NICOLAO DE TAL PROVEDOR DA CASA DA MOEDA EM LISBOA, QUE SENDO BEM VISTO D’EL REY...

By Gregório de Matos Guerra

Marinículas todos os dias

O vejo na sege passar por aqui

Cavalheiro de tão lindas partes

Como verbi gratia Londres, e Paris.

Mais fidalgo que as mesmas estrelas,

Que às doze do dia viu sempre luzir,

Porque o Pai, por não sei que desastre

Tudo, o que comia, vinha pelo giz.

Peneirando-lhe os seus avolórios

É tal a farinha do Ninfo gentil,

Que por machos é sangue Tudesco,

Porém pelas fêmeas humor meretriz.

Um Avô, que rodou esta Corte

Num coche de a quatro de um D. Bleaniz,

Sobre mulas, foi tão atrativo,

Que os senhores todos trouxe após de si.

Foi um grande verdugo de bestas,

Que com um azorrague, e dous borzeguins

Ao compás dos maus passos, que dava,

Lhes ia cantando o lá sol fá mi.

Marinículas era muchacho

Tão grão rabaceiro de escumas de rim,

Que jamais para as toucas olhava,

Por achar nas calças melhor fraldelim.

Sendo já sumilher de cortina

De um sastre de barbas saiu aprendiz,

Dado só às licões de canudo

Rapante da espécie de pica viril.

Cabrestilhos tecendo em arame

Tão pouco lucrava no pátrio País,

Que se foi, dando velas ao vento,

Ao reino dos servos, não mais que a servir.

Lá me dizem, que fez carambola

Com certo Cupido, que fora daqui

Empurrado por umas Sodomas

No ano de tantos em cima de mil.

Por sinal, que no sítio nefando

Lhe pôs a ramela do olho servil

Um travesso, porque de caveira

A seus cus servisse aquele âmbar gris.

Mordeduras de perro raivoso

Com pêlo se cria do mesmo mastim,

E aos mordidos do rabo não pode

O sumo do rabo de cura servir.

Tanto enfim semeou pela terra,

Que havendo colhido bastante quatrim,

Resolvendo-se a ser Piratanda,

Cruzou o salobre, partiu o Zenith.

Avistando este nosso hemisfério

Colou pela barra em um bergantim,

Pôs em terra os maiores joanetes,

Que viram meus olhos depois que nasci.

Pertendendo com recancanilhas

Roubar as guaritas de um salto sutil,

Embolsava com alma de gato

A risco do sape dinheiro do mis.

Senão quando na horta do Duque

Andando de ronda um certo malsim,

Estremando-lhe um cão pexilingre

O demo do gato deitou o ceitil.

Marinículas vendo-se entonces

De todo expulgado sem maravedim,

Alugava rapazes ao povo,

Por ter de caminho, de quem se servir.

Exercendo-os em jogos de mãos

Tão lestos andavam do destro Arlequim

Que se não lhes tirara a peçonha

Ganhara com eles dous mil potosis.

A tendeiro se pôs de punhetas,

E na tabuleta mandou esculpir

Dous cachopos, e a letra dizia

Los ordeñadores se alquilan aqui.

Tem por mestre do terço fanchono

Um pajem de lança, que Marcos se diz,

Que se ao rabo por casa anda dele,

O traz pelas ruas ao rabo de si.

Uma tarde, em que o Perro celeste

Do sol acossado se pôs a latir,

Marinícula estava com Marcos

Limpando-lhe os moncos de certo nariz.

Mas sentindo ruído na porta,

Adonde batia um Gorra civil,

Um, e outro se pôs de fugida

Temiendo los dientes de algum Javali.

Era pois o Baeta travesso,

Que se um pouco dantes aportara ali,

Como sabe latim o Baeta,

Pudiera cogerlos en un mal Latim.

Ao depois dando dele uma força

Às alcoviteiras do nosso confim,

Lhe valei no sagrado da Igreja

O nó indissolúvel de um rico Mongil.

Empossado da simples consorte

Cresceu de maneira naqueles chapins,

Que inda hoje dá graças infindas

Aos falsos informes de quis quid vel qui.

Não obstante pagar de vazio

O santo Himeneu o pícaro vil,

Se regala a ufa do sogro

Comendo, e bebendo como um Muchachim.

Com chamar-se prudente com todos,

Que muitos babosos o têm para si,

Ele certo é o meu desenfado,

Que um tolo prudente dá muito que rir.

É dotado de um entendimento

Tão vivo, e esperto, que fora um Beliz,

Se lhe houvera o juízo ilustrado

Um dedo de Grego, com dous de Latim.

Entre gabos o triste idiota

Tão pago se mostra dos seus gorgutiz,

Que nascendo sendeiro de gema,

Quer à fina força meter-se a rocim.

Deu agora em famoso arbitrista,

E quer por arbítrios o bruto Malsim,

Que o vejamos subir à excelência,

Como diz, que vimos Montalvão subir.

Sendo pois o alterar da moeda

o assopro, o arbítrio, o ponto, e o ardil,

De justiça (a meu ver) se lhe devem

as honras, que teve Ferraz, e Soliz.

Dêem com ele no alto da forca,

Adonde o Fidalgo terá para si,

Que é o mais estirado de quantos

Beberam no Douro, mijaram no Rhim.

Seu intenvo é bater a moeda,

Correrem-lhe gages, e ser Mandarim,

Porque andando a moeda na forja

Se ri de Cuama, de Scena, e de Ofir.

Sempre foi da moeda privado,

Mas vendo-me agora Senhor, e Juiz,

Condenando em portais a moeda

Abriu às unhadas porta para si.

Muito mais lhe rendeu cada palmo

Daquela portada, que dous potosis.

Muito mais lhe valeu cada pedra,

Que vale um ochavo de Valladolid.

Pés de pugas com topes de seda,

Cabelos de cabra em pós de marfim,

Pés, e pugas de rir o motivo,

Cabelos, e topes motivos de rir.

Uma Tia, que abaixo do muro

Lanções esquarteja, me dizem, que diz,

Sua Alteza (sem ver meu Sobrinho)

A nada responde de não, ou de sim.

Pois a Prima da Rua do Saco

Tão bem se reputa de todos ali,

Que a furaram como valadouro

Para garavato de certo candil.

Outras Tias me dizem, que tinha

Tão fortes galegas, e tão varonis,

Que sobre elas foi muita mais gente

Que sobre as Espanhas no tempo do Cid.

Catarina conigibus era

Uma das Avós da parte viril,

Donde vem conicharem-se todos

As conigibundas do tal generiz.

Despachou-se com hábito, e tença

por grandes serviços, que fez ao sofi,

em matar nos fiéis Portugueses

De puro enfadonho três, ou quatro mil.

E porque de mecânica tanta

Não foi dispensado, tenho para mim,

Que em usar da mecânica falsa

Se soube livrar da mecânica vil.

É possível que calce tão alto

A baixa vileza de um sujo escarpim,

Para o qual não é água bastante

A grossa corrente do Guadalquebir?

Marinículas é finalmente

Sujeito de prendas de tanto matiz,

Que está hoje batendo moeda,

Sendo ainda ontem um vilão ruim.