MULATA LIVRE E TRAVESSA POR CUJA ESPERTEZA LHE CHAMAVAM MARIBONDA. MORAVA NA RUA...

By Gregório de Matos Guerra

Fui hoje ao campo da Palma,

onde com súbito estrondo

me investiu um maribondo,

que me picou dentro n’alma:

era já passada a calma,

e eu me sentia encalmado,

sentido, e injuriado,

porque sendo obrigação

meter-lhe eu o meu ferrão,

eu fui, o que vim picado.

Fiz por fechá-lo na mão,

mas o Maribondo azedo

me picava em qualquer dedo,

e escapava por então:

desesperada função

foi esta, pois me foi pondo

tão abolhado em redondo

por cara, peitos, vazios,

que estou em febres, e frios

morrendo do Maribondo.

Dizem, que a vingança está

em lhe saber eu da casa,

porque deixando-lhe em brasa,

o fogo mitigará:

temo que não arderá

por mais que toda uma mata

lhe aplique com mão ingrata,

porque eu, o que lhe hei de pôr

há de ser fogo de amor,

que inda que abrasa não mata.

Nesta aflição tão penosa

donde me virá socorro?

morrerei, que o por que morro,

faz uma morte formosa:

esta dor tão temerosa

me livrará de maneira,

que ou ela queira, ou não queira,

em chegando à sua rua,

se acaso se mostrar crua,

tudo irá numa poeira.