Mendigos

By João da Cruz e Sousa

Mendigos! Ah! são mendigos

Que voltam de vãos caminhos,

Que atravessaram perigos,

Urzes, pântanos, espinhos.

Que chegam desiludidos

Das portas a que bateram;

Humanos, grandes gemidos

Que nos tempos se perderam.

Que voltam como partiram,

Com mais amargor na volta

E mais sonhos que se abriram

Das estrelas na recolta.

Mendigos ricas no entanto,

Das pompas da natureza

E das auréolas do Encanto,

Os vinhos da sua mesa.

Mendigos que o sol, apenas,

Torna nababos felizes,

Torna um pouco mais serenas

As convulsas cicatrizes.

Mendigos que acham requinte

Na fumaça de um cachimbo,

Deixando que labirinte

O sonho em tão leve nimbo.

Mendigos da luz da aurora

Cantando celestemente,

Fresca, límpida, sonora,

Pelas fanfarras do Oriente.

Mendigos de áureas estradas,

De sonâmbulas veredas,

De riquezas encantadas,

Sem pedrarias e sedas.

Mendigos d’estranho aspecto

E sempiterna vigília,

Filhos nômades, sem teto,

De milenária Família.

Mendigos que erram eternos

Sem fadigas e sem sono,

Sob o augúrio dos Infernos,

Das Ilusões sobre o trono.

Mendigos de plaga nova,

De novas terras e mares,

Divinizados na cova

Como as hóstias nos altares.

Mendigos da grande esmola

Da luz das estrelas nobres,

Que fulge e dos altos rola,

Entre as suas mãos tão pobres!

Mendigos de céus remotos,

De sóis dos mais velhos ouros;

Com a sua fé e os seus votos

E os seus secretos tesouros.

Mendigos de olhar severo,

Boca murcha, meio amarga...

Tendo um vago reverbero

De sonhos na fronte larga.

Mendigos de ínvias florestas

E de bosques fabulosos,

De melancólicas sestas

Nos crepúsculos brumosos.

Mendigos da Eternidade,

Tremendo dos sóis, dos frios,

Nas mortalhas da Saudade

Amortalhados sombrios.

Mendigos dos Infinitos,

Das Esferas inefáveis,

Noctambulando malditos

Nos rumos imponderáveis.

Mendigos de fome e sede

De água e pão de outros mundos,

Embalados pela rede

Dos Idealismos profundos.

Mendigos do azul Mistério,

Cuja alma — nívea sereia —

Fica saciada no aéreo

Pão branco da lua cheia!