Na primavera

By Delminda Silveira de Sousa

Tempo das flores, tempo dos ninhos,

vestem os prados mais lindas cores,

vagam perfumes pelos caminhos,

— tempo das flores!

De madrugada, a campesina

lá vai cantando pela orvalhada

que enche de perlas toda a campina

— de madrugada.

Junto da fonte abrem-se rosas,

verdes palmeiras cobrem o monte,

as avezinhas cantam saudosas

— junto da fonte.

Murmúrios ternos d’águas correntes,

doces carícias, beijos maternos

das mansas rolas, meigas, gementes,

— murmúrios ternos...

Pausam nas flores loucas abelhas,

o mel buscando dentre verdores,

e as borboletas lindas, vermelhas

— pousam nas flores.

Amor brincando pelos silvados,

pelas campinas amor voando,

por entre os lírios desabrochados

— amor brincando...

Gratos aromas na selva esparzem

flores agrestes das verdes comas

e as mansas brisas da selva trazem

— gratos aromas.

Se passa a aragem pelos caminhos

beijando a verde flórea ramagem,

pétalas de flores enchem os ninhos

— se passa a aragem.

Por entre os ramos dos pessegueiros

fogem canários e gaturamos,

além cantando dos cajazeiros

— por entre os ramos.

À doce hora d’Ave-Maria

a camponesa à Virgem implora

na meiga prece que aos Céus envia

— à doce hora.

Terna saudade, — mágoa de amores,

o brando peito pungente invade

da meiga rola, — fonte de dores

— terna saudade!

Amor suspira pelos silvedos,

e amor soluça na doce lira,

e à grata sombra dos arvoredos

— amor suspira!

Tempo de amores! Oh! Primavera!

Tempo de ninhos, tempo das flores;

que não findasses, oh! quem me dera,

— tempo de amores!...