MEMORIAL OFERECIDO A VISCONDE DE VILA-NOVA DA CERVEIRA, DEPOIS MARQUÊS DE PONTE-...
Se não desprezais, senhor,
As valias que hoje levo,
Que são lágrimas e dor,
A suplicar-vos me atrevo
Queirais ser meu protetor.
Minhas suplicas não tem
Das leis o direito austero;
Apresentar-se hoje vem,
Não ao ministro severo,
Somente ao homem de bem:
Vão sobre o dó e a verdade
Meus singelos rogos feitos;
É meu juiz a piedade,
Vem fundados meus direitos
Sobre as leis da humanidade.
Sá de Miranda, em quem vi
Que de Jove as louras filhas
Abrigara junto a si,
E em (piem das doces quintilhas
Somente a rima aprendi;
Quis que um dia o seu bom rei
Perca com ele meia hora:
Menos tempo pedirei;
K alguns instantes agora
Comigo, senhor, perdei.
De mil trabalhos cortado,
E de longos anos cheio,
Pai tão velho, como honrado,
Pôr sobre os meus ombros veio
Da pobre casa o cuidado.
“Aceita, ó filho, me diz,
Este peso triste e honroso;
Já ao céu mil votos fiz,
Que possas ser tão ditoso.
Quanto eu fui sempre infeliz:
“Passei meus cansados dias
Sobre os mais filhos chorando;
Entretanto tu crescias;
Já de longe esperanças dando,
Que de pai lhes servirias:
“Na longa desgraça minha
Ternamente os abraçava; ’
Em doce paz os mantinha;
E muitas vezes lhes dava
Consolações, que eu não tinha:
“Filhos nascidos em dor,
Nascidos para infelizes,
Sou vosso pai só no amor;
Eu quis deixar-vos felizes.
Ninguém acertou pior:
“Mas d’esta dor importuna
Somente os fados culpai;
Quis ser a vossa coluna;
Intentá-lo é de bom pai,
Sê-lo, ou não, é da fortuna:
“Triste velhice e pobreza
Tiram-me a obra da mão;
Toma tu, ó filho, a empresa,
Toma a honrosa obrigação.
Que eu te ponho, e a natureza:
“Queira o céu que certas faças
As antigas esperanças
Do triste velho que abraças;
Que não deixa mais heranças
Que honra inútil e desgraças.”
A triste falia acabou,
Que nós em silencio ouvimos;
A todos nos abraçou,
Doces lágrimas lhe vimos,
Com que a natureza honrou.
Senhor, se a fiel pintura,
Com que a minha fraca mão
Esta cena vos figura.
Move em vosso coração
Sentimentos de ternura;
Animai o justo ardor.
Em que se acende o meu peito;
Fazei que eu possa, senhor,
Ser do paternal preceito
Um fiel executor.
Se eu dar cumprimento quis
A quanto o bom pai dispunha;
Se enfim, quanto pude, fiz,
Sede vós a testemunha,
Como fostes o juiz.
Moças irmãs desvalidas,
A quem dou pobre sustento,
Foram por vós deferidas;
Vivem em santo convênio
Dignamente recolhidas.
Pão com lágrimas ganhado
Lhe adoça a dura pobreza;
Por mim ao meio cortado
Que vai da singela mesa
Com sãos desejos mandado.
Quem tem riqueza infinita,
E faria aos seus os desejos,
Só de mau o nome evita;
Ninguém deve ter sobejos,
Enquanto há quem necessita;
Mas eu pobre e desgraçado,
Sou dos irmãos a coluna;
Sou infeliz, mas honrado;
Dom acima da fortuna.
Por isso o não tem levado.
Austera filosofia
Dentro de meu peito mora;
Sendo eu só, a seguiria;
Mas triste família chora
Pelo pão de cada dia.
De inúteis lágrimas cruas
Ver os sobrinhos banhar
As mimosas carnes nuas,
E ir somente misturar
Minhas lágrimas co’as suas:
Era dar rédea à impiedade.
Com que a desgraça os oprime;
Pelas leis da humanidade
Não está longe do crime
Uma ociosa piedade.
Dai-me vós, senhor, a mão,
E n’esta obra ajuntemos,
Vós poder, eu coração;
Uma família tiremos
De miséria e de aflição.
Nosso benfeitor sereis;
E matando crua fome.
De bom pai nos servireis;
De pai o sagrado nome
Na boca nos ouvireis;
Não usar palavras dobres,
Não ajudar com mão parca
Os desvalidos, e os pobres,
É, senhor, a honrosa marca
D’almas, como a vossa, nobres.
Mas onde as velas enfuno?
Talvez já tenho abusado
Do escasso tempo oportuno;
Fez-me a sorte desgraçado,
Mas não me faça importuno.
São magoas, vim repeti-las,
Possa a piedade escutá-las;
Gastareis, depois de ouvi-las,
Menos tempo em consolá-las,
Do que eu pus em referi-las.