NÃO PODIA O POETA LEVAR EM CAPELLO O CONTINUADO MENTIR DESTE SILVESTRE CARDOZO, ...
Em qualquer risco de mar
quereis, Silvestre, ser Ema;
se a Ema no mar não rema,
como vos hei de salvar?
Sois Silvestre tão manemo,
tão cagão, e tão coitado,
que antes que branco afogado,
desejais ser negro Emo:
se ao Emo lhe falta o remo
da pata para nadar,
quem se não há de espantar,
de ver, que um branco indiscreto
se passe de branco a preto
Em qualquer Risco de mar.
As Emas no mar não vogam,
que não são patos modernos,
os pretos não são eternos,
as aves também se afogam:
logo como assim avogam
à divindade suprema
vossos ais com tanto emblema,
e virando o papa-figo
para livrar do perigo
Quereis, Silvestre, ser Ema.
Nesta heresia tão crassa
deu Pitágoras gentil,
crendo, que a alma é tão vil,
que de um corpo a outro passa:
a vossa sim tem mais graça,
porque é asneira da gema:
senão vede o entimema,
como trocais em tal calma
em Ema o corpo, e a alma,
Se a Ema no mar não rema.
Sendo erro o transmigrar-se
(como Pitágoras disse)
a alma é grã parvoíce
alma, e corpo transmutar-se:
e se deve condenar-se
alma, e corpo transmigrar,
e vós vos possais trocar
em Ema, isso nada voga,
porque se a Ema se afoga,
Como vos heis de salvar?