LIVRO X

By Francisco de Sá de Meneses

Cerrada a noite, as cerúleas águas

Do áureo Bósforo arder todas parecem,

Como talvez com as Trinácrias fráguas

As do Tirreno aos olhos se oferecem:

Crescendo prantos, aumentando mágoas

As chamas consumindo tudo, crescem;

Na triste confusão eram os gritos

Um grito só, e todos infinitos.

Durou o fero incêndio grande parte

Daquela infausta noite hórrida, e triste:

E já que com trabalho, engenho, e arte

O voraz elemento se resiste,

O velho Rei, com quem o Inferno parte

Quanto de ódio, e de raiva nele assiste,

Do povo escuta o pranto lastimoso,

Porém não compassivo, mas iroso.

A nova Aurora aguarda desvelado;

E, já que inda escassa a luz raiava,

Do Régio teito sai, aonde turbado

Com multidão de mortos encontrava.

Contempla o fero estrago magoado,

E a vingança impaciente desejava;

Mas, enquanto fazer não pode ofensa,

Se reporta, e só trata da defensa.

Dá sepultura aos mortos: e, acabadas

Estas mostras piedosas, diligente

Refazer manda as rotas estacadas,

Para o novo trabalho anima a gente.

Outras de novo foram levantadas

Onde lhe pareceu mais conveniente,

Plantando nelas grossa artilharia

De seis mil peças, que em Malaca havia.

Manda minar de confeição sulfúrea

As ruas principais, donde já fora

O dia dantes da batalha a fúria,

Cujo sucesso n’alma irosa chora;

Que, receoso de segunda injúria,

Em tudo quanto pode se melhora.

E como brote (ordena) a praia abrolhos,

Perigo certo, que esconda aos olhos.

Fortificado liberal dispende

Cos soldados (forçando a natureza)

Grão soma de ouro; que em seu dano aprende

Que aventura a perder tudo a avareza,

Grande parte do bom sucesso pende

Da gratificação, da fortaleza;

E com novo valor arrisca o peito

O que vê seu trabalho satisfeito.

Já então muitos daqueles, que esta guerra

Lhe aconselharam, dela o dissuadiam,

E pôr segunda vez a pátria terra

Em perigo tão áspero temiam:

Mas como ele no peito iroso encerra

Tanta parte do Inferno, não cabiam,

Nem achavam entrada os desenganos,

Que lhe mostravam os futuros danos.

E mais de furor cego, que discreto,

Os seus sequazes a conselho chama;

E com a raiva, que lhe infunde Aleto,

Todo em ira, dizendo assi, se inflama:

Trocou fortuna instável o quieto

Estado meu, e injusta hoje derrama,

Em lugar de benévolos favores,

Guerra, fogo, ira, roubos, e furores.

E posto que o contrário rebatido

Recebeu perda, novo assalto ordena.

O Céu me vingue da razão movido,

Que insultos pune, e sem-razões condena.

Não temo eu o pirata; e do atrevido

Intento seu terei mui pouca pena,

Quando vos vir dispostos à defensa,

E a vingar prontos tão injusta ofensa.

A todos este grave dano alcança

Pelas mortes de irmãos, filhos, amigos,

Cujo sangue pedindo está vingança,

Obrigando a sofrer novos perigos.

Não se conheça em nós desconfiança;

Que se ontem riu fortuna aos inimigos,

Dar-lhes pode amanhã que chorar tanto,

Que só com a morte lhes enxugue o pranto.

Maior poder, que nosso imigo, temos,

E hoje estamos melhor fortificados:

Se do antigo valor não carecemos,

A vitória esperamos confiados.

Porém, porque os conselhos nos extremos

Casos sempre ser devem estimados,

Da prudência, que em todos considero,

O parecer, ó amigos, ouvir quero.

Assi o Rei disse. E tal como sucede

Dos Médicos cercado algum doente,

A quem dos votos o variar impede

O remédio eficaz do mal, que sente:

Ou como quando os límites excede

Do furor a fortuna, nauta gente

Entre os gritos, perder, e medo frio,

O tino do governo do navio:

Tais no votar diversos apressaram

Deste Império opulento a grão ruína

Os que na junta com el-Rei se acharam,

A quem justo castigo o Céu destina.

Alguns que se pedisse a paz votaram;

Outros julgaram ser fraqueza indina

Não somente o pedi-la, ou procurá-la;

Mas, rogados com ela, inda aceitá-la.

Mas o Jau Colascar, que do passado

Perigo inda o temor nele reinava,

Fingindo-se zeloso acobardado,

Que se comprasse a paz aconselhava.

O Príncipe Aladim, da ira levado,

O prosseguir-se a guerra sustentava;

Solimão o ajudava, e furibundo,

Assi dizendo, ameaçava o mundo:

Contra sucessos maus o peito forte,

E de valor armado prevalece;

Que trocar o valor costuma a sorte,

Se a fortuna aos ousados favorece.

Temor da infâmia, não temor da morte,

No peito generoso se conhece:

E se todos a guerra aconselhastes,

Como hoje reprovais o que aprovastes?

Não deixes, Rei invicto, aconselhar-te

De quem do fim honroso se desvia,

E falto do valor tenta apartar-te

Do meio, que saudável só seria.

Quem sentir o contrário, em toda parte

Lhe farei confessar que é cobardia.

E falo livre, sem temor de nada,

Porque, o que a língua diz, obra esta espada.

Assi deu fim colérico, e espantoso.

E o Príncipe exaltou dizendo: Fale

Sempre a fama de ti, varão famoso,

E co mérito teu sua tuba iguale.

Confuso Colascar a este afrontoso

Modo, não sabe se responda, ou cale;

E só disse: Deixai, corra sem freio;

Que pouco custa aventurar o alheio.

Não quis falando mais aventurar-se;

Porém corrido, e pouco satisfeito,

Um firme pensamento de vingar-se

Naquele instante concebeu seu peito.

Logo todos os mais por congraçar-se,

E não aventurarem seu respeito,

Com os que sempre a guerra persuadiram,

Que a guerra prosseguissem concluíram.

El-Rei de Pão, medroso do passado,

Não se achou nesta junta já presente;

Que, nele o antigo amor desbaratado,

Era neve o que fora fogo ardente.

Não lhe cabe no peito acobardado

O coração: enfim, deixando a gente,

Finge ir buscar socorro novo; e tarda

Enquanto a nova do sucesso aguarda.

Cessa a discorde junta; e no mar soa

Bélica tuba num parau ligeiro,

Que na praia inimiga pôs a proa,

E armado ocupa intrépido guerreiro:

E em alta voz, que igual co a fama voa,

À batalha provoca aventureiro

Ao Caudilho Batrão da gente Siame,

De Glaura esposo infeliz, não infame.

Era do tempo na purpúrea hora,

Em que aljôfar derrama infante o dia,

Ouvindo o som horrível, tambem chora

Pérolas Glaura de maior valia:

Das conchas belas, que invejava a Aurora,

As derramava a pena que sentia;

Que, posta entre temores, e esperança,

Os sobressaltos um ao outro alcança.

Mostrar prometeu Sousa em estacada

Glaura inocente: e enganado o esposo,

Teme ela, amando, a Lusitana espada,

E o braço do guerreiro valoroso.

Porém, do sábio Etol assegurada

Que veria no caso fim ditoso

Sem dano do consorte, a fé a trazia

Ao que mais desejava, e mais temia.

Pisa a areia ante as bárbaras bandeiras

Com Glaura, a quem o trajo o ser desmente:

Coroa o povo bárbaro as tranqueiras;

Conveses, toldas, xárcias a fiel gente.

Batrão entanto deixa suas fileiras

Com negro arnês, mostrando o que a alma sente;

E pela praia move o passo tardo,

Não sei qual mais, se triste, se galhardo.

Chegado onde o guerreiro Lusitano

Airoso tanto, quanto forte o espera,

Assi lhe disse: Ó tu, que por teu dano

Feroz me chamas a batalha fera,

Desse furor, de teu viver tirano,

De ti primeiro a causa ouvir quisera,

Por ter a opinião justificada,

Que governa a razão melhor a espada.

A razão, que de minha parte tenho,

(Lhe tornou Sousa) a acobardar-te basta.

A vingar o inocente sangue venho,

Da infeliz Glaura, quanto infeliz casta.

Não digas mais: da vida, que sustenho

Indigno sou, o bem de mim se afasta

(Disse o Pagão) bem minha morte vejo,

Tudo me acusa, e só morrer desejo.

Enganado (ai de mim) fui homicida

Do bem maior, que então gozava a terra.

Dá-me atenção um pouco; e logo a vida,

Que aborreço, do peito desencerra:

Foi minha esposa; antes de o ser, querida

Do enganoso Muliás, que, nesta guerra

Mortalmente ferido, à minha ofensa

Deu, dando a vida, acerba recompensa.

Partimos de Sião por dar ajuda

Ao Rei Malaio; mas contrário vento

Nos levou a Ligor, onde se muda

Todo o meu bem passado em mor tormento.

Ali ciosa paixão, nunca sisuda,

De todo me cegou o entendimento,

Dando princípio a minha viva morte;

E sucedeu o caso desta sorte.

Dado ferro em Ligor, ao Rei amigo

Visitar fui dos meus acompanhado:

Foi entre os mais o disfarçado imigo,

Já para o fero engano aparelhado;

Que, tornados ao mar todos comigo,

Entre tantos deitar, sem ser notado,

Pôde um libelo infame, que me conta

Meu grave dano, minha injusta afronta.

Despois que só na popa me deixaram,

O papel vi de inferno, e morte cheio:

Curioso o quis ler; antes cegaram

Meus olhos, não choraram mal tão feio.

Foi cada letra um raio, e me abrasaram

O mais guardado d’alma: inda o receio

De seu rigor parece que em mim vive,

Não havendo já bem, de que me prive.

Feras víboras eram juntamente,

Que a fama a venenaram enganosas

De minha esposa casta, e inocente,

Imputando-lhe infâmias vergonhosas.

Mostra penar o cauteloso ausente,

Desejando tornar às amorosas

Horas, que em laço, no meu mal tecido,

Gozava do favor só a mim devido.

Entre as firmas, que estavam acusando

A Glaura, vi meu nome: infernal ira

O coração me abrasa, mil entrando

Furores n’alma, donde amor sentira.

Fiquei por grande espaço vacilando;

Já me leva o furor, já me retira

O amor; até que, falto de esperança,

De minha ofense em mim tomei vingança:

Em mim; que nela me tirei a vida,

Por cuja ausência em dor eterna peno.

Assi meu bem perdi; assi perdida

Dele a esperança, aos males me condeno.

Quem o enganoso autor deste homicida

Papel fosse (por mais que faço, e ordeno)

Nunca o pude alcançar; até que a sorte

O veio a descobrir com justa morte.

Ontem, o peito cauteloso aberto,

Já mortal a meus pés caiu o imigo

Muliás, que inda, já da morte certo,

Não temeu o do Céu justo castigo.

Descobrindo mortal ódio encoberto,

Declarou quanto foi cruel comigo,

E com Glaura, que já co as plantas belas,

Mártir de meu furor pisa as Estrelas.

A dor da inveja, e ver-se desprezado

De minha esposa, e ver-me venturoso,

Disse lhe convertera o amor passado

No mortal ódio, que me faz queixoso;

E que traçara, por se ver vingado,

Que eu mesmo, que ela amando fez ditoso,

A vida lhe tirasse mais amada.

Conseguiu a vingança desejada.

Eu, ouvindo o discurso de meu dano,

Ira, raiva, furor no peito ardia,

Ânsias mortais, tormento desumano,

Tudo, quanto há no Inferno, em mi sentia.

Ao que de minha glória foi tirano,

A vida quis tirar, que já perdia;

Mas, quando o furor justo se abalança,

Antecipam-se os fados à vingança.

Ouvido tens a desestrada história;

Castiga agora em mim minha desdita;

A culpa não, que da perdida glória

Só tenho a pena, que será infinita.

Certa, ó forte varão, tens a vitória,

De tua parte a razão ta facilita,

E da inculpável Glaura a injusta ofensa

Prezas me tem as mãos para a defensa.

Assi dizia, e compassivo entanto

O escutava o guerreiro generoso;

E Glaura, que deter não pode o pranto,

Em soluços descobre amor queixoso:

Corre o avaro veu com mudo espanto

A ver; e reconhece o triste esposo;

E bem que inda não crê o bem que via,

Amante abraçar corre o que não cria.

Glaura se afasta, e diz: Detem-te ingrato,

Que me não traz aqui tenção de amar-te,

Zelo de honra si, e desmentir o trato,

Que usaste com quem já soube adorar-te.

Entanto copiosíssimo aparato

De lágrimas ostenta, e igual reparte

Aos belos olhos da alma o sentimento,

E ao confuso Batrão glória, e tormento.

Mas vence a glória, e contra o iroso aspeito

Se arma de suave escusa, e rogo brando,

Que esforça o sentimento, e doce efeito,

Que da alma está suspiros arrancando:

Tanto se escusa, e roga enfim, que o peito,

Da que render-se estava desejando,

Comovido se mostra, e aos fortes braços

Comunica recíprocos abraços.

Assi tenro menino, que, ofendido

Do castigo, choroso está apartado

E desja, e não quer tornar, sentindo

Já da tenra, e amorosa mãe rogado;

Até que, do materno amor vencido,

Soluçando se chega ao desejado

Afago da mãe, que estreitamente o abraça,

Ele ao peito se aplica, e o colo enlaça.

Despois que breve alívio às almas deram

Os amorosos laços, dos compridos

Tormentos, que igualmente padeceram,

A Sousa graças dão agradecidos:

Posto que os bons, Batrão lhe diz, fizeram

O bem só por ser bom, e os recebidos

Favores pagará sempre a memória,

Ajuntando a tuas glórias esta glória;

Enquanto receber o peito alento

Tua será esta vida: e se a fé dada

Não impedira o grato pensamento,

Fora do bando Luso hoje esta espada.

Porém lei de primor, grilhão violento,

A vontade, que tens tão obrigada,

Obrar não deixa quanto obrar espera

Passada esta ocasião, o que o Oriente altera.

A glória do sucesso, essa vontade

Paga são a meu desejo venturoso,

Pois vi monstros de amor, rara igualdade,

De quem o mais feliz viva invejoso.

Assi respondeu Sousa; e de amizade

Perpétua se dão laços: Com saudoso,

E cortês sentimento se despedem,

Um torna ao mar, os dous o campo medem.

Com pranto Alaida a sorte venturoso

De Glaura soleniza, e assi descansa,

E se mostra de seu amor queixoso,

Que vão seguindo vai vã esperança:

Ditosa tu mil vezes, e ditosa

A pena, que tão grande glória alcança:

Sofrendo males alto amor mostraste,

E nas asas da fama o levantaste.

E mil vezes eu triste sem ventura,

Que uma incerteza, um impossível sigo,

À vista sempre tendo a morte dura,

De um perigo passando a outro perigo:

Ó se, quando saí da sepultura

Materna, fora tanto o fado amigo,

Que o leito, que mamei da nutriz cara,

Veneno fora, e a morte me entregara!

Do amado pai o fim cruel não vira

Pela fera ambição do irmão tirano;

As ânsias, os tormentos não sentira

De amor, segunda origem de meu dano:

Nem quando terra, e Céu só tratam de ira,

E furor infernal incita o humano,

Testemunha infeliz a ser viera

Da ruína, que a amada pátria espera.

Como os rios ao mar, os males correm

A meu peito, dos males centro triste:

Como os ventos fugindo, os bens discorrem;

Que só em fugir de mim seu ser consiste:

Inveja grande tenho a quantos morrem;

Culpa a vida, que a tanto mal resiste:

Mas vive a pena n’alma, que me canso,

Pois nem posso na morte achar descanso.

Não me escondem meu bem torreados muros,

Nem mo negam só montes levantados,

No meio me tem posto os fados duros

Imensos mares, Reinos apartados:

Seguem meus vãos cuidados, mal seguros,

Esperanças de bens só imaginados.

Ó vaidade, que adora o pensamento!

Ó suave alheação do entendimento!

Se para mim ouvera inda alguma hora

Poder contar as penas, que padeço,

Ao belo objeto, que minha alma adora,

E por senhor ausente reconheço,

Todo o passado mal glória me fora.

Isto, piedosos Céu, humilde peço;

Fareis alegre minha triste sorte,

Será suave à sua vista a morte.

Não perde tempo o invicto Afonso entanto;

E qual o lutador, que já provara

As forças do contrário, que com tanto

Trabalho a vez primeira derribara;

Mil tretas considera, e, com espanto

Dos circunstantes, bravo se prepara

Para o segundo encontro, em que já a glória

Gozar espera da última vitória.

Tal mil estratagemas imagina,

E discorre co grave pensamento

Quais podem ser, conforme a disciplina

Militar, do contrário ardis, e intento.

E, por prevenir tudo, determina

Mandar quem no valor, e entendimento,

E na astúcia primeiro Ulisses seja,

Para que tudo inquira, e tudo veja.

Quem este haja de ser imaginando,

Em quem tão nobres partes concorressem,

De Etol se lembra: e bem considerando

A fé, ciência, e valor, que o enriquecem,

O chamou ante si. Disse: Obrando

Em favor nosso, os quatro, que florescem

Hoje no mundo em armas, nos trouxeste,

Com Deus (se a mi obrigaste) mereceste.

Logo a Cidade a escala vista entramos,

Que porte esteve então de ser ganhada:

E se dela senhores não ficamos,

Seria por não ser a hora chegada:

De assaltá-la segunda vez tratamos;

Mas como hoje estará fortificada,

Saber importa, porque à sua fraqueza

Apliquemos a nossa fortaleza.

Tratam de sua defensa: e não duvido

Que toda a sorte de Marcial engano

Tenham com nova astúcia apercebido,

Onde menos se tema, em nosso dano.

Porém tu, que do Céu foste elegido

Para instrumento, e meio soberano

Do grão castigo, que a Malaca espera,

Hás de estorvar o efeito à tenção fera.

Tu com a ciência tua entrar seguro

Entre os imigos podes, e trazer-me

A informação de tudo, que procuro,

Por que guardar-me saiba, e atrever-me.

Etol lhe respondeu: No Reino escuro

Entrara, a ser possível; que meter-me

Não estimo por ti no mor perigo,

Dês que teu estandarte, e gosto sigo.

Logo que a negra noite o manto estenda,

E vários casos, qual costuma, encubra,

Penetrarei Malaca até que entenda

Quantos enganos, e cautelas cubra.

E para que bem tudo compreenda,

E, vistos os perigos, tos descubra,

Fingir-me saberei de toda a sorte,

E daquela nação, que mais importe.

Assi lhe disse. E quando a tenebrosa

Filha do antigo caos, acompanhada

Do grave horror, e confusão medrosa,

Sono infunde na gente trabalhada,

Apertando a Garcia a valorosa

Destra, lhe disse: Para ti guardada

Tem o fatal destino alta ventura:

Meus passos segue, a sorte te assegura.

Vamos (o valoroso Sá responde)

E, se queres, vejamos donde nasce

Até donde cansado o Sol se esconde;

Ou manda-me, que o lago Estígio passe.

Partem com isto; e tomam terra adonde

Não pudessem ser vistos, nem se achasse

Cousa, que ser pudesse impedimento

Para se conseguir o fim do intento.

Primeiro mudam de armas, e vestidos;

E de modo ficaram disfarçados,

Que dos amigos, inda que advertidos,

Foram por Guzarates reputados.

Assi do escuro horror favorecidos,

Por lugares, de Etol já frequentados,

Lá pela parte do sertão entraram,

E a Cidade até o mar atravessaram.

Com as imigas tropas se misturam,

E de uma em outra estância vão passando:

Os secretos enganos ver procuram,

Etol sempre inquirindo, e perguntando.

Vem quão pouco os malaios se asseguram,

Dos seus bens a Cidade despejando,

Quais a formiga com indústria, e arte

Mudar soem os celeiros a outra parte.

Viram das ruas as secretas minas,

E na praia os abrolhos encobertos,

De esperas, basiliscos, colebrinas

Grão cópia, e de outros bélicos concertos:

Das abrasadas casas as ruínas,

E das riquezas os gudões desertos;

E a ponte viram tão fortificada,

Que mostrava negar a tudo entrada.

Os bravos Coraçones, e Mogores,

E os Guzarates em sua guarda viram:

Porque, como eram tidos por melhores,

O perigo maior lhe repartiram.

Vista Malaca, e os muitos valedores,

Que em vão, e por seu dano lhe acudiram,

Com aqueles saíram, que tiravam

Riqueza, que dos montes confiavam.

Já fora, disse Etol, caminho breve

Convém fazer a parte que se oculta,

Segue-me alegre, que a quem bem se atreve,

Nunca o Céu cousas grandes dificulta.

Dizendo assi, moveu o passo leve

Por via estreita, e quanto estreita oculta;

E não parou, nem deu de nada indício

Até chegar a um célebre edifício.

Mostrava (posto que era a noite escura)

Ser de mármore branco a alta portada,

De rar, ou nunca vista arquitetura,

Por artífice douto fabricada:

Abriu-se da grão porta a cerradura,

Dando a cópia famosa livre entrada,

Começando um estrondo, que arruinar-se

O mundo parecia, o Céu rasgar-se.

Velava nuvem negra a face bela

Da clara irmã do Sol, que então saía;

Mil trovões retumbavam entre aquela

Treva, que com os raios se acendia.

Passada a tempestade, cada Estrela

Torna a dar luz de novo à noite fria;

E os dous se acharam do edifício em parte,

Onde iguais eram a matéria, e arte.

Nesta quadra primeira, sobre a porta,

Por donde se entra a mais sublime assento,

De uma grande matrona a vista exorta

A levantar o nobre pensamento.

Pintada tem aos pés a inveja morta,

E adornam as paredes do aposento

Troféus, estátuas, e carros, que aos famosos

Conduziram triunfando vitoriosos.

Esta, a quem templo dão, julgam deidade,

Que tudo escuta, e vê, tudo publica;

E ao mundo veio na primeira idade;

Sonora tuba à loquaz boca aplica:

Abre-se ao som a porta; e a majestade

De outra casa se vê, em que entram, rica

De glórias, onde se não teme a sorte,

Nem tem lugar o tempo, nem a morte.

Bela deidade então em forma humana

(Que de candor vestida, e louro eterno

Coroada a cabeça soberana)

Nos Céus assiste, atormentando o Inferno,

Os recebe, dizendo alegre, e ufana:

Salve, digno varão lá do superno

Assento, para ti por mim guardado,

Aqui de longos anos esperado.

Logo destas duas casas suntuosas

À terceira os conduz de mor grandeza,

Em que ardiam mil pedras luminosas,

Que mostravam do teito a grão riqueza;

Ornavam-se as paredes de famosas

Pinturas, a quem dava tal viveza

Da arte o primor, que Apeles se enganara,

E as figuras heróis vivos julgara.

Ao cavaleiro as mostra; e assi, movendo

A douta língua, disse: Nas idades

Antigas o por vir Pateanus vendo,

Efígie fez dos que estimou deidades:

Deixou a todos temeroso, e horrendo

Por névoas grossas, feras tempestades,

Este lugar, e aos dous só concedido

Hoje ver o que nele está escondido.

Alguns destes, que vês, goza hoje o mundo;

Outros serão, correndo o curso de anos,

Que nestas partes com valor profundo,

Hão de passar os límites humanos.

Desse, que vês, primeiro sem segundo,

Sempre invicto, castigo de tiranos,

Segues o gloriosíssimo estandarte.

Esse é Albuquerque, esse o Luso Marte.

Este o jugo porá à cerviz altiva,

Que em tantos anos pôr Sião não pode;

E aqui sua memória estará viva,

Já corra o tempo, já a fortuna rode.

Teme, ó Malaca, a destra vingativa,

Que o açouto irado sobre ti sacode:

Porém, se agora fores castigada,

Desta gente serás também guardada.

Olha o bom Rui de Brito Patalino,

Que será dela o defensor primeiro,

E Andrade, que esse tanque Netunino

Co sangue tingirá do Jau guerreiro:

Irá dele fugindo peregrino

Patequirir no trance derradeiro;

E fugirá também desbaratado

Da Jaua o Rei soberbo acobardado.

Esse, que está mostrando o rosto iroso,

De um grave engano ao parecer sentido,

É Jorge de Albuquerque, tão famoso,

Que não poderá ser nunca esquecido:

Essoutro, mais valente, que ditoso,

(Se é, julgar pelos astros permitido)

Logrará pouco tempo este governo,

Dele cobrando a morte o censo eterno,

Do bom Jorge de Brito porá a morte

Este Estado em grandíssima aventura;

Tanto é cega a paixão, a ambição forte,

Que sua ruína, e destruição procura:

Porém no grave mal, da mesma sorte,

Que o santo lume na tormenta dura

Aparece aos aflitos marinheiros,

Lhes acudirão aqueles dois guerreiros,

Dom Aleixo é aquele de Menezes,

Um Costa ilustre é essoutro, cuja história

Timbre, e primor será de Portugueses,

Digna do eterno arquivo da memória:

Defenderá Malaca, mil revezes

Da fortuna sofrendo por mais glória,

Jaus rebatendo, e Mandarijs valentes,

Cos poucos seus famintos, e doentes.

Olha Manoel Falcão, olha Duarte

De Melo sobre a imiga fortaleza,

E Diogo Pacheco horror de Marte,

Que, morto o bom Falcão, consegue a empresa:

Morre Falcão, mas não aquela parte,

Que imortal dotou Deus de mor nobreza;

Dali aquela ilustre, e ditosa alma

Irá triunfar nos Céus com justa palma.

Eis em ti passa o peso do governo

Afonso Lopes da ínclita Cidade,

Sentindo-se acabar de um mal interno,

Que em flor o roubara à vossa idade:

Aquirirás aqui renome eterno,

Insigne vencedor da adversidade,

Contino cerco, e fomes padecendo,

À vista o fero imigo sempre tendo.

Por asperezas tais te farás digno

Do governo Oriental mais soberano;

E nele, com assomos de divino,

Saberás exercer império humano;

Supremo aqui te vês; mas o destino,

Nunca aos mortais igual, que ali inumano,

Quando atrever-se contra ti duvida,

De ti se atreve à parte mais querida.

Parte vejo dessa alma generoso

Em solidão, e extremo desamparo,

Vozes mandar ao Céu, em vão queixosa,

De obstinação fatal exemplo raro.

Dispõem teu peito a prova rigorosa,

Claro varão; que Alcides assi claro

No trabalho se fez, e ao claro assento,

Não por gostos sobiu, mas por tormento.

Esse, que está Belona coroando

Dos despojos de Dafne, é descendente

Do grão Dom Fafez Luz; a que imitando,

De Reino em Reino vai, de gente em gente.

Olha com que valor as velas dando

Do rio de muar vence a corrente,

Já salta em terra, ganha o Pago logo,

Foge el-Rei de Bintão, ela arde em fogo.

Lá no Pérsico seu em Barém rica

De grosso aljôfar, vence o mor perigo:

O Rei Mocrino na defensa inica

Sentira de seu braço o grão castigo;

Posto que a soldo conduzindo aplica

Persas, e Arábios doze mil consigo,

Vês da cabeça a bárbara fereza

Entre as águias, e cruzes digna empresa.

Tal o filho de Dânae valoroso,

Co talar de Mercúrio, e curva espada,

E co escudo da Deusa luminoso

Do cérebro de Júpiter gerada,

De um golpe corta o colo temeroso

Da que já fora de Netuno amada,

Pálido o rosto de serpentes cheio,

Ao escudo fatal é rico arreio.

Mas não se mostrará menos valente

Contra Melique Az senhor de Dio,

Que de tantas vitórias insolente

Contrasta de Chaul o senhorio:

Que, tomando da armada este o tridente,

Já lhe foge de medo o Mouro frio,

Do Nagotana, e costa de Cambaia

O mar é sangue, sepultura a praia.

O Pago destruído, o Rei tirano

Na ilha de Bintão se fará forte;

E com ver da fortuna o desengano,

De novo tornará a tentar a sorte:

Dali seus Capitães, em Cristão dano,

Serão Ministros da violenta morte;

E chegará Malaca a extremo tanto,

Que a defensa dará glorioso espanto.

Eis torna Jorge de Albuquerque invicto,

Sucessor te será em trabalho tanto;

E qual tu, com valor, quase infinito,

Resistindo, será do imigo espanto:

De Garcia Cainho em alto grito

Dirá a fama o valor, e zelo santo:

Ali forte os imigos vai ferindo,

E lá piedoso aos pobres acudindo.

Aquele, que deixando a esposa amada,

E tenros filhos, rompe o mar furioso,

Não respeitando a idade respeitada,

O que manda seu Rei cumpre animoso:

O que deixa Bintão desbaratada,

E que a Sunda comete generoso,

É Francisco de Sá no fim dos anos,

Digno exemplar de bravos Lusitanos.

Este é teu claro irmão, que hoje prudente

Cargo ilustre ministra soberano,

E, vestido de arnês resplandecente,

Já assombro foi do fero Maometano:

Enfim o imitador do avô valente

(Que tomou as galés ao Castelhano)

Viu junto ao fresco Douro a luz primeira,

E a luz verá em Malaca derradeira.

Depois que em mil ações o braço forte

Encher o mar do Oriente de esperança,

A que todos iguala, dura morte,

Lhe abrirá passo à eterna segurança:

Porém vês tu que opõem o peito à sorte,

E, por servir seu Rei, alegre cansa;

O filho vejo mal remunerado,

E de seus bens o neto despojado.

Martim Afonso de Sousa, e Serrão vejo

Com Laiximena em desigual batalha;

Mortos os choram, mortos os festejo,

Vencedores da bárbara canalha:

Olha outros dous também glória do Tejo.

Romper em Linga a armada, que o mar coalha,

Um Baltazar Rodrigues é de Beja,

Outro um Brito, que fama, e glória inveja.

Manoel de Sousa ali segue animoso

Com três lenhos a armada poderosa;

Morre, e vence no trance mais glorioso,

Que segue ao grão valor morte gloriosa:

Mas vira os olhos ao varão famoso,

Que dará fim à empresa perigosa,

A Pedro Mascarenhas, a quem ama,

Para se empregar nele, sempre a fama.

Deste logo o Patane o rigor sente,

E páreas pega envolto em medo frio,

E a Laiximena em terra, e mar potente,

Desfaz a ostentação, abate o brio:

Eis vai sobre Bintão, fende a corrente,

Vence impossíveis, sobe o fundo rio,

Entra a Cidade, a vida a tudo nega,

Foge cobarde o Rei, ao fogo a entrega.

Vês com que valoroso sofrimento

Vence a própria paixão, sem-razões passa,

Escusando chegar ao fim violento

Caso, que tantos males já ameaça:

Exemplo seja sempre o pio intento,

A quem ambicioso a lei traspassa;

E a Deus, ao Rei, de quem a paga espera,

Fazer maior serviço não pudera.

Olha Jorge Cabral com rigorosa

Guerra ali do Longou toma vingança;

E lá subido à sucessão honrosa,

Supremo rege, e nome eterno alcança.

Eis Pedro de Faria de paz goza,

E Malaca parece que descansa,

De quantos traz consigo a dura guerra,

Males, que padecera em mar, e terra.

Mas Dom Paulo da Gama se oferece,

Do sol de Gama raio peregrino,

Quanto nele o valor do pai floresce,

Tirando vidas, Marte Netunino,

Entre os feros imigos resplandece

Entrando o imigo lenho; mas destino

Cruel atalha com acerba morte

Quanto obra co a espada o braço forte.

Aqui para vingar a dor, que teve,

Apercebe o irmão lenhos, e gente;

E por perigos mil ali se atreve

A fender do Gentana a grão corrente.

Vês como em terra salta, e em tempo breve,

Iroso tudo entrega à flama ardente;

Salva-se na espessura o Rei medroso,

E Dom Estêvão parte vitorioso.

Vês que sobre o Rei torna, que infestando

De novo com armada o mar corria;

Tudo lhe abraza, foge o imigo bando,

Entregue a maior parte à morte fria.

Humilde ali lhe pede a paz, jurando

Que nunca mais as armas tomaria:

O valoroso Gama lha concede,

Mas seguros reféns primeiro pede.

Vê-lo acode ao rumor, o Achém rebate

Nesse noturno assalto inopinado,

E acolá resistir feroz combate,

E fugir-lhe o de Achém desbaratado:

Males atalha, presunsões rebate,

E feliz rege do Oriente o Estado,

Respeitado dos seus, e obedecido,

Do Turco, Persa, e Malabar temido.

Eis rompe o mar (buscando a Turca armada)

Que abre passo a Israel. Faraó castia,

Sente a força Alcocer da destra irada,

E no último a consume a chama imiga:

Vê Toro sobre si a talhante espada;

Mas por seus servos a defende, e abriga

A Mártir Catarina, que defronte

Tem sacra sepultura em sacro monte.

Eis o valoroso herói, que fugindo

Do mundo, e de si mesmo, vence o Inferno;

E, por caminhos ásperos subindo,

Conquista venturoso o Reino eterno:

Olha, que multidão o vai seguindo

De almas, que há de livrar do escuro averno.

Salve, ó de Céu na terra peregrino,

Elias zelador, Paulo divino.

Milagroso Francisco, alma a Deus cara,

Eis de tua vinda o tempo venturoso,

Grão Malaca solícita prepara

Com digno hospício ao varão glorioso.

Já chega a Moçambique, onde com rara

Caridade, e cuidado fervoroso,

Enfermo no hospital, enfermos cura,

E saúde nas almas lhe procura.

Já desembarca em Goa: oh quão trocados

Em breves dias faz seus moradores,

Penitentes chorando erros passados:

Chovem do Céu auxílios, e favores.

Desprezando trabalhos arriscados,

E das desertas praias os ardores,

No cabo Camorii o vês pregando,

As almas a milhares ao Céu dando.

Devoto em Meliapor entra, e visita

E Tomé a veneranda sepultura;

E por meio do Santo solicita

Ardente, e santo spírito a alma pura.

Dali a Malaca passa, donde o imita

Com branda voz rendendo a gente dura,

Que engolfada nos vícios vai perdida,

Dos bens, que são duráveis, esquecida.

Às infernais legiões faz dura guerra,

Pregando, e convertendo o povo rudo:

Imita a Cristo, e Cristo cá na terra

Lhe concede poderes sobre tudo.

Naquele moço, que lá vês, se encerra

Espírito rebelde, surdo, e mudo,

Já foge o imigo por Xavier rendido,

E louva a Deus o enfermo agradecido.

Vês em Amboino do Senhor cultiva

A vinha, a quem cultor anos faltara;

E, cavando-a de novo, com fé viva

A cerca, e de seus danos a repara:

E como dos trabalhos não se esquiva,

Na aspereza do Moro, terra avara,

Planta seu zelo ardente plantas belas,

Que o fruto hão de subir sobre as Estrelas,

Logo torna a Malaca, e juntamente

Vem sobre ela o de Achém com lenhos cento.

Olha Simão de Melo, que valente

Do inimigo resiste o Márcio intento.

Anima o Varão santo a Cristã gente

A que vá do contrário em seguimento.

Eis Dom Francisco Deça o mar cortando,

A copiosa armada vai buscando.

Teatro o Parles do naval conflito

Já co sangue do bárbaro se inunda,

O qual se mostra o Lusitano invito,

Consumida do Achém a gente imunda.

Tudo Francisco vê em rapto esprito,

Consola ao dúbio povo a voz jucunda,

Revelando-lhes a ínclita vitória,

Alcançada dos seus com tanta glória.

No Japão, como o Sol, quando amanhece

Desterra as trevas, e dá luz às almas,

Ó como entre os trabalhos resplandece,

Caminhando por neves, e por calmas!

Ó quanto a vinha do Senhor floresce,

E quantas ao Céu dá triunfantes palmas,

Quantos por ele Deus milagres obra!

O cego vista, o morto vida cobra.

Reluz a santidade na pobreza,

E dos bárbaros Reis é venerada:

Tão grande é da virtude a gentileza,

Que é dos próprios imigos respeitada:

Vê-lo outra vez do mar passa a incerteza;

E para cometer nova jornada,

De Japão torna a Goa, e nunca cansa;

Que busca a Deus, e nele só descansa.

Lá da idólatra China o mar navega

Pela dar toda a Deus seu zelo ardente;

Mas inda não merece a gente cega

Ver o lume da Fé resplandecente.

Eis o fim já de seus trabalhos chega.

E a gozar vai do prêmio eternamente,

O seu santo cadáver torna a Goa,

E a fama de milagres raros voa.

Aquele, que defende a fortaleza

De tantos Reis, e gente combatida,

Opondo com intrépida braveza

O primeiro ao perigo sempre a vida,

É Dom Pedro da Silva, que só preza

A que a heroicos espíritos convida:

Este, mercê do Céu, goza a excelência

De extrema valentia, e de prudência.

Mas ah dor grande! que entre tanta glória

Morto vês Dom Garcia de Menezes;

Mas se dar pode vida heroica história,

Honra eterna será de Portugueses.

Olha Gomes Barreto; alta memória

Deixa de ilustres feitos, quantas vezes

Com um só lenho a toda a armada imiga

Afronta, ou (por melhor dizer) castiga.

Vês Cristóvão de Sá, que no trabalho,

E maior risco os feros Jaus rebate:

Eis chega Gil Fernandes de Carvalho,

Com que imenso valor logo combate.

Os Jaus fogem temendo o mortal talho,

Sem que os possa deter sangue de Pate:

Segue o bando Cristão a heroica prova,

Dá co bárbaro sangue ao mar cor nova.

Lá cerca o fero Achém por mar, e terra

Com número infinito a fortaleza;

Com poucos Dom Leoniz dentro se encerra;

Mas supre seu valor, e sua destreza:

Nota as diversas máquinas de guerra,

Dos assaltos contínuos a braveza,

E da virtude a multidão vencida,

Despois de tantas vezes rebatida.

Com perda grande o crédito perdido

Levanta o cerco o Achém desesperado:

Um filho morto deixa, mal ferido

Leva outro, de viver desconfiado.

Já vem para o socorro apercebido

Do primor de amizade estimulado

O bom Rei de Jantana: o mundo veja

A prova digna de valor, e inveja.

Torna o bárbaro Achém ao Marte iroso,

Com insolência os mares infestando:

Mas olha como já no rio formoso

Luís de Melo e Silva o está abrasando.

Vencedor entra o herói valoroso

Em Goa, que o Hildacão quer, debelando,

Tornar ao seu antigo senhorio;

Mas acha de Ataíde oposto o brio.

Essoutro, que também julgo invencível,

Será Mathias de Albuquerque. Ó quanto

Em Jor contra o Achém passa o possível,

Rompendo em breve espaço poder tanto!

Posta a fortuna aos pés, vence o impossível,

Aos nautas causa universal espanto,

Ventos contrasta, bravo mar navega,

E ao supremo lugar do Oriente chega.

Ali Dom João da Costa anima a gente,

Da fome, e enfermidades trabalhada;

E os navios repara diligente,

Com que logo no mar põem grossa armada.

Olha como lá em Jor destro, e valente

Juncos abrasa, e tem despois cercada

A Cidade D. Pedro de Menezes,

Honra, e glória de ilustres Portugueses.

Eis resplandecente o grão Luís Monteiro

Conquistador do Céu, terror do Inferno;

Nunca espada empunhou melhor guerreiro:

Nem rompeu de Netuno o seio interno:

Em Chaul, e Damão aventureiro

Começará a fazer seu nome eterno,

Terá nesse mar célebres vitórias,

Enfim no Achém o cume de suas glórias.

Vês Malaca cercada, e que a defende

Do bom Roque de Melo o valor tanto:

Feroz as ondas Luís Monteiro fende,

Por dar à fortaleza ilustre amparo:

O qual num lenho só tantos ofende,

E custar faz ao Achém seu ódio caro;

Mas o que não pudera o imigo forte,

O rigor poderá de infausta sorte.

Por culpa de soldado pouco esperto

Toma a pólvora fogo, e num momento

Da acelerada fúria o lenho aberto,

Cobertas, e homens voam pelo vento.

O bom Monteiro, de viver incerto,

Às ondas torna, onde com novo alento

Nadando, conservar procura a vida,

Que escapara da pólvora acendida.

Mas conhecido, quando mais se anima,

Perde (se a vida salva) a liberdade:

Levam-no ao Rei do Achém, que tanto o estima,

Como se então rendera a áurea Cidade.

Mostra o cruel que dele se lastima,

E a que deixe a lei santa persuade

Tanto em vão com promessas, e favores,

Quanto com asperezas, e rigores.

Constante persevera, e indignado

Da infernal raiva aceso o Achém lhe ordena

O fim, de tantos Santos invejado,

E à ventura maior, cego o condena.

Àquele grande campo, rodeado

De várias gentes, à ditosa pena

O trazem, com aqueles cavaleiros

Na guerra, e no martírio companheiros.

À sua vista os estão despedaçando,

Por lhe causar temor: ele animoso

A vida eterna lhes está lembrando,

De que primeiro a gozem invejoso.

Os ministros enfim executando,

O bárbaro furor do Rei iroso,

Bala o fazem de peça fulminante,

Donde, voando ao Céu, sobe triunfante.

Olha agora o famoso André Furtado,

Em tantos transes Marciais invito,

Digno de ser de todos invejado

Tão heroico valor, e alto esprito:

Descerca Cananor, e faz o ousado

Cercador tributário, e no conflito

Naval vence, e o Cossário leva a Goa,

Onde de dous triunfos se coroa.

Eis lá segunda vez as ondas fende

Apesar do furor do mar, e vento,

Logo três fortes naus de Meca rende,

E avante passa ao principal intento.

Chega a Ceilão, Columbo se defende,

Foge o fero Raju, foge o Sedento

De sangue Catimuça temeroso,

E o grão Furtado o segue vitorioso.

Entra o fundo Cardiga, e insolência

Do bárbaro castiga, que perdida

(Depois de valorosa resistência)

A armada deixa, e salva a nado a vida.

Nota com que admirável diligência

Em Jafanapatão falta; e vencida

A cruel batalha, mata o Rei imigo,

E Rei põem de sua mão, fiel, e amigo.

Lá prende o famosíssimo Cunhale

Ganda a inexpugnável fortaleza.

Aqui emudeça a inveja, ou sempre fale,

A pesar seu, louvores da alta empresa.

Agora cale Roma, Grécia cale:

E tu nota o valor, nota a destreza,

Com que deita da Sunda a loura gente

Da vossa Europa intrépida, e valente.

Já do mar de Maluco os vai deitando,

Ganhando fortalezas, e Cidades,

Novas asas à fama, e línguas dando,

E inveja aos que hão de vir noutras idades:

Hiemão inexpugnável escalando,

Chovem do muro horrendas tempestades

De tiros, e de um deles derribado,

Quase dará tributo ao mortal fado.

Na fortaleza, que lá tem cercado,

Sete Reis confiados na vitória,

(Da holandesa ajudados grossa armada)

O espera de suas glórias a mor glória:

Com pouca gente enferma, e trabalhada,

Cousas dignas fará de eterna história,

E se há de ver em bronze esculpida

Malaca por Furtado defendida.

Agora olha dous, que em outra idade

Poriam Roma, e Grécia entre as Estrelas;

Porém já lhe prepara a eternidade

Lugar, aonde ferão luzes mais belas:

Um por entre a sulfúrea tempestade

Da artelharia de Holandesas velas,

Socorre a fortaleza em males posta,

Este invicto será Fernão da Costa.

Essoutro, que acaudilha altos guerreiros,

Que os vinte e cinco se dirão da fama,

Lhe valerá nos transes derradeiros,

Rompendo tanto imigo, e ardente chama:

Esse exemplo será de cavaleiros;

E, para que saibais como se chama,

Varão, que há de gozar tão alto esprito,

João Rodrigues Camelo será o invito.

Eis Dom Martim Afonso, que animoso

O vem a descercar, ó dura sorte!

Quanta esperança, o Jovem generoso

Há de atalhar intempestiva morte.

Chore o Tejo teu fado rigoroso,

Que a ter mais larga vida, o Castro forte,

Do grão Dom João de Castro as ações claras,

Êmulo de suas glórias imitaras.

Dizendo assi, de pórfida coluna

Resplandecente, e forte escudo alcança,

No campo dele via-se a fortuna

A um cavaleiro dar espada, e lança.

Sair mostrava o Sol lá da áurea cuna,

Que, por dar luz ao mundo, não descansa,

No cerco vários casos esculpidos,

No abismo do segredo inda escondidos.

Toma este (disse) bélico troféu,

Para ti há muitos séculos guardado,

Em que entalhou o sábio Alfizebeu

Sucessos, que anteviu no Luso estado.

Mostra murchar-se o que antes floresceu,

E tornar a dar luz fogo apagado,

Que assi a Fênix das já cinzas frias

Mais bela a renovar torna seus dias.

Olha a grande Cidade populosa,

Mas tiranicamente possuída,

Atenuada, triste, lastimosa,

No último suspiro, e despedida:

E quando mais aflita, e mais chorosa,

E de infandos sucessos afligida,

Ficar num dia livre, alegre, e bela

Em nome do senhor natural dela.

Eis vem o grande Rei do Céu guardado

Para o ser da mais alta Monarquia

Buscar o povo leal, de que é aclamado,

Que o recebe com vivas, e alegria:

Qual após da tormenta o Sol dourado

Aos corações valor dando, e ousadia,

Aparece de Ulisses na ribeira

Num cavalo nadante de madeira.

Vês logo suceder vários conflitos,

Coalhar lenhos o mar, tropas a terra,

Assaltos, e recontros infinitos,

E sucessos de larga, e dura guerra:

Cobrar de novo, e alargar distritos,

Futuras glórias, que inda agora encerra

Favorável celeste movimento,

Que não penetra humano entendimento.

Olha que armado o valoroso peito

De fé santa, firmíssima loriga,

Vai restaurando tudo o que sujeito

Tiraniza de Cristo a gente imiga:

Ao Senhor dos exércitos aceito,

Derribará do trono a serpe antiga;

E debelado o Turco, Persa, e o Mouro,

Ao mundo tornarão idades de ouro.

Por ele espera há tanto o sacro rio,

Em que já se banhou Deus humanado,

Que hoje parece chora em largo fio

O injusto cativeiro dilatado:

Para este, que ama Deus por justo, e pio,

Bem te posso afirmar está guardado

De servidão livrar injusta, e dura,

No grão Sião, de Cristo a sepultura.

Neste vejo cumprir a grão promessa,

Que em Ourique Deus fez ao Rei primeiro,

E que neste magnânimo começa

Aquele grande Império derradeiro.

Girar os Orbes vejo com mais pressa

Para chegar o tempo, em que o guerreiro,

Em valor, e prudência sem segundo,

Que honra há de ser do mundo, venha ao mundo.

Enfim nesse, que vês fatal escudo,

Obra de extrema mão sábio Vulcano,

Está pronosticando o lavor mudo

As ações do encoberto Lusitano.

Que despois de aquietar, e livrar tudo

Da tirania, e jugo Castelhano,

A empresa conseguindo mais preclara,

Coroa Imperial se lhe prepara.

Por ele mostra que serão ditosas,

Séculos mil, as praias Lusitanas,

Alcançando vitórias tão gloriosas,

Que em muito excederão ações humanas.

Mil vos mostrará palmas gloriosas,

Que farão esquecer Gregas, Romanas.

Mas a Aurora, que as trévas já desata,

Subir no carro quer de fina prata.

Importa que na armada estejais antes,

Que do todo recolha a noite o manto;

E que as aves, que são do dia amantes,

A nova luz celebrem com seu canto.

Dizendo assi, das salvas rutilantes

Os dous se acharam fora, com espanto

Do cavaleiro, donde o mar quebrava

A vista do batel, que os esperava.