MILAGRE

By Gustavo de Paula Teixeira

Em meu batel de velas cor de arminho

E flâmulas de seda do Levante,

Eu me perdi no pélago marinho,

Numa sinistra noite fuzilante.

No plúmbeo espaço, onde o trovão rugia,

Cobrejavam relâmpagos trementes,

E, abrindo a guela, o fero mar bramia,

Dos escolhos mostrando os sérreos dentes.

Asas pandas, em trépido balouço,

O meu batel pairava, solto e leve,

Sobre a espúmea ondulância do marouço,

Como um gigânteo pássaro de neve.

Então eu quis, semianime de susto,

Chamar a Virgem, mãe do Lírio loiro,

E murmurei teu nome doce e augusto,

Que é o sacro harpejo de uma lira d’oiro...

Nisto — oh! milagre! — emudeceu o vento,

Afastara-se as ondas marulhosas,

E flamejou escampo o firmamento

Num incêndio de pedras preciosas!