Na vila

By João da Cruz e Sousa

Nos ervaçais vibrou o sol agora,

Nas fitas verdes dos canaviais...

Como rompesse loura e fresca a aurora

Agora o sol vibrou nos ervaçais.

Murmurejam de alegres os caminhos

Que até parecem, límpidos, cantar

Na música melódica dos ninhos

Que vai nos ares se cristalizar.

Floresce tudo, em toda parte flores

Neste maio feliz, e tão feliz

Que as plantas exuberam de vigores

Desde a profunda, pródiga raiz.

Noivam as aves junto dos riachos

No seu alado alvorecer de amor;

E o coqueiral, com os amarelos cachos,

Pompeia de riquíssimo verdor.

Fluem na sombra meigas fontes claras

Sob o frondente e vasto laranjal

E para além magníficas searas

Se estendem como um leito virginal.

Na serena paz vegetativa

Faz docemente tudo adormecer

Mas num sono de luz doirada e viva,

Quase a dormência de quem vai morrer...

Ah! que o silêncio, a solidão dos ermos,

Das agrestes paragens do sertão

Se dão saúdes a espíritos enfermos

Também supremas nostalgias dão!

A volúpia letal do meio-dia,

Nas horas encalmadas, sob a luz,

Dá duma campa a atroz melancolia

Assinalada numa simples cruz.

Depois o campo na mudez da vila,

Aquela eterna e soberana paz

Da imensa vastidão sempre tranquila

Como que punge e que entristece mais!