Na fonte

By João da Cruz e Sousa

Bem ao lado da gruta a fonte corre

Trepidamente, as águas encrespando,

Em murmúrios crebos, levantando

Uns chamalotes prateados — morre

No monte o sol que a luz no oceano escorre

E ainda eu vejo, as sombras afrontando,

Uma mulher que lava, mesmo quando

O sol mais rubro, mais vermelho jorre.

— É num sítio afastado, um sítio ermo...

Pássaros cortam vastidões sem termo,

Borboletas azuis roçam nas águas.

— E a mulher lava, enrubescida a face;

Lava, cantando, como se lavasse

As suas tristes e profundas mágoas.