LIVRO XII

By Francisco de Sá de Meneses

O Céu lumes piedoso preparava

À pompa funeral do morto dia;

E, quanto o grão planeta alumiava,

De negras vestiduras se cobria.

Malaca o sentimento acompanhava

Co tristíssimo pranto, que se ouvia

Em toda a parte, onde oferece a sorte

Em tristeza, e horror rastos da morte.

Neste tempo do mar para a Cidade

Com horríssono estrondo despediam

Uma de mortes fera tempestade,

Que aos míseros Malaios consumiam:

Eles também imensa quantidade

De mortíferos tiros despendiam

Nas tranqueiras Cristãs, que à contraposta

Cidade tornam áspera reposta.

Não para a Marcial procela horrendo

No discurso da noite perigosa,

Das Estrelas não vista mais tremenda,

Nem a tristes mortais mais espantosa.

Semelhante era àquela da contenda,

A Teucros infelices pavorosa,

Quando, aquentando os orbes feroz chama,

A terra se estremece, o Céu rebrama.

Entre os incêndios, Marciais fracassos,

Os prantos feminis tristes se ouviam;

E cos filhinhos tímidas nos braços,

As mais adonde fossem não sabiam.

Com os curtos, mas apressados passos

Da infausta Cidade outras saíam,

Fugindo da violência do inimigo,

Buscando da intricada serra o abrigo.

Afonso invicto, quando mais cansado

(Prudente Ulisses, Argos vigilante)

As vigias provê; e em si o cuidado

Da ronda sobre as guardas importante:

Toca a vela da prima ao desvelado

Jaime, de um sonho vão guerreiro amante,

Que, elevado em seu triste pensamento,

Acrescenta a um tormento outro tormento.

Não passa hora, em que o mísero não gema,

E a lamentar a língua não desate,

Suspirando infinitas pela extrema

De tão comprido mal breve remate:

Nem há mortal perigo, que já tema;

A amor só teme, a amor se humilha, e abate;

E a amor, quando o Sol parte, e quando torna,

Despojos rende, o seu triunfo adorna.

Etol, que o movimento das Estrelas

Observa perto dele cuidadoso,

Os suspiros escuta, e vãs querelas,

Que o triste amante aos ventos dá queixoso.

Do curso por então das luzes belas

Mais não trata, e com ânimo piedoso,

Com suaves razões brando o conforta,

E a dar-lhe parte de seu mal exorta.

Emudece o guerreiro: e quanto alcança

Das ciências Etol, traz à memória;

E enfim consulta o mal sem esperança,

E aquela lhe contou sonhada história.

Cobra (lhe disse o sábio) confiança

Ditoso possuidor de uma alta glória;

Que a beleza, que segues, e que te ama,

A que alcançada tens gloriosa fama.

Felice amor, ditosa adversidade,

Que é, pisando asperezas, certa guia

Para os campos, que aspiram suavidade

Em primavera eterna, e eterno dia.

Ali consagra o tempo à eternidade

Quem do caminho do ócio se desvia,

E tanto já trabalhos mereceram,

Que entre as Estrelas altas se puseram.

Tu, que por cima de asperezas tantas

Movendo os pés, dificuldades pisas,

Seguindo estampas de Divinas plantas

Dessa, que suspirando solenizas;

Já que entre as fatais asas te levantas

Tanto, que entre as Estrelas te eternizas,

O pensamento deixa de ti indigno,

Que escurece o que adquires de Divino.

Jaime o conselho ouvindo, e desengano,

Que do rigor da sorte já esperava,

Considera o remédio de seu dano,

E mais, que o dano, já o remédio o agrava:

Rompe o silêncio enfim, e diz: Tirano

Nova invenção de mal se me guardava:

Sua aparente forma amou Narciso;

Eu por sonhada sombra perco o siso.

A quem não moverá minha desdita?

Sísifo, há tanto tempo carregado

De esperança falaz com infinita

Pena, do ombro perdida em vão cansado!

Ó vã, mas bela imagem, na alma escrita,

Incêndio, que abrasou o mais guardado,

De mim serás eternamente amada,

Sejas deidade, sonho, sombra, ou nada.

Assi lamenta da paixão vencido.

E com graves razões Etol procura

Ásperas, e saudáveis, do sentido

Alheado apartar a névoa escura:

Qual médico gentil, quando afligido

Da intrínseca doença enfermo cura,

Que os remédios aplica mais suaves,

E, se não são de efeito, usa dos graves.

Ó Jaime, disse, em ti bem claro vejo

Quanto a paixão em nós é poderosa.

Correndo segues o teu vão desejo;

E a razão, que te avisa, te é odiosa.

Se te puderes ver, honrado pejo

A causa de teus males vergonhosa

Culpa julgara; e a dor chegara a tanto,

Que de arrependimento fora o pranto.

A amada formosura tens à vista,

E tua paixão cega a desconhece;

O teu alto valor nobre a conquista,

O teu desejo humilde a desmerece.

Vença a razão, e em seu assento assista:

Não dês mais força ao mal, que a alma padece;

Que enquanto vão humano amor pertendes,

Ofendes-te a ti mesmo, e os Céus ofendes.

Na alma as razões discretas penetraram,

E à consideração caminho abriram;

Cuidados diferentes começaram,

Dos olhos novas lágrimas caíram.

Moderou-se o desejo, mas ficaram

Lembranças, que mui tarde se extinguiram;

Que, se morre a esperança no cuidado,

Ficam memórias vivas do passado.

Enquanto Jaime o desengano sente,

Entre os mortos, da morte, e Céu queixoso

O cadáver armado infelizmente,

Busca a que foi de Batrão amada esposa.

Mas entre a multidão da morta gente,

E confusão da noite tenebrosa,

O cuidado amoroso vão ficara,

Se a bela face Cíntia não mostrara.

Com ânsia, que a dor causa, levantando

As chorosas Estrelas às Estrelas,

Rogos, e vãos queixumes misturando,

Assi roga, e assi aos Céus manda querelas:

Eternas luzes, que passais brilhando

Por Celestes caminhos, margens belas,

Males de amor, e morte já sentistes,

Mostrai quem morto adoro aos olhos tristes.

Dai-me morto o que vivo me tirastes,

E piedosas de mim sereis chamadas;

Bastem os males já, que me causastes

Tanto tempo em meu dano conjuradas:

Assi no claro assento, que ocupastes,

Nunca sejais de nuvens eclipsadas;

Deixai que chegue a dar-lhe sepultura,

E o golpe em mi execute a parca dura.

E tu, que com três rostos resplandeces,

No Céu, na terra, e lá no escuro averno;

Tu, que as plantas animas, e enriqueces

O mar profundo com vigor interno:

Os raios, com que as cousas favereces,

Comunicando teu valor eterno

Estende, e mostra-me entre tantos onde

A escura sombra o morto bem me esconde.

Acaso, qual se rogos a obrigaram,

A face Délia descobriu serena,

Primeiro os altos montes se mostraram,

Logo a Cidade envolta em sangue, e pena,

Entre os que valorosos acabaram,

Como daquele Império a sorte ordena,

Conhece Glaura o já perdido esposo,

Exemplo de valor pouco ditoso.

No amado peito a seta vai cravada,

Desmaia o coração à dor rendido,

Cai mais morta enfim, que desmaiada,

Sobre o que tanto amou, morto marido.

Quase da alma fugaz desamparada,

A falta lha deteve do sentido,

Tendo suspensa a dor, e do acidente

Mortal torna, respira, atenta, e sente.

Torna de novo a dar co novo alento,

E lágrimas de novo os olhos deram;

Já suspiros o peito manda ao vento,

Com que de novo os ares se acenderam.

Ao triste suspirar o sentimento

Incauto grito ajunta, e dar quiseram

Já compassivas mais, que rigorosas,

As parcas fim às penas lastimosas.

Fere o grito no teto cristalino,

E soldado ignorante ao vulto tira,

Que por ordem secreta do destino

O lastimoso grito descobrira:

A seta fere o peito alabastrino,

Que para tanto mal amor ferira.

Ais a infelice ao Céu manda queixosos,

Bem que, se já mortais, inda amorosos;

E, como pode, a débil voz levanta,

Dizendo: Ó vencedora gente forte,

Já comigo piedosa, e já com tanta

Ira, causa cruel de minha morte;

Se entre Marcial furor piedade santa

Tem lugar, e permite minha sorte,

Pois me nega o poder à morte dura,

Ao Sião, e Batrão dai sepultura.

De Etol a fraca voz foi conhecida,

Que o valoroso Jaime aconselhava,

Porque dele, e de Sousa fora ouvida,

Quando na Ilha deserta se queixava.

Valer lhe ordena; mas, perdendo a vida

Glaura, para as tranqueiras se chegava,

Pressaga do felice fim da pena,

Que momentânea morte ali lhe ordena.

Albuquerque as estâncias visitando,

A aquela parte chega ao ponto, que ela

A lástima as Estrelas provocando

Da que seu mal causara, se querela.

Ele do lamentar débil, e brando

Se compadece, e manda recolhê-la.

Abrem do estreito alojamento a porta,

E a triste acham entre viva, e morta.

Falta do sangue, que já tem perdido,

Inclinava a cabeça à dor penosa,

Qual no ramo do tronco dividido

Lânguida, e triste pende murcha rosa.

Etol, a quem mais dói o sucedido,

O primeiro a levanta: a rigorosa

Ferida inquire com piedoso intento;

Ela o sábio conhece, e toma alento.

Esforçando a voz fraca, diferente:

Sucesso já me prometestes, disse,

Feliz, tu, se a piedade onipotente

Hoje obrar (lhe responde) o que eu predisse.

O se estivesse na Divina mente,

Que o raio do Divino amor ferisse,

E desse luz a essa alma, que, hoje cega,

Já quase a ponta de perder-se chega!

Ó Glaura emendarás erros passados,

Confessando um só Deus imenso, eterno,

Que de nada nos fez, e os adornados

Céus de Estrelas, mar, terra, e horrendo Inferno:

Este nos redimiu, que deserdados

Nos fez do homem primeiro a mau governo;

E, por ser justo, e pio, a ofensa dura

Pagou, sendo Criador, pola criatura.

Pela perdida ovelha suspirava,

E de a trazer aos ombros se deleita:

Na vinha paga igual a todos dava;

Que também ao que chega tarde, aceita:

Pede água, que da culpa, as almas lava;

E precita serás alma eleita:

Pede, confia, crê, serás ditosa,

Serás do Eterno Esposo eterna esposa:

Assi dizendo, em fé lhe acende o peito:

O que não vê, já crê: tantos lhe inspira

O Céu auxílios, e com um pio efeito,

Pela água, que é de vida, já suspira.

Levam-na em braços, e lhe ordenam leito

Conforme ao sítio, que instrumentos de ira

Ocupam, e aplicar ervas começa

Elício, que de Apolo a arte professa.

Ela já da esperança, e da fé cheia,

Que o Céu lhe infunde, disse: Antes que agrave

A morte o que é mortal, esta alma feia

Purifique a água santa, e a culpa lave.

Já neste tempo a vista se encadeia,

E o rosto cobre um pálido suave:

Cos sacros ritos, e água o Sacerdote

Lhe dá (de Cristo Esposa) o eterno dote.

Elício entanto já das ervas prova

A oculta força, já arrancar procura

Co a douta mão o ferro, e a dor renova

Sempre, que arrancar prova a seta dura:

Enquanto ervas aplica, ervas reprova;

E quantos há segredos na arte apura:

Dos membros belos a alma despedida,

Ele arte, e tempo perde; ela acha a vida.

Contempla triste o Capitão valente

A trasladada ao Céu morta beleza;

E, bem que grave, compassivo sente

O acerbo caso; mas a sorte preza:

Manda que guardem em lugar decente

O corpo frio, que honras já despreza,

Até com pompa fúnebre, e piedosa

Dar ao nobre cadáver tumba honrosa.

No mesmo tempo entre as regiões protervas,

De infelices sucessos quebrantadas,

O velho Rei com lágrimas acerbas

Maldiz vãs confianças enganadas.

Aladim arrogante com soberbas

Razões, vãmente aos ventos derramadas,

Mostrando que a fortuna desestima,

Assi dizendo aos seus, e ao Rei anima:

Fortes varões, vós sois do Céu guardados

Para hoje exercitar piedoso ofício,

Os males reparando não cuidados

Deste Império, que vai em precipício,

Que ver-vos nas desditas tão ousados,

Para mim tenho por felice auspício;

E assegura a esperança da vitória,

Que ainda há de eternizar vossa memória.

Mostrando o valor último pagamos

O que à pátria, e ao nobre ser devemos:

E quando pela pátria aqui morramos,

Da fama eterna vida alcançaremos.

Rode a fortuna, nós também façamos

Como opróbrios futuros atalhemos;

E se até o fim nos for imiga a sorte,

Não nos pode tirar honrada morte.

Juntas logo as relíquias do vencido,

E roto campo, a nova luz aguarda,

Recuperar cuidando inda o perdido,

Que a nada o peito altivo se acobarda.

O valente geinal de amor ferido,

Que o novo, e antigo fogo na alma guarda,

Do Príncipe os intentos favorece,

E a acompanhá-lo em tudo se oferece.

Não perde ponto neste tempo Inferno,

Que de novo com mil afeitos de ira,

O caudilho Asmodeu do escuro eterno,

Milhares de infernais guerreiros tira:

Com ele sai também do negro averno

Alecto, que o furor da guerra inspira

O viperino açoute sacudindo,

Os mesmos vãos espíritos ferindo.

As leves asas apressada entanto

A negra esposa de Caron batia,

E já que por Memnon banhada em pranto

A Aurora anuncia o triunfante dia.

Por dar ilustre fim ao intento santo,

Animoso Albuquerque prevenia

A vencedora esquadra, e assi à memória

Lhe traz a já esperada alta vitória:

O mais, amigos, tendes acabado;

Só falta que a Cidade despejemos

Do povo infiel, por vós desbaratado,

Guerra fácil, que o Céu em favor temos:

Em nos dando lugar o imigo irado,

De entre os corpos Pagãos apartaremos

Os mortos companheiros; pois avisam

Vidas dadas por Deus, que Estrelas pisam.

E permitindo o Céu, que Impérios funda,

(Como confio, pois por nós peleja)

Que a de abominação mesquita imunda,

Casa a Deus dedicada hoje se veja;

Nela esses (que já o bem eterno inunda,

E Mártires de Cristo o Céu festeja)

Sepultura terão logo que o voto

Rendais a Deus com ânimo devoto.

Assi disse, e dar manda vivo alento

Ao côncavo metal, que incita a guerra,

E ao som rouco, de estreito alojamento

As bandeiras de Luso desencerra.

Turba o gritar confuso o mar, e vento;

E do peso oprimida geme a terra,

Retumba o vale, abala o Siame monte,

O abismo treme, altera-se o Horizonte.

Com não menos valor ao encontro duro

Aladim, e Geinal rápidos correm:

De fumo, e pó se eclipsa o raio puro,

E de uma, e outra parte muitos morrem.

Mas firmes um, e outro, vivo muro:

Porque, onde uns mortos caem, outros concorrem,

E chega a estar de modo o transe estreito,

Que encontra escudo a escudo, peito a peito.

Qual se Austro, e Bóreas com furor veemente

Nuvens amontoando, e revolvendo,

Se encontrassem violentos, de repente,

Com fero estrondo, e terremoto horrendo,

E obstinadas (terror da huamana gente)

Em pedra, trovões raios desfazendo

Belicosas as nuvens se estivessem,

Sem que um ponto de paz se concedessem;

Tais os imigos bandos com violência,

E pertinácia dura se ofendiam,

Feroz o assalto, fera a resistência:

Uns, e outros ganhar terra porfiam.

Nesta porfia, nesta competência,

Que pó, e fumo em nuvens confundiam,

Heroicas maravilhas se fizeram,

Que entre a confusão mesma se esconderam.

O primeiro, Aladim despede um dardo,

Que larga abre em Valério a morte entrada;

Cai o mísero morte, ele galhardo,

E fero arranca a luminosa espada:

Fende a cabeça a Alberto, e com Bernardo

De ponta cerra, e a parte mais guardada

Do coração penetra, e à saída,

Do assi calado ferro sai a vida.

Ao triste não valeu a ligeireza,

Que naquele lugar já lhe valera,

Quando fugindo a bárbara fereza

Com Viegas, e Alaida ao mar se dera.

Do Príncipe (que a morte, e armas despreza)

Êmulo o valoroso Geinal era:

Mata a Felício, e contra Simão corre,

A quem Guilherme por seu mal socorre:

O coração de um freixo, a que Vulcano,

De ponta diamantina o extremo armara,

No grosso escudo rompe do pagano,

Que a Simão deixa, e dele se repara:

Porém, qual se do Olimpo soberano

Júpiter raio iroso disparara,

Que invisível penetra ao monte o peito,

Sendo num tempo mesmo o estrondo, e efeito:

Tal horrendo o Pacém num mesmo instante

Move contra Guilherme, e à morte o entrega:

E não parando a espada rutilante,

Dos ombros a cabeça a Diniz cega.

Foi contra Júlio, mas achou diante

Lima, que um golpe fero nele emprega,

O elmo fino o livrou de ser ferido,

Mas torna atrás alheio do sentido.

O guerreiro à região mandara escura

As almas de Audali, e Tucaferno

Com outras, que, esperando sepultura,

A Caron não passara ao negro averno:

E vai sobre Geinal, que a parca dura

Entrar já cuidava ao sono eterno;

Mas torna em si o Pagão, e se defende;

E, quando lugar acha, a Lima ofende.

Jaime co forte Argeu, sucessor digno

Do forte Solimão, as forças prova

Agravado do amor; o que o destino

Ordena, segue com heroica prova.

Não perde o valoroso imigo o tino,

E brotando furor golpes renova;

Mas com tanta destreza se combate,

Que, antes que o golpe chegue, se rebate.

Guazel o fim estorva desta guerra

De Argeu menor irmão, não menos forte,

Com Jaime de alto a baixo feroz cerra,

Que esteve quase então nas mãos da morte:

Mas Guazel co furor, que n’alma encerra,

O golpe não acerta bem de corte;

E o guerreiro Cristão, que sente a ofensa,

Deixa Argeu, e quer dele a recompensa.

Na garganta soberba à assi calada

Ponta escondeu, que abriu larga saída

Por onde blasfemando a alma indignada

Deixa o corpo, que em terra cai sem vida:

Argeu o não vingou, que já em travada

Contenda estava ao tempo da ferida

Co valoroso Melo, que acudira,

Quando ir sobre Teixeira Guazel vira.

Os Astros valor grande, curta vida,

E compridos trabalhos destinaram

Aos dous fortes irmãos, que da querida

Pátria por longos mares apartaram.

Que empresa não foi deles conseguida,

Enquanto da serena luz gozaram?

Até que foi Catai de um sepultura

E deste o fim a parca já procura.

Sousa, Silva, e Coutinho resistiam

Dos feros Jaus à natural braveza,

Que pelas lanças fortes se metiam,

Por ferir com extremos de bruteza:

Mas como aos Caudilhos, que os regiam,

Faltava a experiência, e fortaleza,

Sem ordem já as esquadras mal regidas,

Menos se atrevem, prezam mais as vidas.

Porém quando o esquadrão Jau se retira,

O valor mostram último os Malaios,

Da perda a grande dor fomenta a ira,

E nos magoados peitos gera raios:

Bem como, quando do humor falta, espira

A vela, que entre os trêmulos desmaios

Com mor luz breve espaço resplandece,

O vigor esforçando, que falece;

O Príncipe Aladim os animava

Mais, que com vozes, com valentes feitos,

Com que línguas à Fama eternas dava,

E terror era dos contrários peitos:

O Léquio Capitão o acompanhava,

Opondo-se aos perigos mais estreitos;

E o Príncipe Dataide, em quem não falta

Valor, rode a fortuna, baixa, ou alta.

Mas desbarata a bárbara firmeza

Guzarate esquadrão, que, de Garcia

Não podendo suster a fortaleza,

Fugindo rompe a imiga companhia.

Rápido o forte Sá co a ligeireza,

(Que às pombas, caudal águia) os perseguia,

E em confusa desordem todos postos,

Já poucos mostram aos de Luso os rostos.

Que horríveis, e tremendas cutiladas

Da Lusitana mão recebe o Mouro!

Feridas já não dão curvas espadas,

Nem são mais, que despojos, Crises de ouro:

Rios de sangue correm, que lavadas

As ruas deixam, com felice agouro

Da bruta mancha, e abominável cheiro,

Com que monstros Malaca honrou primeiro.

Chegava o tempo da fatal ruína

Daquele Império prosperado tanto;

E, ao mesmo ponto até o valor declina

Naqueles, que eram do Oriente espanto:

Efeito costumado da Divina

Justiça, que piedosa, e reta, quanto

A mortais olhos o castigo tarda,

Em ira aumenta o que a paciência aguarda.

Com esta de vitória alta esperança

A Afonso o seu Custódio ali aparece

A destra armada de fulmine a lança,

No esquerdo braço o escudo resplandece:

Como de luz, de nova segurança

O coração magnânimo enriquece;

E entre a de pó, e de fumo nuvem negra,

Com voz humano o ar Malaio alegra:

O ponto, Afonso, chega, que desejas

Do pertendido fim da alta conquista:

Olha quantas o Céu, por quem pelejas,

Em tua ajuda esquadras hoje alista.

Levanta os olhos, que Deus quer que vejas

Ideias imortais, com mortal vista,

Daqueles, que por ele as vidas deram,

E dos que com Miguel permaneceram.

Vês ali, onde mais arde o conflito,

Entre a Malaia, e Portuguesa gente

O teu Noronha, já glorioso esprito,

E os dous Almeidas, glória do Ocidente:

Coutinho ilustre, e um Correia invicto;

E aqueles, que neste último Oriente

Seu sangue derramaram, lá combatem,

E do guerreiro imigo a fúria abatem.

Olha acolá, onde esquadrão superno

Do Custódio da Aurora acaudilhado,

Ferindo vai na multidão do Averno,

Que Asmodeu guia contra ti inflamado.

Nota como obediente ao Padre Eterno,

O retirado valo já expugnado

Por ti, e na prisão do fogo o encerra,

Aos guerreiros deixando livre a guerra.

Por tanto a espada, da Gentia, e Moura

Seitas destroço, agora invicto aperta,

E a Cidade, que o Sol nascendo doura,

Do jugo vil da Idolatria liberta.

Caia Babel soberba, Membrod moura,

E muro funda nessa taipa aberta,

Donde a Fé vá triunfante, e vencedora

Por todos os confins da clara Aurora.

Disse, e desaparece: e Afonso logo

O inspirado valor executando,

Entra de novo no Mavórcio jogo,

Visível raio, abrindo, e derribando.

A espada em uma mão, e na outra o fogo:

Exemplo aos seus, temor ao imigo dando,

Pelo aberto esquadrão entra de sorte,

Que rouba o modo de matar à morte.

Vê que o valente Argeao a espada tira

Tinta em sangue do peito ao invicto Melo,

Que já de alento falto mal respira,

Da triste cor da morte o rosto belo:

Do caso a compaixão lhe acende a ira,

E contra o matador, que a recebê-lo

Sai confiado, iroso se abalança

Desejoso de glória, e de vingança.

Dão-se pesados golpes com fereza,

Que lugar o furor não deixa à arte;

Mas, já que aquela rígida braveza

À consideração concedeu parte,

O Capitão de Cristo com destreza

A força ajuda no propício Marte;

Fere o Pagão valente em descoberto,

E o cérebro lhe deixa ao vento aberto.

Suster-se já mortal em vão procura;

Mas, despois que já aqui, já ali se inclina,

Qual alto pinho por tormenta dura,

Vai com horrendo estrépito em ruína:

A gente, que o seguia, mal segura,

Do medo aconselhada, só imagina

Como salvar-se; e as costas dá fugindo

Ao raio Português, que o vai ferindo.

Foge a multidão bárbara cobarde,

Do Lusitano povo perseguida;

Só o Príncipe Aladim, que em furor arde,

Mostra desestimar a odiosa vida:

Brama ofendido, não que o acobarde

Ver de seus valedores a fugida;

Mas, de valor fazendo clara prova,

Começa temerário guerra nova.

Enquanto em ira aceso tanto ostenta,

Vê sobre si de tiros nuvem basta;

Mas contra a feroz turba se sustenta,

E parece que contra todos basta:

Até que a força, e multidão violenta

Ante si o leva, e do perigo afasta;

E vendo que ousar tanto é desatino,

Obedece ao rigor do seu destino.

Dá as costas ao furor, porém de sorte,

Que dizer-se não pode que ele fuja;

Nem lhe tira temor da instante morte

Que iracundo leão revolva, e ruja.

Forçado a vida salva o varão forte

Daquele Marcial dilúvio, cuja

Desbaratada gente fugitiva

Deixa o pátrio terreno a sorte esquiva.

O velho pai encontra, que a Cidade

(Já não sua) deixava, acompanhado

De poucos, em quem força de lealdade

Então pode fazer o medo ousado:

Geme, vendo a paterna Majestade

Posta afligida no mais triste estado,

De todos, quantos via, dependendo,

Amigos, e inimigos já temendo.

Ali chega Geinal da vida incerto,

Que escapara das mãos do forte Lima:

Do muito sangue, que perdeu, coberto

O lasso corpo sobre a espada arrima;

Por mil partes o fino arnês aberto,

Acompanhá-lo em vão Cambir se anima,

Que rio de seu sangue a terra esmalta,

E co a falta do sangue a vida falta.

Já o Príncipe Detaide mal ferido

A Cidade cos seus Darus deixara;

E, a não ser de infinitos socorrido,

As sombras vãs de Dite acompanhara:

O bando vencedor segue o vencido,

E até às tranqueiras últimas não para,

Adonde planta a insígnia vencedora,

Que o vento alegre estende, humilde adora.

Assi vence Albuquerque forte, e pio:

Consagrar Templo a Deus logo procura;

Da mesquita o tirano senhorio

Tira a Luzbel; e a Cristo a rende pura,

E religioso o Mavórcio brio

Humilha, graça dá, votos pendura;

E àqueles, que acabaram na gloriosa

Conquista, sepultura dá piedosa.

Agora meu trabalho humilde espera

Que ponhais nele favoráveis olhos:

Flores produziram, e primavera

Seus raios nestes ásperos abrolhos.

Sou frágil lenho, que em tormenta fera

À vista tenho Sirtes, temo escolhos;

Vós lume, que atrás procelas traz bonança,

Meus temores trocai em confiança.