NECROLOGIA

By José Joaquim Correia de Almeida

Oh Santo Breve de Marca,

Que grande calamidade!

Que desgraça tão comprida,

Que larga infelicidade!

Oh morte, tirana morte,

Ao golpe de tua fouce

Desta para melhor vida

Dom Pascácio retirou-se.

Que fato extraordinário

Sucedido em nossos dias,

Morrer de morte macaca

Pascácio das Ninharias!

A dor me ofusca a razão,

Meu juízo se ataranta,

Retrocede a voz dos lábios,

E aperta o nó da garganta.

Não tenho lágrimas para

Chorar perda tão funesta,

E agora que a voz recobro,

Só posso dizer: — E esta!? —

Meu velho amigo Pascácio,

Pascácio das Ninharias,

Encheu tão rapidamente

A medida de seus dias!

Não pensem que Dom Pascácio

Era vil mortal obscuro;

Que seu nome sem renome

Há de ficar no monturo.

Foi bom filho de seus pais,

Bom marido da mulher,

Inda melhor pai de filhos,

E acredite-o quem quiser.

Ocupou vários empregos

De popular eleição;

A política o nomeou

Inspetor de quarteirão.

Nos tribunais exercia

O ofício de contador;

Da Irmandade do Rosário

Também foi procurador.

Em críticas circunstâncias,

Em muito apertada quadra,

Reinando ociosa paz,

Serviu de cabo de esquadra!

Por aqui se vê sem dúvida

A falta que há de fazer

Dom Pascácio, que morreu

Porque deixou de viver!

Os concidadãos lamentam,

E a família muito mais;

Pelos becos e travessas

Não se ouvem senão — ais! —

Ai daqui, ai dacolá,

Soluços, prantos, gemidos,

Luto na roupa, e nas caras,

Choros tristes e carpidos.

No Diário e Mercantil

Formigam necrologias

Dizendo todas: — morreu

Pascácio das Ninharias! —

O mundo inteiro deseja

Ler a vida do defunto,

Feitos ilustres que atestam

A extensão de seu bestunto.

Aqui jaz o Dom Pascácio!...

No sepulcro o amigo escreve

Um punhado de cevada,

E a terra lhe seja leve.