NÃO POSSO DEIXAR DE AMAR-TE, NÃO HÁ FADO MAIS TIRANO, CONHECER O PRÓPRIO ERRO, E...
Esta vontade que presa
Aos teus enganos trarei,
Não sei, ingrata, não sei
Se é amor, ou se é baixeza;
Deixa de outros conquistar-te,
Dessa abominável arte
Faz o criminoso estudo,
Que eu inda apesar de tudo
Não posso deixar de amar-te.
Em vergonhosos grilhões
Que eu fosse o meu fado quis
Sempre vítima infeliz
Das minhas cruéis paixões!
Descubro infames traições,
Inda me não desengano!
Ha de ser meu fatal dano
Por mim mesmo procurado!
Deuses, se este é o meu fado,
Não há fado mais tirano.
Se eu não tivesse observado
Da traidora a infame culpa.
Era digno de desculpa,
E digno de ser chorado:
Porém se eu desenganado
Inda d’alma a não desterro.
Se ajoelhado beijo o ferro.
Que ela contra mim esgrime,
Faz inda maior meu crime,
Conhecer o próprio erro.
Da verdade os sãos preceitos
Me dizem que isto é desonra,
Lá no fundo d’alma a honra
Clama pelos seus direitos;
Mas nos namorados peitos
A honra é um mero tirano;
Quando grita o desengano,
É remédio dos perdidos
Tapar co’as mãos os ouvidos,
E viver no mesmo engano.