MEMORIAL A SUA ALTEZA
Se os príncipes nos são dados
Para geral benefício,
E se o seu mais digno ofício
É ouvir os desgraçados:
Ouvi minha desventura,
E consenti que esta vez
Se lastime a vossos pés
Um queixoso da ventura.
Saírem humildes ais
De um peito singelo e aberto,
É, o direito mais certo,
Quando os juízes são tais.
Fundadas sobre a verdade
As minhas súplicas vão:
Não peço por ambição,
Peço por necessidade.
Em mim o cuidado cai
De irmãs postas em pobreza:
A piedade e a natureza
Me fazem irmão, e pai.
Olhos em pranto banhados,
Que eu sem dor não posso ver.
Vos fazem agora ler
Estes versos mal limados.
São tristes órfãs donzelas,
E merecem suas dores
Que vós, augustos senhores,
Hajais piedade d’elas.
Por mais esforços que eu faça
Como hei de dar-lhes favor,
Se o seu triste benfeitor
Vive na mesma desgraça?
Da miséria as tirareis,
Se eu da miséria sair:
Sobre muitos vai cair.
O favor que me fazeis.
Vós, ó augusta princesa,
Em quem o céu quis juntar
O melhor que podem dar
A fortuna, e natureza,
Tende dó de seu lamento:
E dai a mão favorável
A um sexo respeitável.
De que vós sois ornamento.
A petição que vos faço
Não é de fácil indulto;
Para pouco, fora insulto
Valer-me do vosso braço.
Não é fácil, mas é justa:
E será bem despachada,
Se uma vez apresentada
For por vós à irmã augusta.
Príncipes, tende piedade:
Ponde a meus queixumes pausa:
Protegei na minha causa
A causa da humanidade.
O que de Tito se diz,
Um rei vosso avô dizia;
Chamava perdido o dia,
Se não fez alguém feliz.
Motivo de tristes ais
Quaisquer mãos o podem dar;
Más venturas emendar
Só pertence a mãos reais.
Dos homens, inda que ingratos,
Ouve Deus os rogos justos:
Vós, ó príncipes augustos,
Sois na terra os seus retratos.
Mas já o tempo oportuno
Apressa as asas escassas,
E não devo às mais desgraças
Ajuntar a de importuno.
Acabe a triste escritura.
Digna por tal de piedade:
Eu dei-lhe pranto e verdade.
Vós podeis dar-lhe ventura.