NA OCASIÃO EM QUE O AUTOR IA VER O VARATOJO

By Nicolau Tolentino de Almeida

Meu amigo, duro amigo,

Fatal, rígido banqueiro,

Motivo dos meus pesares,

Herdeiro do meu dinheiro;

Em tais termos me deixaste,

Que sou deste rancho o nojo,

E co’as lágrimas nos olhos

Pai’ to para o Varatojo;

Por ti filho da pobreza.

Irei ser naquele mato,

Qual foi São Sebastião,

Não na vida, mas no fato;

Vai tu seguindo a fortuna,

E leva a bandeira alçada,

De tarde na laranjinha,

A noite na arrenegada;

Até que voltando a roda.

Mando, teu fado inimigo,

Que deixes crescer as barbas,

Ê venhas viver comigo:

Vem, e traze o teu baralho,

Ministro dos meus destroços;

Farei do vicio virtude,

Apontando a Padres-nossos;

Vem viver entre alias brenhas;

Vem curtir as minhas dores;

Traze o pranto dos parentes,

Traze as pragas dos credores.

Não, falia vão agoureiro,

De cujas palavras rias;

Meus trabalhos me fizeram

Mestre n’estas profecias.

Não te fies em ventura;

Quem joga, tem o meu fim;

Outrem te dará os gostos,

Que tu me tens dado a mim.