LIVRO VI
No horror da escura noite, quando mudo
Calçando feltros leve, e diligente,
Anda o silêncio emudecendo tudo,
E senhoreia o sono brandamente:
O esprito ingrato, que no são descuido
A primeira enganou cópia inocente,
E perseguiu de Deus o amigo tanto,
Que de paciência foi piedoso espanto;
No porto de Malaca a armada vendo,
Pela gruta infernal desceu bramando,
Novo furor nas almas acendendo,
Os rebeldes espíritos turbando:
E não parou o fero monstro horrendo,
A escuridão eterna penetrando
Té lá donde Luzbel em trono ardente
Suberbo pena, e impera impaciente.
Diz-lhe troando: ó da perpétua morte
Rei potente, do Olimpo já ornamento,
A quem foi queda o esforço, e em menos sorte
Pôs o que era do Céu por nascimento:
Vós, cuja frequentada, e grande Corte
Tem Reis agrilhoados cento a cento;
E triunfando de altíssimos Monarcas,
Igualais as tiaras co as abarcas:
Vós, cujo poder alto não se encerra
Nalguns confins; que termos não consente
O pensamento ousado a fazer guerra
(Ah não feliz) ao mesmo Onipotente:
Vós, que fazeis o mar irar-se, e a terra
Tremer; vós, que em seu dano armais a gente,
O Sol toldais, e ao fero vento os ferros
Rompeis, e encheis de peste o mundo, e de erros:
Ouvi a triste nova, e mais tremenda,
Que chegou a este trono soberano.
Em vão ao vão poder meu se encomenda
A destruição do ousado Lusitano.
Força maior desde hoje é bem que emprenda
Vingar afronta minha, e nosso dano:
Ancorada em Malaca causa espanto
A armada, que no mar persegui tanto.
Não foi descuido meu; que sabe o inferno,
Que tirei destes negros aposentos
À região clara esquadras; e no interno
Lá da eólia a prisão rompi aos ventos,
Subi alterado o mar quase ao superno,
E quase trastornei os elementos,
Quando vi o Céu a meu valor oposto,
E não há com Miguel pôr rosto a rosto.
Ouvindo isto Luzbel, deu um bramido
Com a dor grande, horrendo, e penetrante,
Aquele estrondo horrível, e temido
(Do trovão turbulento semelhante)
Tudo tremeu, julgou-se por perdido
Em Aqueronte o velho navegante,
Porque as ondas ardentes se alteraram,
E livres pela antiga barca entraram.
Bateu o Buitre as asas espantado:
Que do mísero Tício se apascenta
E Sísifo soltou do ombro cansado
O peso, que subir em vão intenta:
Por pouco houvera Tântalo gostado
Da água, que fugitiva o atormenta:
Porque co abalo súbito cresceram
Ondas, que os beiços quase umedeceram.
Aqueles, que a ruína do penedo
Sempre tremendo, aguardam por momentos,
Cuidaram ser então o último medo,
Aquele ar cego enchendo de lamentos.
Calou Flégias; e donde estava quedo
Teseu se levantou, feriu os ventos,
O Cérbero com uivos triplicados,
Que soaram nos confins mais apartados.
Em pé o Rei das trevas, mor que Atlante,
Move as cabeças sete horrivelente,
E vibra a cauda, com que o terço errante
Arrebatou do Céu mais reluzente:
Os mui violentos braços ao Levante,
Ao Austro, a Calisto estende, e ao Ponente,
Com que num ponto Reinos mil revolve,
E em males a estendida terra envolve.
Por grande espaço horrível, e suberbo,
Fogo, e fumo exalou à dor sujeito;
E apenas respeitando ao sacro Verbo,
Blasfêmias mil soltou do ingrato peito.
Vivirá (disse o espírito protervo)
Meu valor, que não pode ser desfeito,
Por mais que me persiga vingativo
Aquele, por quem vim ao fogo vivo.
Se a forte lança, que empunhei valente,
Quando o primeiro intento foi rompida,
Armas conservo, com que a humana gente
Cada dia a meus pés veio rendida:
Não se alegre Miguel; que o Reino ardente
Encerra esquadra, que se foi vencida
Nos Céus, na terra alcança inda vitórias,
Que eternizar farão minhas memórias.
Que tornes dela acompanhado quero
A ver a luz Solar, dessa que espanto
Maior no abismo causa; e certo espero
Que vencerás com ele orgulho tanto.
Despedido Asmodeu suberbo, e fero,
O Reino penetrou de pena, e pranto,
Atravessando o tormentoso rio,
Cuja corrente é fogo, e gelo frio.
Lá donde voluntário se desterra
O dia, e ocupa a noite eterno assento,
Jaz nas entranhas côncavas da terra
O tesouro da pena, e do tormento:
De fora o prazer abre a porta, e a cerra
Por dentro a contumácia a chaves cento,
Onde a milhões contino os mortais descem,
E as esperanças de tornar perecem.
Os confins, e arrabaldes deleitosos
Neste encuberto rio se terminam;
Que, porque o gosto tira aos criminosos,
Da privação do gosto o denominam:
De entorno cerca os campos temerosos,
Que Deus mal diz, e os Santos abominam,
O rio é dois estímulos chamado,
Sempre em firme onda mostra o mal passado.
Brota disforme parto sua clareza
Negro licor, que em lago se entorpece,
E gera incosolável à tristeza,
Que assi (da morte amante) se aborrece:
Longe rebenta em rio, e com braveza
Correndo, horrível som faz que o ensurdece,
Dos vícios rodeia a casa, que cercada
De cousas vãs tem sempre livre a entrada.
Este infame edifício, caos ardente,
O lugar é do abismo o mais profundo,
Onde suplício eterno mais se sente,
Imunda habitação de povo imundo:
E na desordem da perdida gente,
Que o apetite adorou, serviu o mundo,
Ondem há nos castigos, e rigores,
Que as grandes culpas tem penas maiores.
Tem cada vício cárcere deputado,
E cada cárcere própria pena; e em todo
O Divino castigo executado,
Qual foi da vária vida errado o modo.
Mas quase todo o centro é povoado
Do Venéreo rebanho envolto em lodo,
Que o rio, que de fogo se derrama,
Castiga em flama eterna a breve flama.
Ali, onde um tempo Minos presidia,
Tímon está dos homens inimigo,
Monstruoso Ateniense, que fugia
O trato humano, cruel também consigo:
Bruto entre brutos só fero vivia,
De trágicos, e infandos fins amigo,
Em tudo vaso de ira, e de aspereza,
Desprezador da humana natureza.
No mais baixo, onde mais o rigor cresce,
Os vãos heresiarcas são punidos;
Árrio grita, Mafoma se infurece,
E os mais, nas opiniões só divididos.
O sacrílego Judas se oferece
Entre eles, e os em vão arrependidos,
Que com dor grande a culpa conheceram,
Mas a esperança de perdão perderam.
Os Simoniacos com perpétuo grito
Pertencer à sua classe ali alegavam,
Vendedor do Divino, e do Infinito;
E dele com grão fúria derriçavam:
Também demandam o malvado aflito,
E arrastá-lo à sua gruta porfiavam,
Os que de latrocínios cá viviam,
E, vendendo a justiça, as leis torciam.
Junto as tropas de Caco, e Simão Mago,
Em sangue envoltos vão os parricidas
Dos que lhe deram ser, de irmãos estrago,
E os assassinos de inocentes vidas.
Aposenta a Tifeu sulfúreo lago,
Que confusões exala mal nascidas,
Com os mais, que (sacrílegos) intento
Tiveram de escalar o Firmamento.
E como sempre aos míseros danados
A desesperação mais os irrita,
E, à privação da graça condenados,
A culpa não conhecem, que os incita:
Viu Asmodeu a muitos, que levados
Do natural, que neles ainda habita,
O mal (se já com as obras não podendo)
Co a danada vontade cometendo.
Midas, e Polimnêstor se ofendiam
Com número infinito deste bando;
Os tesouros, que em vivo fogo ardiam,
Com avarentas mãos inda ajuntando.
Sardanapalo, e Nero lá seguiam
Com Tibério, e Calígula o nefando
Vício, que exercitaram cá na vida,
Tão vergonhosamente despendida.
Xerxes com um iroso desatino
Inda lá castigar o mar mandava:
E de Mezêncio o peito diamantino
Ardendo em ira mais se exasperava.
E como o mal da inveja é lá tão fino,
Ali a impaciente dor atormentava
Um número infinito de invejosos,
A quem o bem alheio faz queixosos.
Com estes estiveram, tempos antes
À insaciável sede condenados,
Os vis ambiciosos infestantes,
Que viveram em ânsias, e cuidados:
Mas hoje, os tem cem guardas vigilantes
Debaixo de cem chaves encerrados,
Que mostra (ao que parece) o Rei do Escuro
De um ambicioso não estar seguro.
Galieno remisso, e negligente
Tem um leito de abrolhos por encosto;
E, para que desperte, sempre ardente
Metal fundido lhe burrifa o rosto.
Se alguma hora pudera ser contente,
Matéria ali Asmodeu tinha de gosto;
Porém, breve detença não sofrendo,
Ao claustro principal passou correndo.
Tem a Suberba lá o primeiro assento
Com grande ostentação de majestade;
Mas sempre acompanhada do tormento
Da pesada inchação, e gravidade.
Encerra-se a Avareza em aposento
Escuro; usa consigo de impiedade,
Vilmente idolatrando na riqueza,
E padecendo sempre a mor pobreza.
Lasciva a Impudicícia se passeia;
Favores finge, traja várias cores;
A quem seguindo vão com pompa feia
Afeitos tristes, multidão de dores.
A Ira, que inda contra o Céu guerreia,
Está sempre ameaçando com rigores:
Assiste-lhe a Discórdia, torva a vista;
Que até das companheiras é malquista.
A Gula, com glotônico aparato
Sentada à mesa está grossa, e impedida:
Apoplexia lhe ministra o prato,
E a torpe embriaguez serve a bebida.
Lá num canto se dá mísero trato
A vil Inveja, magra, e carcomida,
Sem gosto, nem proveito só vivia,
Do Ódio visitada cada dia.
Jaz a Preguiça no portal deitada
Co descuidoso, co Ócio, co a Ignorância,
Muitas vezes dos outros é pisada;
Não se altera porém, nem deixa a estância.
A Fraude, e Ingratidão lá tem morada,
A néscia presunção, douda arrogância,
Também foi a ambição lá habitadora;
Mas em todo o universo impera agora.
Exalando Asmodeu furor, convoca
A monstruosa esquadra para o feito,
Que tanto ao iracundo inferno toca
Em defensa do Reino tão sujeito.
Mas a lascívia, que ânimos provoca,
Com a preguiça, e gula a mole efeito,
Por então as não quis naquela empresa,
Na quel queria ações de fortaleza.
Guiando a turba feia em males certas,
Bramando sai da lôbrega morada,
Abrindo a porta para entrar aberta,
Porém para sair sempre cerrada.
Por toda a parte, que a passar acerta,
A serena região fica turbada,
Deserto o campo de seu fruito, e flores;
Entra em Malaca, e faz danos maiores.
Tiveram toda a noite desvelado
Ao pagão Rei contrários pensamentos,
Ora à guerra, ora à paz determinado,
Sem tomar conclusão em seus intentos:
E, já de tanto vacilar cansado,
O sono confundindo os fundamentos
Destes cuidados, tréguas assentaram
Os sentidos, e ao sono se entregaram.
Quando, tremer fazendo o régio teito,
Entra Asmodeu dos seus acompanhado:
Chegando, a ira aplica, e a fraude ao peito,
Do ódio, e da avareza já ocupado:
Correu veneno ao coração direito,
Cheio de confusão, pena, e cuidado;
E na matéria já disposta prende;
A fraude o furor cobre, a ira o acende.
Opróbrio julga vil, e afronta sua,
Que Albuquerque com tal desigualdade
Ouse pedir que os presos restitua,
E por temor servil torça a vontade.
A paixão a tomar vingança crua
(seja força, ou treição) o persuade;
Arde no peito o iroso pensamento,
Mas prova a executar sem risco o intento.
Qual o faminto lobo, que escondido
Lá donde espessa brenha é mais cerrada,
Que o gado vê na rede recolhido,
Dos valentes rafeiros rodeada,
Não sossega inqueito co sentido
Em assaltar a tímida manada;
Tal o tirano Rei só tempo espera,
E fogo entanto exala a vista fera.
Dali, lá donde o Príncipe inquieto
Co bélico alvoroço mal sossega,
Passa o Anjo rebelde; e o mais secreto
Lhe enche de ira, suberba, e paixão cega:
Turbado, furioso acorda, e indiscreto,
De modo, que a si mesmo paz se nega;
Não derramar já sangue Cristão sente
Iroso, apaixonado, e impaciente.
Era o Príncipe moço, valoroso,
De grandes forças, corpo de gigante,
De emprender feitos altos desejoso,
Ousado nos perigos, e constante.
Também no grau maior presuntuoso,
Altivo, temerário, e arrogante,
Asmodeu, que lhe alcança a natureza,
Aplica-lhe os afeitos da braveza.
A todos os mais, logo que sabia
Terem na abominável treição parte,
A grave culpa trouxe à fantasia,
Engrandecendo-a com indústria, e arte.
Eles, temendo a pena, em vindo o dia
O povo alteram, e apelidam Marte:
Assi que, amanhecendo, em toda a terra
Abominando a paz, pregoam guerra.
Mas posto que ao desejo do tirano
Sopro, e matéria a fúria ministrasse,
Quis ver se urdia o Cristão dano
De modo, que em ventura não ficasse.
E como em tudo mestre era de engano.
Pareceu-lhe mandar quem bem notasse
Debaixo de amigável fingimento,
Da armada força, de Albuquerque o intento.
Era Tuão Bandão mouro valente,
E sagaz, neste tempo ao Rei aceito,
Para o importante caso conveniente,
No fingir sábio, cauteloso o peito.
Com ele se aconselha, e largamento
Da alma pratica o mais secreto efeito:
Depois ao capitão egrégio o envia,
Fingindo Embaixador, dobrada espia.
De alguns nobres do Reino acompanhado
Partiu da terra o Mouro cauteloso,
Por ir mais naquele ato autorizado,
E menos a Albuquerque suspeitoso.
À capitaina sobe confiado;
E quando chega ante o varão famoso,
Como o bárbaro povo de Agar usa,
Corpo, e cabeça inclina, os braços cruza.
Em pé o capitão co tratamento,
Que sempre usava em atos semelhantes,
Mandou-lhe em coxins ricos dar assento;
Ele o assento ocupou, que tinha de antes.
Os capitães, de Luso alto ornamento,
Raios do claro Afonso rutilantes,
Ocupavam, em torno dele armados,
Assentos ricamento alcatifados.
E qual pintava a cega Idolatria
Seus deuses vãos no claro Olimpo, quando
Júpiter grave entre eles presidia
Importantes negócios decretando:
Cada qual deles Nume parecia;
E o capitão preclaro, e venerando
Na grave majestade, que mostrava,
Nos deuses o maior representava.
Deles em guarda de uma, e outra parte,
A gente militar brava, e lustrosa,
Com as armas nas mãos, posta com arte,
Se mostrava galante, e belicosa.
Sentados, disse o Mouro: Cristão, Marte,
Prospere o Céu tua fama, que gloriosa,
Teus feitos, e vitórias relatando,
Universal espanto vai causando.
Lá, donde Hércules pôs limite ao mundo,
Até cá, donde o Sol primeiro aquenta,
Teu singular valor, já sem segundo,
Da seca Inveja as mágoas acrescenta:
Netuno te ama, e no seu mar profundo
De que igualmente imperes se contenta;
E Maomé, que este Império senhoreia,
Escutando teus feitos se recreia;
Que, como é valoroso, o valor ama,
Que ódio causa nos tímidos, e inveja;
E co teu Rei, que estima já por fama,
Amizade perpétua ter deseja.
Riquezas liberal o Céu derrama
Neste seu Reino; e folgará que veja
Entrar na foz do Tejo carregada,
Teu Rei, de todas elas esta armada.
Por tanto pedir podes confiado
Quanto dar pode o mar, e a terra cria
Dês donde tem seu berço o Sol dourado,
Até lá donde vai dar tumba ao dia:
O metal, mais que todos desejado,
Toda a sorte de aroma, e especiaria,
O rubi, e a safira rutilante,
Aljôfar grosso, rígido diamante.
Albuquerque, às palavras derramadas
Do cauteloso Mouro respondendo,
Assi disse: Não drogas estimadas,
Aromas, ouro de teu Rei pertendo;
Nem por perlas, no fundo mar geradas,
Rubis, diamantes, vim o mar rompendo,
Posto que agradecido estimo honrar-me
Teu Rei, e com promessas obrigar-me.
Aqueles Portugueses, que ficaram
Nessa Malaca pelo grave excesso,
Quando o rigor da morte alguns provaram,
De um nosso capitão triste sucesso
Das praias Indianas me apartaram,
Estes venho buscar; e a teu Rei peço
Que mos entregue: e dele assi o espero;
Despois se tratará do que mais quero.
Não disse mais: e com severo aspeito
Seguro se mostrou, e confiado,
Causando ao Mouro no secreto peito
Grande perturbação, novo cuidado:
E despedido, pouco satisfeito
De quanto ouviu, e viu, todo assombrado
Tornou, e ao velho Rei conta o que vira,
E a reposta, que todo o acende em ira.
Porém desta paixão, que tanto o altera,
Passada a fúria do ímpeto primeiro,
Político discorre, e considera
No inimigo o poder, peito guerreiro.
Teme; mas tanto não, que a tenção fera
Modere: e com o cauto conselheiro
Traças pratica, com que o entretenham,
Por que lugar de aperceber-se tenham.
Cada qual adelgaça o entendimento,
E passa a noite, e o dia imaginando;
E despois um, e outro pensamento
Com madura prudência praticando:
Entre muitos escolhem novo intento,
Com que, segunda vez o mar cortando,
Ao capitão o astuto Mouro torna,
A quem dizendo assi sua fraude adorna:
O grão Sultão Maomé, que ter deseja
Contigo, e com teu Rei larga amizade,
Porque bastante a estorvar não seja
Suspeita alguma falta de verdade:
E para que também o mundo o veja
(Se acaso ofende o mundo sua bondade)
Inculpável contigo se desculpa;
Ou dá satisfação, pois não há culpa.
Que naquele sucesso, em que enfim para,
O que hoje (pode ser) teu peito irrita,
Está da parte de meu Rei tão clara
Sua inocência, que o Céu puro imita.
A morte do seu pérfido Bendara,
Que foi do dano autor, isto acredita;
Que já deves saber, que foi provado
O seu delito, à morte condenado.
Aqueles Portugueses, que do infando
Sucesso em terra míseros ficaram,
Um tratamento nele sempre brando
Com obras de piedoso pai acharam.
Deles esta verdade ouvirás quando
Os vires, que por vezes confessaram;
E, por que mais se estendam seus louvores,
Ricos tos mandará de seus favores.
O capitão (que bem lhe descobria
O veneno no peito) assi responde:
Nunca me persuadi que sofreria
Teu Rei cousa, que a Rei não corresponde.
De um coração nu de honra, e valia
Se pode coligir que engano esconde;
Não de tão grão senhor: e já informado
Venho; e sei que o Bendara foi culpado.
E sendo assi que foi a culpa sua,
Que em parte satisfez, perdendo a vida,
Razão é que a meu Rei se restitua,
No que era seu, a perda recebida.
E não tratando mais de obra tão crua,
O Sultão desta armada apercebida
(Pelo vir a buscar) pague o dispêndio,
A guerra a causa tire, a lenha ao incêndio.
Como isto faça, e como a bautizada
Gente me entregue, que em Malaca mora,
Servir de mim se pode, e desta armada,
De tantos inimigos vencedora:
E atrás não tornarei, por arriscada
Que seja a empresa, e de esperança fora:
Nem em nome de um Deus só poderoso,
Há caso para mim dificultoso.
Mostras do peito valoroso dando,
Assi disse o Varão forte, e prudente.
Atento o Mouro o ouviu, se bem ficando
Da resolução nobre descontente:
Porém como sagaz dissimulando
Com falsas mostras o pesar, que sente,
Se despede, o mar passa, toma terra,
Imaginando na esperada guerra.
Turbado, e triste ante o tirano chega;
Que, ouvindo-o, se enfiou mais perturbado;
E com afeitos de ira, à razão cega,
Tais razões solta do furor levado:
A suberba lugar à prudência nega
A este vão arrogante, confiado
Na boa fortuna, que até gora teve,
Assi em meu Reino a pôr-me leis se atreve?
Mas, se me não mentir minha esperança...
Aqui parou; que o mais ficou no peito,
Atalhando a duvidosa confiança,
Na consciência, a força do defeito.
E como o pensamento não descansa,
Juntamente a temor, e ira sujeito,
Entre afeitos contrários vacilava,
Ora ira, ora temor o senhoreava.
Tal, como quando exalação da terra
Com Celeste influência se levanta,
A quem escura nuvem prende, e encerra
Violenta causa de violência tanta,
Pelejam quente, e frio, e nesta guerra
Aceso o fogo, que os mortais espanta,
Com tanto extremo a fúria vai crescendo,
Que a nuvem rasga com estrondo horrendo;
Tal daquele alterado peito a ira
Ardendo rompe, os ares abrasando;
Brama furioso o Rei, triste suspira,
Beber o Cristão sangue desejando.
Pela vista o infernal fogo respira,
Que na alma lhe acendeu do abismo o bando:
E assi nele era tudo ira, e braveza,
Contumácia, ambição, ódio, avareza.
Com este infernal ímpeto convoca
Assi seus naturais, como estrangeiros,
Aos quais quase com lágrimas provoca
A ser da infausta guerra companheiros:
A vós, disse, varões insignes, toca
(Pois o nome prezais de cavaleiros)
Sustentar este Reino: e minha afronta
Corre, amigos, também por vossa conta.
Desta cossária gente, conhecida
Por seus insultos, a suberba armada
Vedes em vosso porto já surgida,
E para nosso dano aparelhada.
E, porque a causa disto é tão sabida,
A não refiro; porém é fundada
Em razão que justo é da vida prive:
Quem de roubos tiranamente vive.
Se infesta o mar, se faz na terra saltos,
É cousa em toda a parte assaz notória.
Não valeram a Ormuz os muros altos;
Também lamenta Goa a triste história;
E todos eles, de respeito faltos,
Piráticos insultos têm por glória:
Correm roubando o mar; e, se puderem,
O mesmo, e mais usar convosco querem.
A tenção sua se vos mostra clara
No desprezo, com que ouve meus recados
O pirata suberbo; e bem declara
Nas repostas o fim de seus cuidados:
E Bandã vos dirá como prepara
Nosso dano por termos nunca usados,
Com que suberbas leis dispõem, condena,
E já a seu modo minha afronta ordena.
Assi dizendo do enganoso peito
Suspiros despedia cento a cento:
Causou em todos compassivo afeito:
Aquele acreditado sentimento.
Bandã, que interessado, e por respeito,
Animava do Rei o pensamento,
Foi prosseguindo, o que passou contando
Com Albuquerque, em parte acrescentando.
Mas ao fim não chegou; porque indignado
O Príncipe Aladim, moço valente,
Com o rosto de cólera banhado,
Em pé se levantou fero, impaciente.
Inda, pai, e senhor (lhe disse) o herdado
Valor da Jaua, e da Celátea gente
Em teus vassalos vive, e em ti agora
Vive também o grão Paramissora.
E eu, que de filho teu me prezo tanto,
A não degenerar também me obrigo,
Antes espero ser do luto, e pranto
De tantos vingador, fatal castigo.
Não amedrente não, nem cause espanto,
Sem lhe provar as forças, o inimigo:
Nem se diga de nós que nos assombra
A fama vã, do inimigo a sombra.
Princípio em armas este Estado teve,
Que seus termos despois tanto estenderam:
Das armas, grão senhor, usar se deve,
Que tanta glória a teus passados deram.
Conheça, invicto Rei, quem se te atreve,
(Como já os feros Siames conheceram)
Que produz de Malaca a nobre terra
Gente imiga do ócio, e que ama a guerra.
Assi falou o bárbaro arrogante,
Ou a fúria infernal nele falava.
Logo Hacém Rei de Pão, fero o semblante,
Que agradar ao tirano desejava,
Por se mostrar valente, quanto amante
Da Infanta, cujas bodas aguardava,
Disse o que não cumpriu tão facilmente;
Que mil vezes amor promete, e mente.
Eu, soberano Rei, a quem vós destes,
Levantando-me ao Céu, título honroso
De filho, o dia, que me engandecestes
Com riquezas de amor, e bens de esposo:
Esta vida, e meu Reino, que fizestes
Com a bela Argiana venturoso,
Para que desponhais, vos ofereço:
Mandai; que por meu Rei vos reconheço.
Tenha exemplar castigo o livre intento
Desse pirata, só com fracos forte:
Seja este, por maior atrevimento,
O derradeiro com sua justa morte.
Assi disse em favor do pensamento
Do triste Rei, a quem guiava a sorte,
Ou Divina justiça, a merecidos
Castigos dos insultos cometidos.
Neste conselho vários assistiram,
Arábios, Guzarates, Malabares,
Pegus, Bengalas, Jaus, que persuadiram
A guerra, por paixões particulares;
Que já em passadas ocasiões sentiram
(Sulcando com suas naus da Índia os mares
Muitas vezes) o ferro Lusitano,
Que origem seu rancor teve em seu dano.
Mas aqueles, a quem os largos anos,
Valor diminuindo, o sangue esfriam,
Persuadiam a paz; e os graves danos,
Que a guerra traz consigo, referiam.
Os feitos engradecem Lusitanos;
Entre eles um, que todos entendiam
Que o dispor das Estrelas alcançava,
Perda do Reino ao Rei pronosticava.
Era a sua pátria Meliapor; seguia
Como os seus naturais o Cristão rito;
Nomeava-se Etol; a mercancia
Um tempo o teve habitador no Egito.
Insigne em Mênfis foi na Astrologia,
Aprendendo também do mago Clito
Versos, que os infernais ministros ligam,
E contra o natural obrar obrigam.
Chegando a armada, levantou figuras;
E os astros todos nelas ameaçavam
Incêndios, perdas, roubos, desventuras,
E daquele alto Império o fim mostravam.
Vendo estas cousas, posto que futuras,
Contra os que a tenção bélica aprovavam,
Com razões brandas já se tinha oposto;
Mas livre então falou, severo o rosto.
Não sei (lhes disse) em que estribais seguros,
Ou porque vos mostrais tão confiados.
Vedes por esta gente os Rumes duros
Tantas vezes fugir desbaratados;
Assoladas as forças, e altos muros
De Ormuz, os Reis da Índia sujugados;
E vedes quantas vidas vos custaram
Os que em Malaca para mal ficaram.
Pois como vãos daquela grosa armada
As forças desprezais, e do prudente
Capitão o valor, e ter fundada
Sua causa em razão tão evidente?
Deixai a presunção vã enganada;
E não busqueis razão, que é só aparente:
Que se a guerra se rompe, claro o digo,
Tereis a terra, e o Céu por inimigo.
Vereis esta cidade (que hoje vemos
Tão rica, tão suberba, e populosa)
Entrada a ferro, e fogo; e sentiremos
O domínio da gente belicosa.
Irás tu, Rei, fugindo, mil extremos
De misérias sofrendo, a poderosa
Majestade perdida, e Régio mando,
No desterro; uns temendo, outros rogando.
Mais prosseguir quisera. porém sendo,
Por Cristão conhecido, suspeitoso,
Irado o cego Rei gritou dizendo:
Prendam este profeta mentiroso.
Cumpriram todos com estrondo horrendo
O tirano mandado rigoroso;
E como os malfeitores afrontado
Foi à dura prisão dali levado.
Sossegado o alvoroço, o Rei severo
Por animar aos seus, inda iracundo,
Pois, disse, ao Céu é clara, mostrar quero
Justifacada minha causa ao mundo.
Poder Malaca alcança; e cedo espero
Socorros grandes, em que também fundo
Minha esperança. e, declarada a guerra,
Os mais despede, e com Tuão se encerra.
Entanto que em Malaca se entendia
Em juntas, e aparatos belicosos,
Juntos na Cristã frota estando um dia
Andrade, Lima, Jaime, e os mais famosos:
Suspendida a braveza, e valentia,
Vindo a tratar de casos amorosos,
Senhores (disse Jaime) em toda a parte
Reina amor, e seu fogo sente Marte.
Tal é (respondeu Lima) e bem o vemos
Em vós, que Marte sois a amor sujeito;
Porém só que arde amor em vós sabemos,
Mas não a causa do amoroso efeito.
E se a amizade estreita, que nós temos,
Obriga, não havendo algum respeito,
Que a ser secreto amante vos condena,
A causa nos contai de vossa pena.
No meu caso (disse ele) vão, e triste,
Porque lhe devo ser uma vaidade,
E sou a parte, e o todo; e só consiste
Em que de um vão amor sigo a impiedade.
A romper o segredo me resiste
Minha reputação, que em nossa idade
Será fábula ao mundo mui cuidado
E serei eu por doudo reputado.
Mas, por que hoje vejais que facilita
Muito a amizade, agora contar quero
Aquela história na memória escrita,
A que ver fim ditoso desespero.
Um sonho escutareis, que necessita
A padecer agravos de amor fero;
E, sendo eu contra amor duro diamante,
Bastou um sonho só a fazer-me amante.
Não tendo o quarto lustro inda cumprido,
Uma noite (oxalá que fora eterna)
Tendo-me o brando sono já vencido,
E ligada a razão, que nos governa;
A bela imagem no interior sentido
Se me mostrou; e a parte mais interna
Do coração, que nunca amor sentira,
Sentiu do amor no mesmo instante a ira.
Pintar do belo objeito cada parte
Fora trabalho em vão, fora infinito,
Que atrás ficara todo engenho, e arte,
E fora necessário um alto espírito:
Não é mais bela aquela, por quem Marte
De ciúmes tem o Deus do fogo aflito;
Nos seus formosos olhos amor mora,
Nas faces belas amanhece a Aurora.
Por grande espaço estive contemplando
Cos olhos d’alma a grande formosura;
E dava lenha ao fogo, que abrasando
Tomava d’alma já posse segura:
Ela também me estava mostras dando
De amor no suave modo, e na brandura,
Com que em mim punha os olhos; e mostrava
Que junta palma a palma desejava.
Eu, que também nesse desejo ardia,
Dizer-lhe procurava minha pena:
Porém não sei que força mo impedia;
Da estrela deve ser, que me condena.
Com aquela ânsia ardente, que sentia
Em meu coração disse: Quem ordena
Tão sem razão, que o fruto amado veja,
E com Tântalo igual na pena seja?
Entre a espiga, e a mão, que muro há em meio,
Se não é o rigor de minha sorte,
Que à dita minha põem limite, e freio,
E indícios claros dá de minha morte?
Passei a noite no sonhado enleio,
Temendo, e desejando (ai ponto forte!)
Aquele, em que acordei, nunca acordara,
Ou nada do passado me lembrara.
Já então era alto dia, que saudoso
Do meu passado bem, passei chorando,
E, dando assi mais força ao amoroso
Veneno, muitos outros fui passando.
Vede se haverá caso rigoroso,
Que ao meu se iguale, sempre suspirando
Pelo que não tem ser; nem se concede
Mal grande, que em rigor à morte excede.
Como da vida ao extremo me chegasse
Este mal incapaz de medicina,
Porque o remédio em parte não faltasse,
Que a tudo piedoso o Céu o destina;
Ordenou que por fava consultasse
Um varão douto, que a entender ensina
Dos planetas o certo movimento,
E quais astros dão luz no Firmamento.
Este imitando aquele antigo orago,
Que lá num tempo em Delfos respondia,
Assi me disse: Passa o salso lago,
E o berço busca donde nasce o dia,
Alcançarás entre mortal estrago
Esse bem, que te priva de alegria.
Não disse mais, dexando-me a esperança
Tão incerta, que falta a confiança.
Mas como não ouvesse em mim sossego,
Animado a seguir esta incerteza,
À duvidosa fé do mar me entrego,
Donde provei dos ventos a braveza.
A toda a parte, donde agora chego,
Seguindo o ingrato amor, sigo a aspereza
De Marte sanguinoso, e furibundo,
O bem buscando, que não há no mundo.
E não desistirei (a qualquer sorte
Oferecido desta empresa dura)
Até que a Parca o vital fio corte,
Ou veja a suspirada formosura:
E perigo não há, nem pena forte,
Que eu tema já; porque dês que a ventura
Me fez a padecer males sujeito,
Tudo, o que há de rigor, se acha em meu peito.
Seguirei fantasias, que passaram
Tanto mar, com tão poucas seguranças,
E tanto do descanso me apartaram,
Que já nem dele tenho as esperanças:
Fortuna enfim, e amor se conjuraram
A que a vida sustente só em lembranças
De aquele bem, que foi tão limitado,
Que não chegou a mais que ser sonhado.
À compaixão movidos, e admirados
Estavam a amorosa história uouvindo
Os fortes cavaleiros, quando brados
Ouviram a rebate, o ar ferindo.
Levantaram-se logo alvoroçados,
E viram como vinha o mar cobrindo
Uma armada de remo aparatosa,
Dando mostra soberba, e belicosa.
E do Cretense labirinto escuro
As voltas imitando fabricadas,
Em vão as fustas no elemento puro
Formam giros, e voltas intricadas.
Depois em bandos, qual no campo duro,
Africanos ginetes nas travadas
Escaramuças, cometendo tiram,
E ora estes, ora aqueles se retiram;
Entre si com gentil ordem travaram
Uma batalha (ao parecer) ferida,
Na qual bem a naval arte mostraram
Com exercício de anos aprendida.
Dês que de Nero, assi representaram,
E de Cláudio as Naumáquias, foi seguida
Dos mais a capitania para a terra,
Com grande estrondo, e música de guerra.
Aquela, e outras muitas vezes deram,
Sem efeito nenhum, mostra os Malaios,
Que assombrar ardilosos pertenderam
Os deu Luso com bélicos ensaios:
Porém foi obra, e tempo que perderam,
E geraram de novo ardentes raios
De ira no peito de Albuquerque forte,
Que em Malaca choveram fogo, e morte.