NÃO TEM DÓ DO MEU PENAR

By Laurindo José da Silva Rabelo

A serva ingrata querendo

Mais minha dor aumentar,

Sorrindo bebe meu pranto;

Não tem dó do meu penar.

Para as chagas da minh’alma

Mais dolorosas tornar,

Nas chagas cospe desprezos;

Não tem dó do meu penar.

Zelando a vida que odeia,

Que deseja torturar,

Não mata, sangra as feridas;

Não tem dó do meu penar.

A ingrata, a fementida,

Me jurou constante amar;

Hoje entregue a meu rival

Não tem dó do meu penar.

Esse coração ingrato

Que nada pode abalar,

Petrificando meu pranto

Não tem dó do meu penar.

Das saudades que na ausência

Fizera amor vegetar,

Arranca d’alma as raízes

Não tem dó do meu penar.

O punhal n’alma me enterra

E depois de apunhalar,

Conta as gotas, bebe o sangue;

Não tem dó do meu penar.

Dos olhos que fitos nela

Nunca cessam de chorar,

Sedenta pede mais prantos;

Não tem dó do meu penar.

Nestas veias cujo sangue

Muito cedo há de esgotar,

Injeta o fel do ciúme;

Não tem dó do meu penar.

Com meus ais faço no céu

De dor os astros chorar;

Lília, tão perto de mim,

Não tem dó do meu penar.

Ao ver-me continuamente

De pranto o rosto banhar,

Além de aumentar meu pranto,

Não tem dó do meu penar.

A mesma morte a quem peço

Venha meus dias cortar,

Cruenta foge de mim;

Não tem dó do meu penar.

Em vez de vir compassiva

Minha dor aliviar,

Sorrindo vê o meu pranto;

Não tem dó do meu penar.

Busco às vezes negra noite

Para meu pranto ocultar;

O dia rouba-me as trevas,

Não tem dó do meu penar.

De males furor insano

Sobre ti vá me vingar,

Já que tu, traidora ingrata,

Não tem dó do meu penar.