LIVRO VII

By Francisco de Sá de Meneses

Neste tempo dês da alta popa via

O forte capitão fazer em terra

Tranqueiras, e plantar artelharia

Com várias outras prevenções de guerra:

Já de alcançar os presos desconfia,

E teme algum engano dos que encerra

Todo o Agareno peito; e no tirano

Considera um artífice de engano.

Como pois dilatasse este conceito

Com largo discorrer no entendimento,

Desconfiança entrou no ilustre peito,

A ira provocando o sentimento:

E por que não se ofenda seu respeito,

E culpa venha a ser o sofrimento,

Que armem com grande pressa batéis manda

Leão, Pereira, Andrade com Miranda.

Nos quatro armados lenhos aos valentes

Varões reconhecer manda a cidade,

E notar os lugares convenientes,

Por donde a entrar com mais seguridade:

Ferem logo cos remos diligentes

O mar os remadores; e, a vontade

Do capitão prudente executando,

Tudo os quatro Guerreiros vão notando.

Manda também o Rei sair do rio

Armada, que o mar cobre, a cometê-los.

Porém não perde Afonso o heroico brio,

E manda os mais batéis a socorrê-los:

Causa nos inimigos medo frio

Tanta resolução, e com só vê-los,

Vindo a voga arrancada, volta deram,

E no rio outra vez se recolheram.

Tuão Bandão a bordo com recado

Composto de desculpas amanhece;

Que Albuquerque não quis ouvir cansado

Dos enganos, que nele já conhece:

E lhe mandou dizer que em todo estado,

Quando a fortuna sobe, e quando desce,

Sempre palavra o Português mantinha,

E um rosto, um Rei, um Deus somente tinha.

Encheu Malaca de medroso enleio

A severa resposta inopinada,

Duvidando do fim, se falta um meio,

Na guerra já de todo declarada:

Só no Rei se conhece entre o receio

Irado o coração, a alma obstinada:

Faz juntas, roga, manda, persuade,

E tudo é confusão, e variedade.

Albuquerque também entanto estava

Flutuando num pego de cuidados:

Era alta noite já, e inda não dava

Repouso aos lassos membros trabalhados:

E quando o sono os olhos lhe ocupava

Dos continos desvelos agravados,

Do castelo de popa vozes deram,

Que da noite o silêncio interromperam.

Bradaram os que estavam de vigia,

Quando a bordo um batel chegar sentiram,

E quando pela enxárcia já subia,

Por quem de novo as vozes repetiram;

Desejam saber todos quem seria

O que ousou tanto: e sobre o convés viram

Um velho, cuja barba chega ao peito,

Da cor da neve, venerando o aspeito.

Formando em torno dele a gente um muro,

Pediu que ao capitão forte o levassem,

Dar procurando entre o noturno escuro

Mostras, que de fiel o acreditassem:

Mas não bastou mostrar-se tão seguro,

Para que dele mal não suspeitassem

Alguns, a quem ocorre ali à memória

De Sinon, e de Troia a triste história.

Trazem-lhe para entrar enfim licença

Lá donde o capitão mal repousava.

Entra; e, saudando-o, disse: Glória imensa

O Céu, varão insigne, te prepara:

De teu trabalho vejo a recompensa;

Contigo a ocasião tens cara a cara,

A dourada guedelha te oferece,

E teus intentos altos favorece.

Quem és tu? (disse Afonso) e com que intento

Esse bem pronosticas, e me animas?

Serei, inda que humilde, um instrumento

(Lhe respondeu) com que o tirano oprimas.

Merecer teu favor, servindo, intento;

E se, qual hera, a forte muro arrimas

A teu alto valor minha humildade,

Subirei grato à mor felicidade.

Mas, para que não fiques duvidoso,

Ó magnânimo Afonso, em Cristo adoro.

Nasci na parte, onde Tomé glorioso

Morreu por Cristo; e em Malaca moro:

Fui ao turinao fero suspeitoso,

Porque livre falei, e porque ao coro

Dos falsos conselheiros contradisse,

E verdades lá pouco aceitas disse.

Contra mim o Rei cruel em ira aceso,

Por ele à prisão dura fui mandado,

Onde senti do ferro o duro peso,

No conceito de todos condenado:

Porém não sofri muito ver-me preso;

E em teu nome, de tudo respeitado,

Rompi as prisões; e venho a que me mandes;

Que te espero fazer serviços grandes.

Que, inda que te pareça fraco velho,

Força o desejo dá, a razão, o agravo:

Servirei pelo menos de conselho,

Irmão no amor, na sujeição escravo.

E se de alto valor és claro espelho,

Arte, e ciência alcanço, que a Timavo

Igualo na observância das estrelas,

E a Atlante em conhecer o curso delas.

Com arte alterar posso os elementos,

Mover a terra, atrás tornar os rios,

Turbar o mar, mudar num ponto os ventos,

Vivo fogo acender nos gelos frios:

Mas isto, enquanto aos atos tão violentos

Não cortar o Motor supremo os fios;

Que sem licença sua considera

Que contra Jó Satão nada pudera.

E não julgues que, qual o falso Mago,

De Pedro contendor, desta arte uso;

Que entre Pagãos a Cristo n’alma trago;

E deles aborreço o torpe abuso:

De Malaca alcancei o triste estrago;

Mostram-no os Astros Júpiter confuso,

Desfalecido, e triste em ponto forte

Nos dous de Helena irmãos casa da morte.

Porém, para isto ser, convém primeiro

Que um guerreiro, que vive em branda calma

De amor, se vá buscar onde estrangeiro

Em mole ócio padece afrontas d’alma:

Tendo contigo o forte cavaleiro,

De Malaca terás inteira palma,

Que o Céu, que altas vitórias te destina,

Assi o estabelece, e determina.

Abrindo vinha o mar este famoso,

Por ser nos danos de Malaca parte;

E seguindo o estandarte belicoso,

Da milícia apendere contigo a arte:

Mas violência infernal o tempestuoso

Dia o levou à mais remota parte,

Com cinco valorosos companheiros,

Que são entre os famosos dos primeiros.

Este, cujo valor se estende a tanto,

Aqui trarei, com que dos teus famosos

Um me acompanhe, a quem não causem espanto

Casos, que possa haver dificultosos.

Escutavam-no muitos, e entretanto

Alguns dos circunstantes invejosos

Deste encarecimento honroso estavam;

Outras ver o guerreiro desejavam.

Também o capitão a alma suspensa

Na mente o que escutava, referia.

E respondeu: Se o justo Céu dispensa

Que extinga de Malaca a tirania,

Do mesmo Céu terás a recompensa;

E que a terás de mim na terra, fia;

Serás do Lusitano povo honrado,

Sempre favorecido, e respeitado.

Mas no tocante ao cavaleiro forte,

Que pedes, que haja muitos não duvido

Já desejosos que lhe toque a sorte,

Por mostrar o valor na alma escondido:

Porém quanto me a mim primeiro importe

Segurá-lo, discorre no sentido;

Pois que me importa dar de todos conta;

E, dando-a má, que sentirei de afronta?

Dom João de Sousa moço valoroso,

A quem mais o desejo o risco acende,

Assi lhe diz: Seja eu, varão famoso,

Esse, a quem esta empresa se encomende:

Não há no mundo caso perigoso,

Quando do Céu a causa se defende;

E do risco maior desta aventura

Esta segura espada me assegura.

Coutinho juntamente a empresa pede

Com outros muitos, todos dos famosos:

Mas constante Albuquerque a nega, e impede,

Deixando-os descontentes, e queixosos:

Entanto que ele considera, e mede

Mil sucessos no caso perigosos,

Sousa, que da licença duvidara,

Chamando a Etol no seu batel faltara.

O Sábio o segue envolto em névoa escura,

Que invisível o faz aos circunstantes,

Até que, dando à vela, o ar se apura,

E conhecem no barco os navegantes:

Por grande espaço o espanto em muitos dura

Do sucesso, e de ver que as espumantes

Ondas o fatal lenho dividia

Tão ligeiro, que a vista desmentia.

Parte o Guerreiro forte: os mais ficaram

Sentidos, e invejosos da partida:

Outros, mal suspeitando, imaginaram

Ser esta a derradeira despedida.

O sentimento, e cólera abrasaram

O peito ao capitão; mas, resistida

A paixão, dá esperança da jornada,

Posto que a julga fábula sonhada.

De novo o Sol com lúcido retorno

As reluias da noite desterrava,

E com alegre, e radiante adorno

As cousas já distintas ilustrava:

Da armada o bosque no úmido contorno

(Se não naval Cidade) já dourava,

A conselho co diurno raio chama

Afonso, e corre da aventura a fama.

Acodem logo os capitães valentes,

De acabar casos grandes desejosos:

E o capitão lhes disse: Obedientes

A vosso Rei e a Deus, varões famosos;

Vós assombro fatal de Mauras gentes,

Que alcançastes triunfos mil gloriosos,

Já a razão grita que princípio demos

A obra, por que tanto mar rompemos.

Até agora esperei chegasse o dia

Que a palavra Real, a fé guardasse

Nosso inimigo, e, como prometia,

Os presos companheiros nos mandasse.

Mas, vista a falta sua, já se via

Perder reputação, se mais tardasse

Em lhe dar o castigo merecido,

Tanto ao peito obstinado em vão detido.

Assi Albuquerque anima, e persuade:

Mas levantando a voz Jorge Botelho,

Acreditado por valor, e idade,

Escutai, disse, o parecer de um velho.

Antes que assalto demos à Cidade,

Que se queimem os lenhos aconselho

Guzarates; porque é certo o perigo,

Se nas costas deixamos o inimigo.

Despois que deles posse ao fogo demos,

Para se conseguir do intento o efeito,

Se cômoda a maré, e lugar tivermos,

Logo poremos à Cidade o peito;

Que, posto o caso nos Mavórcios termos,

Que a cheguemos é bem ao mais estreito,

E, de rigor executando extremos,

Quando descanse o Sol descansaremos.

De excelente varão, voto excelente,

Disse Afonso, e dos mais foi aprovado;

E, armados os batéis com destra gente,

Foi no seguinte dia executado.

Nova já dava a Aurora no Oriente

Da vinda de Titão, quando o esperado

Sinal a tuba deu, que os rostos muda;

Grita a gente até então atenta, e muda.

Arrancam todos com clamor horrendo

Ferindo os ares, e cos remos duros

As ondas alteradas revolvendo,

Espuma levantando, e cristais puros.

Gritam também os inimigos, vendo

De improviso o rebate mal seguros,

Nas côncavas cavernas repetiam

Mil ecos tudo, e tudo confundiam.

Qual foi tocando a fogo noite alta,

Que em casa cada qual ter imagina

Correr a gente, que da cama salta,

Até que à parte, que se abrasa, atina:

Tal no mar, e na terra sobressalta

O estrondo, e a vozeria repentina:

Os de Luso entretanto o mar cortavam,

E por chegar os remos apressavam.

Chegados à distância, que podia

Fazer emprego, e efeito rigoroso

Nas inimigas naus a artilharia,

Fogo ao salitre dão, que arde espantoso:

Nos ardentes pelouros morte fria

Se envolve, e logo se ouve um lastimoso

Som confuso de gritos, e gemidos

Dos que morrendo estão, e dos feridos.

Bravos os inimigos responderam,

Também a artilharia disparando,

E, chegando a bordar, os receberam

Pedras, fundas, e dardos mil tirando.

Cubertos dos escudos remeteram

Os fortes Portugueses; e pegando

Em várias partes fogo, num momento

Some chamas, e fumo pelo vento.

Entrou o medo, confusão, e espanto

Nos Guzarates míseros, cercados

De fogo, e fumo, um lastimoso pranto

Aos ares levantando acobardados:

Vendo seu fim alguns em rigor tanto,

De outro remédio já desesperados,

Saltam por entre as chamas acendidas,

Procurando no mar salvar as vidas.

Mas já também no mar a imiga sorte

Lhes tinha aparelhada morte dura;

Acabam nele às mãos da gente forte,

Que a ferina treição vingar procura:

Preza os imigos já da justa morte,

Dão-lhes o mar, e fogo sepultura:

Movem contra a Cidade os vencedores,

Querendo executar novos rigores.

Bem como o bravo touro, magoado

Do farpão duro, segue ao que o feria,

E apenas morto deixa o moço ousado,

Quando outro logo segue ardendo em ira:

Tal Afonso iracundo, e indinado

Traz de um castigo a dar já outro aspira;

Com a Cidade belicoso cerra,

Fazendo a ferro, e fogo dura guerra.

Em seu ser o maior influxo estava,

E aos edifícios, em que o mar batia,

Desde os batéis co fogo se alcançava,

Que em balcões, e janelas se acendia:

O sopro Boreal, que respirava,

À chama forças dava, que subia,

Ameaçando ao Céu pontas vibrantes,

Imitadoras vãs dos vãos Gigantes.

O forte Lima foi o que primeiro

Uma casa acendeu com mão ousada,

Descendo sobre o invicto cavaleiro

Tiros, que a pagã turba arroja irada:

Teixeira, por amor aventureiro,

O fogo numa nau, e noutra a espada,

Com pezar do inimigo, e vilipêndio,

Fez noutra casa rigoroso incêndio.

Abreu, Silva, Miranda, um, e outro Andrade

A foz do estreito rio atravessaram;

E, de tiros formando tempestade,

Saída à armada bárbara estorvaram:

Os mais, correndo ao longo da Cidade,

Mil ao fogo edifícios entregaram;

Entre os primeiros vai Jorge Botelho,

Em larga idade de valor espelho.

Coutinho, cujo peito generoso

Aos maiores perigos se inclinava,

Com alguns salta em terra, e espantoso,

Parece que arruinar tudo ameaçava:

Uma grão casa vê, que numeroso

Esquadrão de inimigos amparava:

Iroso raio os acomete, e ofende,

E o suberbo edifício em fogo acende.

Estavam nesta casa apercebidos

Das armadas Reais os bastimentos,

Enxárcias, munições, com os fundidos

Por Vulcano Mavórcios instrumentos:

Cresceu a voraz chama; e, recolhidos

Os fortes Portugueses, pelos ventos

Voa a casa em pedaços dividida,

Pelo furor da pólvora acendida.

Os míseros Malaios, quando viram

Tão espantosa, e súbita ruína,

Todos de um medo frio se cobriram,

Solicitando o que o vil medo ensina.

El-Rei de Pão, e Príncipe acodiram

Àquele estrondo horrível, e com dina

Reprensão os animam a que virem,

E à vingança do grave estrago aspirem.

Pôde a vergonha tanto, e Real respeito,

Que tornam animosos à defensa;

E com mil tiros de mortal efeito

Fazem à Portuguesa gente ofensa.

Mas como o fogo já de teito a teito

Vai correndo veloz com fúria imensa,

A que parte acodissem não sabiam;

Que tudo envolto em morte, e chamas viam.

Em tanta confusão, em dano tanto,

Tenros meninos, tímidas donzelas,

Imbeles velhos com interno espanto,

E gritos altos ferem as estrelas:

E correndo à Mesquita em triste pranto,

Envoltas rogativas, e querelas,

Mil votos liberais ofereceram,

Que, sendo a Deuses vãos, nada valeram.

A derribada Troia quando ardia,

E a Roma ao natural representava,

O incêndio fero, e a turba, que temia,

Chega lá donde o Rei turbado estava.

Entre o povo confuso Damur ia,

Que por Santo Malaca venerava;

Porque devoto Peregrino fora

A tumba visitar, que o Mouro adora.

Vendo este o Rei turbado, assi o reprende:

Não te doem, disse, de Malaca os danos?

Que mais teu duro coração pertende,

Que ver do Céu tão claros desenganos?

Bárbaro fogo esta Cidade acende,

Que assombro foi do mundo tantos anos:

O Céu o quer assi, que não houvera

Quem contra seu Decreto se atrevera.

Não sofre o Céu que tenhas por cativos

Homens, a que fizeste guerra injusta:

A danos te aventuras excessivos,

Além dos muitos, que a teu Reino custa.

Abranda, ó Rei, os peitos vingativos;

Dá-lhes os que dão causa à guerra justa;

Que não será julgado por fraqueza,

Pois vencer paixão própria é fortaleza.

Estas palavras, ou necessidade,

Que a tudo obriga, ao duro Rei mudaram

O peito, e dispuseram a vontade,

Que dispor fortes casos não bastaram.

Dar manda logo aos presos liberdade,

Que dele pode ser não alcançaram,

Se o esperado socorro lhe chegara

Antes que a guerra Afonso começara.

Entanto em belicosa competência

Cometiam façanhas espantosas

Os de Luso, e já toda a resistência

Era vã contra as forças vitoriosas:

Crescendo ia das chamas a violência,

As torres consumindo mais famosas;

Por entre o fogo, e fumo andava a morte,

Ministra da ira de Albuquerque forte.

Andava o capitão destro, e valente

Pelo mar discorrendo a toda a parte,

Solícito acudindo, e diligente

Co valor grande acompanhando a arte.

E enquanto à forte, e vitoriosa gente

Favor Netuno dá, Vulcano, e Marte,

Eis vem sair de males tão esquivos,

Como triunfando, livres os cativos.

Qual nas Albânias serras leão iroso,

De quem fora o monteiro perseguido,

Que os filhos lhe levava, e temeroso

Soltara, por se ver dele seguido:

Vendo-os livres, se esquece generoso

Da dor, que tanto o tinha embravecido,

Alegrar-se com eles só procura,

E do monteiro tímido não cura;

Tal o varão insigne ante si vendo

Os que em lugar de filhos estimava,

A concebida cólera perdendo,

De se alegrar com eles só tratava:

Das armas cessar manda o estrondo horrendo,

Em sinal de alegria, que gozava;

E, por honra dos hóspedes, o dia

Em festas passa ao som da artelharia.

Rompia o fatal lenho o mar entanto

Com a velocidade, que acontece

Cortar a pomba o ar co negro manto,

Também a noite entanto se oferece.

O forte Sousa, que ignorava quanto

Veloz corre, no Céu, que se enobrece

Com tão raros milagres luzes belas,

O concerto contempla, e curso delas.

O sábio companheiro, isto notando

Da popa, onde assentado no governo

Do batel assistia, desejando

Intertê-lo, soltou a voz do interno:

Dos astros, que contemplas, ignorando

Quarto trabalho do arquiteto eterno,

Conta a gentilidade vãs histórias,

E lhes aplica fabulosas glórias.

Lá pinta os heróis Gregos, lá ao Romano,

Que à Pátria pôs o jugo, dá aposento,

Tanto ao mundo cegou aquele engano,

Do que padece no Tartáreo assento:

Mas se lugar tão alto dar-se a humano

Valor devera, o grão merecimento

Dos vossos Lusitanos já tivera

De todo hoje ocupada a eterna esfera.

Que lá o primeiro Afonso, lá o segundo,

E o grande Sancho luz eterna deram,

E os claros descendentes, que no mundo

Em virtude, e valor resplandeceram:

Mas deixando passado, inda o profundo

Oriental mar, que vossas naus romperam,

Este que agora abrimos, verão glórias

Dos Portugueses, que honraram histórias.

Isto ouvindo o valente cavaleiro,

Desejando saber cousas futuras,

Conta-me, disse, ó sábio companheiro,

Desses heróis as altas aventuras:

Do por vir, valoroso aventureiro,

Te direi o que só por conjecturas

Ciência alcançar pode, investigando

O que os astros estão prognosticando.

Quando um Sequeira em armas excelente

Governar o Indiano senhorio,

Infestará seus mares insolente

Melique Az feroz senhor de Dio.

O que há de quebrantar forte, e prudente

Suberba tanta com heroico brio;

E quatro lenhos em naval peleja,

Diogo Fernandes se dirá de Beja.

Reformará o imigo a rota armada,

E vingativo com poder dobrado

Ousará cometer nova jornada,

Onde o rebaterá o Luso ousado:

Mas a morte cruel acelerada,

Com raio de uma espera disparado,

Romperá o peito, quando o braço forte

Mais despreze o poder da mesma morte.

Porém ocupará o lugar honroso,

E ao morto capitão dará vingança

Dom Jorge de Menezes, que famoso

Será, enquanto no mundo houver lembrança.

O bárbaro Caudilho já medroso,

Perdido o valor, falto de esperança,

Deixará com fugida vergonhosa

Entregue ao fogo a armada numerosa.

A estes seguirão vários conflitos

Entre a gente Cambaia, e Lusitana,

Até que, após de males infinitos,

Se entregue Dio à força mais que humana:

Ali escureceram altos espíritos

A ilustre fama Grega, e a Romana,

Começando num Cunha ilustre, e forte,

Que abaterá o poder ao tempo, e à morte.

Este fabricará a grão fortaleza,

Onde fará durar sua memória

Manuel de Sousa, que o viver despreza,

Por exaltar a Portuguesa glória:

Já cantar ouço em Musa Portuguesa

De Antônio da Silveira heroica história,

E parece que o vejo rebatendo

Os feros Turcos, Dio defendendo.

Insignes duas Matronas lá contemplo,

Adquirindo renome alto, e preclaro,

Uma de amor, e fortaleza exemplo;

Outra piedade ostenta, e valor raro:

Estas ilustrarão da Fama o templo,

E darão vida aos mármores de Paro;

E do Empíreo serão luzes mais belas,

Que essas que vemos lúcidas estrelas.

Seguirá a nobre Veiga o claro esposo

Entre os perigos, e furor da guerra;

E serás Vasconcelos venturoso,

Seguindo-te dous Anjos cá na terra:

A famosa Ana em ato valoroso

Mostrará quanta fé, e amor encerra,

Verá o ferido filho já acabando,

E ao perigo estará outro animando.

Eternizará ali sua memória

Lopo de Sousa, célebre Coutinho,

Por quem adquirirão perpétua glória

O Tejo, Guadiana, o Douro, e Minho:

Será admirando assunto da alta história,

Luz aos que seguem imortal caminho

Fernando Penteado, e suas façanhas

Eterna inveja das nações estranhas.

Alta dará também matéria à Fama

Dom João Mascarenhas, cujo brio

Oposto a Rumecão, já Marte o aclama

Heroico defensor da ilustre Dio:

Dom Fernando de Castro de entre a chama

Atrás fará tornar o Turco frio:

E os três Irmãos Almeidas farão tanto,

Que darão aos por vir inveja, e espanto.

De um Antônio Galvão, que herói valente

Passará além dos límites humanos,

Memórias durarão enquanto ardente

O planeta maior dourar os anos:

Romperá de oito Reis a imensa gente

Com cento e vinte raios Lusitanos,

Alaga o sangue imigo a terra, e logo

De Tidore a Cidade abrasa o fogo.

De Ataíde a prudência, e valentia,

Que, acudindo a Chaul, Goa defende;

E do grão Mascarenhas a valia,

Que do Nizamaluco o furor rende:

Bem aparada pena inda algum dia

Os feitos, que por hora mal comprende

Observação confusa, com profundo

Engenho escreverá, alegrando o mundo.

Virão os Irmãos Sás da foz do Douro;

Por que do alto valor, que neles mora,

O Turco trema, o duro Persa, e Mouro,

E quantos vem primeiro a luz da Aurora:

A fama, que amarão, não prata, e ouro,

A seus feitos dará tuba sonora,

Deixando mil valentes invejosos,

E muitos de imitá-los desejosos.

Sebastião de Sá na forte Dio

Ao fero Rume mostrará os quilates

De seu alto valor, e heroico brio,

Que temerão o Ganges, o Indo, e Eufrates.

E lá no Mauritano senhorio

(Cruel fortuna quanta glória abates!)

Mostrará que temor nele não cabe,

E que invicto voltar atrás não sabe.

Pantaleão de Sá não menos forte,

Ormuz socorrerá no mor perigo;

Na Cafraria foge dele a morte,

E em Pondá roto o exército inimigo,

Verá Salsete em duvidosa sorte,

Que é mais de glória, que da vida amigo,

E contará ilustre, e eterna história,

Que seu raro valor deu a vitória.

Se viras de Dom Paulo, ilustre Lima,

As que não sei dizer façanhas claras,

As que a fama por únicas sublima,

Novo Marte por elas o aclamaras:

Ou por não ter segundo amor estima,

Dever o mundo a seu valor julgaras,

Este será, se não remunerado,

Aplaudido de todos, e invejado.

Também lá Tristão Vaz da Veiga invicto

Socorerrá de Ormuz a fortaleza,

Rompendo por um número infinito

De armados lenhos com feroz braveza.

Manuel de Sousa em desugial conflito

Lhe ficara entre a bárbara fereza:

A ajudá-lo o famoso Veiga torna,

E da vitória aos dous o Cauro adorna.

Virá um Sampaio, só da fama amigo,

A quem Netuno entregará o tridente:

Ó quanto ao mar dará sangue inimigo?

Quanto inimigo lenho ao fogo ardente?

E se me perguntais, por que não digo

As ações de varão tão excelente,

Direi que, para entrar na menor parte,

Já não alcança o engenho, falta a arte.

De Fernando Ximenes a piedade

Também asas dará, línguas à fama,

O fraternal amor, alta bondade,

Que louva o mesmo Céu, e o mundo aclama,

Quando naufrágio infando a crueldade

No mais brando, e mais pio peito inflama.

Tu, pelo amado irmão só dás a vida,

Por Deus, que o zelo preza, defendida.

Mas do valor de um Sá, da grão fortuna

Dará o Índico mar eterno indício,

E será de Ceilão forte coluna,

No tempo, que irá toda em precipício.

Este, os Céus querem, que as virtudes una

Exercendo feliz o heroico ofício:

E se verão no ilustre Constantino

Em ser humano assomos de Divino.

Depois que este com obras admiráveis,

Sendo de Ásia terror, de Europa glória,

De palmas, e troféus inumeráveis

Enriquecer o templo da Memória;

Terás motivos Luso lamentáveis

De horica si, mas lastimosa história,

Que ao mundo deixará sua ilustre morte,

Com que a gozar irá da melhor sorte.

Durará eterna fama, eterna inveja

No Índico mar de Antônio de Saldanha:

Quem imortalizar-se só deseja,

Imite seu valor, conselho, e manha.

Caso não haverá adonde esteja

Honrado risco, ou imortal façanha,

Que intrépicdo, e terrível não cometa

A mira na gloriosa, e imortal meta.

Lourenço Pires, e Carvalho invejo,

Que o claríssimo avô representando,

Por três vezes cair ao mar o vejo,

Co sangue ilustre as ondas esmaltando:

E três vezes subir onde o desejo

De honra o fará claro, como quando

Vai saindo o planeta rubicundo

Do mar salgado por dar luz ao mundo.

Com raios de façanhas replandece

Raio de vivo fogo nos efeitos,

E a fama dos antigos escurece,

Que não foram do tempo às leis sujeitos:

Esta eternas memórias oferece

A seu raro valor, heroicos feitos,

Com que assombrando os inimigos fortes,

Oposto à morte multiplica mortes.

Mas entre as glórias, a que tenho inveja,

Motivo já de pena me lastima,

O Tejo chora, quando o Céu festeja

Mascarenhas, que a vida desestima.

Porém, se honradamente se deseja,

Se enfim a honra à mesma morte anima,

Com razão dos honrados invejada

Será de Dom João a morte honrada.

O ânimo, constânia, e fortaleza

Darão no Párseo seu eterno espanto,

De Rui Freire magnânimo, que preza

Buscar a fama com trabalho tanto.

Dos Persas, Anglos, Belgas a braveza

Quebrantando estará, e humilde, enquanto

Armado resplandece, o mar sujeita

Este, cujo valor Marte respeita.

Obras dirão que admiro juntamente,

Quanto a presença de um Botelho importe,

Contra as nações rebeldes raio ardente,

Do Império Oriental escudo forte.

Chore a Índia o Nuno eternamente

Ver, que em seu dano ordena irada a morte,

Porque de ti por vezes foi vencida,

Que o teu mesmo valor te roube a vida.

De mais heróis o sábio lhe tratara,

Ornato, e resplandor do mar do Oriente,

Se delicada voz não atalhara,

Que rompeu pelos ares tristemente.

Altera-se o guerreiro, que julgara

Ser o grito de quem desditas sente;

E perguntar querendo ao companheiro,

Ouvem segundo grito, ouvem terceiro.

Ouvem logo mais vozes, e gemidos,

Que o silêncio da noite interrompiam,

E entrando ao coração pelos ouvidos,

Mais se chegavam, mais, e mais feriam.

Aplica o sábio atentos os sentidos

À parte donde (ao parecer) saíam:

Por entre a confusão, que o mundo cobre,

Terra em penhascos altos se descobre.

Ao guerreiro a mostrou, que com afeito

Piedoso o rogou que ver quisesse

Quem com gritos feria o excelso teito,

Que a obrigação pedia lhe valesse.

Etol não menos compassivo o peito,

Onde de seu furor o mar se esquece,

O lenho guia, e com piedoso salto

A causa buscar vão do sobressalto.

Foram-lhe as vozes lastimosas guia,

E a luz, que a irmã do Sol ao mundo dava,

(Que sem nuvens no Céu resplandecia)

Quem triste as despedia, lhe mostrava.

Os de amor laços belos ofendia

Ofendida beleza, que abrandava

Com lágrimas o monte, e as Estrelas

Feriam suas mágoas, e querelas.

Torna, dizia, serás mais piedoso,

Não usando comigo de piedade,

Executa o mandado rigoroso;

Se é, que intentas guardar fidelidade,

Com razão teu senhor verás queixoso,

E eu com razão te acuso de impiedade:

Mas que sejas, ordena o fado duro,

Cruel comigo, e a teu senhor perjuro.

Assi chorava, quando salteada

Se viu de Etol, e do guerreiro forte:

Vence a natural força, e acobardada

Todo o mal teme, só não teme a morte.

Mas, sendo pelos dous assegurada,

Pra, já oferecida a qualquer sorte:

Brandamente a consolam ela entanto;

De novo torna ao lastimoso pranto.

Sousa se lhe oferece, e juntamente

De seu lamento a causa lhe pergunta.

Amo já aborrecido, adoro ausente

(Disse ela co a esperança hoje defunda,

E quantas há no inferno, penas sente

Meu peito, contra mim tudo se ajunta;

Que tanto a ser cruel a sorte chega,

Que me dá males, e morrer me nega.

Nasci nobre em Sião, nasceu comigo

Amor, que foi crescendo com a idade,

Que desdo infeliz berço amei o imigo,

Que idolatrando adora esta vontade;

E também tenro infante, quando amigo

Me era o Céu, me rendeu a liberdade

Esse, que de matar-me tem desejo,

Por quem vivi, por quem morrer desejo.

A idade pueril juntos gozamos,

Bem que anos juvenis depois negaram

Para ver-nos, quais traças não achamos,

Depois, que os pais cruéis nos apartaram:

Quais sobressaltos, e ânsias não provamos,

Quando dar-me por dono outro intentaram?

Até que amor, e fé puderam tanto,

Que o laço nos ligou de Himeneu santo.

Entanto bem Batrão (que assi se chama

Meu consorte enganoso, ou enganado)

Por valer a Malaca, e ganhar fama,

Passou o campo azul de naus arado.

Fiquei qual fica ausente quem bem ama,

Quando (não tinha cuido o mar passado)

Servo, que por fiel sempre foi tido,

Tornou de parte do cruel querido.

Na carta, que o mensage acreditava,

Morte à ausência chamava, e me dizia

(Fingindo) que mostrasse quanto o amava,

Passando o mar, se vida lhe queria:

Eu, que só vê-lo sempre desejava,

(Julgai que gosto o meu então feria)

Vamos (disse) lá donde a vida tenho:

E incauta os pés meti em falso lenho.

Eram os nautas de região estranha;

E quem em mim levassem, não sabiam;

Que foi entendo cautelosa manha:

Porque dizer de mim não saberiam.

Tomaram terra ao pé desta montanha,

Adonde feras só bramar se ouviam;

Havia em todo o mais silêncio mudo,

E cobria a noturna sombra tudo.

Com engano me fez saltar em terra,

Já apartados da praia, e do navio:

Do peito o duro intento desencerra,

Tirando a espada com furioso brio,

Dizendo: Bem que julgue indigna guerra,

E truncar sinta de tua vida o fio,

Perdoa Glaura; mandando é rigoroso

De meu senhor, e teu marido iroso.

Eu quase morte, mísera tremendo,

A causa perguntei de minha morte.

Não sei, me respondeu. E o braço horrendo

Contra fraco poder levanta forte;

A vida aborrecida aborrecendo,

O peito descobri, e disse: Corte

A dura espada o colo, passe o peito

Em toda a sorte só a Batrão sujeito.

Por ele, nãopor mim, amava a vida;

E pois ele a aborrece, eu a aborreço;

Laço de amor a tem com ele unida,

Sua é, como sua lha ofereço:

Que foi sua sentença obedecida

Com gosto, lhe dirás; ver que padeço

Por gosto seu, e que ele assi o ordena,

Doce a morte fará, suave a pena.

E a teu sehnor, e meu afirma, quando

Ante ele tornes, que de mi ofendido

Nunca foi; e seu gosto idolatrando,

Morta o amarei, se lá for permitido.

Assi disse, o mortal golpe aguardando,

Injusto tanto, quanto obedecido,

Quando o que já a ferir-me se aplicava

Vi que o ferro da mão cair deixava.

E com alma piedosa, e compassiva

Disse: não sofre o peito que te ofenda,

Nem está em minha mão deixar-te viva;

De mim tua inocência te defenda.

Não me é menos, que a ti, a sorte esquiva:

Porque o dia, que meu senhor entenda

Que mais piedoso fui, que verdadeiro,

Será de minha vida o derradeiro.

Pois dar-te a morte o Céu o não permita;

Que também te respeito por senhora:

Mas ser aos dous fiel se facilita,

Se a lei guardares, que te der agora:

A perpétuo desterro necessita;

Mas pode o Céu dispor que inda alguma hora,

Claras as cousas, vos vejais unidos,

E me sejais os dous agradecidos.

Só que a vida conserves, de ti quero,

Oculta, ou peregrina, por que chegue

Só de tua morte a fama ao esposo fero,

Enquanto a opinião errada segue.

Assi disse: mas eu, que não espero

Já da vida algum bem, que o ferro empregue

Em mim lhe peço, e aquela cortesia,

Que estimação merece, me ofendia.

Assi pedia a morte, e assi a negava

Quem dar à triste vida fim devera:

Eu por a dar àquele, que o mandava,

Ele indigna julgando a tenção fera:

E como já determinado estava

Que eu dele a vida aceite, não espera;

Só me deixa, dizendo-me ao deixar-me,

Podes não te ocultar, eu desterrar-me.

Até a praia o segui; mas qual o vento

Partiu voando no infiel navio:

Lágrimas de meus olhos cento a cento

Ao mar mandaram caudaloso rio.

Com gritos penetri o firmamento,

Mil vãos queixumes dando ao vento frio

Ao tempo, que chegastes onde agora

Males minha alma sem remédio chora.

Os astros contemplando Etol entanto,

Que a escutava, lhe disse: As luzes belas

Enxuga, ilustre Glaura, que a teu pranto

Fim ditoso prometem as Estrelas.

Ir conosco te importa, deixa tanto

Inútil suspirar, e vãs querelas.

Vem, Malaca verás em tempo breve,

Que ao pensamento imita o lenho leve,

Vem senhora, lhe disse Sousa: e fia

Que, quando os astros faltem, esta espada

Não faltará, e te fará num dia

Juntamente inculpável, e vingada.

Ela, que a Etol ouviu, que a levaria

Ao áureo assento, disse, confiada

Na promessa, que é o mais do nobre peito,

Vos sigo, e ao valor vosso me sujeito.

Embarcam os três logo, e pela amara

Lagoa o baixel voa, no horizento

Entanto de Hespérion a filha cara

Já descobria a rubicunda fronte.

Vendo Sousa a luz bela, disse, a clara

Esposa de Titon sai lá defronte,

As Estrelas do Céu desaparecem,

Em mar, e terra as cousas se conhecem.

Mas dize-me; que costa vendo estamos;

Que bem de ti, que alcanças tudo entendo?

Quanto (Etol lhe responde) navegamos,

Nota em que a grão Cambaia estamos vendo:

Ilhas mil para a parte Austral deixamos,

E para donde o Sol se vem erguendo,

Que assi ocupam o Netunino assento,

Como as Estrelas o alto firmamento.

Atrás fica, onde faz a terra ponta,

A populosa um tempo Singapura;

Cresceu Malaca com seu dano, e afronta,

Que também hoje está pouco segura.

A tudo toma o tempo estreita conta,

E pesa nas balanças da ventura,

Que, subindo, e baixando sem firmeza,

De todo estado mostram a incerteza.

Pão, e Patane com Ligor se estende

Na costa, que dali corre a Calisto,

E os mais lugares, que Sião comprende,

Até onde o Menão vês com Tétis misto:

Sai do Lago Chiamai, e a terra fende

De vários Reinos, e Províncias visto,

Também seus dous irmãos, por quem florescem

Os Pegus, e os Bengalas se enriquecem.

Daqui perto a Mecom atrás deixamos;

Tem, como o Nilo, inundações crescidas,

As causas delas nunca as alcançamos,

Que ainda as tem para nós Deus escondidas:

Do Campa a costa agora navegamos,

Das plantas adornada, enriquecidas

Do odor suave, que entre os bons se estima,

Que o coração conforta, alegra, anima.

Eis da China começa aqui a grandeza;

Que, com ser tanta, se cercou de muro:

De ser filho do Sol seu Rei se preza,

O fundamento disso não apuro:

Mas em guardar justiça, inteireza,

Em ser em seu governo reto, e puro,

Em catsigar o mal, e o bem premiar-se,

Bem de filho do Sol pode prezar-se.

E já lá Cancij à mão esquerda fica,

E Cauchinchina mais para o Ponente;

E temos ao Levante a grande, e rica

Ilha Licônia em ouro florescente.

Olha a grande Cantão, que já edifica

Onde dar nobre hospício a vossa gente;

Que já no revolver dos astros vejo

Render tributo o Betampina ao tejo.

Se em dizer as grandezas me ocupara

Deste opulento Império, considera

Que três vezes o Sol se nos mostrara,

E no ocaso outras tantas se escondera,

E não lhe dera fim. Ó gente rara,

Se o senhor de bens tantos conhecera!

Porém, pois o maior dos bens lhe falta,

Na abundância maior de tudo é falta,

Mas virá tempo, que esta névoa escura

O piedoso, e Divino Sol desfaça;

E a mercê tanta grata com fé pura,

E com Divino culto satisfaça;

E o Japão, onde há tanto tempo dura

A cega Idolatraia, a Lei da Graça

Recebe inculta terra cultivada,

E co sangue de Mártires regada.