LIVRO XI

By Francisco de Sá de Meneses

Já a nascida na escuma só se via,

Quando ao grande Albuquerque Etol narrava

Os aparatos bélicos, que urdia

Maomé contra o assalto, que esperava,

Com que o desejo, que no peito ardia

Do sábio Capitão, se acelerava;

Que, vendo que o tardar era danoso,

Prudente logo ordena cuidados.

Mandou ao forte Abreu que guarnecesse

De gente, artilharia, e de arrombadas

O junco bravo, e nele se pusesse

Sobre a ponte, e inimigas estacadas.

Para que o bronze ardente defendesse,

Serem outras de novo fabricadas;

Até sãos os feridos, pôr o peito

À cidade, outra vez com duro efeito.

Tinha na estreita barra o fundo rio

Um baixo, que a passagem impedia

Nos menores influxos ao navio,

Que à grandeza das fustas excedia;

Mas nos maiores, com algum desvio,

Subir o maior lenho bem podia:

O guerreiro o lugar honroso estima,

A conjunção aguarda, aos seus anima.

Logo que vê do Sol a irmã rotunda,

O maior Capitão ante si chama

Todos os Capitães, e com facunda

Língua em desejo bélico os inflama:

Varões ilustres, cuja fama inunda

Dês donde cá primeiro o Sol derrama

Seus raios, até lá donde cansado

Se entrega ao mar de Ulisses navegado:

Chegada é a ocasião, que nos convida

A dar a esta obra fim, que entre as mãos temos.

Pintam calva a ocasião; e mal perdida,

Mui tarde, ou nunca mais a cobraremos:

Ao raio na primeira arremetida

Imitando, o possível excedemos;

Porém, quanto até gora trabalhamos

Será em vão, se Malaca não ganhamos.

Se não, considerai qual foi o fruto,

Que seguiu a Anibal de tanta guerra:

Rendeu Cipião Cartago, eterno luto

Ficou por ele na Africana terra:

Quanto em dez anos fez o Grego astuto,

Que a gente no fatal cavalo encerra,

Mais que glória lhe fora afronta clara,

Se Troia com seu muro em pé ficara.

O nosso Deus servimos, dilatando,

Na que hoje é terra imiga, sua lei santa,

Erros abomináveis dissipando,

Que persuade o Inferno a gente tanta:

Servimos nosso Rei, acrescentando

Cetros ao cetro, que Infiéis espanta;

E a Lisboa Malaca, escala rica

De quanto entre o Mar roxo, e China fica.

Enfim devemos ver o fim da empresa,

Que viemos buscar, mares rompendo

Incógnitos, cheios de aspereza,

Rigorosas tormentas padecendo:

Com causa o mundo julgará fraqueza

Largar o que rendido estamos vendo:

Veja o Oriente, como já tem visto,

Que pelos poucos seus milita Cristo.

Pelo que, posta nele a confiança,

Co a nova luz o assalto dar desejo:

Rompam-se inconvenientes; que a tardança

As mais das vezes ser danosa vejo:

Será posta nos Céus certa a esperança:

A fé de Josué agora invejo;

Que quem com fé tão alta cometera,

Tudo para vencer lhe obedecera.

Disse. E conformes todos aprovaram

Do forte Capitão o nobre intento:

Para os biantes troncos se tornaram,

Por dar a tudo inteiro cumprimento:

A noite apercebendo-se gastaram;

E, vindo a Aurora, o bélico instrumento,

Que usou Misseno, causa de sua morte,

Deu sinal, despertando a gente forte.

Respondeu ao guerreiro som, feriram

Logo mil vivos gritos as Estrelas,

Que da mor luz vencidas encobriram

Naquele mesmo ponto as luzes belas.

Na Cidade os imigos repetiram

O medonho clamor eco as querelas

Da turba feminil, que o rumor cresce:

Tornar ao mundo o antigo caos parece.

Da armada logo saem o mar abrindo

Os ligeiros batéis co a forte gente,

Àquele sinal bélico acudindo,

Que acende o brio ao coração valente:

Logo Albuquerque o assalto repartindo,

O Junco abalar manda, que eminente

Entre os batéis armados parecia

Castelo, que imperando-os se movia.

Seguiam pelo líquido elemento

Pouco a pouco os batéis o lenho armado;

Qual pelo prado vagaroso armento

Segue o soberbo touro não domado:

Eis que sobre ele chovem cento a cento

Pelouros, que abrem um, e outro costado;

Ele também de si despede raios,

A Jaus, e Rumes últimos desmaios.

Nesta de fogo tempestade horrível

Crescendo a lavareda, acabam vidas,

E Abreu ferido, qual Leão terrível,

Muito mais se embravece com as feridas.

Valor, e exemplo aos seus dava invencível

Desprezador dos tiros homicidas,

Quando uma bala, afronta, e horror de Marte,

Lhe leva os dentes, e da língua parte.

Ficou disforme o que era gentil rosto,

Mas na disformidade a gentileza,

(Que mais se ama na opinião do gosto,

Que do valor a formosura preza)

Não larga Abreu o perigoso posto,

Que incapaz do temor morte despreza:

Porém o sangue falta, as dores crescem,

E as forças pouco a pouco desfalecem.

Manda Albuquerque a Melo em continente

Por sucessor do Capitão ferido,

Por companheiro o aceita ho herói valente,

Mas o lugar não deixa embravecido:

E dês que o douto Elísio diligente

Remédio aplica ao dano recebido,

Bem mostra ao imigo na gloriosa míngua,

Que lhe sobejam mãos, se falta a língua.

E porque o mar a recolher tornava

As águas flutuantes, que expelira;

O Junco, que à ponte não chegava,

Faz que o dente tenaz na areia fira.

Entanto o horror do Inferno retratava

O fogo, o fumo, a confusão, a ira,

O espantoso rumor da artilharia,

A multidão de gritos, que se ouvia.

Gastado o dia na áspera contenda,

A noite perigosa se começa,

Tão medonha em tudo, e tão horrenda,

Que não sei se há quem medo não conheça:

Traça o Rei como ao junco fogo acenda

No tempo que a noturna maré desça;

Para o que o barco a barco prender manda,

Que o rio tomam d’uma, e outra banda.

Estes com lenha banhada em pez, que ardendo,

Com a minguante da maré desceram,

Fazendo a horrível noite dia horrendo,

De que as Celestes luzes se esconderam:

Tanto contrário fogo os Lusos vendo,

Não ousarei dizer que não temeram;

Porém co sempre usado valor logo

Nos batéis vão a contrastar o fogo.

Com tenazes arpeus as acendidas

Balças remando apartam do navio;

Mas à custa de muito sangue, e vidas

De alguns, a quem foi tumba o fundo rio:

Oferecia aos tiros homicidas

À luz do fogo aqueles, que com brio

Honroso o contrastavam, gente forte,

A quem não fez torcer o rosto a morte.

Livres deste perigo, a crescer torna

A maré flutuando, e juntamente

A filha de Hiperion a porta adorna,

Por donde Apolo sai do claro Oriente:

Rico orvalho em pérolas entorna

Sobre o fero Nemeu resplandecente,

Que dos solares raios abrasado,

Da terçã esquecido ruge irado.

Com a nova maré ferro levanta

O branco junco, e a ponte imiga aferra,

E com a fúria, que ao imigo espanta,

Dos batéis juntamente o esquadrão cerra:

Lima, que dos primeiros se adianta,

Pegado ao junco dá princípio à guerra:

Ferozes os imigos se defendem,

E quanto podem intrépidos ofendem.

Sobem Lima, e Garcia em competência:

Sobre eles pedras dardos, frechas descem;

Mas qual dous montes firmes à violência

De feras tempestades, permanecem:

Chegando acima encontram resistência

Maior, que ao seu encontro se oferecem

Malano cos Darus, que acaudilhava,

E Rostacão, que a plebe governava.

Porém Garcia, que já a seu desgosto

Na defendida ponte os pés pusera,

Bem do escudo coberto o peito, e rosto,

Esgrime contra os dous a espada fera:

Lima no mesmo ponto sobe ao posto,

E da ponte senhor se considera;

Não menos os Pagãos de si fiavam,

E dar-lhes logo fim também cuidavam.

Uns dos outros recebem golpes duros,

Crescendo a turba de uma, e outra parte:

O pó, o fogo, e fumo os ares puros

Perturba, e só já se ouve o som de Marte.

Treme a terra, o mar brama, e nos escuros

Aposentos da morte se reparte

O furor, onde blasfemando descem

As almas dos Pagãos, que ali perecem.

Do junco já também com leve salto

Se tinham Melo, e Abreu lançado à ponte,

Contra quem acudindo ao duro assalto

Estava Solimão já fronte a fronte:

Por outra parte já subira ao alto

Coutinho, e tinha morto ao fero Ormonte,

Que com socorro de Bintão chegara,

Deixando em triste pranto a esposa cara.

Sobem Dom João de Sousa, um, e outro Andrade:

Mas ao valente Arnaldo, que os seguia,

Cortou o fio da florida idade

Parca férrea, que ardente o ar fendia:

Do junco neste tempo tempestade

De fogo, setas, lanças descendia

Sobre a multidão bárbara, uns matando,

Outros ferindo, e aos mais acobardando.

Porém igual em tudo estava a sorte

Sem que resolução tomasse Marte,

Quando subindo Afonso bravo, e forte

Se viu das Quinas Santas o Estendarte:

Como se viram nele o rosto à morte,

Perderam os Pagãos o esforço, e arte;

E quanto valorosos resistiram,

Já faltos de valor as costas viram.

Correndo os segue a Lusitana gente,

Quanto encontra arruinando, e desfazendo,

Qual foi no Inverno a rápida corrente

Arrancar penhas, plantas sovertendo:

Iroso Solimão, rocha eminente,

Ou novo Horácio, aquele curso horrendo

De ter cuida, dez lanças se romperam

Juntas nele, e movê-lo não puderam.

Ele intrépido aqui, e ali lança,

Qual dos Monteiros duros rodeado

Tigre feroz, que por tomar vingança

Em lugar de fugir, remete ousado.

De alto a baixo a cabeça a Nuno alcança,

Que nele tinha o estoque já quebrado;

E fendendo-o até os dentes a homicida

Espada, deixa ao mísero sem vida.

Após Nuno a Fernando abre no peito,

Do vital humor fonte caudalosa;

Por onde a alma apressada deixa o estreito

Cárcere humano, e sobe a ser ditosa:

Vendo isto Melo, iroso, e com despeito

Contra ele move a espada rigorosa;

E tal golpe lhe deu em descoberto,

Que fora pouco haver um monte aberto.

Porém a concha da Egípcia fera,

A quem guarnecem pranchas de aço fino,

Resiste mais, que resistir pudera,

Quando fora de um seixo diamantino;

Mas do golpe, que o Cáucaso rompera,

Quase fica o Pagão fora de tino;

E foi dando traspés até afirmar-se,

E formidável torna por vingar-se.

Mas ordenou de Melo a amiga sorte,

Que Gerardo com ânimo atrevido

Entre ele se metesse, e o Pagão forte,

Que levemente dele foi ferido:

Antecipou-lhe o atrevimento a morte,

Que a duas mãos o imigo embravecido

A espada toma, e de alto a baixo o fende,

E, quase feito dous, em terra o estende.

Não acobarda o golpe rigoroso

A Cristã gente, antes acendem em ira;

E de ofendido o Turco generoso,

Já mais repara, do que a golpes tira.

Porém talvez, qual javali cerdoso,

Que retirando-se aos lebréus se vira,

Faz rosto, e a ferir torna com braveza,

E dos imigos o valor despreza.

A ferir o não torna o invicto Melo

De Aranteu estorvado, rigorosa

Sorte, e grande valor a socorrê-lo

O trazem, onde o esperava a parca ira.

Fere o Cristão guerreiro ao filho belo

De Alcifira, de ponta, e a luminosa

Espada, o arnês falsando, entrou lá donde

O alento vital o peito esconde.

Cai morrendo entre os mortos, eclipsadas

As luzes belas, murchas frescas rosas,

Já de mil belas damas invejadas,

Que em flamas acenderam amorosas:

Livres da ponte entanto as estacadas

Deixa o Lima, e Garcia, as numerosas

Tropas de imigos ante si levando,

Malano, e Rostacão mortos deixando.

Cai o bravo Malano, a altiva fronte,

Por Garcia até os olhos dividida;

E Rostacão, por Lima ao mar da ponte

Aberto o peito, dando em sangue a vida.

O fero Solimão, movível monte,

Amparando os Malaios, a homicida

Espada esgrime, após de si trazendo

De armadas gentes um dilúvio horrendo.

Tornam vendo valor tanto a ajuntar-se

Contra as Lusas esquadras as contrárias,

E com novo furor tornam a dar-se

Com diversas feridas mortes várias:

Forças apuram por avantajar-se,

Que ali lhe são mais que a arte necessárias;

E enquanto dura o belicos brio,

Mais que água, leva sangue o fundo rio.

Geinal a Ardônio, que fugia, alcança,

E de fera estocada em terra o estende;

Quer temerário Argeu dar-lhe vingança,

Porém sua morte o mísero pertende:

Desvia-lhe Geinal com escudo a lança,

E de horrendo altabaixo ao triste fende

A bárbara cabeça, em vão armada

Contra tal braço, e bem regida espada.

Abdelá, que já a destra luz perdera

No passado conflito, deixa o leito

Bramando, por fartar a sede fera,

Que de sangue cristão lhe abrasa o peito:

A Fernando, e Mateus à morte dera,

Que encerrou juntos um materno estreito,

Juntos do mundo a luz primeira viram,

Juntos a ver a eterna paz partiram.

Soberbo destas mortes se imagina

Pela fama subir ao imortal cume;

Mas a lança de Abreu, modéstia ensina,

Tirando-lhe o segundo ocular lume.

Feri-lo, vendo-o cego, ser indigna

Façanha ao seu valor o herói presume;

E o triste deixa com furor interno,

Esgrimidor sem luz, nau sem governo.

Quis raju retirá-lo compassivo

Por seu mal, porque o cego considera

Do Lusitano bando, e fero, e esquivo

Pela vista lhe lança a espada fera:

O Pagão já meio morto, vingativo

Co súbito furor, que concebera,

Meia espada deixou nele escondida,

E caem ambos sem vista, ambos sem vida.

Encontra-se Ragois co forte Lima,

De quem Carol astuto se escapara:

Ao duro encontro ao grão Pagão se anima,

Mas bem tanta ousadia compra cara:

Porque o Cristão guerreiro, a quem sublima

O Céu, depois que firme se repara

Contra ele, ira brotando se arremessa,

E do peito às espáduas o atravessa.

Saída abrindo ao sangue o ferro duro,

Lhe foi cobrindo a vista, sombra eterna,

Deixa o cadáver frio, foge o ar puro

À rebelde alma, e desce a grão caverna:

Solimão era entanto dos seus muro,

E o Príncipe Aladino, que governa

A Malaia nobreza, também corre

Aquela parte a tempo, que o socorre.

Ao Príncipe valente os Pagãos vendo,

O aclamam levantando grito horrível:

Ele envolto em furor, fero, e tremendo,

Se oferece ante todos invencível:

Logo seu velho pai, raiva vertendo,

Traz ele chega, e faz mais do possível

A decrépita idade, e longos anos,

A que estavam guardados tantos danos.

Aqui esteve em seu ponto largo espaço

O rigor, e crueldade da batalha:

Representa Aladim um monte de aço,

E tudo, quanto encontra, rompe, e talha.

Da outra parte ao Pagão impede o passo

Coutinho, que também abre, e desmalha.

O Sol perde a cor, vendo o encontro duro,

A terra treme, e treme o centro escuro.

Nunca Esteropes, Piracmon, e Brontes

Com fúria tal, a safra de Vulcano

Golpeando, gemer fizeram montes,

Como os dous por chegar-se a extremo dano:

Por força inclinam as altivas frontes

Aos golpes (que ministra o ódio humano)

Em favor de Aladim: crescem Malaios,

E de Coutinho Lusitanos raios.

Ali se ajuntam de uma, e d’outra parte

Dos dous imigos bandos os mais fortes,

Repartindo igualmente o favor Marte,

Mas com vários sucessos várias sortes.

Na igualdade cruel de esforço, e arte

Infinitas, e várias são as mortes,

E infernal confusão era aos ouvidos

Estrondos, vozes, gritos, e gemidos.

Neste tempo do Sol a luz cobria

Nuvem de pó, e de fumo, a que ajudavam,

Dando vitórias mil à morte fria,

Tiros, que de uma parte, e outra voavam.

O belicoso estrondo ensurdecia,

Os mortos passo aos vivos estorvavam,

E entre confusão tanta o Sá famoso,

Raio, vibrando a espada, era espantoso.

Com Solimão se achou peito com peito:

Dão-se os dous feros, com furor violento

Inimigos mortais, a braço estreito,

E fogo exalam com apressado alento:

Tivera cada qual por si desfeito

(Quando arrancado não do firme assento)

Entre os braços um monte, e na dureza

Igual dos dous se via igual firmeza.

Forcejando três vezes, intricadas

Voltas dão, logo tornam a firmar-se,

Travam-se pés com pés, e co as usadas

Tretas se afastam, para mais juntar-se.

Até que, bem as forças apuradas,

Procura cada qual do outro lotar-se,

Já que um ao outro enfim desembaraça,

A fera espada aperta, o escudo embraça.

A ferir se antecipa o Turco irado,

E de alto a baixo golpe horrendo tira,

Acha a espada a Garcia reparando,

Mas duro efeito faz imensa ira:

O grosso escudo parte, e o temperado

Arnês, e no ombro esquerdo fere, e tira,

(Bem que leve ferida) em copiosa

Veia sanguino humor com dor penosa.

Cresce com a dor a ira, a ira aumenta

A força do guerreiro soberano,

E na cabeça ao Turco fero assenta

Duro golpe, que o chega a extremo dano:

Não pode à fúria resistir violenta

A concha do que finge o choro humano;

Chega fendendo ao casco a espada esquiva,

De líquido carmim sai fonte viva.

Da ferida o Pagão no peito iroso

Fúria de novo concebeu tremenda,

E espantoso trovão, raio furioso,

De golpes forma tempestade horrenda:

Com não menos furor o Sá famoso

O fim procura da áspera contenda,

A arte dando, quanto ao furor parte

Mais o Turco ao furor, menos a arte.

Intempestivos golpes mil dispende,

Que o menor um penhasco partiria;

Mas Garcia, que aquela fúria entende,

Alguns rebate, e de outros se desvia.

Um golpe, que nos ares fogo acende,

Passar deixa, e da espada a ponta guia;

Metendo o corpo, e pés, e a fronte irada

Foi do ferro homicida penetrada.

Purpúrea corrente aos olhos desce

Da ferida cabeça, e ao Pagão cega:

O guerreiro Cristão, que assi o conhece,

Melhor os golpes, e a seu salvo emprega.

Solimão, que sua morte reconhece

A que a falta do sangue, e vista o entrega,

Ardendo em ira intrépido imagina

A vingança alcançar com sua ruína.

Corre braços abertos usso irado,

E de novo co forte imigo cerra,

Dizendo: Acabarei, porém vingado;

Vamos no mar dar fim à nossa guerra.

Iracundo, do invicto Sá travado,

Precipitar-se intenta; e entanto a terra

Co próprio sangue alaga, que, descendo

Das feridas formava rio horrendo.

Resiste-lhe Garcia o fero intento,

E firme o aparta, e oprime sua braveza:

Perde o sangue o Pagão, co sangue o alento,

Porém não perde a natural fereza.

Faltam as forças, não furor violento;

O vencedor, e a morte, e o Céu despreza,

E qual co a dor raivoso o alão costuma,

Lançam os olhos fogo, a boca escuma.

Enfim à terra vai torre eminente,

E o forte vencedor leva consigo,

Vira ao estrondo a Pagã, e a Cristã gente,

E Garcia se vê em mortal perigo:

Que o Príncipe Aladino impaciente

Por socorrer, e por vingar o amigo,

Sobre ele vai vibrando a ardente espada;

Mas Coutinho se opõe à morte irada.

O escudo forte deu ao golpe duro,

E mil se tiram em igual batalha

Entanto, que Garcia mal seguro

Por ver o fim de Solimão trabalha.

Abre largo caminho ao fado escuro,

Por junto ao paladar rompendo a malha

Com agudo punhal; e inteira palma

Alcança; a desce ao abismo a feroz alma.

Morto o Turco valente, as costas deram

As catervas Pagãs desordenadas.

Grita, ameaça Aladim: mas não valeram

Injúrias, reprensões ao vento dadas.

Detaide, Ali, e Batrão o socorreram,

Fazendo heroicas provas, e arriscadas:

Salva-se o fero Príncipe da morte,

Mas alcança a Batrão a adversa sorte.

Enquanto de Coutinho se repara,

De entre a turba comum frecha se tira,

Que rigorosa, abrindo o peito, para

Junto donde a de amor de amor sentira.

Turbam-se os olhos, perdem a luz clara,

E no último espirar de amor suspira;

Que pronunciar não pode o nome amado,

Já dos mortais soluços atalhado.

Salvar Detaide entanto pode a vida,

Acompanhando o Príncipe furioso,

Que, dos seus vendo a bárbara fugida,

Se retira, do justo Céu queixoso.

Naquela parte o Rei apercebida

Tinha a sulfúrea mina; e cauteloso

Aguarda que o Príncipe passasse,

E nela a Lusitana esquadra entrasse.

Davam os vencedores no perigo;

Mas advertido o Capitão prudente

Do sábio Etol, não quis seguir o imigo,

E deter manda a vencedora gente:

Para à vista do Rei, que já consigo

Vê poucos, e temor no peito sente;

E, trocado o furor em sentimento,

O posto deixa, e muda pensamento.

Enquanto dão lugar desbaratadas

As esquadras imigas, fortifica

Afonso a ponte; grossas estacadas,

Antes muro fortíssimo fabrica.

Contra as ruas de imigos ocupadas

A artilharia ali ganhada aplica,

Que mortes rigorosas disparava,

E excelsos edifícios derrubava.

Apolo ardentes setas despedia

Dês do Zenit entanto contra a terra,

E mais, que a dos imigos, ofendia

Aos Lusitanos a Celeste guerra:

Tudo co solar fogo se acendia;

Nas entranhas o vício ardor se encerra

Daqueles, a que fere sem defensa

Do planeta maior a flama imensa.

Sente dos seus o Capitão as penas;

E, para dar remédio a aflição tanta,

Das naus manda trazer velas, e entenas,

E contra a ardente luz toldos levanta:

Qual sói ao caminhante nas amenas

Ribeiras do Mondego a verde planta,

Quando Febo no Cancro reverbera,

Tal aos de Luso a sombra refrigera.

Porém, como os imigos irritados

Últimas forças, e última esperança

Provar quisessem, ou desesperados

Tornassem a morrer pola vingança;

Contra eles manda Afonso aos esforçados

Paiva, Caldeira, e Jaime, que descansa

Co trabalho, buscando o amado objeito,

Que tanto fogo lhe acendeu no peito.

Com Sousa, Castelbranco, Abreu, Andrade

Mandou outro esquadrão, que socorresse

O primeiro em qualquer necessidade,

Que o caso belicoso oferecesse.

Saem os de Luso, e supre a quantidade

O valor, que em qualquer deles floresce.

A recebê-los sai o imigo bando,

Os Céus puros com gritos penetrando.

Na vanguarda Geinal aventureiro,

Com Lemos, e Coutinho competia;

E Jaime, de amor vão forte guerreiro,

Buscava aquele bem, que não havia.

Já falto de esperança o cavaleiro,

Assi seu pensamento reprendia;

Que fruto de meu largo mal espero,

Se uma sonhada formosura quero?

Sigo (mostra-o a razão) um claro engano,

Que é o que minha esperança solicita?

Oh de monstruoso amor imenso dano,

Dor, que tem de infernal ser infinita!

Mais, que meu mal, já temo o desengano,

E será a liberdade mor desdita;

Que é tanto a grave dor de mim querida,

Que ao ponto que faltar, faltará a vida.

No pensamento amante assi discorre,

E o assim calado ferro esgrime: entanto

Gente infinita da Malaia morre,

Que obstinada contrasta valor tanto.

De sangue caudaloso rio corre

Pela Cidade, que se envolve em pranto;

E dês que a terra inunda tristemente,

Da cor paga tributo ao grão Tridente.

Mata o forte Caldeira a Sarcamante,

E Coutinho até o peito fende a Ormonte,

Que imprudente com ânimo arrogante

Ousou acometê-lo fronte a fronte:

Assombra os Pagãos golpe semelhante;

Já não receiam que o fugir afronte;

As costas dão aos fortes vencedores,

Que os vão seguindo com mortais rigores.

Seguindo os inimigos fugitivos

Teixeira, Lemos, e Geinal chegaram

Onde piedoso amor, fados esquivos

No bélico teatro se ajuntaram:

Fugia os vencedores vingativos,

(Fontes os olhos, que almas abrasaram

Entre a feminil turba temerosa

D’el-Rei de Pão) a mal guardada esposa.

Na vista fere do Pacém valente

O raio da afligida formosura;

Arder o antigo fogo na alma sente,

Que de cinza cobrira sorte dura.

Furioso amante, a vida impaciente

Já pela bela amada dar procura;

E, antes que cheguem a fazer-lhe ofensa,

Se emprega, e se aventura em sua defensa.

E disse: Conhecido tens, senhora,

O esposo, que escolheste; o desprezado

Conhecerás com minha morte agora,

Posto que até o morrer me nega o fado.

Enquanto assi dizia, a cortadora

Espada vibra; e em quanto fero, e irado

Detém a esquadra Lusa, a bela Infanta

Num elefante sobe, e se adianta.

Jaime, e Lemos, que tarde conheceram

A mudança do bárbaro atrevido,

Iracundos contra ele se moveram,

E duramente foi deles ferido.

Perdera o triste a vida, e feneceram

Vãos cuidados; mas, sendo socorrido

De Aladim, e Detaide, a morte a palma

Perde, e ele segue quem lhe leva a alma.

Aladim com Detaide se retira,

Também à sorte irada obedecendo;

O peito fogo, fogo a vista espira,

Atrás por muitas vezes revolvendo.

Tal o acossado touro, ardendo em ira

Contra os feros libréus virando horrendo,

Cos fortes cornos dividindo o vento,

Acende os ares seu fogos alento.

Neste tempo, a Malaios rigoros,

A recolher a tuba Cristã soa:

Ao sinal obedece o vitorioso

Esquadrão, bem que a muitos n’alma doa.

Do Céu entanto o injusto Rei queixoso,

Do grande Império seu perde a coroa;

E em toda a parte tristes, e infinitos

Dava o mísero povo ao vento gritos.