Luar

By João da Cruz e Sousa

Pelas esferas, nuvens peregrinas,

Brandas de toques, encaracoladas,

Passam de longe, tímidas, nevadas,

Cruzando o azul sereno das colinas.

Sombras da tarde, sombras vespertinas

Como escumilhas leves, delicadas,

Caem da serra oblonga nas quebradas,

Vão penumbrando as coisas cristalinas.

Rasga o silêncio a nota chã, plangente,

Da Ave-Maria, — e então, nervosamente,

Nuns inefáveis, espontâneos jorros

Esbate o luar, de forma admirável,

Claro, bondoso, elétrico, saudável,

Na curvilínea compridão dos mortos.