MEMORIAL A SUA ALTEZA

By Nicolau Tolentino de Almeida

Se os príncipes nos são dados

Para geral benefício,

E se o seu mais digno ofício

É ouvir os desgraçados:

Ouvi minha desventura,

E consenti que esta vez

Se lastime a vossos pés

Um queixoso da ventura.

Saírem humildes ais

De um peito singelo e aberto,

É, o direito mais certo,

Quando os juízes são tais.

Fundadas sobre a verdade

As minhas súplicas vão:

Não peço por ambição,

Peço por necessidade.

Em mim o cuidado cai

De irmãs postas em pobreza:

A piedade e a natureza

Me fazem irmão, e pai.

Olhos em pranto banhados,

Que eu sem dor não posso ver.

Vos fazem agora ler

Estes versos mal limados.

São tristes órfãs donzelas,

E merecem suas dores

Que vós, augustos senhores,

Hajais piedade d’elas.

Por mais esforços que eu faça

Como hei de dar-lhes favor,

Se o seu triste benfeitor

Vive na mesma desgraça?

Da miséria as tirareis,

Se eu da miséria sair:

Sobre muitos vai cair.

O favor que me fazeis.

Vós, ó augusta princesa,

Em quem o céu quis juntar

O melhor que podem dar

A fortuna, e natureza,

Tende dó de seu lamento:

E dai a mão favorável

A um sexo respeitável.

De que vós sois ornamento.

A petição que vos faço

Não é de fácil indulto;

Para pouco, fora insulto

Valer-me do vosso braço.

Não é fácil, mas é justa:

E será bem despachada,

Se uma vez apresentada

For por vós à irmã augusta.

Príncipes, tende piedade:

Ponde a meus queixumes pausa:

Protegei na minha causa

A causa da humanidade.

O que de Tito se diz,

Um rei vosso avô dizia;

Chamava perdido o dia,

Se não fez alguém feliz.

Motivo de tristes ais

Quaisquer mãos o podem dar;

Más venturas emendar

Só pertence a mãos reais.

Dos homens, inda que ingratos,

Ouve Deus os rogos justos:

Vós, ó príncipes augustos,

Sois na terra os seus retratos.

Mas já o tempo oportuno

Apressa as asas escassas,

E não devo às mais desgraças

Ajuntar a de importuno.

Acabe a triste escritura.

Digna por tal de piedade:

Eu dei-lhe pranto e verdade.

Vós podeis dar-lhe ventura.