NÃO POSSO MAIS!

By Laurindo José da Silva Rabelo

Não sei se é vida, porém sei que a morte

Terá de certo menos amargor;

Só sei que a morte tem uma agonia,

E não sei quantas tenho nesta dor!

Os olhos fecha quem a vida perde,

O bem perdido jamais pode ver;

Eu, morto n’alma, fitos os olhos tenho

No bem querido, que não posso ter.

Embora firam desgraçada vítima

Ervados gumes de cruéis punhais,

As dores cessam mal que chega a morte,

Sangue as feridas lhe não vertem mais.

Desta ferida nada o sangue estanca...

A dor recresce mais, e mais pungente;

Morta minha alma para os gozos todos,

Só vê que vive pela dor que se sente.

O céu perdoe a quem assim compensa

Os sacrifícios deste coração;

Porém a mágoa me desvaira a mente:

Se não há crime, como haver perdão?

A fronte curva, delinquente altivo,

A fronte curva, não és mais que um réu;

Teu bafo impuro, que o pecado alenta,

Acende o raio que te arroja o céu.

Perdão!... mas seja para mim somente,

Nesse olhar terno que o perdão exprime;

Perdão te peço, Querubim celeste;

pune o culpado, mas perdoa o crime.

Rola de bosque, da inocência ao ninho

Eu cego o verme da paixão levei-te;

Anjo risonho, sobre a fronte lisa

A ruga acerba do cismar tracei-te!

Turvei-te a face, nebulei-te os olhos,

Cobri de espinhos o teu santo leito,

E da tristeza, que a minh’alma encobre,

Parte dos goivos te lancei no peito!

Mas Deus puniu-me!... Da sentença austera

Tu escrevias a primeira parte,

Quando a meus rogos de extremoso amante

Só respondias — eu não posso amar-te!

Mas não bastava: — ao martírio imenso

Dobrar devias a cruel tristura;

Num sim de amores que me deste um dia,

Um céu me abriste de falaz ventura.

Mas presto nuvens o horizonte toldam,

De todo nelas a visão se esvai,

E o cego doudo, que fitava os anjos,

De novo em trevas envolvido cai.

Não ter-te, fora já penar bastante;

Perder-te, extremo de cruel penar!

Pensei que a pena se acabava nisto,

Mas inda tinha mais que suportar!...

Desprezo em troca de meu culto; às ânsias

De minha angústia riso mofador,

De ti, daquele a quem me sacrificas,

Para mostrar-lhe todo o teu amor.

Que a fronte calques, que por ti velando

Consome dias, noites sem cessar;

Que a fronte calques, que desdenha o mundo

E varre a terra p’ra teus pés beijar...

É dura afronta, mas com essa afronta

Eu não me avilto, nem me desabono:

É nobre o solo que as rainhas pisam,

Chama-se solo convertido em trono;

Porém que aplaudas, que consintas outro,

Também calcar-me escarnecer de mim...

Eu não me lembro que fizesse um crime,

Que merecesse ser punido assim!...

Estrela d’Alva de divina aurora,

Deixa-me em trevas, é destino meu!

Deus te dirige neste mundo os raios,

Tu não governas o clarão que é teu.

Não quero o riso desbotado e morno

De complacente, caridoso amor;

De amor a planta quem a prova incauto

Morre do fruto, se não goza a flor.

Deus de teus braços me recusa a dita,

Mudo a sentença sofrerei — sou réu;

Banhei meus lábios nos paúis do crime,

Beijar não posso Querubins do céu!

Mas não mereço do escárnio o riso

Mas não sou digno de desprezos tais;

Se me não podes destruir a pena,

Muda o tormento, que não posso mais!...