MORALIZA O POETA OUTRA VEZ A SUA DECLINAÇÃO PELO SEU LUZIMENTO NO AMORTECIDO DESMAYO DE HUMA POMPOSA FLOR.
De que serviu tão florida,
caduca flor, vossa Sorte,
se havia da própria morte
ser ensaio a vossa vida?
quanto melhor advertida
andáveis em não nascer,
que se a vida houvera ser
instrumento de acabar,
em deixares de brilhar,
deixaríeis de morrer.
Enquanto presa vos vistes
no botão, onde morastes,
bem que a vida não lograstes,
de esperança vos vestistes:
mas depois que, flor, abristes,
tão depressa fenecestes,
que quase a presumir destes
(se se pode presumir)
que para a morte sentir,
somente viver quisestes.
Fazendo da pompa alarde
abre a Rosa mais louçã,
e o que é gala na manhã,
em luto se torna à tarde:
pois se a dita mais cobarde,
se a mais frágil duração
renascestes, porque não
terei de crer fundamento,
que foi vosso luzimento
da vossa sombra ocasião.
E pois acabais florida,
bem se vê, flor desditosa,
que a não seres tão formosa,
não fôreis tão abatida:
desgraçada por luzida,
ofendida por louçã
mostrais bem na pompa vã
as mãos do tempo cobarde,
que fenecestes à tarde,
por luzires na manhã.
Assim pois quando contemplo
vossa vida, e vossa morte,
em vós, flor, da minha sorte
encontro o mais vivo exemplo:
subi da fortuna ao templo,
mas apenas subi digno,
quando me mostra o destino,
que, a quem não é venturoso,
o chegar a ser ditoso
é degrau de ser mofino.