NECROLOGIA
Oh Santo Breve de Marca,
Que grande calamidade!
Que desgraça tão comprida,
Que larga infelicidade!
Oh morte, tirana morte,
Ao golpe de tua fouce
Desta para melhor vida
Dom Pascácio retirou-se.
Que fato extraordinário
Sucedido em nossos dias,
Morrer de morte macaca
Pascácio das Ninharias!
A dor me ofusca a razão,
Meu juízo se ataranta,
Retrocede a voz dos lábios,
E aperta o nó da garganta.
Não tenho lágrimas para
Chorar perda tão funesta,
E agora que a voz recobro,
Só posso dizer: — E esta!? —
Meu velho amigo Pascácio,
Pascácio das Ninharias,
Encheu tão rapidamente
A medida de seus dias!
Não pensem que Dom Pascácio
Era vil mortal obscuro;
Que seu nome sem renome
Há de ficar no monturo.
Foi bom filho de seus pais,
Bom marido da mulher,
Inda melhor pai de filhos,
E acredite-o quem quiser.
Ocupou vários empregos
De popular eleição;
A política o nomeou
Inspetor de quarteirão.
Nos tribunais exercia
O ofício de contador;
Da Irmandade do Rosário
Também foi procurador.
Em críticas circunstâncias,
Em muito apertada quadra,
Reinando ociosa paz,
Serviu de cabo de esquadra!
Por aqui se vê sem dúvida
A falta que há de fazer
Dom Pascácio, que morreu
Porque deixou de viver!
Os concidadãos lamentam,
E a família muito mais;
Pelos becos e travessas
Não se ouvem senão — ais! —
Ai daqui, ai dacolá,
Soluços, prantos, gemidos,
Luto na roupa, e nas caras,
Choros tristes e carpidos.
No Diário e Mercantil
Formigam necrologias
Dizendo todas: — morreu
Pascácio das Ninharias! —
O mundo inteiro deseja
Ler a vida do defunto,
Feitos ilustres que atestam
A extensão de seu bestunto.
Aqui jaz o Dom Pascácio!...
No sepulcro o amigo escreve
Um punhado de cevada,
E a terra lhe seja leve.