigores,

Chorosos desde um monte o incêndio vendo

Seus mal aconselhados moradores,

Levantam ferro os Nautas, estendendo

Ao vento as velas grandes, e menores,

O porto a armada deixa, e em breve chega

Onde o alto esforço em novo Marte emprega.

Chega sobre Orfação: e confiados

Seus vizinhos na grande fortaleza,

Soberba ostentação fazem de ousados,

E mostras dão de indômita braveza:

Porém logo, melhor aconselhados,

Provar não querem a ira Portugesa;

E valor respeitando no contrário,

Tributo lhe oferecem voluntário.

Deixa Orfação, e à forte Soar chega,

Onde, justificada a gente Lusa,

Trato, e paz oferece: e a paz lhe nega

O Agareno esquadrão, que as armas usa.

Já gastado era o dia; e mal sossega

Afonso a noite: e dando luz confusa

A Aurora, não aguarda que o Sol saia:

Parte iracundo a cometer a praia.

De bárbaras catervas ocupada

Estava toda, prontas à defensa;

Porém por força a deixam despejada,

Melhor sofrendo afronta, já que a ofensa.

Segue a vitória a gente bautizada

Até à porta, onde a fúria imensa,

Cos imigos envolta, entrar procura;

Mas acha nela resistência dura.

Ali feridas dando, e recebendo,

A bélica contenda se renova,

A entrada os Sarracenos defendendo,

Que vencer cada qual dos nossos prova:

Albuquerque impaciente reprendendo

Esta pouca tardança, heroica prova

Faz de seu grão valor; embraça o escudo,

E, cometendo à porta, rompe tudo.

Como em Adrástia o filho de Filipe

Passa contra o poder de Ásia corrente

Granica, rompe (sem que participe)

Primeiro algum da glória) a imiga gente;

Seguem-no os mais; e porque se antecipe

Cada qual a ferir forte, e prudente,

Assi como com a espada vai cortando,

Os vai em vozes altas animando.

Até fora da vila vão ferindo

Nos inimigos postos em fugida;

O bélico furor não consentindo

Que a nenhum deles se conceda a vida.

Deixando o alcance, a fúria reprimindo

A vencedora gente recolhida,

Foi como as mais a vila saqueada,

E por último dano ao fogo dada.

Fez sinal, dês que foi tudo embarcado,

A peça, quem o Luso chama:

Abrem vistosos o licor salgado

Os fortes lenhos que mais Tétis ama:

O cabo de Masinde já dobrado,

Cada estrela a radiante luz derrama,

Os reflexos as ondas ilustravam,

E um marítimo Céu quase formavam.

Fugia a noite, vinha a manhã clara

As cousas distinguindo, e ilustrando,

Quando a opulenta Ormuz, Queixome e Lara

Se descobrem, a gente alvoroçando.

Do porto imigo à vista se prepara

A náutica turba, e as velas vai tomando;

Surgindo, âncoras deita brevemente;

Pega na mole areia o férreo dente.

Deu com medonho estrondo a artelharia

Salva à cidade, mais que alegre horrenda:

Dá fim o medonho estrondo, e morre o dia,

E a noite sucedeu negra, e tremenda.

Dobram logo uns, e outros a vigia,

Por que súbito assalto não se emprenda,

Que não seja esperado, e prevenido,

Antes de imaginado acometido.

Tinha da terra, e mar General feito

Ceifadim, que reinava em pouca idade,

A Cogeatar, a quem ferve no peito

Contra Cristãos herdada inimizade:

Valor ostenta (pouco ao povo aceito)

Por tirana privança, que a vontade

Real com tanto extremo sujeitava,

Que suberbo absoluto governava.

Estava já no porto apercebida,

Esperando Albuquerque, grossa armada,

Que por força, ou vontade era detida

Toda a nau, já mercante, já artilhada.

Aquela, que se achava mal provida,

Era do necessário logo armada,

Repartindo-lhe gente mais guerreira,

Assi da natural, como estrangeira.

Co a nova luz Afonso ao Rei da terra

Convida com a paz, trato oferece,

Mostrando-lhe também que para a guerra

Poder não falta, nem valor falece:

Mas ele os meios saudáveis erra,

E aquela só vontade desconhece;

Vário responde, a conclusão dilata,

E de aprestos de Marte entanto trata.

Na praia a gente inumerável era,

Vestida ao modo seu de várias cores,

Tal, como quando alegre a primavera

Vales, e montes veste de erva, e flores:

Nas armas fere o Sol, e reverbera;

Nitrir se ouvem cavalos, soar tambores,

As sonoras trombetas o ar rompiam,

Confusas vozes tudo confundiam.

Qual da alta popa os seus animaria

Do imigo à vista o grande Otaviano,

Quando a fatal batalha dar queria,

Em que deu causa amor a tanto dano;

O pio Afonso, que no Céu confia,

E em seu nome o poder despreza humano,

Aos poucos seus, que mais que a cópia estima,

A desigual batalha ousado anima.

Notado tinha tudo vigilante,

Sem perder ponto; no trabalho duro;

E com peito no bem, e mal constante,

Assi lhes disse, e se mostrou seguro:

Nação invicta, que buscando errante

Aquela, que dá vida no futuro,

A morte desprezais, indo invencíveis

Facilitando os casos impossíveis;

Em parte estamos, onde nos importa

A resolução mais, que não conselho:

Fam imortal aqui nos abre a porte,

Vencendo tanto bélico aparelho:

Vosso valor minha esperança exorta,

Que é cada qual de vós um claro espelho,

Em que se devem ver os valorosos,

Que só buscam renome de famosos.

Esta armada, que agora nos encerra,

E nos molesta em modo de cercados,

Rompê-la pede a honra: acabe a guerra

O que não podem rogos desprezados.

Conheça o bravo Cogeatar que erra,

E o Rei, que segue intentos enganados

Em desprezar a paz, que oferecemos,

E em vir convosco a Marciais extremos.

Temor não cause tanta imiga gente:

Posta onde só é segura a confiança,

Aprendendo em Davi quanto Deus sente

Que se ponha nos homens a esperança:

E exemplo é grande Gideão, valente

Deu com número eleito ao Céu vingança;

E Xerxes viu na multidão contada

A confiança vã desenganada.

Assi disse Albuquerque resoluto.

E sendo o gravo caso praticado,

Por evitar a Ormuz o infausto luto,

O Rei de novo foi co a paz rogado:

Mas sendo perda da tardança o fruto,

Rompeu-se a guerra, porque o Céu irado

Tinha elegido já aquele instrumento

Para vingar seu largo sofrimento.

O filho de Latona rubicundo

Vinha de novo dando luz ao dia,

Quando, com novo assombro do profundo,

Manda Afonso dar fogo à artelharia:

Começa horrendo estrondo, e furibundo;

Arruinar-se o unvirso parecia;

E com o Marcial sanguíneo estrago

Perde a cerúleo cor o salso lago.

Como quando no inverno turbulento

Se antepõem negra nuvem de repente

À clara luz do Sol, furioso o vento,

Lançando raios Júpiter potente,

Confuso espanto ocupa o pensamento

Da temerosa malsegura gente,

Os relâmpagos vendo fulminosos,

Trovões ouvindo horrendos, e espantosos;

Tal a sulfúrea nuvem vai crescendo,

Tudo confundo, envolve, e escurece;

Só o fuzilar do vivo fogo ardendo

Por entre a escuridão negra aparece.

Da Marcial trovoada o ruído horrendo

Atemoriza a gente, que perece;

Aos ares manda gritos, e gemidos,

Horrível confusão enche os ouvidos.

Por entre fogo, e fumo de ira armados

Provocam a furor Belona, e Marte;

Já vai ao fundo, abertos os costados,

Dos inimigos lenhos grande parte.

Entregues ao vil medo acobardados,

Já valor falta nos contrários, e arte;

Deixam muitos as naus, e ao mar se lançam,

E, por fugir da morte, a morte alcançam

No meio do maior perigo andava

Correndo a armada num parau ligeiro

O Cogeatar, e aos seus bravo animava,

Já, mais que capitão, aventureiro:

Mas notando quão pouco aproveitava

Mostrar-se contra a sorte bom guerreiro,

Do temor ocupado, deixa a guerra,

Os remos bater manda, e tomar terra.

Dos vencedores fortes foi seguido;

Mas o fumo causou que fosse tarde:

Foge ele do valor, de si esquecido,

E em terra salta tímido, e cobarde:

Cresce entre tanto o estrago, e com temido

Estrondo nos fundidos metais arde

O fogo, estando o caso já de sorte,

Que tudo era furor, tudo era morte.

Rota a armada inimiga, com horrendo

Clamor a Cidade entram, logo dando

Edifícios ao fogo, que crescendo

O excelso de outros vai aniquilando.

O Rei o não cuidado estrago vendo,

As mortes, e o temor dos seus notando,

E tanto em breve espaço entregue ao fogo,

A suberba converte em brando rogo.

Manda arvorar de paz branca bandeira

Sobre a torre mais alta da Cidade:

O capitão, que a vê, manda a guerreira

Ira cessar, e bélica crueldade

Para o Marcial furor, e da maneira,

Que aparecem (passada a tempestade)

Os campos, que deixara destruídos,

Os cultivados fruitos consumidos;

Tal aquela potente, e grande armada,

Pouco havia suberba, e numerosa,

Desfeita se oferece, e destroçada,

Vista até aos imigos lastimosa:

Neste tempo uma lancha bem remada

Rompe a undosa campanha sanguinosa,

Chega onde o vencedor insigne a espera,

Já suspenso o rigor, que concebera.

A seus pés se postraram dous Persianos,

Do Rei Embaixadores já rendido,

Pedindo-lhe piedade, e fim dos danos

Do triste povo, e Reino destruído.

Considerando Afonso os poucos anos

Do aflito Rei, que roga arrependido,

Já compassivo sente o pueril pranto,

E que lhe custe o desengano tanto.

Precederam enfim recados vários,

E a desejada paz foi concedida,

Rei, e Reino ficando tributários,

Perpétua obediência prometida.

Mas entendei, senhor, que de contrários

Tantos, e tais, vitória tão comprida

Não se alcançara, sem a soberana

Força Divina, de quem pende a humana.

Nos imigos cadáveres se achavam

As ofensivas frechas encravadas,

Que (retrógrado o curso) se viravam

Contra os mesmos, de quem eram lançadas.

Ali Divinas forças peleijavam

(Ó rara maravilha!) porque usadas

Hoje não são tais armas entre a gente

De nossa Europa em partes do Ocidente.

Em favor de Pelaio já em Auceva

Semelhante milagre Deus usara,

Que, para que ninguém aos seus se atreva,

De Baal os profetas abrasara.

Em glória tanta, por que sempre deva

Tremer o homem, vendo que não para

A fatal roda, Afonso viu que alcança

O mal ao bem com pouca segurança.

Que alguns dos capitães, ou que cansados

Andassem já da guerra trabalhosa,

Ou por ódio secreto, ou por cuidados,

Que causa natureza cobiçosa,

O respeito perdido, amotinados

Dando matéria à fama pouco honroza,

Deixá-lo muitas vezes intentaram,

E a nauta, e militar gente alteraram.

Notícia o Cogeatar, e o Rei tiveram

Do discorde, e aleivoso pressuposto;

E sacodir o jugo pertenderam,

Que a força na cerviz lhe tinha posto:

Porém prevalecer nunca puderam;

Que Albuquerque à fortuna firme o rosto,

Inda que seu poder vê dividido,

Invencível sustenta o já adquirido.

Mas dizer os receios, e cuidados,

Penas, desassossegos, e suspeitas,

Quanto sentiu, sofreu aos seus, levados

De paixões próprias, pouco a Deus aceitas,

É matéria infinita. os conjurados,

Tantas escurecendo ações eleitas,

O deixaram, ingratos á lealdade,

Posto nas mãos da mor necessidade.

Fogem: mas segue a guerra o varão forte,

Com poucos, porém bons de altos respeitos,

Em quem nunca terá poder a morte,

Que os fazem imortais seus grandes feitos.

Entanto a inveja, e ódio, aque por sorte

Os muito valorosos são sujeitos,

Estavam seu valor aniquilando,

Seu nome com vãs culpas deslustrando.

Enfim traz mil triunfos, e vitórias,

Seguindo seu costume o tempo vário,

Há de perseguições largas histórias,

Em que foi seu valor bem necessário:

De exemplos deixa ao mundo altas memórias

Sendo no sofrimento Belizário,

Mas novo Jó de Deus favorecido,

Hoje é seu nome mais engrandecido.

Porque de Manoel este famoso,

Estimado por forte, e por prudente,

De seus ombros confia o peso honroso

Do conquistado Império do Oriente.

Calicute o sentiu, onde espantoso

Estrago o fez na Maura, e Naira gente,

Deixando a grão cidade despojada

De riqueza infinita, e ao fogo dada.

Mas a todos foi triste esta vitória,

Que ali o Marechal Coutinho forte,

E Correia deixando larga história,

Invictos rendem mortal vida à morte:

Eterna destes durará a memória

No universo, e com mais ditosa sorte

Na celeste Sião gozam segura

Posse daquele bem, que sempre dura.

A forte, e belicosa ilha de Goa,

Que custou ao Sabavo tanta gente,

Por toda a parte a fama já pregoa,

Como a ganhara o capitão valente.

Feroz o Hildacão veio em pessoa

Com poder admirando de repente;

Mas achou resistência tão famosa,

Que foi à de Albuquerque perda honrosa.

Neste tempo a monção, que os portos cerra

Em toda aquela costa, começava

Areias removendo, mar, e terra,

Com violência inverno já ameaçava.

E porque o mau sucesso desta guerra,

E o inimigo poder, que à vista estava,

Persuadia a deixar o porto, a armada

Sair quis; mas já a barra achou cerrada.

Quanto seu braço obrou, quanto o conselho,

Despois metido no cerrado rio,

Guarda a memória para claro espelho

Dos que seguem de Marte o honroso brio:

De armas, e gente, bélico aparelho

Tinha o fero Hidalcão; e medo frio

O coração suberbo lhe cobria,

Quando a braveza de Albuquerque via.

Ali morreram muitos, que o caminho

Seguiram, que vai ter ao fim glorioso:

Chora o Tejo, e Mondego, e Douro, e o Minho

Ainda o seu Noronha generoso;

Seguiu (fugindo do paterno ninho)

De Albuquerque o estandarte belicoso,

Matéria dando ao mundo o braço forte

De alta esperança, que atalhou a morte.

Tornando a outra monção, logo que abriram

Areias removendo os ventos frios

(que por cima da terra então respiram)

As entupidas barras aos navios;

Sai Albuquerque, bem que n’alma o firam

Mil tristes sentimentos dos desvios,

Que para conseguir a empresa teve,

Que no princípio tão ganhada esteve.

Mas já, senhor, sabeis como, imitando

A César, e Alexandre na presteza,

A tornou a ganhar, dela deitando

Dos Canarins, e Rumes a braveza:

E que muros, e torres levantando,

Fabrica inexpugnável fortaleza;

E, deixando presídio conveniente,

Virá buscar à Portuguesa gente.

Deu fim assi Arávio à heroica história

Dos feitos de Albuquerque, a noite entanto

Do claro dia conseguiu vitória;

E cobrindo o hemisfério o negro manto.

O Rei se recolheu, e na memória,

Levava retratado valor tanto,

Ocupando o temor o peito duro,

Presságio ao coração do mal futuro.