Na ermida da crença

By Juvêncio de Araújo Figueredo

Da ermida onde nós oramos

Os horizontes fitamos...

A ermida da nossa crença

Está numa altura imensa.

É-lhe a fé toda a argamassa;

E nas torres se entrelaça,

Como um Arco de Aliança,

A bandeira da Esperança,

Desfraldada aos quatro ventos

Dos nossos padecimentos,

Para que eles se transformem

Em alegrias, e formem

O halo das nossas frontes,

Pela luz dos horizontes...

Da ermida onde nós oramos

Os horizontes fitamos;

E nas suas lindas cores

Bendizemos nossas dores.

Nossas lágrimas, choradas

Pelas mais negras estradas.

Nossos clamores convulsos,

E os elos dos nossos pulsos.

Nossos olhos apagados;

Nossos ouvidos fechados;

E os nossos próprios cabelos

No polvo dos pesadelos;

Nossa boca no vinagre;

E nossas faces no ozagre.

Nossas linhas do pescoço

Na algema de um calabouço.

Nossos corações pulsando

Em mágoas, de quando em quando;

Nossos frágeis, flébeis braços

Estendidos aos espaços.

Nossos rins sem energias;

Nossas pernas doentias.

Nossos pés todos feridos

Nos cascalhos esquecidos

No chão dos ínvios caminhos

Atapetados de espinhos.

Mas, da ermida onde oramos,

Os horizontes fitamos;

E, unidas, nossas almas

Como veem floridas palmas

Nesses largos horizontes

Que dão halo às nossas frontes

Para que um dia possamos,

Sim, nós dois que nos amamos,

Subir, ao clarão de um dia,

Aos pés da Virgem Maria,

E receber os afagos

Dos seus lindos olhos magos,

E pedir-lhe, eternamente,

Com sentimento profundo,

Não se esquecer dessa gente

Que anda sem crença no mundo.