MEMORIAL OFERECIDO A D. DIOGO DE NORONHO, DEPOIS CONDE DE VILA-VERDE
Lutando em crua peleja
Com meu fado esquivo e duro.
Que derribar-me deseja,
Busco um asilo seguro
Na ilustre casa de Angeja:
A tão bom porto acolhido
Me vedes, senhor, diante,
Qual c’o molhado vestido
Surge triste naufragante,
Quase das ondas comido:
A vossos pés ajoelho.
Moço ilustre, amparo nosso.
Quê dentro em real conselho,
Mostrais com anos de moço.
Maduro saber de velho:
Ministro prudente e inteiro,
Que no tribunal entrando.
Por dar o passo primeiro.
Vos ides já costumando
A ser de reis conselheiro:
Amparar os desditosos,
Dar aos caídos à mão,
Pôr neles olhos piedosos,
É antiga obrigação
Dos grandes e poderosos:
Em douto livro aprendi,
Que o grande ao pequeno erguia;
Não nasce homem para si;
Tão santa filosofia
No Sá de Miranda a li:
Pois que corre em vosso peito
Sangue que de reis correu,
Para fazer bem sois feito;
Vossa grandeza me deu
Sobre vós este direito:
Fazer com que um triste possa
Por vós mais feliz viver;
Ter dó da desgraça nossa,
É o sublime prazer
D’almas grandes, como a vossa:
Em vós mesmo aprender vim
Princípios d’esta doutrina;
Para a levardes ao fim,
Achareis matéria dina,
Ilustre senhor, em mim:
Não achais um malfeitor,
Que fuja ao justo castigo;
Não infame matador,
Que em peito do bom amigo
Cravasse punhal traidor:
Achais sim um desgraçado.
Que seus males vos descobre;
E em quem ajuntou seu fado
Aos incômodos de pobre
As obrigações de honrado:
Irmãs com tenras crianças,
Chorando pranto inocente,
Que enxugam co’as soltas tranças,
Põem em mim inutilmente
Os olhos e as esperanças:
Órfãs de mãe, e donzelas,
Choram-me outras de redor;
Em vão me condoo d’elas:
O seu triste benfeitor
É outro infeliz como elas:
Meus injustos, negros fados,
Dias funestos, me urdiam,
Tão tristes, tão desgraçados,
Que das Parcas que os teciam,
Oxalá fossem cortados!
Mas o destino avarento
Não poderá derribar-me,
Nem cumprir seu duro intento,
Se em vós não puder tirar-me
A piedade e o acolhimento:
E se não for importuna
A petição que escutais,
Servi-lhe vós de coluna;
O partido não sigais,
Que tem seguido a fortuna:
Prometeu-me pronto abrigo,
Levantou-me o pensamento,
Foram promessas de imigo;
Eram fundadas no vento,
O vento as levou consigo:
Tenho a vosso pai contado
Quanto vivo contrafeito;
Não tenho sido escutado;
Mas ser-lhe-á meu rogo aceito,
Se lhe for por vós levado:
Dizei-lhe, senhor, quais são
Minhas forças, se as achais;
Mas comece a informação
Por lhe dizer, que me honrais
Com a vossa proteção:
Eu nada certo lhe peço,
São vagas minhas esp’ranças;
Quanto ele pôde, conheço,
E livre-me de crianças,
Se compaixão lhe mereço:
Se ante os reis, seu voto dando,
São suas razões aceitas,
Meu nome lhe ide lembrando,
Ou para cousas já feitas,
Ou para as que for criando:
Pedi-lhe pois que tolere
Meu rogo triste, e teimoso;
Que estou num lugar, pondere,
Mesquinho, ainda que honroso,
E onde nada ha que espere:
Embebido em esperanças,
Fraco piloto põe peito
Ás ondas bravas, ou mansas;
E em campo sem parapeito
Espera o soldado as lanças
Não desejar, é baixeza;
Sempre o humano coração
Quer subir a mor alteza;
Esta universal paixão
É filha da natureza:
Se eu visse no fiel espelho
Já meu cabelo nevado;
Se fosse clérigo velho,
Que enxuga, à porta sentado,
O lenço sobre o joelho:
Teimoso gramaticão,
Que em longo chambre embrulhado,
Co’a douta pena na mão,
Dá à luz grosso tratado
Sobre as leis da conjunção:
Que arranca o cabelo hirsuto,
Lastimando a decadência
Do novo mundo corrupto,
Que quer negar a existência
Ao ablativo absoluto:
Se eu carregasse a memória
D’estas e outras ninharias,
De que estes tais fazem glória,
Vivera era paz os meus dias
Preso a uma palmatória:
Outros meus esp’ritos são;
E se de forcas sou falto,
Não o sou de coração;
Erguerei voo mais alto
Se vós me derdes a mão:
Senhor, eu tenho acabado;
Já da mão a pena cai;
Feliz se o meu verso ousado
For de vosso ilustre pai
Benignamente escutado:
Vós ambos não me estanheis
De meu verso a rima fria;
Por baixa não a enjeiteis,
Que nesta mesma poesia
Se tem escrevido a reis:
Não tenho sido o primeiro,
Que a grandes tais versos manda;
Neles com juízo inteiro
Escreveu Sá de Miranda
Ao bom rei Dom João Terceiro:
Não o imito na beleza.
De que ele os soube adornar;
Falta-me arte e natureza;
Mas pude dele imitar
A verdade e a singeleza.