Meu retrato

By Delminda Silveira de Sousa

Meu retrato é a violeta

no ermo vale pendida,

como a virge’entristecida

a duro martírio afeita.

Quando a vires no vergel

das outras flores em meio,

colhe-a, guarda-a no teu seio,

que é meu retrato fiel.

Meu retrato é a rola meiga

gemendo na selva umbrosa;

é a brisa suspirosa

passando triste na veiga.

Quando ouvires seus gemidos

nas brenhas da solidão,

escuta os ais doloridos

de meu triste coração.

Meu retrato é a saudade

de puro rocio banhada,

meiga flor desabrochada

à luz serena da tarde.

Quando a vires, meiga e pura,

curvada a face mimosa,

lembra alguém que suspirosa

curva a fronte de amargura.

Meu retrato é a lua triste

vagando no azul sem fim;

singelo, branco jasmim

que ao vendaval não resiste.

Contempla a lua serena

afaga o branco jasmim

pois que pálidas assim

são a imagem de quem pena.

E no teu peito, mais vivo,

se me amas com ardor,

tu verás, ó meu amor,

o meu retrato cativo!