NAS CALDAS DA RAINHA

By Nicolau Tolentino de Almeida

Nas Caldas, nas tristes Caldas

Alegria vim buscar;

Quis de noite ver o sol,

Quis achar fogo no mar.

Que importa mudar de terra,

E baldados passos dar,

Se a toda a parte a que os volto

Vai comigo o meu pesar?

Vejo pálidos doentes

Pela copa passear.

Ouço de antigas moléstias

Tristes efeitos contar.

Vejo nas férvidas águas

Mirrados corpos banhar,

E debalde aos surdos céus

Convulsos braços alçar.

Vejo de perdido pranto

Tristes ais acompanhar,

Com as lágrimas alheias

Vou as minhas misturar.

Que importa ver ninfas belas,

Se acrescentam meu pesar?

Gostam de atrair os olhos,

E as almas tiranizar.

Ao som de feridas cordas

Dão doces vozes ao ar,

Quais enganosas sereias,

Que cantam para malar.

Se o meu pobre coração

Se deixa uma vez tocar,

Com escárnios, com risadas,

Meu pranto vejo pagar.

Fartai-vos, pois, olhos meus,

De lágrimas derramar;

Vós nascestes para tristes,

E escolhestes o lugar.