MILAGRE
Em meu batel de velas cor de arminho
E flâmulas de seda do Levante,
Eu me perdi no pélago marinho,
Numa sinistra noite fuzilante.
No plúmbeo espaço, onde o trovão rugia,
Cobrejavam relâmpagos trementes,
E, abrindo a guela, o fero mar bramia,
Dos escolhos mostrando os sérreos dentes.
Asas pandas, em trépido balouço,
O meu batel pairava, solto e leve,
Sobre a espúmea ondulância do marouço,
Como um gigânteo pássaro de neve.
Então eu quis, semianime de susto,
Chamar a Virgem, mãe do Lírio loiro,
E murmurei teu nome doce e augusto,
Que é o sacro harpejo de uma lira d’oiro...
Nisto — oh! milagre! — emudeceu o vento,
Afastara-se as ondas marulhosas,
E flamejou escampo o firmamento
Num incêndio de pedras preciosas!