NAS CALDAS DA RAINHA
Nas Caldas, nas tristes Caldas
Alegria vim buscar;
Quis de noite ver o sol,
Quis achar fogo no mar.
Que importa mudar de terra,
E baldados passos dar,
Se a toda a parte a que os volto
Vai comigo o meu pesar?
Vejo pálidos doentes
Pela copa passear.
Ouço de antigas moléstias
Tristes efeitos contar.
Vejo nas férvidas águas
Mirrados corpos banhar,
E debalde aos surdos céus
Convulsos braços alçar.
Vejo de perdido pranto
Tristes ais acompanhar,
Com as lágrimas alheias
Vou as minhas misturar.
Que importa ver ninfas belas,
Se acrescentam meu pesar?
Gostam de atrair os olhos,
E as almas tiranizar.
Ao som de feridas cordas
Dão doces vozes ao ar,
Quais enganosas sereias,
Que cantam para malar.
Se o meu pobre coração
Se deixa uma vez tocar,
Com escárnios, com risadas,
Meu pranto vejo pagar.
Fartai-vos, pois, olhos meus,
De lágrimas derramar;
Vós nascestes para tristes,
E escolhestes o lugar.