Morte
Não conheci a pura infância dele;
Mas, conheci-lhe a mocidade, embora
A mocidade franca e leal daquele
Que não me escuta agora!
Muitas e muitas vezes
Por céus tranquilos de raiados meses,
Em Maio, por exemplo,
Íamos nós, vibrantes, como o dia,
Dos siderais turíbulos de prata
Da floresta — esse templo,
Ver exalar-se em nítida cascata
O aroma, como um fluido de harmonia.
Sentados junto ao rio
Quase sempre vizinho do oceano,
Nós víamos passar a todo o pano,
Através de floresta, algum navio.
E as ondas que na praia dialogavam
E o rio, numa branca eflorescência,
Pareciam dizer o que pensavem
Os nossos corações sobre a existência!
Falávamos então de muitas cousas,
De náufragos na vaga rude e triste,
Da virgindade em flor por sob as louças,
De tudo o quanto neste mundo existe...
Falávamos de artistas,
De livros e de espíritos gloriosos;
Ele adorava os poetas luminosos,
Tinha nevroses pelos realistas.
E que atestem tudo isto
Os pássaros ruidosos, barulhentos,
Que como um turbilhão de pensamentos,
Num rumor imprevisto,
Ruflando as asas pandas
Vinham, quem sabe de onde, de que bandas,
Pousando nas ramagens,
Ouvir o som estrídulo e ardente
Das nossas impolutas homenagens
Aposteosando os homens do presente!
Que asseverem as aves
Que nos cascateavam na cabeça,
Dentre a floresta espessa,
Os trinados melódicos, suaves.
Talvez que algum pedaço
De uma passada e tímida ventura
Que elas soubessem bem, traço por traço,
E ali viessem, de garganta pura
Cantar, cantar, na verde imensidade,
Como terna balada de saudade.