Na mesma cova
Ainda guardo em memória
Uma pequena história
Que minha mãe contou, ao serão, numa noite
Em que o vento sul era um contínuo açoite
No telhado do engenho onde se farinhava
No frio mês de julho,
Ao trêmulo barulho
Da almanjarra a rodar, e o fogo no forno,
Em torno
De pedaços de mangue.
A minha mãe contou:
“Havia nesta aldeia um velho, o Constantino,
De cem anos talvez,
Embora de tez langue,
Possuía a lucidez
De um menino...
Entretanto ninguém dele se avizinhava
Porque a sua usura era descomunal:
Não queria ninguém junto à sua morada,
Nem mesmo consentia
As aves lhe pousar na cerca do quintal;
E lhes armava sempre uma grande esparrela,
Na qual, durante o dia,
Descuidoso caía
Um chupim,
Que lhe dava, ao jantar, um suculento prato,
Com farinha de aipim.
Coração sempre ingrato.
Se lhe pedia um pobre um mísero vintém,
Ei-lo a mandá-lo andar, e a pedir noutra porta.
Ignorava, portanto, as primícias do Bem,
Que começa na luz que o sol no azul recorta.
E para acumular mais moedas de prata,
Nem perdia da lua o pálido esplendor;
E junto da cascata
Que além formava um rio,
Ei-lo no rude afã,
Trabalhando de enxada
Até de madrugada,
Até surgir no morro a estrela da manhã.
Certo dia, porém, encontraram-no frio
Sobre a curva de um rio...
E o Constantino
Lá se foi, pela tarde, a fora, à voz do sino
Da ermida do lugar, conduzido, num carro
De bois, até à cova entalhada no barro
De um cemitério triste, à sombra de ciprestes.
Eram-lhe as vestes
Uns trapos, na miséria a mais original;
E o seu caixão
Era tão negro, igual
A uma montoeira de carvão.
E da prata do Constantino
Ninguém soube o destino.
Mas passados uns anos, toda a gente
Começou a dizer que na casa em ruínas
Que ele havia deixado aos ratos e às aranhas,
À noite, sob a gaze das neblinas,
Uma luz se mostrava; e umas coisas estranhas
Faziam, nessa casa, um barulho estridente.
Como ainda revejo na memória
Essa pequena história,
Que minha mãe contou, ao serão, nessa noite
Em que o vento sul era um contínuo açoite
No telhado do engenho, O meu maior empenho
É orar... orar...
Pelo Constantino
Que ainda não saiu de cima do lugar
Onde se acha escondido
O seu tesouro, adquirido
Com tanto desatino,
À luz do sol, à luz do luar, à luz dos astros...
E dos barcos que vêm, com flâmulas nos mastros
Fazer a guarda nesse rio,
A maruja lhe escuta o rude murmúrio,
Nas suas águas vendo a velada figura
Do Constantino a olhar a sua própria usura.
Ah! Virgem Senhora da Conceição,
Aonde está a miséria
Deletéria,
Aí, na mesma cova, está o coração!