MORTO O CABRA LHE FAZ O POETA O TESTAMENTO NA MANEYRA SEGUINTE.

By Gregório de Matos Guerra

Eu Pedro Cabra da Índia,

que me sinto morrer já

de uma doença, que Deus

foi servido de me dar:

Não sabendo a hora certa,

em que Deus me levará,

se é possível, que Deus leve

um feiticeiro infernal:

Posto à gineta na cama

se é cama uma cama tal

feita de tábua, e tabua

uma dura, outra molar:

Em meu perfeito juízo,

que Deus me deu tal, ou qual

faço este meu testamento

solene de se contar.

Primeiramente declaro,

que sou Cabra oriental

filho da Igreja Romana

por cerimônia não mais.

Creio na Trindade Santa,

porém creio muito mais

na trindade das Mulatas

de Dona Marta Sobral:

Nas quais espero salvar-me

principalmente na Irmã

mais velha, que chamam Quita,

que é jangada universal.

Deixo muito encomendado

ao Vigário do lugar,

que não me enterre em sagrado,

que interdito ficará.

Não porque vá excomungado

por bula alguma papal,

pois sempre vivi faminto

de papas, e cardeais.

Não mais quero, que me enterrem

na Igreja paroquial,

porque fico muito perto

da quatrinca cavalar.

E temo, que à meia-noite

me venham desenterrar

este miserável corpo

com unhas, e com queixais.

Este miserável corpo,

que sendo tão natural,

querem, que seja feitiço,

e feitiço há de ficar.

Com que uma, e mil vezes peço

ao Cura, que é tão sagaz,

pois hão de fazê-lo em caldos,

que o mande lançar ao mar.

Lá o comam caranguejos,

que ver será menos mal

um homem nos caranguejos,

que os homens caranguejar.

E se enfeitiçar os peixes,

comendo o meu rosalgar,

com peixes enfeitiçados

que mal às Quitas irá.

Ao primeiro piscar de olho

os mandará Quita entrar,

e o que não deitar consigo

ao menos o escamará.

A casa se verá farta,

e de sorte abundará,

que descanse a Cajaíba,

e as negras de mariscar.

Irá crescendo nas honras

Mandu caraça, que já

se jacta de ter cunhado

tão fidalgo, e tão galã.

Porque me dizem, que diz,

muito devo à minha Irmã,

que se dorme cum fidalgo

só por mais me autorizar.

Não serei vil pescador,

ninguém me verá jamais

sobre a proa em ceroulinhas

desonrando tais Irmãs.

Mil honras devo a Marana,

que se veio amancebar

no segundo ano de puta

cum fidalgo principal.

Outro tanto devo a Quita,

que lhe soube aconselhar,

ensinando-lhe os maneios,

de que é mestra, e capataz.

E a boa da rapariga

(muito pode o natural)

sendo um ranho, uma criança

saiu puta singular.

Tal conta se tem consigo

que sabe as noites contar,

em que lhe falta a ração,

e um pleito por ela faz.

Mete lhe a mão na barguilha

ao mano, que dorme já,

e quer queira, quer não queira,

a tamina há de pagar.

Sobre isto há muita galhofa,

que (bendito Deus) tem já,

Marana tanta gracinha,

que aos mortos enfadará.

Mas tornando ao testamento,

que me importa já acabar,

porque anda a morte de ronda

com mil demônios atrás:

Quero herdeiro instituir,

pois sei, que não valerá

sem instituição de herdeiro,

conforme o Maranta o traz.

Instituo a Quita enfim

por herdeiro universal

dos móveis e das raízes,

que ganhei com Satanás.

O meu cabaço das ervas

cumbuca de carimá,

a tigela dos angus,

o tacho de aferventar.

O surrão de pele d’Onça,

que tudo cheio achará

de cousas mil importantes

para ventura ganhar.

O braço de um enforcado,

dous dentes, quatro queixais,

buço de Lobo marinho,

sangue de Pomba trocás:

Um olho de galo preto,

cabo de touro negral,

as enxúndias da raposa,

a caquinha de um rapaz,

Mijo de velha roupeira,

ramela do lagrimal

de Negro torto, e cambaio,

Tinharós, e Mangará.

Que tudo isso val um Reino,

se o souber aferventar

nas noites de São João

por adros, e por quintais:

Na forma, que lhe ensinei,

quando me vinha chupar

a pica todas as noites,

té que vinha arrebentar.

Quando a pica me chupava,

e Antonica por detrás

nos companheiros pegava

para o cano endireitar,

Marana se punha a rir,

mas tratava de ajudar

a Antonica, se cansava

co peso dos dous quintais.

E quando entrava Isabel,

como sentia cheirar

o fervedouro das ervas,

que no fogareiro está:

como é gulosa de tudo,

quanto aos outros vê mascar,

lhe dava com seu remoque,

que belo, e que lindo está.

Como embruxado acabei,

chupado pelo canal,

sendo um cabra tão mirrado,

que não tinha, que chupar.

Mas eu lhe perdôo a Quita,

porque me quero salvar,

e porque como aprendia,

chupava, que chuparás.

A minha benção lhe deixo,

e a encomenda a Barrabás,

que a tenha na sua graça

para seu gozo alcançar.

Com isso tenho acabado

meu testamento, e me apraz,

que mo cumpra inteiramente

minha herdeira universal.