MEMORIAL OFERECIDO A D. DIOGO DE NORONHO, DEPOIS CONDE DE VILA-VERDE

By Nicolau Tolentino de Almeida

Lutando em crua peleja

Com meu fado esquivo e duro.

Que derribar-me deseja,

Busco um asilo seguro

Na ilustre casa de Angeja:

A tão bom porto acolhido

Me vedes, senhor, diante,

Qual c’o molhado vestido

Surge triste naufragante,

Quase das ondas comido:

A vossos pés ajoelho.

Moço ilustre, amparo nosso.

Quê dentro em real conselho,

Mostrais com anos de moço.

Maduro saber de velho:

Ministro prudente e inteiro,

Que no tribunal entrando.

Por dar o passo primeiro.

Vos ides já costumando

A ser de reis conselheiro:

Amparar os desditosos,

Dar aos caídos à mão,

Pôr neles olhos piedosos,

É antiga obrigação

Dos grandes e poderosos:

Em douto livro aprendi,

Que o grande ao pequeno erguia;

Não nasce homem para si;

Tão santa filosofia

No Sá de Miranda a li:

Pois que corre em vosso peito

Sangue que de reis correu,

Para fazer bem sois feito;

Vossa grandeza me deu

Sobre vós este direito:

Fazer com que um triste possa

Por vós mais feliz viver;

Ter dó da desgraça nossa,

É o sublime prazer

D’almas grandes, como a vossa:

Em vós mesmo aprender vim

Princípios d’esta doutrina;

Para a levardes ao fim,

Achareis matéria dina,

Ilustre senhor, em mim:

Não achais um malfeitor,

Que fuja ao justo castigo;

Não infame matador,

Que em peito do bom amigo

Cravasse punhal traidor:

Achais sim um desgraçado.

Que seus males vos descobre;

E em quem ajuntou seu fado

Aos incômodos de pobre

As obrigações de honrado:

Irmãs com tenras crianças,

Chorando pranto inocente,

Que enxugam co’as soltas tranças,

Põem em mim inutilmente

Os olhos e as esperanças:

Órfãs de mãe, e donzelas,

Choram-me outras de redor;

Em vão me condoo d’elas:

O seu triste benfeitor

É outro infeliz como elas:

Meus injustos, negros fados,

Dias funestos, me urdiam,

Tão tristes, tão desgraçados,

Que das Parcas que os teciam,

Oxalá fossem cortados!

Mas o destino avarento

Não poderá derribar-me,

Nem cumprir seu duro intento,

Se em vós não puder tirar-me

A piedade e o acolhimento:

E se não for importuna

A petição que escutais,

Servi-lhe vós de coluna;

O partido não sigais,

Que tem seguido a fortuna:

Prometeu-me pronto abrigo,

Levantou-me o pensamento,

Foram promessas de imigo;

Eram fundadas no vento,

O vento as levou consigo:

Tenho a vosso pai contado

Quanto vivo contrafeito;

Não tenho sido escutado;

Mas ser-lhe-á meu rogo aceito,

Se lhe for por vós levado:

Dizei-lhe, senhor, quais são

Minhas forças, se as achais;

Mas comece a informação

Por lhe dizer, que me honrais

Com a vossa proteção:

Eu nada certo lhe peço,

São vagas minhas esp’ranças;

Quanto ele pôde, conheço,

E livre-me de crianças,

Se compaixão lhe mereço:

Se ante os reis, seu voto dando,

São suas razões aceitas,

Meu nome lhe ide lembrando,

Ou para cousas já feitas,

Ou para as que for criando:

Pedi-lhe pois que tolere

Meu rogo triste, e teimoso;

Que estou num lugar, pondere,

Mesquinho, ainda que honroso,

E onde nada ha que espere:

Embebido em esperanças,

Fraco piloto põe peito

Ás ondas bravas, ou mansas;

E em campo sem parapeito

Espera o soldado as lanças

Não desejar, é baixeza;

Sempre o humano coração

Quer subir a mor alteza;

Esta universal paixão

É filha da natureza:

Se eu visse no fiel espelho

Já meu cabelo nevado;

Se fosse clérigo velho,

Que enxuga, à porta sentado,

O lenço sobre o joelho:

Teimoso gramaticão,

Que em longo chambre embrulhado,

Co’a douta pena na mão,

Dá à luz grosso tratado

Sobre as leis da conjunção:

Que arranca o cabelo hirsuto,

Lastimando a decadência

Do novo mundo corrupto,

Que quer negar a existência

Ao ablativo absoluto:

Se eu carregasse a memória

D’estas e outras ninharias,

De que estes tais fazem glória,

Vivera era paz os meus dias

Preso a uma palmatória:

Outros meus esp’ritos são;

E se de forcas sou falto,

Não o sou de coração;

Erguerei voo mais alto

Se vós me derdes a mão:

Senhor, eu tenho acabado;

Já da mão a pena cai;

Feliz se o meu verso ousado

For de vosso ilustre pai

Benignamente escutado:

Vós ambos não me estanheis

De meu verso a rima fria;

Por baixa não a enjeiteis,

Que nesta mesma poesia

Se tem escrevido a reis:

Não tenho sido o primeiro,

Que a grandes tais versos manda;

Neles com juízo inteiro

Escreveu Sá de Miranda

Ao bom rei Dom João Terceiro:

Não o imito na beleza.

De que ele os soube adornar;

Falta-me arte e natureza;

Mas pude dele imitar

A verdade e a singeleza.