Na primavera
Tempo das flores, tempo dos ninhos,
vestem os prados mais lindas cores,
vagam perfumes pelos caminhos,
— tempo das flores!
De madrugada, a campesina
lá vai cantando pela orvalhada
que enche de perlas toda a campina
— de madrugada.
Junto da fonte abrem-se rosas,
verdes palmeiras cobrem o monte,
as avezinhas cantam saudosas
— junto da fonte.
Murmúrios ternos d’águas correntes,
doces carícias, beijos maternos
das mansas rolas, meigas, gementes,
— murmúrios ternos...
Pausam nas flores loucas abelhas,
o mel buscando dentre verdores,
e as borboletas lindas, vermelhas
— pousam nas flores.
Amor brincando pelos silvados,
pelas campinas amor voando,
por entre os lírios desabrochados
— amor brincando...
Gratos aromas na selva esparzem
flores agrestes das verdes comas
e as mansas brisas da selva trazem
— gratos aromas.
Se passa a aragem pelos caminhos
beijando a verde flórea ramagem,
pétalas de flores enchem os ninhos
— se passa a aragem.
Por entre os ramos dos pessegueiros
fogem canários e gaturamos,
além cantando dos cajazeiros
— por entre os ramos.
À doce hora d’Ave-Maria
a camponesa à Virgem implora
na meiga prece que aos Céus envia
— à doce hora.
Terna saudade, — mágoa de amores,
o brando peito pungente invade
da meiga rola, — fonte de dores
— terna saudade!
Amor suspira pelos silvedos,
e amor soluça na doce lira,
e à grata sombra dos arvoredos
— amor suspira!
Tempo de amores! Oh! Primavera!
Tempo de ninhos, tempo das flores;
que não findasses, oh! quem me dera,
— tempo de amores!...