NÃO SEI QUE QUER A DESGRAÇA, QUE ATRÁS DE MIM CORRE TANTO: HEI DE PARAR E MOSTRA...
Não sei que outro mal profundo
Inda a desgraça me guarda,
Se me tirou em Anarda
O que tem de bom o mundo!
Foi este golpe tão fundo.
Que outro não tem que me faça:
Se em levar-me o gesto e a graça
De uns olhos por quem vivia,
Me fez quanto mal podia,
Não sei que quer a desgraça!
Debalde outros gostos pintas.
Amor, para cativar-me:
Já não tornas a enganar-me,
Por mais e mais que me mintas;
Inda tens as setas tintas,
Inda enxugo inútil pranto:
Ao teu venenoso encanto
Novas vítimas procura;
E dá-lhe dessa ventura,
Que atrás de mim corre tanto.
Fizeste, ó desgraça, um erro
Em vires do amor valer-te:
Como ha de ele socorrer-te,
Se eu já conheço o seu ferro?
Á sua voz o ouvido cerro:
Custou-me sangue o escapar-lhe:
E para melhor provar-lhe,
Que eu já sou dos seus cortados,
Sinais inda mal fechados
Hei de parar e mostrar-lhe.
Tu só me deste um desgosto,
Outro já não podes dar-me:
Já agora sempre hás de achar-me
A mesma alma, e o mesmo rosto.
Se em ferros por ti for posto.
Verás que ao som d’eles canto;
Se envolta em sanguíneo manto
Me pões a morte diante.
Notarás no meu semblante,
Que de vê-la não me espanto.