NÃO PODIA O POETA LEVAR EM CAPELLO O CONTINUADO MENTIR DESTE SILVESTRE CARDOZO, ...

By Gregório de Matos Guerra

Em qualquer risco de mar

quereis, Silvestre, ser Ema;

se a Ema no mar não rema,

como vos hei de salvar?

Sois Silvestre tão manemo,

tão cagão, e tão coitado,

que antes que branco afogado,

desejais ser negro Emo:

se ao Emo lhe falta o remo

da pata para nadar,

quem se não há de espantar,

de ver, que um branco indiscreto

se passe de branco a preto

Em qualquer Risco de mar.

As Emas no mar não vogam,

que não são patos modernos,

os pretos não são eternos,

as aves também se afogam:

logo como assim avogam

à divindade suprema

vossos ais com tanto emblema,

e virando o papa-figo

para livrar do perigo

Quereis, Silvestre, ser Ema.

Nesta heresia tão crassa

deu Pitágoras gentil,

crendo, que a alma é tão vil,

que de um corpo a outro passa:

a vossa sim tem mais graça,

porque é asneira da gema:

senão vede o entimema,

como trocais em tal calma

em Ema o corpo, e a alma,

Se a Ema no mar não rema.

Sendo erro o transmigrar-se

(como Pitágoras disse)

a alma é grã parvoíce

alma, e corpo transmutar-se:

e se deve condenar-se

alma, e corpo transmigrar,

e vós vos possais trocar

em Ema, isso nada voga,

porque se a Ema se afoga,

Como vos heis de salvar?