MINHA PROFISSÃO

By José Joaquim Correia de Almeida

A fortuna caprichosa

Conspirou-se contra mim;

Sentei-me por meus pecados,

Na cadeira de latim.

Engenhos de transcendência,

Talentos aquilatados,

Neste museu de rapazes

São por mim apreciados.

Aquele moço de tino

Liga bem duas ideias;

Supõe que Dido era macho,

Que era fêmea o pio Eneias.

Que de cólicas não faz

Ouvir um pobre pascácio

Dizer falsos testemunhos

Contra Ovídio e contra Horácio!

Em ode, que chamam, sáfica

Diz o vate que a cidade

Temeu que se renovasse

Do dilúvio a c’lamidade,

Quando Proteu multiforme

Os escamosos rebanhos

Apascentou nos cabeços

Desses oiteiros camanhos;

Quando os peixes foram ter

Aos elevados raminhos,

Habitação conhecida

Somente dos passarinhos.

Pergunta o lente ao discípulo

A razão por que galgaram

As montanhas, e nas árvores

Guelrosos peixes tocaram.

Foi porque, meu padre-mestre,

Morreu de velho o seguro:

Recearam afogar-se,

Segundo bem conjecturo.