NÃO SEI QUE QUER A DESGRAÇA, QUE ATRÁS DE MIM CORRE TANTO: HEI DE PARAR E MOSTRA...

By Nicolau Tolentino de Almeida

Não sei que outro mal profundo

Inda a desgraça me guarda,

Se me tirou em Anarda

O que tem de bom o mundo!

Foi este golpe tão fundo.

Que outro não tem que me faça:

Se em levar-me o gesto e a graça

De uns olhos por quem vivia,

Me fez quanto mal podia,

Não sei que quer a desgraça!

Debalde outros gostos pintas.

Amor, para cativar-me:

Já não tornas a enganar-me,

Por mais e mais que me mintas;

Inda tens as setas tintas,

Inda enxugo inútil pranto:

Ao teu venenoso encanto

Novas vítimas procura;

E dá-lhe dessa ventura,

Que atrás de mim corre tanto.

Fizeste, ó desgraça, um erro

Em vires do amor valer-te:

Como ha de ele socorrer-te,

Se eu já conheço o seu ferro?

Á sua voz o ouvido cerro:

Custou-me sangue o escapar-lhe:

E para melhor provar-lhe,

Que eu já sou dos seus cortados,

Sinais inda mal fechados

Hei de parar e mostrar-lhe.

Tu só me deste um desgosto,

Outro já não podes dar-me:

Já agora sempre hás de achar-me

A mesma alma, e o mesmo rosto.

Se em ferros por ti for posto.

Verás que ao som d’eles canto;

Se envolta em sanguíneo manto

Me pões a morte diante.

Notarás no meu semblante,

Que de vê-la não me espanto.