NAMORA-SE DE OUTRA CHAMADA BELETA, OU IZABEL, A QUEM FAZ O SEGUINTE.

By Gregório de Matos Guerra

Desde que, Isabel, te vi

tal fiqvei, qve desde então

em mim se verá quem não

sabe já parte de si.

Jactou-se o meu alvedrio

de nascer com isenção

contra a dura escravidão

de Amor, e seu Senhorio:

como neste altivo brio

vivo, desde que nasci,

agora que me rendi,

confessa com suma dor,

que é já vassalo de Amor,

Desde que, Isabel, te vi.

E como não sei contar-te,

nem posso formar conceito

qual foi primeiro em meu peito

se o ver-te, se o adorar-te,

e sei, que de ver-te, e amar-te

foi tudo uma ocasião,

por resolver a questão

de quando entrei a querer-te,

digo, que ao tempo de ver-te

Tal fiquei, que desde então.

Tal fiquei, e tão absorto,

Quando vi tua beleza,

que a minha menor fineza

é amar, a quem me tem morto:

e como a viver me exorto

só por lograr a ocasião

de pensar meu coração,

tendo-se visto, quem já

por não penar morrerá,

em mim se verá, quem não.

Em mim se verá cumprida

a mor afeição de sorte,

que porque dure até à morte,

por padecer guarde a vida:

afeição jamais ouvida,

amor não visto até aqui

ficará, Isabel, de ti,

mas como enfim to diria,

quem por nenhum modo, ou via

Sabe já parte de si.