MEMORIAL OFERECIDO A VISCONDE DE VILA-NOVA DA CERVEIRA, DEPOIS MARQUÊS DE PONTE-...

By Nicolau Tolentino de Almeida

Se não desprezais, senhor,

As valias que hoje levo,

Que são lágrimas e dor,

A suplicar-vos me atrevo

Queirais ser meu protetor.

Minhas suplicas não tem

Das leis o direito austero;

Apresentar-se hoje vem,

Não ao ministro severo,

Somente ao homem de bem:

Vão sobre o dó e a verdade

Meus singelos rogos feitos;

É meu juiz a piedade,

Vem fundados meus direitos

Sobre as leis da humanidade.

Sá de Miranda, em quem vi

Que de Jove as louras filhas

Abrigara junto a si,

E em (piem das doces quintilhas

Somente a rima aprendi;

Quis que um dia o seu bom rei

Perca com ele meia hora:

Menos tempo pedirei;

K alguns instantes agora

Comigo, senhor, perdei.

De mil trabalhos cortado,

E de longos anos cheio,

Pai tão velho, como honrado,

Pôr sobre os meus ombros veio

Da pobre casa o cuidado.

“Aceita, ó filho, me diz,

Este peso triste e honroso;

Já ao céu mil votos fiz,

Que possas ser tão ditoso.

Quanto eu fui sempre infeliz:

“Passei meus cansados dias

Sobre os mais filhos chorando;

Entretanto tu crescias;

Já de longe esperanças dando,

Que de pai lhes servirias:

“Na longa desgraça minha

Ternamente os abraçava; ’

Em doce paz os mantinha;

E muitas vezes lhes dava

Consolações, que eu não tinha:

“Filhos nascidos em dor,

Nascidos para infelizes,

Sou vosso pai só no amor;

Eu quis deixar-vos felizes.

Ninguém acertou pior:

“Mas d’esta dor importuna

Somente os fados culpai;

Quis ser a vossa coluna;

Intentá-lo é de bom pai,

Sê-lo, ou não, é da fortuna:

“Triste velhice e pobreza

Tiram-me a obra da mão;

Toma tu, ó filho, a empresa,

Toma a honrosa obrigação.

Que eu te ponho, e a natureza:

“Queira o céu que certas faças

As antigas esperanças

Do triste velho que abraças;

Que não deixa mais heranças

Que honra inútil e desgraças.”

A triste falia acabou,

Que nós em silencio ouvimos;

A todos nos abraçou,

Doces lágrimas lhe vimos,

Com que a natureza honrou.

Senhor, se a fiel pintura,

Com que a minha fraca mão

Esta cena vos figura.

Move em vosso coração

Sentimentos de ternura;

Animai o justo ardor.

Em que se acende o meu peito;

Fazei que eu possa, senhor,

Ser do paternal preceito

Um fiel executor.

Se eu dar cumprimento quis

A quanto o bom pai dispunha;

Se enfim, quanto pude, fiz,

Sede vós a testemunha,

Como fostes o juiz.

Moças irmãs desvalidas,

A quem dou pobre sustento,

Foram por vós deferidas;

Vivem em santo convênio

Dignamente recolhidas.

Pão com lágrimas ganhado

Lhe adoça a dura pobreza;

Por mim ao meio cortado

Que vai da singela mesa

Com sãos desejos mandado.

Quem tem riqueza infinita,

E faria aos seus os desejos,

Só de mau o nome evita;

Ninguém deve ter sobejos,

Enquanto há quem necessita;

Mas eu pobre e desgraçado,

Sou dos irmãos a coluna;

Sou infeliz, mas honrado;

Dom acima da fortuna.

Por isso o não tem levado.

Austera filosofia

Dentro de meu peito mora;

Sendo eu só, a seguiria;

Mas triste família chora

Pelo pão de cada dia.

De inúteis lágrimas cruas

Ver os sobrinhos banhar

As mimosas carnes nuas,

E ir somente misturar

Minhas lágrimas co’as suas:

Era dar rédea à impiedade.

Com que a desgraça os oprime;

Pelas leis da humanidade

Não está longe do crime

Uma ociosa piedade.

Dai-me vós, senhor, a mão,

E n’esta obra ajuntemos,

Vós poder, eu coração;

Uma família tiremos

De miséria e de aflição.

Nosso benfeitor sereis;

E matando crua fome.

De bom pai nos servireis;

De pai o sagrado nome

Na boca nos ouvireis;

Não usar palavras dobres,

Não ajudar com mão parca

Os desvalidos, e os pobres,

É, senhor, a honrosa marca

D’almas, como a vossa, nobres.

Mas onde as velas enfuno?

Talvez já tenho abusado

Do escasso tempo oportuno;

Fez-me a sorte desgraçado,

Mas não me faça importuno.

São magoas, vim repeti-las,

Possa a piedade escutá-las;

Gastareis, depois de ouvi-las,

Menos tempo em consolá-las,

Do que eu pus em referi-las.