Não sei!

By Delminda Silveira de Sousa

Onde estás, onde estás, minha ventura,

amor que eu sonho, amor que em vão procuro,

deste viver cansado — oásis puro —,

serás um ideal, um sonho apenas?

Toda a existência a delirar de anelos,

uma alma crente a se finar d’esperanças,

e, embalde, embalde! — só cruéis lembranças...

nem uma rosa nos rosais da vida!

E eu quero amar...quero expandir profuso

todo este amor que geme no meu peito,

como a linfa represa em curto leito,

como a íntima dor que não tem prantos!

Sim; quero amar, porém, n’outra alma pura

quero ver doce amor gêmeo do meu,

como vejo no lago um outro Céu,

como vejo no Céu a cor das flores!

Ah! — por que vem do sol réstia amorosa

partir, num beijo, virginal cecém,

e do pródigo Céu por que não vem

luz carinhosa que me aclare a vida?...

Sorve a violeta a gota do sereno,

e sorri grata, perfumando a noite;

— Ai! como ela eu seria, si o açoite

de um destino cruel me não ferisse!...

Bem vejo a borboleta sequiosa

fartar-se em doce mel de finas taças:

— por que só a minh’alma das desgraças

encontra o fel amargo em cada esperança?...

— Não sei!... Não sei, meu Deus, si est’alma pede

as venturas do Céu aqui na terra,

ou se o teu grande amor me não concede

esta ventura que amor só encerra!