MORTO O CABRA LHE FAZ O POETA O TESTAMENTO NA MANEYRA SEGUINTE.
Eu Pedro Cabra da Índia,
que me sinto morrer já
de uma doença, que Deus
foi servido de me dar:
Não sabendo a hora certa,
em que Deus me levará,
se é possível, que Deus leve
um feiticeiro infernal:
Posto à gineta na cama
se é cama uma cama tal
feita de tábua, e tabua
uma dura, outra molar:
Em meu perfeito juízo,
que Deus me deu tal, ou qual
faço este meu testamento
solene de se contar.
Primeiramente declaro,
que sou Cabra oriental
filho da Igreja Romana
por cerimônia não mais.
Creio na Trindade Santa,
porém creio muito mais
na trindade das Mulatas
de Dona Marta Sobral:
Nas quais espero salvar-me
principalmente na Irmã
mais velha, que chamam Quita,
que é jangada universal.
Deixo muito encomendado
ao Vigário do lugar,
que não me enterre em sagrado,
que interdito ficará.
Não porque vá excomungado
por bula alguma papal,
pois sempre vivi faminto
de papas, e cardeais.
Não mais quero, que me enterrem
na Igreja paroquial,
porque fico muito perto
da quatrinca cavalar.
E temo, que à meia-noite
me venham desenterrar
este miserável corpo
com unhas, e com queixais.
Este miserável corpo,
que sendo tão natural,
querem, que seja feitiço,
e feitiço há de ficar.
Com que uma, e mil vezes peço
ao Cura, que é tão sagaz,
pois hão de fazê-lo em caldos,
que o mande lançar ao mar.
Lá o comam caranguejos,
que ver será menos mal
um homem nos caranguejos,
que os homens caranguejar.
E se enfeitiçar os peixes,
comendo o meu rosalgar,
com peixes enfeitiçados
que mal às Quitas irá.
Ao primeiro piscar de olho
os mandará Quita entrar,
e o que não deitar consigo
ao menos o escamará.
A casa se verá farta,
e de sorte abundará,
que descanse a Cajaíba,
e as negras de mariscar.
Irá crescendo nas honras
Mandu caraça, que já
se jacta de ter cunhado
tão fidalgo, e tão galã.
Porque me dizem, que diz,
muito devo à minha Irmã,
que se dorme cum fidalgo
só por mais me autorizar.
Não serei vil pescador,
ninguém me verá jamais
sobre a proa em ceroulinhas
desonrando tais Irmãs.
Mil honras devo a Marana,
que se veio amancebar
no segundo ano de puta
cum fidalgo principal.
Outro tanto devo a Quita,
que lhe soube aconselhar,
ensinando-lhe os maneios,
de que é mestra, e capataz.
E a boa da rapariga
(muito pode o natural)
sendo um ranho, uma criança
saiu puta singular.
Tal conta se tem consigo
que sabe as noites contar,
em que lhe falta a ração,
e um pleito por ela faz.
Mete lhe a mão na barguilha
ao mano, que dorme já,
e quer queira, quer não queira,
a tamina há de pagar.
Sobre isto há muita galhofa,
que (bendito Deus) tem já,
Marana tanta gracinha,
que aos mortos enfadará.
Mas tornando ao testamento,
que me importa já acabar,
porque anda a morte de ronda
com mil demônios atrás:
Quero herdeiro instituir,
pois sei, que não valerá
sem instituição de herdeiro,
conforme o Maranta o traz.
Instituo a Quita enfim
por herdeiro universal
dos móveis e das raízes,
que ganhei com Satanás.
O meu cabaço das ervas
cumbuca de carimá,
a tigela dos angus,
o tacho de aferventar.
O surrão de pele d’Onça,
que tudo cheio achará
de cousas mil importantes
para ventura ganhar.
O braço de um enforcado,
dous dentes, quatro queixais,
buço de Lobo marinho,
sangue de Pomba trocás:
Um olho de galo preto,
cabo de touro negral,
as enxúndias da raposa,
a caquinha de um rapaz,
Mijo de velha roupeira,
ramela do lagrimal
de Negro torto, e cambaio,
Tinharós, e Mangará.
Que tudo isso val um Reino,
se o souber aferventar
nas noites de São João
por adros, e por quintais:
Na forma, que lhe ensinei,
quando me vinha chupar
a pica todas as noites,
té que vinha arrebentar.
Quando a pica me chupava,
e Antonica por detrás
nos companheiros pegava
para o cano endireitar,
Marana se punha a rir,
mas tratava de ajudar
a Antonica, se cansava
co peso dos dous quintais.
E quando entrava Isabel,
como sentia cheirar
o fervedouro das ervas,
que no fogareiro está:
como é gulosa de tudo,
quanto aos outros vê mascar,
lhe dava com seu remoque,
que belo, e que lindo está.
Como embruxado acabei,
chupado pelo canal,
sendo um cabra tão mirrado,
que não tinha, que chupar.
Mas eu lhe perdôo a Quita,
porque me quero salvar,
e porque como aprendia,
chupava, que chuparás.
A minha benção lhe deixo,
e a encomenda a Barrabás,
que a tenha na sua graça
para seu gozo alcançar.
Com isso tenho acabado
meu testamento, e me apraz,
que mo cumpra inteiramente
minha herdeira universal.