Nerah

By João da Cruz e Sousa

Nerah não brinca mais, não dança mais. — E agora

Que vão-se apropinquando os tempos invernosos,

Nerah traz uns receios tímidos, nervosos,

De quem teme mudar-se em noite, sendo aurora.

Seus sonhos de cristal, translúcidos, antigos

Se vão embora, embora à vinda dos invernos,

Seguindo em debandada os úmidos galernos —

— Lembrando um roto bando informe de mendigos.

Não canta o sabiá que triste na gaiola,

Parece, com o olhar, pedir-lhe a casta esmola

De um riso — aquela flor que esvai-se, branca e fria.

Em tudo a fina seta aguda de aflições!

Na própria atmosfera um caos de interjeições!

Em tudo uma mortalha, em tudo uma agonia.