MARGENS DE OURO E ESMERALDA
Esta água pouca e triste que ali passa
E vai carpindo, o esfarrapado manto,
Sujo do barro de esbeiçadas ribas,
A rastos por pedrouços e atoleiros,
Foi há cem anos caudaloso rio.
Da serra onde nascia, em tanta cópia
Os cabedais rolava que, remada
Pelos mais destros braços, nunca vira
Canoa alguma atravessar-lhe o curso;
E não vadeado nunca, não sulcado
Profanamento por afoitos remos,
Levava ao mar as ondas, e com as ondas
Áureas folhetas, minerais preciosos,
Como a buscar, fugindo aos que violavam
Seus veeiros recônditos, longínquo
Abrigo e paz na profundez do oceano.
Às margens dele, de uma e de outra banda,
Pela primeira vez aí cultivados,
Viçavam férteis, enleando a vista,
À destra milheirais de espigas de ouro,
À sestra canaviais, brandindo ao vento
Trêmulas espadanas de esmeralda.
E o reflexo dourado de uma parte,
Da outra parte o reflexo verde, ao longo
Serpenteavam das águas, que listadas
Das duas cores, semelhavam solta
Franzida fita ao sol tremeluzindo.
Sobre a tarde, com a fresca, ou no silêncio
Dos luares do ermo, vulto leve e claro,
Esbelto como uma palmeira nova,
Vulto de mulher moça, muitas vezes,
Olhos voados para além do rio,
Aos ais falava para a margem de ouro:
— “Ouves-me acaso? saberás que te amo?
Pudesses tu romper a nada as águas
E apertar-me nos braços, que sou tua!
Falem por minha voz quantos suspiros
Sôfrega espalho, nestes ares voam!
Ó meu amor, eu te imagino de ouro
Cabelos e olhos teus, como as espigas
De teus milheirais de ouro. Hás de ser belo
Ardido e forte, para que algum dia
Oponhas o teu peito à correnteza
E alfim te eu possa receber nos braços!
Vem, eu te espero!”
E para a de esmeralda,
No mesmo tom, da oposta margem de ouro,
Respondia a voz: — “Ouves-me acaso?
Pois sabe que te quero, e te amo, e adoro!
Por tua causa fabriquei das árvores
Apeando em terra os troncos mais robustos,
Esguias, velocíssimas canoas;
Nenhuma pôde atravessar o rio,
Tal a tensão elástica das águas.
Peito, braços, então, lhe opus cem vezes,
E cem vezes vencido me devolvo
Entrajado de espuma à flórea riba.
Oh! eu te amo! nos sonhos me apareces
Alva de lírios, com as madeixas verdes,
Como, ao que ouvi contar, quando inda infante,
As sereias as têm no fundo oceano;
Verdes, como à distância verdejando
É de teus canaviais a visão verde.
Serás minha algum dia, aguardo-o, e quando
A hora feliz chegar, irei colher-te,
Mole açucena casta, que me esperas
Nessa afastada margem de esmeralda!”
Amavam-se, talvez, como se amavam
Pendões herbáceos, hásteas sussurrantes,
Doces colmos de mel e áureas espigas;
Mas entre os dois amantes, extremando-os,
Sequer lhes permitindo, embora rápido,
Um aperto de mãos — como entre aquelas
Duas lavouras, não lhes consentindo
O breve gozo do enlaçar das folhas —
Turgido, aos roncos, rescumava o rio.
— “Se crescêssemos nós — de si consigo
Cochichavam as plantas — mas de modo
Que as hásteas se encruzassem sobre o espelho
Do rio, como braços que se apertam!”
— “Se este rio secasse — por seu turno
Anelavam, cismando, os dois amantes —
Se este rio secasse, mas de forma
Que se lhe descobrisse enxuto o fundo
De abismadas areias, e em seu leito
Nossos lábios uníssemos num beijo!
Vinde, soprai o vento das queimadas,
Secas de março! sol de março, esplende,
Corusca, exaure a vida a toda fonte,
Mananciais que as vertentes suam, bebe!”
Desejavam-se assim, assim na febre
De insofridos desejos, imprecavam
Remédio ao mal de permeado estorvo;
Mas alternadamente e como surdo
À aspiração de corações e plantas,
Agora limpo o céu, chuvoso agora
Se mostrava, ao calor de um dia ardente
Noite orvalhosa sucedendo e amiga;
Nem temporais que encharcam, nem soalheiras
Que tudo crestam, senão só, constante,
Azul, sereno, temperado clima.
E toda a tarde, um sopro de volúpia
Morno e acariciador, aquelas vozes,
A voz dele e a voz dela entremesclava
Num só desejo, — qual também nas margens
De ouro e esmeralda, remexendo as moitas,
Misturava num só rumor de amores
Estalidos e frêmitos — secreto
Obscuro idioma que as folhagens falam.
Vinham-se as noites — e era tudo um cântico,
E mais alto e maior se aos voos no éter
Nudez alva de lua aclara os ermos.
Estremecia pelas chãs palustres
O ar cortado de trilos, de queixumes,
De cioso rezumbir e estalos de asas;
Luzia a mata com o bulir dos fogos
Pálidos da aluvião de de pirilampos;
Deitada grama, arbusto, árvore, amavam-se,
Amavam-se água e riba, e espuma e sombra,
Vasa e limo, ervançais, recantos mudos,
Encruzilhadas, descampados mortos,
Cinzentas serras, píncaros altíssimos,
Tudo! que do alto céu, da láctea mancha
Da via sideral baixava a tudo
— Obre de eterno amor — não sei que influxo
De intenso gozo e de volúpia imensa.
E fluía o tempo no açodado curso,
Como o do rio, as horas afogando,
Dias e meses e ilusões de envolta,
E sonhos, e suspiros, e ais e queixas,
Tudo o que passa... menos a Esperança,
— Náufraga eterna eternamente escapa
De sinistros, quaisquer que nesta vida
Sejam as águas.
Esperavam ambos.
Eis que entre luas de um dezembro adusto,
Bramado de trovões e ventanias,
Lá por desoras de chuvosa noite
Soa um baque, retroa estrondo horrendo.
Que foi? Veio a manhã, souberam todos.
Por sobre o rio, numa e noutra margem,
A de ouro e a verde, a se apoiar estava
Estendida uma ponte, qual tão bela
Não lavoraram nem tão firme os homens.
Era inteiriço tronco centenário,
Harto jequitibá daqueles sítios,
Atalaia do rio, em cujo espelho
Se revia e por sobre o qual trevosa
E vasta, no alto, abobadava a copa
Esvoaçada de corvos e de nuvens,
Que ruíra de rondão, mal suportando
O rijo embate a acelerados ventos,
E carga secular.
Intacto e válido.
Deixaram-no a dormir seu grande sono;
Intacto, que era o tronco áspero e grosso
Desses a quem, dentando-se ao feri-los,
Nem foices lascam, nem machados toram.
E por seu peito agora, à flor do rio,
Vêm-se cruzar em trânsito contínuo
Os habitantes de uma e de outra margem.
Sobre a tarde — cursando errante e cálido
O mesmo sopro, a rebolir nas moitas,
Pejava os corações de um vago anseio —
Pela primeira vez sobre a corrente,
Na ponte feita do madeiro morto,
Se apertam duas mãos, se unem dois lábios.
Eram juntos, enfim, os dois amantes!
E pela vez primeira, em frente um do outro,
Ele exclamou, vendo que os olhos dela
— Glaucos abismos! eram verdes, verdes,
Verdes do verde da florida margem
Dos verdes canaviais: — “Tens olhos verdes?”
— “E os teus — disse ela — que são de ouro! de ouro!”
Eram do ouro mais puro os olhos dele,
Do ouro dos milheirais da margem de ouro.
E ouro e esmeralda, os olhos se fundiram
De ambos num só olhar — risonhas núpcias
De uma cor e outra cor, de uma alma e outra!
Ouro e esmeralda — cores diferentes,
Mas que se querem, mas que se procuram,
E folgam de se achar unidas, como
Na laranjeira e nos seus doces frutos,
No cacho da palmeira e nos seus leques
Na asa do beija-flor e da jandaia,
No lampiro e na folha em que abre o facho,
Na luz do sol e na floresta virgem.