Morte

By João da Cruz e Sousa

Não conheci a pura infância dele;

Mas, conheci-lhe a mocidade, embora

A mocidade franca e leal daquele

Que não me escuta agora!

Muitas e muitas vezes

Por céus tranquilos de raiados meses,

Em Maio, por exemplo,

Íamos nós, vibrantes, como o dia,

Dos siderais turíbulos de prata

Da floresta — esse templo,

Ver exalar-se em nítida cascata

O aroma, como um fluido de harmonia.

Sentados junto ao rio

Quase sempre vizinho do oceano,

Nós víamos passar a todo o pano,

Através de floresta, algum navio.

E as ondas que na praia dialogavam

E o rio, numa branca eflorescência,

Pareciam dizer o que pensavem

Os nossos corações sobre a existência!

Falávamos então de muitas cousas,

De náufragos na vaga rude e triste,

Da virgindade em flor por sob as louças,

De tudo o quanto neste mundo existe...

Falávamos de artistas,

De livros e de espíritos gloriosos;

Ele adorava os poetas luminosos,

Tinha nevroses pelos realistas.

E que atestem tudo isto

Os pássaros ruidosos, barulhentos,

Que como um turbilhão de pensamentos,

Num rumor imprevisto,

Ruflando as asas pandas

Vinham, quem sabe de onde, de que bandas,

Pousando nas ramagens,

Ouvir o som estrídulo e ardente

Das nossas impolutas homenagens

Aposteosando os homens do presente!

Que asseverem as aves

Que nos cascateavam na cabeça,

Dentre a floresta espessa,

Os trinados melódicos, suaves.

Talvez que algum pedaço

De uma passada e tímida ventura

Que elas soubessem bem, traço por traço,

E ali viessem, de garganta pura

Cantar, cantar, na verde imensidade,

Como terna balada de saudade.