LOUCURAS QUE FAZIA ÊSTE SUGEYTO COM HUM CAVALLO RUÇO, QUE LHE COMPROU O THIO: E ...
Pedralves não há alcançá-lo,
porque se não cabe dele,
se um cavalo tem a ele,
ou se ele tem um cavalo:
mandou o tio comprá-lo,
por ver o seu Benjamim
na charola do Rolim;
mas tendo o rocim comprado,
então ficou cavalgado
o tio mais o rocim.
E porque era o tal sendeiro
um pouco acavaleirado,
se lhe pôs casa de estado,
dous pajens, e um escudeiro:
item papel, e tinteiro,
confessor, e capelão,
donde veio ocasião,
de todo o povo malvado
dizer, que o ruço rodado
morrera mui bom cristão.
Pedralves tão grande asnia
jura, e firma, que não disse,
porém se era parvoíce,
diria, mais que diria:
que outros lhe ouviu a Bahia
tão gordas, tão bem dispostas,
que já à guitarra andam postas,
donde chegam a julgá-lo
mais besta, que o seu cavalo,
por trazê-lo sempre às costas.
Por não tomar algum vício
ia ele, mais o rocim
ao campo roer capim,
fingindo, que ao exercício:
por vê-lo em tão alto ofício
ia com grande alvoroço
a marotagem num troço,
dizendo a puro intervalo,
será homem de cavalo,
quem foi de cavalo moço.
Uma tarde, em que corria,
ei-lo pelas ancas vai;
que muito, se também cai
qualquer Santo no seu dia:
foi tão grande a correria
do rocim pelo escampado,
que de um monte alcantilado
rodou, por jogar de lombo,
com que o ruço que era pombo,
de então foi ruço rodado.
Acudiu Pedro à burrada,
e chegando ao arruído,
vendo o cavalo caído,
ficou solta desmaiada:
mas a gente ali chegada
lhe disse: ó Senhor Baulio,
trunfe com valor, e brio,
que se este perdido está,
outro cavalo achará
na baralha do seu tio.
Ele então descendo a vala,
e dando avante dous passos
tomou o cavalo em braços,
e fez-lhe esta branda fala:
meu ruço, minha cavala,
meu carinho, e meu amor
pois fico em tão grande dor
órfão tão desamparado,
e morreis de mal curado,
ordenai-me um curador.
Testai consigo perene,
que um testamento cerrado
por vós, e por mim ditado
por força há de ser solene:
não queirais, que vos condene
algum Platônico astuto,
de que ao pagar do tributo
(podendo com todo alinho
falecer como um anjinho)
acabastes como um bruto.
O rocim, que era entendido
pouco menos, que seu amo,
em ouvindo este reclamo
surgiu, dando um ai sentido:
deu um, deu outro gemido,
e depois de escoucinhar
disse, inda estou de vagar,
por mais que a morte não queira,
que é acabar a carreira,
não de carreira acabar.
Isto disse o rocinante,
e logo para o curar
tratam de o desencovar
um, e outro circunstante:
com cordas, e cabrestante,
e enxadas para cavá-lo;
não podendo dar-lhe abalo,
todo o trabalho se perde,
porque era cavalo verde,
sendo ruço o tal cavalo.
Mas um Coadjutor bisonho
disse, tal dono, tal gado,
que o cavalo é tão pesado,
como o dono é enfadonho:
Pedralves como um medronho
ficou, e já de afrontado
desconfiou como honrado
do Coadjutor malhadeiro,
vendo estar o seu sendeiro
de cura desconfiado.
Eis que com força, e arte
a empuxões de cabrestante
foi sacado o rocinante
da barroca a outra parte:
Pedralves num baluarte
se pôs, e a gente deteve,
dizendo em prática breve,
vem-me alguém puxar a mim?
pois é, que este meu rocim
nem Deus quero, que mo leve.
Aqui o ruço há de jazer
conforme o seu natural,
que é filósofo moral,
e no campo há de morrer:
quem teve, que escarnecer!;
e quem teve, que zombar!
todos enfim a puxar
deram todo aquele dia
co ruço na estribaria,
e trataram de curar.
Houve junta de alveitares,
ou Médicos de jumentos
carregados de instrumentos
balestilhas, e azeares:
item seringas a pares,
unguentos, mechas, e talos,
e simples para formá-los
tudo remédios inanes,
porque só pós de Joanes
é remédio de cavalos.
Curou-se enfim o Frisão
pelos mais exprimentados
homens bem intencionados
pela primeira intenção:
mas sobrevindo um febrão
de implicadas qualidades,
em tantas calamidades
quis Deus, que não lhe aproveite
nem das Brotas o azeite,
nem o vinagre dos Frades.
Pedralves num acidente
fiado em seu privilégio
mandou pedir ao Colégio
um osso do Sol do Oriente:
mas sendo ao Reitor presente
a casta do agonizante,
dizei (disse) a esse bargante,
que o Santo a curar não presta
o mal, que ele tem de besta,
nem o do seu rocinante.
Com que o ruço a piorar,
as Relíquias a não vir,
Pedralves a se afligir,
e seu tio a se enfadar:
o dinheiro a se gastar,
e a casa a se aborrecer,
tanto veio a suceder,
que com pesar não pequeno
em chegando ao quatrozeno
o ruço veio a morrer.
Assistir-lhe na agonia
vieram, sem que uma manque,
todas as bestas do tanque
dos Padres da Companhia:
e uma, que cantar sabia,
uma lição lhe cantou,
e quando ao verso chegou,
onde diz: “andante me”
estirou o ruço um pé,
e dando um zurro acabou.
Ao tratar do enterramento
houve alguma dilação,
porque Pedralves então
chorava como um jumento:
mas aberto o testamento
perante um, e outro ouvinte,
se achou, que morrera aos vinte,
e testara aos vinte e três
de tal ano, e de tal mês,
e que dizia o seguinte.
Meu corpo vá amortalhado
no hábito de cacoetes,
que tem meu amo entre asnetes
de falar agongorado:
não o coma adro sagrado,
que um monturo bastará,
sendo que tão magro está
de Hipócrates, e Avicenas,
que vou receando apenas
para um bocado haverá.
Item ao Senhor Marquês,
a quem o céu há juntado
as ferezas de soldado
os carinhos de cortês:
pela mercê, que me fez,
de com tão justa razão
suspender de Capitão
meu Amo, que fica em calma,
lhe peço, pela sua alma,
que o suspenda de asneirão.
Meu Amo instituo enfim
por meu herdeiro forçado,
e lhe deixo de contado
a manjedoura, e capim:
item lhe deixo o selim,
que me pôs de sarna gafo,
e pois já morro, e abafo,
o mou bocado lhe deixo,
porque veja queixo a queixo,
o que vai de bafo a bafo.