LOUCURAS QUE FAZIA ÊSTE SUGEYTO COM HUM CAVALLO RUÇO, QUE LHE COMPROU O THIO: E ...

By Gregório de Matos Guerra

Pedralves não há alcançá-lo,

porque se não cabe dele,

se um cavalo tem a ele,

ou se ele tem um cavalo:

mandou o tio comprá-lo,

por ver o seu Benjamim

na charola do Rolim;

mas tendo o rocim comprado,

então ficou cavalgado

o tio mais o rocim.

E porque era o tal sendeiro

um pouco acavaleirado,

se lhe pôs casa de estado,

dous pajens, e um escudeiro:

item papel, e tinteiro,

confessor, e capelão,

donde veio ocasião,

de todo o povo malvado

dizer, que o ruço rodado

morrera mui bom cristão.

Pedralves tão grande asnia

jura, e firma, que não disse,

porém se era parvoíce,

diria, mais que diria:

que outros lhe ouviu a Bahia

tão gordas, tão bem dispostas,

que já à guitarra andam postas,

donde chegam a julgá-lo

mais besta, que o seu cavalo,

por trazê-lo sempre às costas.

Por não tomar algum vício

ia ele, mais o rocim

ao campo roer capim,

fingindo, que ao exercício:

por vê-lo em tão alto ofício

ia com grande alvoroço

a marotagem num troço,

dizendo a puro intervalo,

será homem de cavalo,

quem foi de cavalo moço.

Uma tarde, em que corria,

ei-lo pelas ancas vai;

que muito, se também cai

qualquer Santo no seu dia:

foi tão grande a correria

do rocim pelo escampado,

que de um monte alcantilado

rodou, por jogar de lombo,

com que o ruço que era pombo,

de então foi ruço rodado.

Acudiu Pedro à burrada,

e chegando ao arruído,

vendo o cavalo caído,

ficou solta desmaiada:

mas a gente ali chegada

lhe disse: ó Senhor Baulio,

trunfe com valor, e brio,

que se este perdido está,

outro cavalo achará

na baralha do seu tio.

Ele então descendo a vala,

e dando avante dous passos

tomou o cavalo em braços,

e fez-lhe esta branda fala:

meu ruço, minha cavala,

meu carinho, e meu amor

pois fico em tão grande dor

órfão tão desamparado,

e morreis de mal curado,

ordenai-me um curador.

Testai consigo perene,

que um testamento cerrado

por vós, e por mim ditado

por força há de ser solene:

não queirais, que vos condene

algum Platônico astuto,

de que ao pagar do tributo

(podendo com todo alinho

falecer como um anjinho)

acabastes como um bruto.

O rocim, que era entendido

pouco menos, que seu amo,

em ouvindo este reclamo

surgiu, dando um ai sentido:

deu um, deu outro gemido,

e depois de escoucinhar

disse, inda estou de vagar,

por mais que a morte não queira,

que é acabar a carreira,

não de carreira acabar.

Isto disse o rocinante,

e logo para o curar

tratam de o desencovar

um, e outro circunstante:

com cordas, e cabrestante,

e enxadas para cavá-lo;

não podendo dar-lhe abalo,

todo o trabalho se perde,

porque era cavalo verde,

sendo ruço o tal cavalo.

Mas um Coadjutor bisonho

disse, tal dono, tal gado,

que o cavalo é tão pesado,

como o dono é enfadonho:

Pedralves como um medronho

ficou, e já de afrontado

desconfiou como honrado

do Coadjutor malhadeiro,

vendo estar o seu sendeiro

de cura desconfiado.

Eis que com força, e arte

a empuxões de cabrestante

foi sacado o rocinante

da barroca a outra parte:

Pedralves num baluarte

se pôs, e a gente deteve,

dizendo em prática breve,

vem-me alguém puxar a mim?

pois é, que este meu rocim

nem Deus quero, que mo leve.

Aqui o ruço há de jazer

conforme o seu natural,

que é filósofo moral,

e no campo há de morrer:

quem teve, que escarnecer!;

e quem teve, que zombar!

todos enfim a puxar

deram todo aquele dia

co ruço na estribaria,

e trataram de curar.

Houve junta de alveitares,

ou Médicos de jumentos

carregados de instrumentos

balestilhas, e azeares:

item seringas a pares,

unguentos, mechas, e talos,

e simples para formá-los

tudo remédios inanes,

porque só pós de Joanes

é remédio de cavalos.

Curou-se enfim o Frisão

pelos mais exprimentados

homens bem intencionados

pela primeira intenção:

mas sobrevindo um febrão

de implicadas qualidades,

em tantas calamidades

quis Deus, que não lhe aproveite

nem das Brotas o azeite,

nem o vinagre dos Frades.

Pedralves num acidente

fiado em seu privilégio

mandou pedir ao Colégio

um osso do Sol do Oriente:

mas sendo ao Reitor presente

a casta do agonizante,

dizei (disse) a esse bargante,

que o Santo a curar não presta

o mal, que ele tem de besta,

nem o do seu rocinante.

Com que o ruço a piorar,

as Relíquias a não vir,

Pedralves a se afligir,

e seu tio a se enfadar:

o dinheiro a se gastar,

e a casa a se aborrecer,

tanto veio a suceder,

que com pesar não pequeno

em chegando ao quatrozeno

o ruço veio a morrer.

Assistir-lhe na agonia

vieram, sem que uma manque,

todas as bestas do tanque

dos Padres da Companhia:

e uma, que cantar sabia,

uma lição lhe cantou,

e quando ao verso chegou,

onde diz: “andante me”

estirou o ruço um pé,

e dando um zurro acabou.

Ao tratar do enterramento

houve alguma dilação,

porque Pedralves então

chorava como um jumento:

mas aberto o testamento

perante um, e outro ouvinte,

se achou, que morrera aos vinte,

e testara aos vinte e três

de tal ano, e de tal mês,

e que dizia o seguinte.

Meu corpo vá amortalhado

no hábito de cacoetes,

que tem meu amo entre asnetes

de falar agongorado:

não o coma adro sagrado,

que um monturo bastará,

sendo que tão magro está

de Hipócrates, e Avicenas,

que vou receando apenas

para um bocado haverá.

Item ao Senhor Marquês,

a quem o céu há juntado

as ferezas de soldado

os carinhos de cortês:

pela mercê, que me fez,

de com tão justa razão

suspender de Capitão

meu Amo, que fica em calma,

lhe peço, pela sua alma,

que o suspenda de asneirão.

Meu Amo instituo enfim

por meu herdeiro forçado,

e lhe deixo de contado

a manjedoura, e capim:

item lhe deixo o selim,

que me pôs de sarna gafo,

e pois já morro, e abafo,

o mou bocado lhe deixo,

porque veja queixo a queixo,

o que vai de bafo a bafo.