MORALIZA O POETA OUTRA VEZ A SUA DECLINAÇÃO PELO SEU LUZIMENTO NO AMORTECIDO DESMAYO DE HUMA POMPOSA FLOR.

By Gregório de Matos Guerra

De que serviu tão florida,

caduca flor, vossa Sorte,

se havia da própria morte

ser ensaio a vossa vida?

quanto melhor advertida

andáveis em não nascer,

que se a vida houvera ser

instrumento de acabar,

em deixares de brilhar,

deixaríeis de morrer.

Enquanto presa vos vistes

no botão, onde morastes,

bem que a vida não lograstes,

de esperança vos vestistes:

mas depois que, flor, abristes,

tão depressa fenecestes,

que quase a presumir destes

(se se pode presumir)

que para a morte sentir,

somente viver quisestes.

Fazendo da pompa alarde

abre a Rosa mais louçã,

e o que é gala na manhã,

em luto se torna à tarde:

pois se a dita mais cobarde,

se a mais frágil duração

renascestes, porque não

terei de crer fundamento,

que foi vosso luzimento

da vossa sombra ocasião.

E pois acabais florida,

bem se vê, flor desditosa,

que a não seres tão formosa,

não fôreis tão abatida:

desgraçada por luzida,

ofendida por louçã

mostrais bem na pompa vã

as mãos do tempo cobarde,

que fenecestes à tarde,

por luzires na manhã.

Assim pois quando contemplo

vossa vida, e vossa morte,

em vós, flor, da minha sorte

encontro o mais vivo exemplo:

subi da fortuna ao templo,

mas apenas subi digno,

quando me mostra o destino,

que, a quem não é venturoso,

o chegar a ser ditoso

é degrau de ser mofino.